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Full text of "Odisseia Homero"

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"Quando o mundo estiver unido na busca do conhecimento, e nao mais lutando 
por dinheiro e poder, entao nossa sociedade poderd enfim evoluir a um novo 
niveL " 



Livros 




ODISSEIA 

HOMERO 


COSACNAIFY 


ODISSEIA HOMERO 


TRADUCAO CHRISTIAN WERNER 


APRESENTACAO RICHARD P. MARTIN 


Proezas e performances 

A Odisseia tra9a o fim de uma viagem, a volta ao Iar, depois de vinte anos, de um 
guerreiro veterano e marinheiro sofredor. Odisseu retoma a vida na ilha de Itaca 
na hora certa. Seu filho, Telemaco, esta no limiar da idade adulta, plena, 
enquanto a paciente esposa, Penelope, come^a a perder as esperan^as e 
considera a possibilidade de se casar outra vez. E mais diflcil dizer quando essa 
historia come?a, porque o destino de Odisseu esta ligado ao da cidade de Troia. 

E, sob certo ponto de vista, a destru^ao de Troia pelas maos das tropas gregas 
vingadoras estava em progresso havia muito, remontando a origem do cosmos. 
Podemos recriar a historia dos mitos gregos que muito provavelmente eram 
conhecidos do publico da Odisseia, e lembrar que ja em tempos antigos existiam 
variantes, versdes ate mesmo contraditorias desses acontecimentos. Dentre as 
fontes dessas historias, encontra-se a Teogonia, de Hesiodo (mais ou menos 
contemporanea do surgimento da poesia homerica, no seculo VIII aQ, e os 
chamados ciclos epicos dos seculos VII e VI aC (completando o “ciclo” troiano), 
dos quais chegaram ate nos apenas cita^oes fortuitas e poucos resum os de 
tram as, de fontes posteriores. 

Gaia, a Terra, foi uma das primeiras criaturas. Ela tramou para que seu 
marido impiedosamente opressivo, Urano (“ceu”), fosse destronado pelo filho 
deles, Crono - que por sua vez foi derrotado por Zeus, o neto favorito de Gaia, 
num levante familiar de consequencias universais. Aconselhado por sua avo 
primeva, Zeus conquistou a coroa do ceu ao recrutar para suas batalhas contra a 
gera^ao mais velha de deuses os monstruosos Cem Brafos, que tinham sido 
presos por tiranos divinos anteriores. Tambem aconselhado por ela, ele engoliu 
uma de suas primeiras esposas, Metis (“inteligencia astuta”), e, assim armado 
com cautelosa sabedoria, veio a garantir que seu proprio reino jamais fosse 
derrubado. Em vezde gerar um filho mais forte que Zeus, como havia sido 
predito. Metis, desamparada, ficou bem encolhida dentro do marido e deu a luz 
Atena, que nasceu, ja adulta, da cabe?a do chefe dos deuses. 

Zeus, portanto, tinha uma divida com Gaia. Com o passar do tempo e as 
reclamafoes dela do fardo sempre mais pesado dos homens, Zeus concebeu 
uma guerra de grandes proposes para diminuir a popula9ao mundial e aliviar a 


carga da superficie da Terra. As condi?oes para a guerra de Troia brotaram de 
outro casamento divino impedido, urn casamento de heroi, um estupro e um 
sequestro. 

Zeus desejava a ninfa Tetis, uma das cinquenta filhas do deus do mar, Nereu. 
Mas, ainda uma vez, temia que, caso esposasse uma deusa poderosa, um filho 
seu poderia acabar querendo substitui-lo. Entao inventou um motivo para casar 
Tetis com um mortal inocente, Peleu, como recompensa pelo comportamento 
devoto desse heroi. Foi nesse casamento esplendido que Discordia (Eris), que nao 
fora convidada, lan?ou entre os convivas uma ma^a com a inscri?ao “ kallistef ’ - 
“a mais bela”. Atena, Hera e Afrodite reclamaram o premio. O pai dos deuses 
escolheu um troiano, chamado Paris, para julgar a questao. Rejeitando as 
promessas das outras duas deusas, ele escolheu Afrodite e recebeu Helena como 
recompensa. 

Amae dela, Leda, fora certa vezpossuida a for9a por Zeus, disfar9ado de 
cisne. O nascimento esdruxulo de Helena, de dentro de um ovo, pressagiava uma 
vida notavel. Quando atingiu a idade de casar, tinha pretendentes em todos os 
cantos da Grecia. Menelau, filho de Atreu, foi o eleito, e, para evitar qualquer 
conflito, todos os pretendentes se viram for9ados a um juramento de que tudo 
fariam para libertar Helena se algum dia ela estivesse em perigo. Odisseu, de 
Itaca, que havia sugerido essa ideia, foi por sua vezajudado pelo pai mortal de 
Helena, Tindaro, que convenceu sua sobrinha, prima-irma de Helena, a se casar 
com ojovem. O nome dela era Penelope. 

Por fim, a fuga - ou rapto, como preferem alguns - e suas consequencias. 
Numa visita a Menelau, na residencia do casal em Esparta, Paris encontrou a 
recompensa prometida no concurso de beleza e, com a ajuda dos dons sedutores 
de Afrodite, convenceu Helena a partir com ele para Troia, pondo assim em 
movimento a mobiliza9ao das for9as gregas para punir o transgressor ocidental. 
Nessa epoca, Odisseu e Penelope acabavam de ser aben9oados com o 
primogenito, e o pai orgulhoso, relutante em deixar Itaca para recuperar Helena, 
tentou enganar o grupo que o recrutava, liderado por Agamemnon, irmao do 
marido ofendido. Usando um gorro de pele (embora fosse verao), ele come90u a 
arar seu campo com uma combina9ao ridicula de boi e cavalo. Mas um dos 
visitantes, Palamedes, recusou-se a acreditar que Odisseu fosse louco. Pegou 
Telemaco, o filhinho de Odisseu, dos bra90s da baba e colocou a crian9a na 


frente do arado. Quando Odisseu desviou para nao machucar o filho, a mentira 
se revelou. La foi ele para a guerra. 

O cerco de Troia durou dez anos. Depois da morte de Aquiles e Heitor, os 
principals guerreiros de ambos os lados, os gregos seguiram o conselho de 
Odisseu e se infiltraram na cidade escondidos dentro do Cavalo de Troia. No caos 
e matan?a subsequentes a esse ataque surpresa, Troia caiu, mas o templo de 
Atena dentro da cidadela foi violado por invasores. Consequentemente, a ira da 
deusa perseguiria os gregos - inclusive Odisseu - na volta para casa. O regresso 
dos herois foi narrado numa epopeia antiga, hoje perdida, chamada Nostoi. Algo 
semelhante a esse poema deve ser o corpo da can?ao de Femio, o bardo local de 
Itaca, que canta para os pretendentes sobre a jornada de volta ao lar dos gregos 
fatigados pela guerra (1, 325ss). Mais adiante, dentro da propria Odisseia, 
tomamos conhecimento da volta bem-sucedida de Nestor (3, 130ss), de como 
Ajax perdeu a vida, da viagem tristemente retardada de Menelau e do retorno 
fatal de seu irmao Agamemnon (tudo em 4, 351 ss). Cada uma dessas historias 
contrasta com a narrativa geral da viagem de Odisseu. Em particular, a historia 
de Agamemnon - esfaqueado pela esposa e pelo amante dela logo depois do 
retorno triunfal - e uma advertencia em forma de alerta explicito para Odisseu, 
da parte de ninguem menos que a propria vitima, no mundo inferior (11, 441ss). 

E ai tambem que Odisseu encontra o grande Aquiles, que escolheu uma vida 
breve de gloria em vezde uma vida longa de volta a sua terra natal. Em outro 
notavel contraste com o destino de seus antigos camaradas de combate, Odisseu 
consegue ao mesmo tempo a fama e o retorno em seguransa, para obter a gloria 
justamente atraves da volta para casa. Nisso, ele enfim se da melhor que seu 
velho rival heroico. Seu regresso a Itaca envolve mais uma batalha, dessa vez 
contra 108 j ovens, os arrogantes pretendentes de Penelope, alguns deles seus 
conterraneos da ilha. Reempossado em seu devido lugar, ladeado pelo filho e 
pelo pai, Odisseu e um modelo de inteligencia, cuidado e perseveran?a. E o 
suprassumo do sobrevivente. 

Mesmo em tempos antigos, reconhecia-se que a poesia homerica apresentava 
essas historias da Guerra de Troia de uma forma singular. No seculo IV aC, 
Aristoteles, em seu estudo sobre historia e teoria liter&ria, a Poetica (1459b), 
observou que Homero “toma apenas uma por?ao da historia e faz uso de muitos 
episodios, como o Catalogo das Naus e outros, por meio dos quais diversifica sua 


poesia. Mas os outros fazem seus poemas sobre uma pessoa, um tempo, uma 
a9§o com muitas partes, da forma como o criador dos Cantos ciprios e da 
Pequena Iliada fez”. Em resumo, a epopeia homerica tern unidade, enquanto os 
poemas ciclicos sao apenas coletaneas. 

Dessa forma, a Iliada focaliza apenas alguns dias do ultimo ano da guerra, a 
disputa entre Agamemnon e seu melhor guerreiro, Aquiles, com seus resultados 
devastadores. No final do poem a, Aquiles ainda esta vivo, o Cavalo e a queda de 
Troia ainda estao no futuro: o poeta se esquiva de contar a saga toda. Mesmo 
assim, gra9as a alusoes artisticas e justaposi9oes dentro da historia, a for9a 
emocional dos acontecimentos futuros marca cada parte do poema. Atraves da 
morte de Heitor pela mao de Aquiles, e da incursao de Priamo ao campo grego 
para recuperar o corpo de seu filho, sentimos, no nivel mais pessoa 1 , o pathos de 
uma cidade condenada. 

Se a Iliada e uma saga longa, condensada de modo brilhante e intensamente 
focada, a Odisseia e mais uma historia simples contada atraves de uma narrativa 
complexa. Ahistoria do heroi da Guerra de Troia come9a quase no final de seu 
retorno, usa flashbacks para dar conta dos anos anteriores, sincroniza diversas 
subtramas e apresenta eventos importantes sobretudo por lembran9as e pela 
perspectiva de outros. Em outras palavras, ja no come90 da literatura ocidental 
quase todos os recursos do cinema e do romance modernos sao expostos com 
maestria. 

Os quatro primeiros cantos (divisao tradicional do tamanho de capitulos) do 
poema sao um belo exemplo da narra9ao indireta da Odisseia. Nao encontramos 
o heroi. Ate mesmo seu nome e postergado em alguns versos, uma vezque o 
poema come9a com um substantivo generico: “Do varao me narra, Musa, do 
muitas- vias, que muito / vagou apos devastar a sacra cidade de Troia”. Em vez 
de por Odisseu em cena desde o inicio, o poeta engenhosamente nos fazouvir 
outras pessoas falando sobre o heroi - os deuses, sua esposa e filho, aqueles que 
sentem saudade dele e aqueles que querem tomar seu lugar. Seu impacto ganha 
mais for9a exatamente pela ausencia. 

E natural que a ausencia de Odisseu tenha maior efeito sobre seu filho, agora 
com vinte anos. Telemaco so conhece o pai pelo que contam os outros. Mas entao 
e posto em a9&o, para sair e descobrir o destino de Odisseu, por meio de uma 


combinai^ao de fatores - os pianos dos deuses, a crescente impaciencia dos 
pretendentes de sua mae e sua propria maioridade. A historia de sua propria 
“odisseia” em miniatura, visitando os herois que voltaram - Nestor e Menelau 
e a trama dos pretendentes para assassina-lo ocupam os quatro primeiros cantos. 
Eles sao chamados de “Telemaquia” ou a historia de Telemaco. Muitos criticos 
do seculo XIX afirmaram que integravam outra composi?ao, agregada com 
pouca elegancia ao poema. Mas as escassas incoerencias que embasaram essa 
critica sao em muito superadas pelas ressonancias ricas e significativas que 
emergem quando lemos a Odisseia dessa forma, como a historia de um pai 
sendo aos poucos conhecido por seu filho. Telemaco, dentro do poema, e como 
nos, fora dele - um publico para o passado heroico. 

Essa estrategia poetica nao so e atraente e persuasiva em termos de narrativa, 
como tambem e culturalmente adequada, uma vezque as no?oes gregas de 
proeza heroica e historia familiar sempre ligaram intimamente a fama de pai e 
filho. Nos melhores casos, os filhos dao continuidade a fama de seus pais ou a 
aumentam. Odisseu, na Iliada , chega a fazer juramentos com a expressao 
“como pai de Telemaco” - afirmativa de que aquilo que dize tao verdadeiro 
quanto sua paternidade. O proprio nome, Telemaco, que quer dizer “lutar longe”, 
e um adjetivo aplicavel a Odisseu, tanto com o sentido de arqueiro como de 
guerre iro que lutou na distante Troia, mais que um epiteto adequado ao filho. E 
como se a identidade do filho dependesse das a?oes do pai. Ironicamente, a 
Odisseia comefa com Telemaco duvidando que Odisseu seja de fato seu pai (1, 
215-16). Um dos objetivos principal dos quatro primeiros cantos e mostrar que o 
jovem merece ser reconhecido pelos outros como filho de Odisseu, e que possui 
as qualidades inatas que garantem seu la^o paterno. 

Nos quatro cantos seguintes do poema, o centro da aten?ao e Odisseu, entao 
na ultima parte de sua viagem. Ao mesmo tempo que Telemaco sai em viagem 
para saber do pai perdido, o heroi come?a a se aproximar de Itaca. Aausencia 
fortuita de Poseidon da companhia dos deuses permite que Atena, com o 
consentimento de Zeus, liberte seu favorito da ilha de Calipso, onde estava preso 
havia sete anos, cada dia mais inquieto, embora junto da be la ninfa. Outro 
naufragio leva-o a terra dos feacios, onde Odisseu, revelando sua identidade, 
convence a familia real a lhe dar retorno seguro para casa. O poema deixa claro 
que Odisseu fascina sua plateia com uma performance muito parecida com a do 


poeta real da composi?ao: ele assume o posto de narrador nos quatro cantos 
seguintes, tecendo uma historia de suas aventuras anteriores que inclui canibais 
gigantes, feiticeiras sedutoras, monstros marinhos, videntes, magicos, fantasmas 
- ingredientes eternos das historias populares de todo o mundo, elaboradas numa 
narrativa autobiografica. Ao mesmo tempo que oferece a historia desse 
marinheiro, a Odisseia se da ao trabalho de construir um pano de fundo 
cuidadosamente nuan^ado da historia que Odisseu relata. Nos o vemos 
encantando a plate ia; ouvimos as rea?oes dessa mesma plateia (inclusive quando 
decidem cobrir o narrador de mais presentes); podemos imaginar o bardo local, 
Demodoco, escutando com admiragao e inveja esse contador de historias 
recem-chegado - tudo isso certamente para indicar como nos, como plateia, 
devemos receber e apreciar toda a Odisseia homerica. Mais eletrizante ainda, ao 
colocar assim a “odisseia” das aventuras do heroi, o poeta nos provoca com a 
ideia de que toda a “autobiografia” pode ser, ela propria, em grande parte, uma 
conveniente fic9ao. 

Podemos notar a sequencia e a forma dessa performance solicitada. As 
historias que Odisseu relata parecem seguir um ritmo de dois episodios curtos, 
depois um longo, mais dois curtos, seguidos de outro longo. Por exemplo, os 
cicones e os lotofagos sao descritos em menos de quarenta versos; eles levam ao 
episodio dos cic lopes, que fazuso de dez vezes mais versos para ser narrado. O 
mesmo acontece com as tres historias seguintes: Eolo (curta), lestrigoes (curta) e 
Circe (longa). O efeito e quase o de uma mare. Outro padrao sutil vem a tona se 
considerarmos os episodios em term os sociais. Cada lugar que Odisseu descreve 
representa uma variante das cond^oes de vida grega, se definirmos essas 
cond^oes basicas como uma familia estendida, a adora9&o dos deuses centrada 
no sacrificio e a agricultura. Os cic lopes sao um exemplo negativo: eles nao tern 
agricultura, nao tern leis, vivem sozinhos e nao se reunem em assembleias 
(deficiencias inconcebiveis numa comunidade grega). Os lotofagos vivem, 
aparentemente, sem memoria cultural e levam os outros a esquecer. Circe e 
Calipso - deusas que vivem sozinhas - encarnam o que e impossivel para 
mulheres gregas. Os feacios, por outro lado, parecem quase gregos. Adoram 
deuses reconheciveis, gostam de can$ 5 es de bardos e apreciam esportes 
competitivos. Mas estao distantes de qualquer conflito real e, portanto, do 
heroismo - uma limita9ao impensavel para comunidades antigas de verdade. Em 


resumo, a historia de Odisseu funciona como uma lente de aumento ou vara de 
medida, esclarecendo e marcando o que se define como humano e helenico. 

Nao surpreende que pesquisadores em busca de alegorias tenham encontrado 
terreno fertil nessas historias. Uma linha de leitura - ja corrente no seculo II aC - 
via a jornada de Odisseu como a saga de toda alma, seduzida pelos bens e 
preocupa9oes do mundo, mas resistindo ao canto das sereias e conseguindo voltar 
a seu lar (celestial). Em tempos mais recentes, a critica psicanalitica descobriu 
fantasias oral-narcisistas ou simbolismo falico subjacentes ao texto. 
Ambientalistas podem ler nessas historias considerapoes sobre o uso e abuso dos 
recursos naturais, ou uma celebra9ao da tecnologia. Tal flexibilidade e infinita 
riqueza de sugestoes mantem a historia viva. No piano cognitivo, podemos tra9ar 
uma curva ascendente ao longo das recorda9oes de Odisseu e encontrar a 
historia da educa9ao. De seu selvagem ataque pirata inicial aos cicones ate seu 
desafio quase fatal ao ciclope enraivecido e, mais alem, ate sua perda de tudo o 
que tinha, ficamos com a sensa9ao de que o heroi de fato aprende. Ele se tornou 
mais sabio (e nos torna mais s&bios) por ter visto as cidades e captado o modo de 
pensar de muitos povos. 

Em bora seja um momento central e um tourde force dentro da Odisseia, a 
historia de aventura contada do canto 9 ate o 12, na vozdo proprio heroi, 
surpreendentemente constitui apenas um sexto de todo o poema. No entanto, 
cristaliza e destila todos os temas principals do resto da composi9ao. Muitos dos 
temas presentes na historia das aventuras sao desenvolvidos do canto 13 ate o 24, 
abrangendo o tempo da volta de Odisseu a Itaca atraves dos encontros com seus 
criados e seu filho, da luta com os pretendentes e do tao esperado encontro com a 
esposa. Por exemplo, por essa historia ficamos sabendo como Odisseu com 
frequencia deparou com terras desconhecidas; e entao o vemos fazendo mais 
uma dessas descobertas, mas a de sua propria ilha. Ouvimos a respeito do poder 
de mulheres espertas - Circe e Calipso, sobretudo -, enquanto na historia externa, 
contada pelo poeta mais que pelo proprio Odisseu, tais figuras fortes sao 
recorrentes, na forma de Penelope, Clitemnestra e a rainha feacia Arete (talvez 
nao por coincidencia, parte da plateia da historia contada por Odisseu). Acomida 
sempre reaparece - constituindo problemas distintos nos episodios dos lotofagos, 
do ciclope, de Circe e, em especial, do gado de Sol - enquanto a narrativa 
externa lida com o apetite insaciavel dos pretendentes. De fato, o poema toma o 


cuidado de trasar um paralelo entre a tripulasao inconsequente de Odisseu, que 
devorou os rebanhos de SoL, e os arrogantes pretendentes, exaurindo em 
continua 9 ao o estoque domestico do heroi ausente. Assim como o deus destruiu 
os homens de Odisseu, o guerreiro que volta para casa eliminara os intrusos. 
Disfarce, astucia, o uso inteligente da persuasao, tudo isso ocorre na historia 
interna dos cantos 9 a 12, e encontra ressonancia na narrativa mais geral. E, por 
meio do episodio do ciclope - seu comportamento, sua cegueira, o cumprimento 
da maldifao de Poseidon -, nossa atenfjao e atraida especialmente para a nofao 
de justi 9 a cosmica. Esse conceito (chamado dike) abrangia para os gregos 
arcaicos nao apenas o funcionamento adequado da natureza, mas de todo tipo de 
rela$5es sociais, sobretudo o tratamento adequado aos estrangeiros. Nao por 
acaso a historia geral fazde Odisseu um vingador que retorna, um algozda hubris 
dos pretendentes, um restaurador da ordem e um representante da justi 9 a de 
Zeus na terra. Sob essa luz, a performance permanente da Odisseia na cultura 
grega representou nao apenas um entretenimento duradouro, mas uma constante 
reafirma 9 ao de valores culturais, da busca de uma sociedade por sua estabilidade 
e inteireza. 


Poema e poeta 

De onde vem a nossa Odisseia? Talvez sej a util recuar no tempo. As tradu9oes 
contemporaneas do epico partem de uma edi9&o grega do poema bastante 
padronizada, quase sempre o texto da Oxford Classical editado por Thomas W. 
Allen (2 a ed., 1917). O texto de Allen para a Oxford foi resultado de muitos 
anos de minucioso trabalho editorial. Como esse processo e crucial para o 
estabelecimento de um texto, porem invisivel para a maioria dos leitores, vale a 
pena de linear aqui o basico. 

Echoes impressas da Odisseia estao em circula9ao desde 1488, quando 
Demetrius Chalcondyles, um grego que vivia em Floren9a, usou pela primeira 
veza tecnologia recem-inventada do tipo movel para conservar a joia da 
literatura grega antiga, a poesia homerica. Ate entao, os poemas haviam sido 
transmitidos apenas em manuscritos laboriosamente copiados a mao. Cerca de 
cem desses manuscritos da Odisseia chegaram aos nossos dias. Estao guardados 
em bibliotecas por toda a Europa, de Moscou, Bratislava e Viena ate Floren9a, 
Veneza, Cidade do Vaticano, Munique, Paris e Oxford, e suas datas variam do 
seculo X dC ao seculo XVI, alguns tendo sido produzidos mesmo depois do 
surgimento da imprensa. Todos esses exemplares sao baseados em manuscritos 
ainda mais antigos, que nao existem mais, copiados por escribas profissionais 
gregos, monges ou leigos, em pergaminho (ou, em seculos mais recentes, em 
papel). Um estudioso que busque uma visao mais completa de uma obra antiga 
nao pode confiar apenas nas primeiras ed^oes impressas, mas deve recuar tanto 
quanto possivel na dire9ao da antiguidade. Portanto, atraves de uma combina9ao 
de viagem e pesquisa, do uso de fac-similes ou relatos de outros estudiosos, Allen 
fez uma cola9ao, ou trabalho de compara9ao sistematica, palavra por palavra, de 
todos os manuscritos que conseguiu encontrar. 

Quando existem tantos manuscritos gregos - como e o caso de Flomero e, 
mais ainda, do Novo Testamento -, ha varia9oes inevitaveis de um para outro. 
Isso se da por causa da atividade generalizada de fazer copias e copias de copias 
de um texto popular no tempo anterior a imprensa. Todo escriba podia cometer 
erros, mesmo quando muito atento. As vezes, os proprios escribas estavam 
fazendo cotejos e combinando a informa9ao de diversos manuscritos a seu 
dispor. As diferen9as sao em geral pequenas - mudan9as de tempo verbal, uso de 
uma forma mais antiga ou mais recente de um adjetivo, varia9oes de grafia e 


assim por diante. Em diversos documentos, porem, a varia^ao tem de fato um 
impacto sobre a tram a ou a caracteriza9&o. Allen editou tudo aquilo em que os 
manuscritos coincidiam e, onde eram discordantes, escolheu a melhor variante, 
baseado no que sabia sobre uso, estilo, metrica e dic^ao poetica homerica. E 
evidente que os editores da Odisseia - e eles tem sido muitos ao longo dos seculos 
- nunca concordam quando se trata de escolhas individuals quanto a melhor 
“leitura”. As vezes, para dar sentido a uma passagem, um editor recomenda uma 
palavra ou forma grega que nao ocorre em nenhum manuscrito, a chamada 
emenda. Por isso edi?oes academicas, como a de Allen, sempre registram ao pe 
de cada pagina as variantes e uma selefao das especula9oes de editores 
anteriores. 

Dois exemplos podem esclarecer o processo: 1) Quando a tripulaqao de 
Odisseu estava esperando o ciclope voltar a sua caverna, acenderam uma 
fogueira [“Tendo la aceso o fogo”] e fizeram oferendas aos deuses 
[“sacrificamos”] (conforme McCrorie traduzo verbo grego ethusamen, seguindo 
o texto de Allen para Od. 9, 23 1)!^] o editor da Oxford escolheu seguir versoes 
em que esse verbo aparece, caracterizando os homens como cumpridores do 
rito. Mas, como consta em suas notas, diversos manuscritos, inclusive um 
exemplar do seculo XI de Floren9a, atribuem ao verbo grego desse verso o 
sentido de “restos” apenas, em lugar de “sacrificio”- detalhe pequeno, mas que 
da colorido a passagem. 2) As vezes, a parte questionada se estende por varios 
versos, como no verso 93 do canto 1, quando Atena esta descrevendo como ira 
inspirar Telemaco a viajar em busca de noticias do pai. O verso em todos os 
manuscritos diz “Vou envia-lo a Esparta e a arenosa Pilos”. No entanto, em uma 
“famiha” bastante grande de manuscritos correlatos, seguem-se dois outros 
versos: “E dali para Creta, ate o senhor Idomeneu, que foi o segundo a voltar de 
Troia”. Evidente mente, esses versos nao correspondem a trama do poema na 
forma como nos chegou, em nenhum manuscrito - Telemaco nunca vai a Creta. 
Mas eles nos provocam com a possibilidade de ter existido uma versao mais 
elaborada da “Telemaquia” (cantos 1-4 do poema). 

Essa foi a trajetoria da Odisseia ate a Idade Media. Devemos ter presente que, no 
periodo anterior ao Renascimento italiano, seria dificil que alguem na Europa 
Ocidental conhecesse o poema diretamente. Caso se fizesse alguma ideia de 


quern era Odisseu, era por meio de cita^oes latinas do final da Antiguidade ou 
pela menijao de Ulisses (a versao latina de seu nome) por autores romanos bem 
conhecidos, como Virgilio, Ovidio, Seneca, Horacio e Estacio. Dante, que coloca 
Ulisses no canto 26 de seu Inferno , conhecia (ou inventou) uma versao do destino 
do heroi totalmente distanciada da tradigao grega - e com certeza ausente em 
Homero. 

Apartir do seculo XIII, e em especial depois da queda de Constantinopla para 
os turcos otomanos, em 1453, uma corrente de estudiosos gregos emigrou para a 
Italia e se voltou para o Ocidente. E plausivel que devamos a dissemina^o de 
manuscritos da Odisseia a esses intelectuais bizantinos e seus alunos. O negocio 
de copiar o poema de gera?ao em gera?ao havia se expandido as terras falantes 
do grego ainda na Antiguidade. Os manuscritos medievais em que a tradu^ao de 
McCrorie se apoia, em ultima analise, sao um ponto- final. Mas como podemos 
dizer se esses manuscritos - o mais antigo e de cerca do ano 900 de nossa era - 
preservam com alguma exatidao o que os gregos da era arcaica sabiam da 
Odisseia de Homero? 

Ainda hoje a questao suscita acalorados debates entre homeristas. Uma 
especie de fonte de controle do nosso texto veio de fato crescendo ao longo do 
seculo passado - especificamente, fragmentos de papiros, isto e, peda^os de rolos 
antigos. Material de escrita barato e entao muito difundido, feito de fibras 
vegetais, o papiro apodrece na maioria dos climas. Felizmente, a areia seca do 
Egito, que era um centro de cultura greco-romana, preserva esse material. 
Exploradores do seculo XIX descobriram grande quantidade de papiros - em 
geral rasgados, em antigos monturos de lixo ou usados para forrar esquifes de 
mumias. Esses papiros, que arqueologos continuam descobrindo todos os anos, 
em geral contem apenas poucas linhas. Mas o que sobrevive, datado de cerca de 
300 aC a 200 da nossa era, e suficiente para demonstrar que os textos dos livros 
manuscritos medievais preservam em term os gerais os mesmos versos 
conhecidos pelos leitores de Homero em rolos de papiro da Antiguidade. 

Mas o caminho da algumas voltas ate recuarmos ao periodo grego arcaico, 
quando a Odisseia foi registrada por escrito. Em primeiro lugar, nao se pode 
ignorar o fato de que uma por 9 ao dos primeiros textos em papiro contem versos 
“extras”, comparados aos textos “padrao” construidos em manuscritos completos 
na Idade Media. Os versos desses papiros espurios, por assim dizer, soam como 


preenchimento - describes adicionais, ou cenas complicadas, que no geral tern 
paralelos em outros pontos do poema. De onde vem esses versos? Muito 
possivelmente refletem varias tradifoes de recitafao do poema correntes por 
volta de 300 aC. 

Aqui entra um segundo fator: o academismo antigo. Logo depois da epoca de 
Alexandre, o Grande, que difundiu a cultura grega ate a India, surgiram dois 
grandes centros de conhecimento, um em Pergamo (cerca de 120 quilometros a 
sudeste da antiga Troia, no que e hoje a Turquia), e outro em Alexandria, no 
Egito. Apoesia homerica era nao so a favorita de Alexandre (dizem que ele 
dormia com uma copia da lliada debaixo do travesseiro), como tambem um 
simbolo valioso da difusao da alta cultura grega. Intelectuais gregos ardorosos, 
eruditos e competitivos, reunidos em centros de estudos mantidos pela realeza, 
escreviam e discutiam sobre a poesia homerica em todos os detalhes 
concebiveis, desde o uso de pronomes ate a dieta alimentar dos herois 
(observavam, atentos, que as personagens nunca comiam peixe). Um resultado 
de toda essa atividade academica de Zenodoto, Aristofanes de Bizancio e do 
grande Aristarco foi, ao que tudo indica, o estabelecimento de um texto antigo 
razoavelmente padronizado por volta de 150 aC - pelo menos depois dessa data 
versos “extras” ocorrem com muito menor frequencia nos papiros. A Odisseia e 
a lliada devem ter passado por uma especie de processo de peneiramento, uma 
padroniza^ao que lamentavelmente pode ter apagado algumas varia^des 
interessantes que floresceram ate entao. 

Alguns estudiosos especulam que a Odisseia devia ser, por volta de 400 aC, 
um tanto mais longa do que a nossa versao, ou bem diferente - dependendo da 
cidade onde se adquiria o texto ou, o que e mais presumivel, de quern o recitava. 
Platao, que nasceu em 427 aC, cita como “homericos” muitos versos que nao 
existem em nenhum de nossos textos ou que tern construsao bastante diferente. A 
medida que recuamos no tempo, a Odisseia se encontra mais e mais nas maos de 
interpretes orais, como o rapsodo (“costurador de cansao”) chamado Ion, em 
torno de quern Platao escreveu um di&logo homonimo. Esse recitador, no relato 
literario de Platao, dizter conhecimento enciclopedico porque conhece a poesia 
homerica muito bem (e Homero ja era considerado um sabio universal na epoca 
de Platao). Essa parece ser uma atitude comum em relato ao poeta do seculo V 
aC, quando grande parte do que era tido por educagao se construia no 


aprendizado detalhado das epopeias. 

Como rapsodo. Ion competia com outros interpretes em festivals 
internacionais. Ele costumava tambem explicar Homero nos intervalos da 
apresentagao dos poemas, como uma “palestra” dramatica. Nao e dificil 
imaginar esses interpretes rapsodicos variando, expandido ou enfatizando trechos 
do poema, conforme as particularidades do publico. Nao existe nenhuma prova 
de que se limitassem a um texto exato. E possivel tambem que as andangas de 
Odisseu fossem representadas por interpretes que estavam, eles proprios, 
acostumados a viajar de uma praga a outra, sem parar. (Essa associagao entre 
heroi ficticio e poeta de fato ocorre ainda hoje entre cantores epicos egipcios, 
como demonstrou o folclorista Dwight Reynolds.) 

Nao parece enfim muito distante do “rapsodo” historicamente comprovado - 
interprete que afirma reproduzir a Odisseia “de Homero” - o fenomeno de um 
poeta de maestria oral compor no proprio ato da performance e variar sua 
composigao de acordo com a plateia, da forma como poetas orais (e mesmo 
cantores de rap) ativos hoje em dia em varias culturas ainda costumam fazer. 
Mas aqui chegamos as regioes mais turvas na busca pela Odisseia , o reino da 
chamada “questao homerica”. Sera que existiu de fato um bardo chamado 
Homero? Se existiu, tera sido ele o primeiro a escrever, ou ditar, a Odisseia e a 
Iliadal E se era um poeta oral praticante, o que o (ou a?) motivou a mudar de 
tecnologia? 

Nao sabemos com certeza data, local ou circunstancias do registro escrito da 
Odisseia. E bem provavel que o poema tenha se cristalizado ao longo de geragoes 
de performances orais ao vivo e competigdes, no periodo entre 800 aC e 500 aC. 
Ao que tudo indica, foi registrado por escrito bastante tarde, talvez sob o patronato 
dos governantes Pisistratidas de Atenas (c. 540-510 aC), em fungao dos 
concursos de poesia homerica em festivais (veja Nagy, 2002). Tampouco 
contamos com qualquer informagao confiavel a respeito do poeta Homero. Os 
gregos do periodo classico acreditavam que ele tinha vivido na Jonia (hoje, costa 
ocidental da Turquia) cerca de quatrocentos anos depois da Guerra de Troia (que 
teve lugar, segundo a avaliagao antiga, por volta de 1150 aC). E totalmente 
possivel que um grande interprete chamado Homero tenha existido na epoca, 
mas e pouco crivel que tenha sido responsavel por nossa Odisseia em sua 
presente forma. Mesmo que ele seja o “autor” num sentido moderno - 


responsavel pela escolha de cada palavra do poema conforme o conhecemos 
hoje nao devemos esquecer que a obra, como demonstram suas alusoes, estilo 
e linguagem arcaica artificial, tambem deve ser extremamente tradicional. As 
diversas camadas linguisticas da Odisseia sugerem que alguns elementos devem 
ser oriundos do proprio periodo que celebra - a epoca dos “herois” da era 
micenica (c. 1600-1200 aQ. Portanto, existe ao menos uma verdade simbolica 
embutida em uma das muitas lendas que circularam a respeito de Homero, 
segundo a qual ele era o filho de Telemaco, filho de Odisseu. Independentemente 
de quando o poema tenha sido concebido, seu autor (gra?as a Musa) sentiu-se em 
contato quase imediato com seus eventos. O resultado e a composifao vivida e 
eterna que podemos ler, ouvir e avaliar ainda hoje. 


Atecnica homerica 

Atextura da Odisseia e da Iliada, a constru?ao de cenas, discursos e versos, pode 
ser mais bem apreciada a luz de tecnicas encontradas em epopeias tradicionais 
orais, do tipo apresentado ainda hoje em algumas partes do mundo (sobretudo na 
Asia Central e na Africa), e antes comum em toda a Europa. Cinco argumentos 
que se entrela9am sustentam a ideia de que a poesia homerica como a 
conhecemos vem de uma forma artistica que nao contava com a escrita. 

Primeiro, o poema em si descreve a arte de narrar historias sobre herois e 
deuses empregando palavras relacionadas a “can9ao”, nunca mencionando 
escrita ou mesmo recita?ao. Por exemplo, o cantor feacio Demodoco, no canto 
8, canta tres composifoes bastante diferentes, duas delas, semelhantes a flashes 
de noticiario, a respeito da Guerra de Troia, enquanto a terceira relata como o 
deus Hefesto surpreendeu sua esposa adultera, Afrodite. Femio, o bardo de Itaca, 
respondendo ao capricho da plateia (os inquietos pretendentes de Penelope), 
canta sobre a volta desastrada dos gregos (inclusive Odisseu, como esperavam os 
pretendentes). Penelope pode pedir que ele mude de assunto (1, 337-44), assim 
como Odisseu pode pedir uma performance especifica a Demodoco (8, 492). A 
poesia de Homero pode nao ter sido composta dessa maneira interativa, aberta a 
plateia, mas pelo menos quer supor suas raizes em situa9des assim. A Odisseia e 
uma histdria poderosa, uma narrativa sobre a memoria, a volta para casa, a 
necessidade hum ana e o desejo. E tambem um poema finamente tecido, com 
todo o poder e a beleza que brotam do uso preciso de palavras e imagens. Mas, 
acima de tudo, e resultado de uma tradi9ao centenaria de apresenta9oes publicas, 
uma tradi9ao que a poesia em si identifica com o cantar de historias. 

No grego homerico, o poeta e um cantor ( aoidos ), e seu trabalho e a can9ao 
(aoide) - palavra que acaba entrando para o ingles [e para o portugues] como 
“ode”. A Odisseia come9a com o poeta pedindo a uma deusa que conte a historia 
do “muitas-vias”. Ele invoca uma Musa (uma das nove filhas de Memoria). Nao 
por acaso, essas divindades narrativas nos emprestam a palavra “musica”. Mais 
uma vez, a poesia homerica se apresenta como algo que vai alem do discurso 
comum, algo mais perto da vozespecial dos deuses, uma forma de arte proxima 
do puro som harmonioso. 

Atrad^ao da can9ao epica que nos legou a Odisseia esta longe de ser 
primitiva. Ao contrario, a poesia homerica e consciente ao extremo de seu 


proprio instrumento. A Odisseia, ainda mais que a outra grande epopeia que 
chegou ate nos, a Iliada, reflete repetidas vezes sobre o poder do canto narrativo 
para entronizar os feitos dos herois e transmiti-los as gera?oes futuras. 
Consequentemente, na cultnra que o poema descreve, os cantores ocupam um 
lugar de alta honra. Para um pretendente a heroi, nao entrar no repertorio epico 
de um cantor significava o esquecimento, no que dizrespeito ao futuro renome. 
Colocando de outra forma, a razao pela qual hoje conhecemos Odisseu e 
Aquiles, Helena e Penelope, e que a poesia epica cumpriu sua orgulhosa e 
ambiciosa promessa de imortalidade, de “fama imorredoura”. Aetimologia da 
propria palavra para “fama” na linguagem homerica deixa claro ate que ponto 
todo esse sistema do canto celebrador dependia do desempenho oral. Pois kleos, 
“fama” ou “gloria”, e literalmente “aquilo que e ouvido”. (A palavra inglesa 
“ loud P’ [sonoro, alto] [e “clamor” em portugues, pela via do latim “clamor”] 
vem da mesma raiz.) 

Segundo, as evidencias arqueologicas demonstram que algo como a Guerra 
de Troia ocorreu na regiao descrita nos poemas, com armas de bronze como 
aquelas que Homero descreve e com a consequente destrui^ao e deslocamento 
de popula9oes. Alem disso, a datafao tradicional antiga da guerra, no seculo XII 
aC, se encaixa no relato homerico de uma gera9ao heroica final. Mas a escrita 
alfabetica para registrar os relatos em verso ou prosa dessa guerra so estava 
disponivel na Grecia em 800 aC na melhor das hipoteses, pela estimativa da 
maioria dos estudiosos, pelo menos trezentos anos a frente. Portanto, uma 
tradi9ao oral de algum tipo deve ter existido antes dos textos homericos. 

Aevidencia da lingua de Homero fornece uma terceira confirma9ao. O grego 
da Odisseia nunca foi uma lingua falada em nenhuma epoca ou regiao. 
Multifacetado e as vezes bastante conservador, o “dialeto” homerico parece ter 
sido forjado por e para poetas: entre outras peculiaridades, contem formas que 
nao possuem nenhuma base historica, em compara9ao com outras llnguas 
correlatas, mas que sao convenientes para a metrica. Ao mesmo tempo, retem 
uma por9ao de formas de um dado conceito (tal como “pertencente a mim”), 
mas apenas quando as formas mantem metricas distintas ute is, como “superior” 
e “super” em portugues, que oferecem convenientemente alternativas metricas 
ao poeta. Em resumo, a lingua poetica e tradicional e abarca gera9oes. 

Aquarta prova de um Homero “oral” vem da dic9ao poetica. Em sua 


pesquisa de doutoramento nos anos 1920 e 1930, sobre “formulas” repetidas na 
poesia homerica, um jovem californiano, Milman Parry, descobriu que havia 
uma “economia” em a?ao ao investigar com rigor o sistema bem conhecido de 
adjetivos aplicados a personagens importantes dos poemas. Os personagens 
chamados de “pe-ligeiro” (Aquiles) e “muita-astucia” (Odisseu) sao descritos 
em outros versos do poema como “o brilhante Aquiles” ou “o muito habil 
Odisseu”. Quando isso acontece, nao ha mudan9a perceptivel na enfase 
narrativa. Ao contrario, os sintagmas em questao produzem uma forma metrica 
diferente. E preciso ter em mente que o verso homerico consiste de seis pes, com 
os cinco primeiros compostos ou por um dactilo (uma silaba longa mais duas 
curtas, - UU) ou um espondeu (duas silabas longas, — ). O ultimo pe do sexto 
verso e um espondeu ou um troqueu (uma longa e uma curta, -U, uma marcada, 
concluindo o efeito ritmico que a tradu9ao de McCrorie capta brilhantemente). 
Ora, o adjetivo “pe-ligeiro” com o nome “Aquiles” e, em grego, podas okus 
Akhilleus - sintagma que preenche uma posi9ao metrica ocupando dois pes e 
meio do verso hexametro dactilo (UU-UU — ). Mas se substituirmos pelo 
adjetivo “brilhante”, ao lado do nome do personagem, obteremos um segmento 
metrico curto, ocupando dois pes (dios Akhilleus, - UU — ). Contando esses 
sintagmas Parry provou que para todas e cada uma das figuras heroicas ou 
divinas principal em Homero existia um (e quase sempre apenas um) epiteto 
por posi9ao metrica e caso gramatical (sujeito, objeto, genitivo e assim por 
diante). Portanto, a poesia homerica mais uma vez representa uma forma 
artistica tradicional, multigeracional, pela simples razao de que nenhum poeta 
individual teria a motiva9ao de divisar tal sistema tao completo e economico. Ela 
foi criada provavelmente para a composi9ao rapida do verso na performance ao 
vivo (conforme a poesia efetivamente apresenta a si propria com coerencia). 

O quinto argumento, o da prova comparativa, esta relacionado ao anterior: 
Parry e seu colaborador Albert Lord descobriram em trabalho de campo na 
antiga Iugoslavia que sistemas de dic9ao extensos e uteis, semelhantes a esse, 
eram empregados por interpretes iletrados da poesia heroica tradicional servo- 
croata.t-^] Desde seu trabalho dos anos 1930, pesquisadores de campo 
confirmaram essa tendencia em dezenas de outros sistemas de poetica oral. 

Diante dessas indica9oes, nao podemos pretender ler a Odisseia do jeito que 
se le uma epopeia escrita, seja a Eneida, de Virgilio, a Divina comedia, de Dante, 


ou o Paraiso perdido, de Milton. Mais importante, nossa leitura deve levar em 
considera 9 ao a ressonancia de sintagmas repetidos, uma vezque podemos ter 
certeza de que quase todos esses sintagmas j a existiam na tradifao poetica e 
eram portanto conhecidos de uma plateia que ouvia a performance epica de 
Homero. Um poeta como o autor da Odisseia e capazde criar efeitos 
significativos evocando, no momento exato, o mundo de associafoes embutido 
em um unico sintagma que foi usado por gera?oes em muitos outros poem as, 
com um escopo de significados que sua plateia e capazde apreciar. John Miles 
Foley (Foley, 1991 e 1999) chamou a poesia que disso resultou de “arte 
imanente”, pois nesse meio de expressao o carater alusivo enfatizado por 
formulas produzprofundidades que vao muito alem da superficie limpida do 
poema. Como os leitores modernos nao conhecem o contexto em que essa arte 
come<;ou a florescer, podemos esperar no m&ximo recuperar o espectro de 
significados de um sintagma olhando todas as suas ocorrencias e calculando o 
efeito que teria se a plateia trouxesse, para a compreensao da cena, um 
reconhecimento de todas as outras situafoes em que um sintagma particular foi 
ou poderia ser usado. Atecnica e diferente da tecnica do romance. O leitor de Os 
europeus ou de Ulysses so descobre aos poucos, pagina a pagina, como sao ricos 
certos sintagmas que James ou Joyce destinam a seus protagonistas. Cada 
romance cria sua propria linguagem, enquanto o epico oral grego contava com a 
longa experiencia do publico de uma rica tradifao de recita^ao, ja carregada de 
significado, para envolver e comover seus ouvintes de imediato. 

Consideremos, por exemplo, a maneira como a caracteriza^ao de Telemaco 
acontece na Odisseia com a ajuda de um estilo baseado na formula. Na primeira 
vezque vemos Telemaco (1, 1 13), Atena, disfar?ada de Mentes, acabou de 
chegar ao palacio de Itaca. Telemaco a ve antes de qualquer outro: 

tt)v 8e 7ioX.u jipdjrog i5e Tr|>.Epaxoq 0£oa5f|9 

Primeiro a ve-la foi o deiforme Telemaco 

Theoeides, “deiforme”, e uma das quatro formulas epiteto-substantivo para 
Telemaco no caso nominativo ou de sujeito. O simples fato de o poeta usar um 
epiteto para Telemaco aqui, quando o vemos pela primeira vez, indica que a cena 
imediatamente seguinte e importante para o entendimento de seu carater. O 


epiteto e como uina nota musical unica soando no inicio de uma composifao. 
Alem disso, ele ocorre em contraste com qualquer um dos tres outros epitetos 
que Homero poderia ter usado para Telemaco, se tivesse moldado o verso um 
pouquinho diferente ( hiere e “for^a sagrada” , pepnumenos, “inteligente”, e 
herds, “o heroi”). A medida que o poema progride, o epiteto theoeides vem a se 
relacionar com um tema essencial da Odisseia, de como a aparencia as vezes 
entra em conflito com a verdadeira identidade ou habilidade. Odisseu 
(disfarsado) fazum sermao sobre “aparencias” depois de cat^oarem dele nos 
jogos dos feacios (8, 166-85). Na situa?ao dramatica dessa passagem, ter uma 
boa “aparencia” (eidos) indica que a pessoa nem fala bem nem e, de fato, muito 
inteligente. E significativo que o jovem ilheu Eurialo, que tern habilidade atletica 
mas nenhuma elegancia retorica, seja o objeto da repreensao de Odisseu; no 
decorrer do episodio feacio nos assistimos a seu aprendizado. No final do canto 8, 
ele tern a inteligencia e a elegancia de oferecer a Odisseu uma espada e um 
pedido de desculpas. Ora, esse processo de educa?ao e exatamente o que 
acontece com Telemaco no decorrer da Odisseia como um todo, conforme 
muitos criticos observaram. O adjetivo theoeides marca o modo como Homero 
maneja esse tema tradicional, que podemos chamar de “o heroi amadurece”. 
Quando a plateia, ligada no sistema de sintagmas tradicional, ouve pela primeira 
vez Telemaco descrito como “deiforme”, ela recebe um pacote de mensagens 
tematicas e dire 9 oes narrativas potenciais. No entanto, esse processo nao se da 
sem suspense. O filho de Odisseu pode acabar sendo como os outros que 
receberam esse epiteto: Paris, na Iliada (. Alexandras theoeides), uma figura 
menos que heroica que depende da aparencia para se virar, ou Eurialo, 
ingenuamente arrogante, mas educavel. De fato, cada uma dessas duas 
alternativas tematicas surge no decorrer da Odisseia : o adjetivo theoeides e usado 
tres vezes para descrever um ou outro da dupla de pretendentes principal em 
Itaca, o jovem arrogante Eurimaco e Antinoo, tipos perigosos, que nao gostam de 
Telemaco. O “jovem bom mas nao perfeito” aparece tambem na figura do 
vidente Teoclimeno, ao qual o epiteto theoeides e aplicado cinco vezes e cujo 
nome em si (“que ouve o deus”) se encaixa com seu sentido. Quando esse jovem 
fugitivo encontra Telemaco, vemos um importante estagio do crescimento deste; 
sem questionar, ele fica amigo do proscrito, mostrando assim que assimilou o 


codigo cultural referente a hospedes-amigos. E tal a qualidade artlstica da 
repeti9ao de formulas que e possivel tra9ar linhas tematicas similares 
acompanhando o desenvolvimento de qualquer eplteto do poema. 

Outro recurso poderoso usado na Odisseia e a caracterizatjao por meio de 
discursos. Calculou-se que mais de metade do poema e apresentado nesse 
formato. Alem de ser um estilo poetico, discursar era com toda a probabilidade 
um fenomeno cultural importante. Os gregos antigos de todos os perlodos 
admiravam a habilidade retorica. A lliada conta como Aquiles foi criado para ser 
um “orador de discursos e agente de feitos” (11. 9, 443). Parte da atrafao e da 
influencia da poesia homerica em eras posteriores vem de sua excelencia na 
mimese, a representa^ao de discurso direto. (Platao, por outro lado, aponta essa 
mesma tecnica mimetica como o perigo central dentro do epico homerico 
quando o baniu de sua cidade-estado ideal, em A republica.) Esses discursos 
podem ser comandos, amea9as ou promessas proferidas de um personagem 
para outro, discursos publicos a assembleias, rememora^Ses em companhia de 
convivas em um jantar ou mesmo monologos dirigidos ao proprio coragao e 
mente, como o discurso que Odisseu faz quando se ve correndo o risco de morrer 
afogado (5, 299-312). 

Em vezde contar a plateia o que se passa na mente dos personagens do 
poema, o autor fazessas figuras falarem consigo mesmas. O resultado e que 
ficamos com uma sensagao de intimidade, de intensa intera9&o entre os herois 
homericos e seu ambiente, e dos meios especificos como se apresentam para o 
mundo. Outro refinamento na tecnica consiste em justapor os discursos de 
diferentes personagens a fim de expressar conflito ou sugerir emo9oes mais 
profundas nao expressas. Aconversa entre Helena e Menelau no canto 4 (235- 
89), quando cada um conta uma historia para seus visitantes, representa essa arte 
contrastante em sua forma mais elevada. Sem nenhum indicio pela vozdo 
proprio narrador, cria-se mesmo assim a impressao de que o heroi envelhecido e 
sua esposa, que um dia causou tanta destrui9ao, ainda estao imersos em suas 
queixas e protestos reciprocos. Aserie de encontros entre Odisseu e sua esposa 
Penelope, que se estende do canto 19 ate o 23, permite que o leitor intua como e 
o relacionamento deles mais que qualquer informa9ao que o narrador pudesse 
fornecer. E os paralelos proximos criados por esse uso de discursos diretos em 
serie - por exemplo, as cinco historias contadas por Odisseu disfar9ado em Itaca, 


ou os encontros de Telemaco com Nestor e Menelau - enriquecem ainda mais o 
poema com sutis varia9oes. Se com as formulas o poeta joga com o 
conhecimento comum de alusao e associa^ao da plateia, com os discursos ele 
pode produzir novos e multiplos pontos de vista. 

Uma terceira caracteristica tecnica, o simile, pode ser considerado uma 
combina9ao da tradi9ao da formula com o uso inovador do discurso. O simile 
homerico muitas vezes compreende mais detalhes do que podemos julgar 
necessarios para fazer um cotejo. Vejamos dois exemplos que ocorrem no 
come90 do canto 20 , quando Odisseu, deitado sem dormir, se zanga com a visao 
das servi9ais dormindo com os pretendentes: 

[...] seu cora9ao, dentro, latia. 

Como a cadela, envolvendo os frageis filhotes 
ao estranhar um varao, late, sofrega por brigar, 
assim, em seu intimo, latia, irritado com as vis a9oes. 

(versos 13 - 16 ) 

Depois de descrever como Odisseu controla sua raiva - “Apos golpear o peito, 
reprovou o cora9ao com o discurso” -, o poeta continua: 

e seu cora9ao, obediente de todo, aguentou e resistiu 
sem cessar; ele proprio revirava-se para la e para ca. 

Como quando o varao, forte fogo ardendo, a um bucho 
cheio de sangue e gordura, para la e para ca 
gira, almejando que bem r&pido fique assado, 
assim ele, para la e para ca, revirava-se, cogitando 
(versos 23 - 28 ) 

Os detalhes aparentemente alheios, porem, evocam muitas coisas que uma 
compara9ao mais breve deixa passar. Se o poeta tivesse dito apenas “seu cora9&o 
rosnava como um cao”, a imagem poderia nos tocar, mas se perderia a 
possibilidade de um impacto emocional posterior. A versao expandida, de um 
jeito ao mesmo tempo estranhamente fora de sincronia e inteiramente 
apropriado, associa Odisseu a uma figura feminina - a mae dos filhotes - que late 


para defende-los contra um macho intromissor. Em term os da trama geral, 
Odisseu (por meio do simile) tornou-se igual a Penelope, uma mulher 
ferozmente independente que resiste as incursoes masculinas em sua casa. De 
associagao mais imediata, podemos lembrar a cena ocorrida nao muito antes, 
quando Odisseu, chegando disfar?ado a seu proprio palacio, e reconhecido por 
Argos, o cao que deixou para tras vinte anos antes. Agora infestado de carrapatos 
e abandonado, incapazde se mover do monte de excremento onde se encontra, o 
cachorro abana o rabo com dificuldade e expira quando seu antigo dono passa 
por ele (17, 291-327). Essa ligeira dissonancia criada pelo simile lembra a plateia 
que Odisseu, embora na aparencia velho e inutil no momento (como Argos), logo 
assumira o papel de cao de guarda e mesmo cagador, ao castigar os 
pretendentes. Os similes, portanto, empregam artisticamente, num formato 
comprimido, duas outras tecnicas frequentes na poesia homerica: o uso do 
flashback e da previsao. 

O segundo simile mencionado acima, na qual o heroi e comparado a uma 
lingui?a, num primeiro momento pode parecer um lugar-comum comico, ate 
arbitrariamente anti-heroico. O unico ponto de liga?ao aparente vem da 
similaridade de movimento, uma vezque tanto o heroi como a carne giram 
como que no espeto. E mais uma veza tecnica homerica repousa em nosso 
reconhecimento do lapso entre o evento imediato da trama e o remode lamento 
retorico dele. Odisseu nao consegue dormir porque esta em um momento de 
crise, ansioso quanto a sua capacidade de planejar e levar a cabo uma chacina, 
enquanto o cozinheiro anonimo do simile tem de lidar apenas com a prepara9§o 
da comida. Mesmo assim, podemos imaginar que o guerreiro veterano podia 
muito bem desejar sero cozinheiro pacifico, de forma que o simile e entao 
focalizado na propria consciencia do personagem que pretende descrever. Vale a 
pena lembrar, a final, que quando vislumbramos Odisseu pela primeira vezno 
poema ele esta ansioso por ver a fuma9a subir da chamine de sua casa. Alem 
disso, o cozinheiro e o heroi desejam ambos intensamente alguma coisa. O 
desejo do cozinheiro e explicitado - ele quer assar a carne -, e ele, ao menos, 
tem como realizar isso. Ao trazer a mente esse desejo universal, o poeta faz sua 
plateia adivinhar, quase sentir o gosto do imediatismo impositivo do desejo de 
vingan9a de Odisseu, sem nem menciona-lo nesse momento. Ainsinua9ao e que 
tambem Odisseu logo estara no comando (para nao dizer que “cozinhara” os 


pretendentes). Por fim, ambos os similes desse trecho, o cachorro e o cozinheiro, 
tornam publicas, ao menos em sua memor&vel imagetica, dire?oes de 
pensamento internas, particulares. Ao se referir a afoes cotidianas recorrentes, 
tornam natural e nao problematica o que e, de fato, uma vingansa singular e um 
tanto questionavel e de proposes epicas. 


A historia e a Odisseia 

Os progressos da arqueologia, da linguistica e do estudo comparativo da cultura 
ao longo do seculo passado deixaram claro que o mundo pintado nas epopeias de 
Homero e uma cria9ao poetica. Tem elementos de eras da civilizafao grega que 
vao desde 1400 aC ate o periodo da tirania de Pisistrato e seus herdeiros em 
Atenas, em meados do seculo VI. Assim como a cultura grega, os epicos 
absorveram influencias do Oriente Medio e do Egito, talvezate do mar Negro e 
alem. Ao mesmo tempo, os elementos basicos do mundo homerico sao 
constantes na historia e na vida social mediterranea: as atividades de luta e 
navegagao, o comercio, a coloniza9ao, a viticultura e a agricultura, a cria9ao de 
assentamentos. Em bora as tecnicas de todas essas dreas mudem ao longo dos 
seculos, as atividades em si apresentam longos tree ho s de continuidade, ate 
mesmo no seculo XXI. 

Nao cabe aqui nem mesmo o mais breve esbo90 da historia da Grecia. 
Bastara observar que os falantes do grego devem ter se afastado, por volta de 
1900 aC, dos falantes de linguas proximas (os dialetos dentro da familia indo- 
europeia, que evoluiram para as familias linguisticas italica, indo-arianas, 
germanica, celta, eslava e outras); viajando das estepes do sul da Russia ou da 
regiao do Caucaso, penetraram nos Balcas, no entao longinquo sul. Em torno das 
costas do Egeu, encontraram altas civiliza9oes ja estabelecidas, entre elas os 
egipcios e os minoicos (um povo nao grego centrado em Creta). Com o tempo, a 
cultura guerreira grega baseada em cidadelas e comando personalista fez 
emprestimos [culturais] dos minoicos e outros povos anteriores e depois tomou o 
seu lugar no que e hoje a Grecia central e as ilhas. O periodo micenico (c. 1600- 
1200 aC), assim chamado em fun9ao de uma das principal cidades [Micenas], 
se encerrou - nao e claro por que - com uma serie de destrui9oes, das quais a 
Guerra de Troia e, muito provavel, uma reminiscencia abstrata, destilada. 

Depois da Antiguidade, a existencia de Troia e da guerra em torno dela foi 
tomada como mera fabula. Quando as viagens ao Oriente ressurgiram durante o 
seculo XVIII, antiquarios come9aram a notar intima semelhan9a entre as 
paisagens da epoca e as describes homericas da area da Asia Menor associada 
as antigas lendas. No seculo XIX, a busca romantica pelas origens e a crescente 
devo9ao europeia a um passado classico idealizado se combinaram para chamar 
mais aten9ao para os vestigios fisicos do passado, culminando, nos anos 1870, 


com as investigates de um arqueologo diletante rico, Heinrich Schliemann. No 
grande sitio arqueologico de Hissarlik, no oeste da Turquia moderna, Schliemann 
cavou e encontrou as ruinas de uma cidade antiga, camada sobre camada, que 
datavam do seculo XII aC e ainda mais antigas. A“Troia” enterrada havia muito 
voltava de repente a luz. 

As escava^des no local continuam ate hoje. Embora nenhuma inscrifao ou 
objeto indique que esse seja o lugar que os gregos cercaram e destruiram, esta 
foi muito claramente uma cidade extensa e rica, com grandes muralhas e 
portoes nao diferentes daqueles descritos na Iliada. E pouco questionado de que 
se trata de Troia. Diversas de suas camadas (“Troias VI e VII”), datadas por 
volta da epoca da guerra troiana (como computado pelos proprios antigos), 
apresentam sinais de saque e incendio. Nao se pode provar se os gregos do 
continente - Agamemnon dos micenicos, Menelau de Esparta e companheiros - 
efetuaram o ataque em algum momento entre 1325 e 1200 aC. Nem se sabe 
quern eram ostroianos, em termos etnicos e linguisticos, ou onde foram parar os 
restos de sua populato. 

As migra 9 oes para a Asia Menor continental, sobretudo os assentamentos 
costeiros da Jonia, come^aram antes do colapso da cultura palaciana micenica 
na Grecia continental. Foi talvez durante esse periodo que a historia de uma 
grande cultura nesses lugares, uma vezdominados pelos gregos, ganhou 
popularidade. Nao e impossivel que a saga da Guerra de Troia remonte, ate 
mesmo em algum tipo de forma versificada, aos fatos reais do seculo XII aC. Os 
poemas que temos preservam alguns elementos que sao de tempos micenicos, 
tanto linguistica como culturalmente. Assim, os herois de ambas as epopeias 
usam com regularidade annas e implementos de bronze; o ferro, que se tornou o 
metal mais comum depois do fim da cultura micenica (na chamada Idade das 
Trevas, de 1 100-800 aC), e raras vezes mencionado. Aluta com carros e 
conhecida. Os desenhos de escudos, elm os e espadas coincident com objetos 
encontrados no seculo XII. Lugares nomeados no texto como fonte de tropas e 
navios em muitos casos nem eram habitados depois do seculo XII, e portanto os 
poemas devem preservar deles uma memoria historica antiga. E a confederate 
guerreira que dominou Troia parece se encaixar no padrao assentamento- 
cidadela da epoca que as epopeias se propoem descrever. Aarqueologia mostra 
que Pilo e Tiro, Micenas e Tebas eram centros importantes na idade do bronze, e 


essas cidades figuram com destaque nas epopeias. 

Ao mesmo tempo, e claro que seculos de transmissao e remodelamento dos 
poemas dentro de uma tradi?ao oral permitiram que elementos historicos de 
outras eras se entrela 9 assem as linhas mais antigas. Por exemplo, embora carros 
sejam usados, os herois param e descem deles para lutar (ao contrario do uso 
que se fazia deles em culturas mais para o leste) - o que leva a pensar que o 
poeta nao tinha certeza de como eram empregados de fato na guerra. Alguns 
objetos e nome de locals j a do seculo VI aC foram detectados nas epopeias, 
embora o autor evidentemente tenha tentado arcaizar. As estruturas politicas da 
polis (“cidade-estado”), cristalizadas pela primeira vezno seculo VIII aC, e a 
importancia do santuario de Apolo em Delfos, fenomeno do seculo VII, sao 
outros tra^os nao micenicos importantes. Ja se disse que a enfase na propria 
expedigao grega unificada deve estar ligada a institutes “pan-helenicas” que se 
desenvolveram no seculo VIII, reunindo gregos de todas as regioes depois de 
varios seculos de isolamento (Nagy, 1999). Muitos indicios apontam portanto para 
um periodo de quatro seculos posteriores a Guerra de Troia como o periodo de 
incuba^ao crucial para tradtes epicas em continuo desenvolvimento. 

Se a cidadela em ruinas, objeto do cerco legendario, foi revelada, o que dizer 
do lugar de onde Odisseu saiu para ir a Troia e sua historia? Itaca hoje e uma ilha 
rochosa a cerca de cinquenta quilometros da costa ocidental da Grecia 
continental. Pequena o suficiente para ser percorrida de bicicleta em um unico 
dia, nao e nem rica em antiguidade nem famosa - a nao ser como lar e reino de 
Odisseu. Assim como a cidade de Troia, nao ha como afirmar se a ilha hoje 
chamada Itaca ou Thiaki era o lugar imaginado pelo poeta da Odisseia. 
Escavagoes em curso por uma equipe da Universidade de Washington, em St. 
Louis, descobriram ate agora restos que podem ser micenicos, cuja identidade 
ainda nao esta esclarecida. De qualquer forma, vale a pena lembrar que, mesmo 
dentro do poeina, a vida em Itaca dificilmente se comparava ao esplendor dos 
palacios visitados por Telemaco no continente. O jovem heroi conta a seu 
anfitriao Menelau que sua ilha natal, ao contr&rio de Esparta, nao tern espa^o 
suficiente para criar cavalos. Sob outros aspectos tambem podemos considerar 
que Itaca fosse menos poderosa e importante. Desprovida de grandes forfas, seu 
com andante Odisseu devia operar por outros meios: seu carater indireto e astuto 
se encabca no panorama de recursos reduzidos de seu compacto reino. 


No entanto, a morada de Odisseu, mesmo de forma discreta, apresenta sinais 
de um centra economico real. O rei tem rebanhos e manadas em outras ilhas e 
no continente. Empregados como o porcari?o Eumeu, que foi obtido por compra 
ou conquista, mantem os recursos da casa grande. As mulheres estao sempre 
trabalhando no palacio, produzindo tecidos. E o grande deposito de Odisseu, que 
Penelope visita no canto 21, esta cheio de ouro, bronze e ferro. Esses bens 
impereclveis eram usados ao longo de todos os primeiros tempos gregos para 
construir redoes de trocas reclprocas com outros aristocratas, por meio de 
presentes ostentatorios. Os presentes de Menelau e Alcinoo se encaixam nessa 
dinamica; Odisseu, como somos informados no canto 1 (verso 177), tinha o 
costume de fazer visitas, mesmo antes de suas viagens. Fora de aqao durante 
vinte anos, no entanto, ele nao so perdeu a oportunidade de participar desses 
importantes intercambios de prestigio, como tambem sofreu a amea^a de perder 
seu gado pela depredagao dos pretendentes. O disfarce de mendigo que assume 
em Itaca se aproxima perigosamente da verdade. A Odisseia parece reconhecer 
quao tenue e a linha divisoria entre a existence confortavel e a penuria. Sem 
duvida, na economia de subsistence em que vivia a maioria dos gregos de muitas 
eras, essa Ii9ao fazsentido. A insistence do poema na perda e no ganho reflete 
ansiedades reais de que os infortunios economicos de apenas um homem 
pudessem comprometer as vidas de seus descendentes durante um longo tempo. 

Leitores modernos estao interessados na “historia” da politica e da economia, 
contudo devemos lembrar que tambem se pode falar de historia no ambito dos 
sentimentos e atitudes condicionados por um conjunto de experiences reais. A 
maneira como os gregos do passado reagiam com criatividade as exigences e 
desafios de seu proprio tempo - isso tambem e historia. Enquadrada na narrativa 
do regresso de Odisseu, a ideia persistente de que cada pessoa precisa de um 
lugark tomada como um fato, sem apologia, sentimentalismo ou melodrama. So 
nas fic9oes criadas por Odisseu (i.e., 14, 199ss) e que ouvimos falar de homens 
vagando em busca apenas de aventura. Sente-se que por baixo da eloquence e 
da economia da Odisseia existe a experience de gera9oes de gregos ansiando 
por um lar - exilados politicos, guerre iros, colonizadores, marinheiros, bardos 
itinerantes. Como os turbulentos seculos em que surgiram numerosas cidades- 
estados gregas - de 900 a 700 aC - coincident com o desenvolvimento da poesia 
epica, e ainda mais plausivel que as plateias sentissem empatia com uma historia 


de volta ao lar como essa. Era sua destilasao de sentimentos e celebrate) da 
sobrevivencia, mais do que na representafao de fatos sociais, e que a epopeia 
pretende contar as verdades do passado. 


Os deuses de Homero 

Outra faceta atraente da epopeia homerica e o retrato persuasivo que ela trafa 
de um mundo alem do humano. Os deuses e deusas da Grecia arcaica sao como 
humanos em quase tudo, menos numa coisa - nunca morrem. Sem idade e 
imortais, alimentados por nectar e ambrosia, com ikhor cristalino correndo nas 
veias em vezde sangue, os deuses vivem tranquilos numa calma desanuviada nas 
alturas nevadas do monte Olimpo, ao norte da Grecia. Podem teoricamente 
ignorar os humanos, limitados pela morte. Mas na imagina9ao grega os deuses 
precisam das pessoas tanto quanto as pessoas precisam deles. Os poemas 
homericos revelam um fascinio por esse elo simbiotico entre deuses e mortais, 
um contato sempre oscilante entre adora^ao e antagonismo. 

Os deuses sao muito mais que uma fantasia homerica. Durante milenios, os 
gregos adoraram as divindades mencionadas nas epopeias e muitas mais. Nao ha 
como ter alguma certeza do que de fato tinham em mente ao faze-lo. Mas, se 
tomarmos a Odisseia como guia, era algo assim: deuses sao inquisitivos, 
intrometidos, orgulhosos de seus humanos favorites e perigosamente suscetiveis 
de se enraivecer. Para conservar seu favor, os mortais precisam oferecer 
sacrifices, certificar-se de preencher as narinas celestes com o aroma da came 
assada. O ritual de verter vinho, associado a oragao, tambem funciona para 
aplacar os deuses. O heroi luta para conquistar a unica imortalidade acessivel a 
humanos: a fama epica ( kleos ). Para tanto, precisa veneer obstaculos com ajuda 
divina ou ser espetacularmente derrotado, ao despreza-la. Pode-se ver Odisseu 
envolvido numa questao religiosa, testando a eficacia de sua atitude em rela^ao 
ao divino e determ inando para si mesmo se os deuses vao lhe dar ouvidos e 
ajuda- lo. 

O divino esta em toda parte em Homero; sua poesia e profundamente 
teologica. Uma razao para a a epopeia se deter tanto em banquetes e bebidas, por 
exemplo, e porque esses eventos sao cruciais: na Grecia arcaica, cada refei9ao 
era tambem um ato religioso. Cada amanhecer e, com efeito, obra de uma 
deusa, Aurora. Lua e sol, rios, cavernas e arvores sao deuses ou abrigam um 
habitante divino. Num nivel emocional mais profundo, ouvimos ao longo de toda 
a Odisseia que os humanos descendem efetivamente de Zeus, de Ares ou de 
Poseidon. Odisseu, o heroi desse poema, tern uma a ncestr alidade interessante - 
seu avo materno, Autolico (cujo nome significa “o proprio lobo”), e um trickster 


e ladrao que, em algumas versoes do mito, era filho de Hermes, deus conivente. 
A versao homerica abranda esse passado sombrio, defendendo em vezdela a 
historia de que Hermes ensinou a Autolico a arte do roubo (19, 395-98). 

Isso levanta a questao da moralidade dos deuses homericos. Nao muito depois 
de as epopeias ganharem forma, os filosofos ja come 9 avam a criticar suas 
divindades. Disse um moralista do seculo VI, Xenofanes: “Homero atribui aos 
deuses tudo o que e mais vergonhoso entre mortals. Eles roubam, cometem 
adulterio e enganam uns aos outros”. No comego do seculo IV aC, Platao chegou 
ao ponto de banir a poesia de Homero da cidade idealizada, moralmente Integra, 
que esbofa em sua obra A republica. Aseu ver, a boa ordem do Estado era 
amea^ada nao so quando seus llderes liam a respeito e imitavam os personagens 
que Homero apresentava como incapazes de controlar suas emo 9 oes. Era um 
risco tambem que seus habitantes acreditassem em divindades menos que 
perfeitas. 

Os deuses de Homero podem constituir paradigmas eticos pobres, mas 
mesmo assim encarnam verdades reais. Sao de fato poderes maiores que nos, 
em agao no mundo. Esses poderes parecem caprichosos e as vezes crueis. 
Emopoes assoladoras - desejo ardente, embriaguez, a ira da guerra de onde 
mais elas poderiam vir senao de deuses? Chamar essas experiences 
respectivamente de Afrodite, Dionisio e Ares era dar-lhes nome, mas ao mesmo 
tempo controla-las. Pois os deuses, uma vezhumanizados, funcionam como uma 
familia expandida e um tanto disfuncional, na qual existe ao menos alguma 
organiza 9 ao. Governando do alto esta Zeus, que impoe suas ordens com raios 
brancos ardentes. Hades e Poseidon, seus irmaos, tern seus lugares no mar e 
debaixo da terra. Outros deuses e deusas alinham-se como filhos ou filhas de 
Zeus. Ha uma bela economia em tal sistema politeista - um deus equilibra o 
outro, de um modo quase comicamente domestico. Se a mae (Hera) diznao, 
voce pode pedir para o pai (Zeus). Humanos conseguem o que pedem rezando a 
quantos deuses desejarem. 

Quando se trata da Odisseia, Atena merece aten 9 &o especial. Embora nao se 
saiba da historia por Homero, o nascimento fora do comum da deusa virgem, 
filha de Metis (“astuta inteligencia”), e bem conhecido. Podemos questionar por 
que essa deusa das habilidades - inclusive a habilidade da guerra - fica tao ligada 
ao modesto mortal Odisseu. Em primeiro lugar, ao que parece, porque ele e 


como ela: de fato, seu epiteto usual e polimetis (literalmente, “possuidor de 
grande inteligencia astuta”). No entanto, sente-se um elemento de competi?ao no 
relacionamento deles. Uma conversa reveladora entre deusa e protegido ocorre 
no canto 13, quando Odisseu acabou de voltar a sua ilha. Era resposta a sua 
conveniente fic?ao sobre como chegou em casa, Atena responde com uma 
repreensao amigavel e um toque de orgulho: 

[...] Nao ias, 

nem mesmo estando em tua terra, cessar os engodos 
e discursos furtivos, que do fundo te sao caros. 

Vamos, nao falemos mais disso, ambos conhecemos 
maneios, pois es, de longe, o melhor de todos os mortals 
em pianos e discursos, e eu, entre todos os deuses, 
na astucia famosa e nos maneios; [...] 

(versos 293-99) 

Muitas historias miticas contam de humanos que desafiaram os deuses e 
perderam. Entao, parte do suspense da Odisseia deve brotar precisamente dessa 
perigosa colabora?ao entre divino e mortal. Odisseu ira, de alguma forma, 
ultrapassar a linha? Ele sera bom a ponto de conquistar a admirafao e ajuda da 
deusa? Ou se gaba demais da propria habilidade, correndo o risco de despertar o 
ciume de Atena e cortejar o abandono ou a morte? 

Na Odisseia, Zeus, seu irmao Poseidon e sua filha Atena sao poderes mais que 
arbitrarios ou independentes. O poeta, desde o come?o da epopeia, enfatiza as 
complexas re^des e repercussoes familiares envolvidas quando essas tres 
divindades se imiscuem em questoes de just^a humana. Zeus, o deus-chefe, e 
responsavel por manter a justi9a em nivel cosmico. Se alguem, grego ou troiano, 
e maltratado, Zeus pode ser invocado para testemunhar o ultraje e tomar a afao 
corretiva. Ele as vezes usa seus raios explosivos. Ao mesmo tempo, tanto Atena 
como Poseidon tem reclamafoes contra os gregos por injurias pessoais (a 
dessacraliza9ao do templo troiano de Atena e o cegamento do ciclope Polifemo, 
filho de Poseidon). Entao Zeus, enquanto mantem a ordem no mundo, tem de 
trabalhar tambem a harmonia do Olimpo. A esse respeito, as aventuras de 
Odisseu levam os deuses a uma nova compreensao de suas limita9oes e 


interdependence. Assim, um humano que respeita a religiao pode alterar as 
configura?oes do divino. 

Nesse sentido de etica, humana e divina, a Odisseia, em especial, e diferente 
de narrativas de vingan^a mais simples. Esta epopeia nao trata de vingan9a brutal 
ou violencia gratuita. Ao longo de todo o poema, a justeza de atos importantes - 
humanos ou divinos - e cuidadosamente analisada, debatida e avaliada. Disputas 
sao discutidas e pesadas pelas varias figuras envolvidas. Ja se pode ver em a?ao o 
espirito analitico que impregna o exame que Platao faz da j ustiga em seu dialogo 
A republica, seculos depois. A primeira vista, o mundo da Odisseia pode parecer 
sem lei. Seus habitantes claramente vivem sem regras formais, escritas, 
estabelecidas e impostas por autoridades legais. Mas a justi9a nao depende de 
leis. De fato, a palavra grega dike, com frequencia traduzida como “justi9a”, 
esta mais proxima de ideias como costume, habito e adequa9&o. O jeito como 
estao as coisas normalmente, quando familia, comunidade e mundo estao em 
ordem, e o jeito como as coisas devem estar. E isso nao depende da adesao a 
algum codigo externo de com portamento. 

Dike, nesse sentido grego arcaico, pode mesmo ser descrita como obra da 
natureza. Quando, por exemplo, Odisseu encontra sua mae no mundo inferior e 
nao pode abra9a-la, ela lhe dizque esse e o “jeito” (dike) de mortais, quando 
morrem, terem suas almas voando embora como um sonho, enquanto o corpo e 
queimado (11, 218-24). Animais tambem podem ter dike. Mas tanto humanos 
como animais as vezes ultrapassam os limites dessa “justi9a” natural. Eles o 
fazem quando perturbam a ordem das coisas, seja se recusando a dar aos outros 
o que lhes e de direito, seja por tentar tirar os bens ou a honra de outrem. Essas 
a9oes - ao contrario de dike - sao chamadas em grego de hubris. 

Na Odisseia, os pretendentes de Penelope encarnam o com portamento da 
hubris. Eles nao so estao rompendo as normas da hospitalidade, parte importante 
da dike, como cortejam com arrogancia a rainha, sem levar em conta 
precedentes, verdade ou costume. Eles arruinam a casa e desonram seus 
habitantes. Odisseu, ao contrario, ao longo de todo o poema emprega sua 
sabedoria natural para se adaptar a maneira das coisas e a vontade dos deuses. E 
isso, mais que sua piedosa integridade, que o torna “justo” em termos homericos. 
Sua vitoria miraculosa sobre os 108 pretendentes e uma confirma9§o de que 


Zeus e os deuses olimpicos conservam o equilibrio do mundo. Ultrapassar os 
limites acaba atraindo retalia?ao. Odisseu e o agente dessa justi<;a divina. 

Para apreciar por completo a postura etica da Odisseia, pode ser util conhecer 
algo mais sobre o elo entre justi?a e hospitalidade. Na Grecia antiga, os conceitos 
de “anfitriao”, “hospede” e “estranho” sao expressos por uma unica palavra: 
xenos. Aideia unificada, tao diferente da forma como nos distinguimos os tres 
conceitos, pode ser vista em a?ao ao longo de toda a Odisseia. Com insistencia, o 
poema poe em primeiro piano o tema da xenia (a rela9&o hospede-anfitriao). A 
trama se desenrola em fun9&o dessa ideia, e os personagens, do ciclope ate os 
pretendentes, sao julgados pela maneira como exercem o ideal do tratamento 
adequado a estranhos. Xenia, em resumo, representa a epitome da moralidade da 
Odisseia. 

Nao e de surpreender que, numa cultura arcaica, pre-alfabetizada, onde nao 
havia institutes internacionais ou normas reconhecidas, o comportamento 
correto em rela9&o a estranhos fosse considerado obriga9ao sagrada. (O mesmo 
fenomeno pode ser observado ainda hoje em culturas pequenas e isoladas.) Essa 
era, com efeito, a unica maneira pela qual individuos podiam sobreviver alem 
dos limites de sua comunidade local. Zeus tinha um titulo especial, Xenios, para 
denotar seu papel como protetor de estrangeiros. Qualquer infra9ao era, pois, 
uma ofensa contra o deus supremo. 

Xenia representa um exemplo-chave de uma exigencia cultural maior de 
reciprocidade. Pode-se ver esse grande principio em a9ao numa serie de outras 
areas mencionadas nos poemas homericos. O sacrificio de animais, as ora9oes e 
a guerra eram baseados na ideia de que esse equilibrio tinha de ser mantido, 
dando ou retribuindo favores ou hostilidade, fosse entre humanos ou entre 
humanos e deuses. As expectativas reciprocas subjacentes a xenia podem 
explicar a semantica do termo. Assim como qualquer “estranho” era um 
“hospede” em potencial - e tinha de ser tratado como tal -, qualquer “hospede” 
era, por implica9ao, um “anfitriao” em potencial, uma vezque se esperava que 
ele retribuisse qualquer tratamento que houvesse recebido. 

Toda a saga da Guerra de Troia pode ser interpretada como um exemplo 
mitico das catastrofes produzidas por redoes improprias entre anfitriao e 
hospede. Paris, o jovem principe troiano, era hospede de Menelau em Esparta 


quando fugiu com a esposa do anfitriao, Helena. Os comandantes gregos que 
haviam jurado ajudar Menelau foram obrigados a vingar esse crime contra a 
xenia, ate o extremo de cercar e arrasar Troia. (Dessa forma, o mito funciona 
como um precedente legal, justificando as praticas societarias por referenda a 
um caso.) Avolta de Odisseu desde Troia e, portanto, a continua?ao de uma li9ao 
de moral acerca da necessidade de manter o equilibrio na intersecfao dos niveis 
social e cosmico. Se Odisseu e bem tratado, esta tudo bem no mundo. 

Aimportancia de um tema, assim como a maioria das a9oes sociais 
significativas na Odisseia, pode ser medida pela quantidade de vezes que o tema 
reaparece. Alem disso, a repeti9ao vem na forma de “roteiros” estilizados, quase 
previsiveis - que os homeristas chamam de “cenas tipicas”. E dificil dizer se os 
roteiros sao recursos poeticos ou rituais sociais - um refor9a o outro. O tipico e o 
estrangeiro ser bem recebido com palavras gentis, com a oferta de um banho e 
roupas limpas, comida e bebida (e sem perguntas enquanto nao forem cumpridas 
essas prelim inares). Ele e estimulado a ficar o quanto quiser. Ao partir, lhe sao 
fornecidos transporte e “presentes”. Esses preciosos itens de troca constituem 
uma combina9ao de suvenir e declara9ao para o mundo da excelencia do 
comportamento do anfitriao - porque a xenia, assim como tudo o mais na cultura 
grega, podia se tornar competitiva. 

Se guerreiros como Odisseu podem se transformar em paradigmas de um 
comportamento que a divindade aprova, nao e de surpreender que mortais 
especiais possam obter um lugar separado do de outros humanos, mais proximo 
dos deuses em term os de celebridade e poder. Aideia do “heroi” como alguem 
entre homem e deus e uma inven9ao especificamente grega. Por todo o mundo 
grego, os tumulos de homens e mulheres que obtiveram fama na comunidade 
eram locais de adora9ao desde pelo menos o seculo VIII aC, ate mesmo na era 
crista. Vale notar que nem todos eram, de jeito nenhum, heroicos no sentido 
corrente de hoje. Os herds e heroine nao eram seres primordialmente morais, 
mas sim pessoas de grande for9a ou de conexoes especiais com o divino. O 
poder de amaldi9oar ou causar dano a outros marcava o status de heroi tanto 
quanto a coragem em prol da sociedade: esse era o lado escuro do poder de fazer 
o bem ou curar. Heracles, cujas aventuras o levaram por todo o mundo 
conhecido, combinava de maneira conspicua a coragem do guerreiro com seu 
comportamento anomalo, furioso mesmo (as vezes desculpado como “loucura” 


enviada por sua nemesis, Hera). Ele morreu, mas paradoxalmente viveu para 
sempre ao ser levado para o Olimpo depois de sua morte ferozno monte Eta. Sua 
historia pode ser tomada como um paradigma para outras - o heroi luta, governa, 
muitas vezes peca, morre e ganha fama pos-morte (uma forma de imortalidade) 
ao lado de seu poder semidivino. Mesmo o parricida Edipo era associado a 
honras heroicas em diversos lugares; a pe?a Edipo em Colono, de Sofocles, conta 
da luta entre Atenas e Tebas na disputa pelo premio de abrigar seu tumulo. 

Dentre aqueles associados a saga de Troia, figuras como Aquiles, Menelau, 
Agamemnon e Diomedes eram adorados com ritos de sacrificio especificos do 
“culto” aos herois em santuarios por todo o Egeu. Os aspectos perigosos do heroi 
podem ser em parte vislumbrados nas historias sobre cada um desses homens, 
tanto dentro das epopeias homericas quanto alem delas. Afuria sagrada de 
Aquiles, que causou a destrui^ao de seus proprios companlieiros na guerra, bem 
como sua capacidade guerreira contra os troianos, comprovava seus poderes 
heroicos. Centenas de outros herois, muitos deles desconhecidos no geral, sao 
nomeados em outras fontes literarias ou em inscrifoes, uma vezque cada 
comunidade de alguma importancia podia exibir seu heroi local. Os pretensos 
tumulos de herois e heroinas atraiam pessoas em busca da ben?ao e prote9ao que 
ancestrais assim poderosos poderiam proven Trabalhos arqueologicos recentes 
demonstram que em muitos casos esses cultos comefavam em tumbas reais de 
pessoas da era micenica, talvezlocais redescobertos no seculo VIII e depois. No 
nivel civil, as figuras heroicas eram muitas vezes pioneiros fundadores de uma 
cidade ou colonia, e assim constituiam epitomes da historia e das ambifoes de 
uma comunidade. O fato de lideres de exped^Ses colonizadoras serem por vezes 
assassinos fugitivos em nada diminuia sua heroiciza9ao. A historia de Odisseu une 
diversos desses tra90s. Primeiro, ha indicios de que era adorado como heroi em 
Itaca, com a consagra9ao de tripodes arcaicos feita numa caverna perto da baia 
Polis (a data da sagra9&o e discutivel: seculo VIII ou III aC). Segundo, no seculo 
VI aC (e muito provavelmente antes), a Teogonia, de Hesiodo, atribuia a Odisseu 
dois filhos com Circe, chamados Latino e Agrio, que afirmava-se terem 
governado, j unto com Telemaco, os etruscos do ocidente. Em outras palavras, 
Odisseu era ao mesmo tempo heroi e pai de herois colonizadores. Por fim, em 
sua furia justificada contra os pretendentes, Odisseu se assemelha a seu rival 
Aquiles, como expoente de ira divina. 


Personageme triangulo domestico 

A Odisseia contem dezenas de personagens. Parte do encanto do poema est& em 
sua capacidade de criar um mundo ficticio realista, povoado nao apenas por 
herois, mas por escravos e criados que os servem, pastores e cocheiros, alem de 
bardos e videntes. Segundo um importante tratado sobre arte literaria, Do sublime 
(atribuido a certo “Longino” e presumivelmente escrito no seculo I de nossa era), 
os esbo90s de vida cotidiana da casa de Odisseu constantes do poema eram 
“comedia de costumes” (IX, 15 : komoidia tis estin ethologoumene). 

Apesar de toda a profusao de personagens, o poema permanece focado em 
torno de tres mortais: Odisseu, seu filho e sua esposa. O papel de Telemaco como 
um foco da narrativa e figura proxima do publico ja foi mencionado. Mas que 
di2er de seus pais? 

Um folclorista classificaria Odisseu, o protagonista compacto, rijo, que 
derrota grandes feras, como aquela figura universal do trickster. Esses 
personagens brotam da profundidade dos mitos. Tricksters bem conhecidos dos 
nativos norte-americanos e da Africa, personagens como Aranha, Corvo ou 
Coiote dao forma a maneira como o cosmos e organizado, criando novas terras 
ou inventando habilidades ou elementos essenciais, como a tecelagem ou o fogo. 
Hermes (em algumas versdes, um ancestral de Odisseu) se encaixa nesse 
aspecto - o Hino a Hermes mostra sua inven9ao do sacrificio, por exemplo -, 
enquanto Odisseu apresenta qualidade de trickster num a dimensao mais hum ana. 
Assim como as figuras folcloricas, ele esta associado a comida (como o mendigo 
esfaimado ou o senhor que da vinho aos cic lopes, bem como o unico guerreiro da 
Iliada a insistir com Aquiles para que coma antes da batalha). Como o trickster, 
ele e conhecido pelas redoes com mulheres e com portamento lubrico. Suas 
aventuras muitas vezes envolvem animais. Ele proprio nao e bestial, mas goza 
mesmo assim de um status “limitrofe”, por vezes na fronteira entre o mundo 
humano e o natural. Pode-se ler seu personagem como um avan90 alem da 
amoralidade do trickster, como ele sabe muito sobre comida, pode tambem 
resistir a tenta9oes (cf. o gado de Sol) e, como sabe muito sobre mulheres 
tambem, pode resistir a Circe e a Calipso (ao menos no final). Odisseu encarna 
as exigencias mais rigidas do ethos heroico, embora possa ser excessivo chama- 
lo de trickster etico. 


A Odisseia, porem, e mais que uma narrativa picaresca sobre um heroi 
trickster. Amudan^a fundamental do folclore para o epico (ou, diriam alguns, 
“protorromance”) depende da decisao do poeta de cravar Odisseu num conjunto 
de relacionamentos com outros personagens - um ambiente raro para o trickster, 
em geral um lobo solitario. A Odisseia insiste nessas conexoes sociais por sua 
propria estrutura, entrela9ando as historias de Telemaco e Penelope com a de 
Odisseu, e emoldurando o todo dentro do motivo de uma familia que com cautela 
avan?a ao encontro do destino. Vale a pena apontar ainda que a volta ao lar 
( nostos ) de Odisseu e uma volta ao mesmo tempo pessoal e sociopolitica. Isso 
torna a Odisseia mais complexa e realista do que um simples romance sobre um 
casal que se reencontra. De fato, quando ouvimos falar de Odisseu pela primeira 
vezno poema, Penelope ainda nem foi mencionada; ele esta sentado na praia da 
ilha de Calipso, desejando ver a fuma9a da chamine de seu lar. Um 
enraizamento e seguran9a mais amplos estao em questao com sua volta. Odisseu 
precisa de seu lugar no padrao social - como rei, guerreiro, aristocrata, pai, 
marido, filho - tanto quanto anseia pela intimidade privada com a esposa. Por 
outro lado, seu reencontro com Penelope renova toda Itaca; ate mesmo Laerte, 
seu pai, rejuvenesce, e, quando o poema termina, tres gera9oes estao juntas, 
uma imagem ideal de continuidade e regenera9ao. Isso quer dizer, enfim, que o 
“carater” de Odisseu no poema e uma fun9&o de sua abertura, sua habilidade de 
se permitir confiar em outros poucos (como Nausicaa), de perder ao menos um 
pouco da desconfian9a do solitario. Engodo e espirito de sobrevivencia - o legado 
do trickster- perm item que ele chegue em casa, onde imagina9ao, empatia e 
uma sensa9ao de responsabilidade mais ampla completam sua reintegra9ao, 
mesmo depois de vinte anos de ausencia. 

E que dizer da mulher que esperou todos esses anos? No final da Odisseia, 
sentimos que o heroismo feminino e tao importante, senao mais, que o 
masculino. O heroismo de Penelope assume uma forma que William Faulkner 
identificaria milenios depois entre os sobreviventes do Sul torturado dos Estados 
Unidos: uma calada capacidade de suportar. 

Nao podemos separar a caracteriza9ao de Penelope do cuidadoso tratamento 
do poeta com as mulheres em geral. As mulheres no poema sao muito 
fascinantes porque seus retratos tendem a se sobrepor e ressoar. Penelope e a 
ninfa Calipso sao ambas tecelas e criadoras com uma liga9ao profunda com 


Odisseu; Helena parece Circe em seu conhecimento de drogas e seus efeitos 
sobre os homens; Arete, a rainha dos feacios, governa a casa da ilha, assim como 
Penelope; ela, assim como sua filha Nausicaa e a ninfa Leucoteia, revelam-se 
benfeitoras durante a busca do heroi. E, claro, Atena - a astuta e sabia protetora 
de Odisseu - assume algo de todos esses papeis femininos como diretora de cena 
da trama e tra9a a volta do heroi. Odisseu parece tao intimamente ligado a ela 
como a sua sofredora esposa. (Dada sua importancia, uma teoria sobre a origem 
do poema sugere que a Odisseia foi registrada por escrito em Atenas, 
especificamente em honra da padroeira divina daquela cidade.) 

Sao tantos e tao artisticos os retratos de mulheres fortes e fascinantes na 
Odisseia que mais de um critico propos que o poema tivesse sido composto para 
uma plateia predominantemente feminina. Indo um pouco mais longe, o 
romancista ingles Samuel Butler publicou, em 1897 , The Authoress of the Odyssey 
[Aautora da Odisseia ], no qual sugere que uma mofa escreveu a epopeia 
(alguem como Nausicaa). Sabendo o tipo de recep?ao que seu livro bastante 
ironico receberia dos homeristas “verdadeiros” de seu tempo, Butler divagou 
assim: “Sera que os eminentes estudiosos homericos encontraram tamanha 
seriedade nas partes mais humoristicas da Odisseia porque eles teriam colocado 
a seriedade ali? Para os serios, tudo e serio”. 

Avisao de Butler, infelizmente, vem carregada de uma dose de sexismo 
vitoriano - para ele, os indicios de um autor feminino eram dados por tra90s da 
Odisseia como um tom mais leve, um interesse narrativo em dinheiro e em 
mentiras e em certa confusao na descri9ao do cordame dos navios. Ele observou 
com corre9&o que ninguem ri das mulheres na Odisseia, mesmo que as pessoas 
riam com bastante frequencia na Odisseia como um todo (vinte e tres vezes, 
contra onze vezes na Iliada). 

O que Butler e outros caracterizaram como uma diferen9a de visoes de 
genero nos dois poemas pode ter mais a ver com o tema e o conteudo. A Odisseia 
parece ser muito mais humana, pratica e pragmatica; mais interessada no 
cotidiano que naquilo que e exclusivamente heroico; mais religiosa no sentido de 
que mostra a imanencia do divino e os deuses moldando um final feliz; e mais 
esperan90sa que a Iliada, ao menos na sugestao de que e possivel voltar para 
casa. Se isso reflete um ponto de vista “feminino” depende, e evidente, de como 


determ inada cultura conceitua o genero. 

E inegavel que os trafos mais sofisticados de caracterizafao e insight 
psicologico na Odisseia tem como centro uma mulher, Penelope. No decorrer do 
poema, nos a vemos como mae ansiosa, lidando com um filho que atinge a 
maioridade; como esposa fiel, saudosa do marido ausente ha vinte anos; como 
chefe de uma casa real de grande dimensao, e como objeto do desejo de uma 
multidao de jovens pretendentes determinados. De fato, a historia e tanto sobre 
Penelope quanto sobre Odisseu. Em sua inteligencia e firmeza, ela permite que 
ele sobreviva, uma vez em casa. E e seu astuto teste final da cama que o leva a 
reconhecer seu laijo emocional com ela, por ser um emblema dessa liga?ao. 

Mas arrolar as qualidades de Penelope como se nunca fossem postas em 
duvida e desperd^ar o suspense que a narrativa do poema consegue criar e 
manter. Ela vai continuar firme? O que ela quer de verdadel Em anos recentes, 
vim os numerosos estudos sobre Penelope inspirados por abordagens feministas 
(Cohen 1995; Felson-Rubin 1997; Katz 1991 e Doherty 1995). Com a ajuda deles, 
podemos apreciar melhor a complexidade e mesmo a ambivalencia que o poeta 
homerico embutiu no retrato da rainha de Itaca. Adecisao de Penelope de 
aparecer diante dos pretendentes, embora declare abomina-los, e de instituir o 
concurso de arco e flecha justo quando seu marido voltou, deixa a plateia se 
perguntando sobre sua motiva?ao e metodo. Ela cedeu, relutante, as exigencias 
dos pretendentes, ou, ao contrario, intuiu que o sofredor Odisseu esta de volta? 
Sera possivel que a vida solitaria tenha lhe dado uma nova independence, de 
forma que ela (ao contrario de suas primas Helena e Clitemnestra) possa 
efetivamente tomar boas decisoes na ausencia do marido? Ela e de fato a for^a 
que mantem a casa? E o que tudo isso pode ter significado para uma plateia 
grega arcaica? Adescrifao do poema homerico - como a da trama de relagoes 
que Penelope mantem - permanece forte e provocante e o poema chega vivido 
ao seculo XXI. 


TRADU^AO Jose Rubens Siqueira 


1 As obras citadas encontram-se listadas na Bibliografia, p. 625. 


2 Escolha igualmente adotada pelo tradutor da presente edi9ao, conforme 
atestam as versoes entre colchetes. 

3 Uma versao ficcional das pesquisas empreendidas por Parry e seu 
assistente pode ser encontrada no romance Dossie H, do escritor albanes Ismail 
Kadare, trad. Bernardo Joffily. Sao Paulo: Companhia das Letras, 2001. [N. E.] 


INTRODUCAO CHRISTIAN WERNER 


Para o verbete “odisseia”, encontramos, no Dicionario Houaiss da lingua 
portuguesa, tres acepfoes: 

1 ) longa perambula9ao ou viagem marcada por aventuras, eventos 

imprevistos e singulares; 

2 ) narra9ao de viagem cheia de aventuras singulares e inesperadas; 

3 ) travessia ou investiga9ao de carater intelectual ou espiritual. 

Em bora nao o esgotem, esses sentidos abarcam o conteudo do poema atribuido a 
Homero, sobretudo quando se compara a Odisseia a outro poema epico grego, a 
lliada, atribuido por muitos, desde a Antiguidade, ao mesmo Homero. As obras 
deixaram duas expressoes em portugues que aludem ao modo como se deu a 
recep9ao dos poemas no Ocidente: “gregos e troianos”, em referenda a um par 
de opostos inconciliaveis, e “odisseia”, que, antes de tudo, remete a um percurso 
cheio de dificuldades e que convida a uma narra9ao. 

As acep9oes em estado de dicionario, embora de forma mais restrita, ou seja, 
sem dar conta de uma complexa teia mitopoetica, fazem parte da historia do 
termo grego nostos, cujo sentido basico e mais comum e “retorno”, sendo 
composto por um lexema presente em “nost-algia”, palavra moderna que 
designa a dor causada por uma distancia virtualmente intransponivel de um lugar 
ou tempo familiar e desejavel. Araiz verbal do substantivo nostos, porem, tem a 
conota9ao mais precisa de “voltar sao e salvo para casa”, e tambem a de 
“retornar da morte para a vida” (Frame 2009 ): a primeira acep9ao do dicionario 
(“longa perambula9ao”) esta presente em nostos, ao passo que a segunda 
(“narra9§o de viagem”) pertence a historia de outro substantivo que parece 
compartilhar da mesma raiz, noos, que se refere, em Homero, a uma faculdade 
cognitiva ligada a visao, e pode ser traduzido por “mente”, “ideia” e “espirito”. 
Tais sentidos de nostos apontam para uma constela9ao mitica na qual se 
articulam duas imagens ou ideias: o percurso da morte para a vida e o caminho 
da escuridao para a luz. Vejamos de que forma eles marcam a Odisseia, a partir 
de um roteiro que investiga os significados da palavra. Antes, contudo, passemos 


por um rapido resumo da narrativa. 

O poema come?a quando o heroi decide retornar a sua ilha, Itaca, e retomar 
o poder sobre ela e sua casa, instigado e auxiliado por dois deuses: Atena, que por 
diversas vezes estara ao lado de Odisseu (tambem conhecido por Ulisses, que 
deriva, atraves do latim Ulixes, das variantes dialetais gregas Oluteus, Oluxeus e 
Oulixes, entre outras), e Zeus, que em ultima instancia tem controle sobre o 
retorno do heroi (Marks 2008; Bakker 2013). Nos cantos de 1 a 4, o leitor 
acompanha Telemaco e os pretendentes de Penelope, que, tendo se declarado 
viuva, viu-se cercada de um bando de j ovens que a cortejam; nao escolhe 
nenhum, acreditando no regresso do marido. Para pressiona-la, os pretendentes 
dilapidam as riquezas de Odisseu, enormes rebanhos de gado e ovelhas. 
Telemaco, sentindo-se prejudicado, recebe uma visita de Atena e resolve partir 
em busca de novas acerca do pai. Come?a por visitar dois nobres, Nestor e 
Menelau, antigos companheiros de arma de Odisseu. 

Vinte anos antes, Odisseu participara da guerra contra Troia, tambem referida 
como Ilion. Paris, filho de Priamo, rei de Troia, seduzira a belissima Helena, 
mulher de Menelau, rei de Esparta. Odisseu e seus companheiros de Itaca e 
cercanias engrossaram o enorme contingente de tropas gregast^] sob o comando 
de varios herois, como Agamemnon - comandante supremo, irmao de Menelau 
-, Aquiles, Ajax, Nestor e Diomedes. As tropas guerrearam Troia por dez anos, 
ate aniquilar a cidade, matar a popula9ao masculina e escravizar mulheres e 
criangas, valendo-se do bem-sucedido artificio do cavalo de madeira que 
permitiu superar as muralhas de prote^ao. Fora uma guerra motivada tanto pela 
repara<;ao da desonra causada pelo “rapto” de uma rainha casada com um nobre 
poderoso quanto pela perspectiva de bens materials que a vitoria propiciaria 
aqueles que resistissem ate o triunfo final. 

Terminada a guerra, alguns herois chegaram rapida e facilmente em casa; 
outros, como Menelau e Odisseu, nem tanto. No canto 5, Odisseu esta numa ilha 
distante das terras conhecidas pelos homens cuja senhora e a ninfa Calipso, de 
quern se ve obrigado a ser amante. Por ordem dos deuses, a ninfa permite que 
ele parta. O heroi se lanfa ao mar numa jangada, destruida em uma tempestade 
enviada pelo deus que e seu antagonista, o senhor dos mares, Poseidon. 

Naufrago, Odisseu chega a Esqueria, ilha do povo feacio. E muito bem recebido 
pelo casal real, Arete e Alcinoo, e sua filha, Nausicaa, que o celebram em 


banquetes, jogos esportivos e performances do poeta local, o excelente (e cego) 
Demodoco. O bardo canta tres historias: a briga entre Odisseu e Aquiles em certo 
momento da Guerra de Troia, o adulterio de Afrodite com Ares e a tomada de 
Troia por meio da emboscada do cavalo de madeira, comandada por Odisseu 
(cantos 6-8). So depois dessa terceira historia o heroi e confrontado pelo rei para 
revelar sua identidade; numa longa madrugada, ele conta todas as aventuras 
pelas quais passou ate chegar a ilha de Calipso - entre elas, o cegamento do 
ciclope Polifemo, a resistencia ao canto das Sirenas e o ano que passou com 
outra ninfa, a maga Circe (cantos 9-12). 

No canto 13, enfim, Odisseu desembarca em Itaca. Obedecendo a um 
conselho de Atena, que o torna irreconhecivel ao transforma-lo em mendigo, ele 
nao revelara a identidade a seus familiares. E como mendigo e declarando-se 
cretense que aparece a seu fiel porqueiro, Eumeu (canto 14), e com ele adentra 
sua antiga casa (canto 18), nao sem antes, mais uma vezcom o auxilio da deusa, 
identificar-se ao filho (canto 16). Sofrera varias humilhasoes em sua propria 
morada (cantos 17-21), mastambem cativard Penelope; ainda sem conhecer a 
identidade do estrangeiro, porem curiosamente a vontade na presen?a dele, a 
rainha estabelece uma prova entre os pretendentes para escolher o novo marido: 
desposara quern for capazde manejar o arco de Odisseu e fazer a flecha passar 
entre doze machados (canto 19). Ninguem consegue, salvo o mendigo (canto 21), 
que dirige a segunda flecha contra um dos lideres dos pretendentes; na sequencia, 
todos sao chacinados (canto 22). Enfim, Odisseu revela sua identidade a esposa, 
passa com ela a noite (canto 23) e, no dia seguinte, precisa enfrentar os parentes 
furiosos dos pretendentes mortos (canto 24). Mas Zeus interfere, impedindo outra 
escaramufa, e o poema termina. 


O retorno a casa 

Quando pensamos em Odisseu, logo nos ocorre o estratagema de sua devotada 
Penelope, que de dia tecia uma mortalha para o sogro, Laerte, e a noite a 
desfazia; ou as aventuras a que o heroi sobrevive depois que os navios sob seu 
comando deixam Troia. O poema tematiza sua propria condi?ao de existencia 
como uma rememorafao de fa?anhas de homens notaveis no passado, ou seja, 
sugere que existe para rememorar, aproximar do presente uma linhagem de 
homens para sempre extinta, que um dia estiveram proximos dos deuses, a quern 
se ligavam por parentesco, ainda que distante: os “herois” (Graziosi & Haubold 
2005). Alem de honra e riqueza, todo heroi que se destacasse nos com bates em 
Troia conquistaria a fama a ser perpetuada entre as gerafoes futuras, inclusive e 
em especial como canto poetico. Assim, o heroi supremo da lliada e Aquiles; 
gra?as a ele o poema existe. Odisseu, por seu turno, ao embarcar rumo a sua 
ilha, leva na bagagem enorme riqueza, provas de sua honra, e a gloria de ter sido 
o derradeiro responsavel pelo exito da batalha final. Atudo isso, porem, sao dados 
valores cambiaveis a medida que a Odisseia transcorre, e um mundo diverso 
daquele da lliada e apresentado no poema. A lliada, ou seja, a representa?ao da 
Guerra de Troia e daquilo que motivou as a^Ses de seus combatentes, e o 
passado da Odisseia. 

O leitor moderno pode ja ter deparado com obras que remetem a 
determ inado aspecto da Odisseia, a saber, o dos problemas enfrentados por 
combatentes que retornam de uma guerra ardua; pensemos, por exemplo, em 
Mrs. Dalloway, de Virginia Woolf, e nos filmes sobre os norte-americanos que 
combateram no Vietna. A Odisseia elabora uma postura critica, ou pelo menos 
polemica, em relasao ao modo como a Guerra de Troia conferiu fama heroica a 
Odisseu e outros gregos. E critica, por exemplo, ao acentuar danos irreparaveis 
causados a casa de um senhor quando de sua ausencia excessivamente 
prolongada - Clitemnestra, esposa de Agamemnon, trai o marido ausente com 
Egisto, que mata o titular quando ele retorna. E polemica ao contrapor feitos 
heroicos e suas consequencias, como o regresso de Odisseu e a morte de Aquiles. 
Quando se menciona um fato que, do ponto de vista da viagem de volta do heroi, 
esqueleto do poema, esta no passado (distante) - como o retorno do 
generalissimo Agamemnon a sua casa, onde, em companhia de sua valiosa 
concubina troiana, Cassandra, filha de Priamo, e vitima de emboscada -, essa 


historia embutida coloca o poema sob determinada perspectiva: nao ha como 
Odisseu ter certeza de que Penelope nao sera a sua Clitemnestra, e isso explica 
que ele aceite a tatica de Atena. O fracasso da volta de Agamemnon, episodio 
varias vezes lembrado na Odisseia, sugere que a gloria obtida pela destru^ao de 
Troia nada garante a posteriori, a nao ser algum tipo de lembranQa. 

O Odisseu que a Odisseia quer que admiremos nao e o heroi das fa?anhas 
guerreiras em Troia. Quando navega ao longo da ilha das Sirenas, amarrado ao 
mastro de seu barco, e o unico ouvinte de seus feitos pregressos narrados pelas 
criaturas miticas com um canto cuja finalidade e atrair para a morte quem o 
escuta; quando, vestido com sua armadura, atravessa o estreito entre Cila, um 
monstro que vive numa caverna, e Caribdis, um espetacular redemoinho, e o 
espectador impotente da patetica morte de seis companheiros. Nesses e em 
outros momentos, nao e o heroi, em primeiro lugar, que nos causa admirafao, 
mas o estranho e fascinante mundo que conhecemos por intermedio dele. 
Tambem no Hades, quando Odisseu conversa com seus pares mortos, 
Agamemnon e Aquiles, nao se trata de uma conversa para lembrar as fa9anhas 
do passado, e sim de um lamento causado pela morte, contra a qual so resta, 
como consolo para quem nao pode voltar para casa, o valor do filho, potencial 
herdeiro e perpetuador da linhagem do pai (Assun9ao 2003 ). 

Algo diferente acontece naquela que e a aventura emblematica de Odisseu, o 
cegamento do ciclope Polifemo. Assistimos ao embate simbolico entre as duas 
mais importantes potencias que podem se manifestar nas a9oes de um heroi: a 
for9a bruta, pela qual se distinguem, por exemplo, Aquiles e Heracles (outro 
heroi que, no poema, se opde a Odisseu, embora, sobretudo como arqueiro, 
permita ao poeta usa-lo tambem como figura paralela a Odisseu), e a astucia, 
cujo representante humano mais destacado e o proprio Odisseu (no piano divino, 
Atena e Hermes), que se dela fosse desprovido jamais teria sido capazde 
discernir o unico modo de escapar da caverna habitada por aquele ser de for9a 
descomedida. Odisseu e impotente para veneer Polifemo numa luta aberta (a 
tatica dos fortes e rapidos, como Aquiles e Diomedes), e, a espera do momento 
correto de agir, ve perderem a vida alguns de seus companheiros, vitimas do 
canibalismo da criatura monstruosa. O heroi ate procura evocar a fama do 
exercito aqueu, em particular a de Agamemnon, como prestigioso cartao de 
visitas, mas o ciclope diverte-se com a ingenuidade do estranho que nao conhece 


os costumes locais, em muito pouco semelhantes a institutes e habitos 
“civilizados”. Num atimo, porem, a inteligencia de Odisseu - aparentemente 
falha por te-lo conduzido a uma arapuca - arma um piano genial, em cujo centro 
esta a absoluta nega9&o do que e representado no heroismo iliadico: Odisseu 
autodenomina-se Ninguem, o oposto do heroi que, em momentos de luta 
aguerrida, gosta de bradar nome e linhagem. Esse falso nome vai confundir os 
outros ciclopes, que, alertados por Polifemo, ja cego, nao compreendem o que 
ele dize o abandonam. 

E nos instantes em que se sacrificam os protocolos heroicos mais prezados no 
mundo da guerra que Odisseu consegue escapar da morte. Paradoxalmente, 
porem, a Odisseia repetidas vezes confere a seu heroi uma identidade 
(passageira?) de guerreiro belicoso. Quando por fim revela seu nome ao ciclope, 
ja se afastando da praia, Odisseu deixa de ser Ninguem e fixa naquela terra 
selvagem sua identidade heroica. Assim, possibilita que Polifemo, filho de 
Poseidon, fa9a uma prece ao pai, pedindo que o retorno de Odisseu seja o mais 
sofrido e longo possivel. E gra9as a revetao de sua identidade que o ciclope 
pode reagir - sem o nome do adversario, nao ha magia eficaz contra ele -, e 
pelas a9oes de Poseidon o poema existe. Dessa forma, ainda que a narrativa 
reitere nao haver raposa mais sagazque esse heroi, sua ingenuidade ao entrar na 
caverna repleta de sinais sinistros e sua arrogancia ao bradar seu nome epico nos 
indicam que herois nao sao figuras a serem emuladas em seu todo, mas antes 
agentes de histarias impressionantes, e portanto portadores de qualidades notaveis 
em um mundo que nao e aquele do publico do poema. 

O que esta em jogo e a caracteriza9&o de Odisseu: ela seria inconsistente, ja 
que em alguns instantes nao age como o heroi que personifica a astucia? Por um 
lado, ao contrario de seus companheiros, ele nao foi um bom leitor dos sinais 
oferecidos pela caverna, e so depois percebe que nada pode contra o ciclope, 
restando-lhe, mediante a tatica apropriada, aguardar o momenta propicio da 
fuga. Por outro, mesmo que tenhamos a impressao de que a astucia sucumbe, no 
final, ao “energico animo” que fazdos herois homens fisica e mentalmente 
superiores a nos, ainda assim, o que garante nao so a salva9ao de Odisseu mas 
tambem o trecho mais prazeroso da historia sao sua astucia e a capacidade de 
nao se deixar dominar pelo agudo sofrimento de ver os companheiros sendo 
devorados pela criatura antropofaga. Quando, j a em Itaca, buscar for9as para 


enfrentar, praticamente sozinho, os mais de cem pretendentes de sua esposa, ele 
relembrara o embate com Polifemo (Werner 2009). Nesse momento, e de sua 
astucia excepcional que recorda, e nao da bazofia que encerra o episodio, 
indicando-nos o que ha de exemplar e admiravel na aventura, uma das razoes 
para ela continuar a ser cantada. 

Aviagem de Odisseu tern tres momentos: no primeiro, perde paulatinamente 
as naus em que ele e os companheiros partiram de Troia; no segundo, ja sozinho, 
enfrenta o naufragio da balsa que construira na ilha de Calipso e chega a terra 
dos feacios, Esqueria. Apartir desse momento, Poseidon nada mais podera 
contra seu inimigo, e a deusa protetora de Odisseu, Atena, passara a zelar pelo 
mortal, que afirma ser seu preferido por assemelhar-se a ela - o que nao 
significa que, no restante do percurso, o heroi se eximir& de tomar decisoes 
delicadas ou suportar grande sofrimento sozinho : Odisseu nao e apenas astuto, 
mas resiliente. Mesmo que o narrador nos conte, desde o inicio, que o heroi tern 
uma aliada desse porte, em nenhum momento ele nos deixa esquecer que 
Odisseu esta submetido a mesma fragilidade humana que marca a condi?ao de 
outros sofredores, como o porqueiro Eumeu, seu fiel escravo. Se a lliada e o 
poema do heroi que, por seu carater e decisdes, apressa seu percurso rumo a 
morte, Odisseu e aquele que dela sempre de novo escapa (Pucci 1995). 

Nao e com pompa e circunstancia que o naufrago anuncia sua identidade 
aqueles que o acolhem em Esqueria; calejado, demora a permitir que seus 
anfitrioes, o casal real e sua filha, saibam que tern diante de si um mortal 
excepcional. Nao deixa de ser curioso esse processo, que so em parte pode ser 
compreendido como a paulatina ressurre^ao de uma morte simbolica que 
culminou nos inumeros anos que teve de passar na ilha de Calipso, “a que 
encobre” (Vernant em Sc he in 1996; Segal 1994). Logo antes de revelar sua 
identidade, ao ouvir o aedo feacio Demodoco cantar a historia da conquista de 
Troia, o narrador dizque Odisseu chorava como uma mulher de cidade 
conquistada, viuva a ser levada como escrava pelo inimigo apos perder o marido 
na guerra. Essa imagem, uma das varias comparafoes ou similes estendidos que 
marcam o estilo homerico, sugere que as historias que Odisseu conta na 
sequencia para se apresentar ao povo que o conduzira sao e salvo para casa nao 
sao apenas o movimento encomiastico de reconquista de sua identidade, ou seja, 
um mero retorno a uma situa 9 ao inicial. Odisseu nao e mais o mesmo, entre 


outras razoes, porque pelos cantos poeticos que ouve entre os feacios, sobre sua 
participafao na guerra de Troia, ele compreende de outro modo o que viveu 
(Halliwell 2011; Peponi 2012). Uma dimensao de luto jamais deixara o heroi, 
paralela ao permanente sofrimento que, na compara9ao, a mulher cativa 
enfrentara, para sempre longe do marido e a merce de uma vida de pesados 
trabalhos. 

Tambem nao e suficiente supor que um certo realismo psicologico exija que, 
na narrafao da chegada a terra dos feacios, Odisseu, alquebrado viajante nu, nao 
se jacte de saida de sua identidade para nao ser confundido com um “ninguem” 
mentiroso. Ou entao supor que o narrador prolongue sua narrativa somente para 
aumentar a tensao, utilizando uma estrutura tematica que explorara ao maximo 
quando Odisseu chegar a Itaca, a do forasteiro que aparenta ser alguem sem eira 
nem beira, que precisa conquistar a simpatia dos anfitrioes em terra estranha. 
Uma odisseia e um nostos porque quern esta longe de casa so consegue retornar 
gra?as a ajuda de um terceiro (Frame 2009). 

Odisseu por pouco nao regressa logo apos a guerra. Voltava com Nestor, mas 
se desentende com ele e da meia-volta rumo a Troia para se encontrar com 
Agamemnon. Ora, “Nes-tor” e justamente “aquele que trazpara casa” (mesmo 
radical verbal presente em nostos), de sorte que, apenas quando Odisseu encontra 
o benevolo mas sobretudo firme e justo rei “Alci-noo” (“aquele que trazpara 
casa por meio de sua for9a”), seu retorno pode ser bem-sucedido (Frame 2009). 

Uma vezem Itaca, inicia-se a segunda parte do poema, quando Odisseu 
assume o disfarce de um cretense atingido pelas vicissitudes do destino e, 
vagamundo, para sobreviver depende da bondade alheia e da propria astucia. O 
cretense consegue a simpatia de Eumeu e, apos Atena promover o reencontro e 
reconhecimento entre Odisseu e Telemaco, o heroi dirige-se a sua propriedade. 


Aviagem do filho 

Nao e apenas a viagem de Odisseu que compde a estrutura narrativa do poema, 
mas tambem uma outra que, de forma extraordinaria, posterga a efetiva entrada 
em cena do heroi principal ao mesmo tempo que coloca em perspectiva sua 
gesta - urn contraexemplo da tese de Erich Auerbach, segundo a qual so vale o 
primeiro piano na narrativa homerica, nao havendo uma busca de perspectiva 
espacial e temporal (Auerbach 1976). Mas o retorno de Odisseu e narrado a 
partir de outros re tor nos. 

Quando a historia come?a, a situa?ao e de crise tanto para o heroi, esquecido 
ha tempos pelos deuses na ilha de Calipso, quanto para sua familia. O filho, na 
fronteira entre a adolescencia e a vida adulta, ainda nao e senhor de sua casa, 
tomada pelos j ovens pretendentes que, de forma abusiva e vil, consomem o 
patrimonio de Odisseu em banquetes diarios - unico modo de pressionar a rainha. 
Como sao mais de cem pretendentes, filhos de familias notaveis de Itaca e 
cercanias, nao ha nenhuma medida pratica por meio da qual o jovem possa por 
fun ao abuso. Alem disso, Telemaco cresceu sem pai, ou seja, sem urn exemplo 
que lhe fizesse discernir o que ele proprio herdou de sua respeitavel linhagem. A 
mae de Odisseu j& esta morta e o avo paterno, Laerte, vive no campo como um 
pobre eremita cuja unica companhia sao os escravos. E Atena que, de novo 
transmutada em um aliado da familia (primeiro Mentes, depois Mentor), 
consegue fazer com que Telemaco encontre em si mesmo a motiva?ao 
necessaria para enfim sair de sua letargia infantil (Werner 2010 e 2013). 

Quando mais tarde Odisseu, j a em Itaca, entra em casa disfar^ado e, no final 
da prova do arco estabelecida por Penelope, dispara a primeira flecha contra 
seus inimigos, ele pode contar com a ajuda de um jovem que, temos certeza, nao 
desapontara o pai. O narrador mostra que a heran^a dos valores que distinguem 
os ancestrais e um processo complexo e, para quern a ele assiste, assombroso. Se 
Homero fosse confrontado com uma discussao paradigmatica cara a 
intelectualidade grega do seculo V aC, qual seja, se o com portamento virtuoso de 
um individuo e inato ou adquirido, nao parece que ele optaria por um dos polos. 
Todos os interlocutores de Telemaco tern certeza de estar diante do filho de 
Odisseu - e nao so pela semelhan9a fisica -, mas o proprio Telemaco so entende 
o que isso significa em term os de direitos e deveres a partir do contato com seus 
pares e do choque contra seus inimigos. 


Nos quatro cantos iniciais do poema, Telemaco e potencialmente o 
protagonista da historia. E certo que durante todo esse tempo Odisseu e a 
vingan^a inevitavel contra os pretendentes sao trazidos a consciencia do leitor. 
Telemaco, porem, filho unico, assim como unico filho varao de Laertes foi 
Odisseu, e quern continuara a linhagem do pai e sera seu herdeiro em Itaca. O 
percurso heroico de Odisseu seria virtualmente inutil se nao tivesse um filho que 
desse continuidade ao prestigio de seu nome. Nao surpreende, portanto, que o 
jovem nao ocupe a posifao de mero espectador passivo das fa 9 anhas 
inigualaveis do pai e, como ouvinte, daquelas da velha guarda de Troia. A 
situa?ao e bem diferente do que vemos na Troia da Iliada, onde um heroi no 
auge do vigor fisico, Heitor, e o comandante supremo do exercito, pois seu pai, 
Priamo, e um anciao que apenas mantem certo poder politico na cidade. O filho 
de Heitor, Astianax, por sua vez, e uma crianfa. 

Tanto Telemaco quanto Odisseu, durante suas viagens, correm riscos diversos 
e precisam ser eximios leitores dos mais diferentes sinais, mormente daqueles 
que se manifestam nos discursos de seus interlocutores. Nesses momentos de 
“leitura”, eles tambem necessitam ser habeis manipuladores de palavras. Isso 
nao muda quando ambos, ja tendo travado contato, entram na casa de Odisseu e 
socializam com os pretendentes, Penelope e os escravos, sem poder revelar nada 
acerca da identidade verdadeira do combalido cretense. 

Na casa de Odisseu, porem, imprevistos acontecem, como em toda odisseia: a 
velha ama Euricleia reconhece o heroi por uma cicatrizjuvenil (Auerbach 1976; 
Duarte 2012). Tao perto, tao longer mesmo na vespera de sua derradeira 
vingan?a, para a qual o efeito surpresa, mencionado inumeras vezes ao longo do 
poema, parece decisivo, Odisseu corre um ultimo grande risco. Nesse momento, 
entretanto, somos confrontados, de forma clara e inequivoca, com um dado que 
permanecia disperso no poema: mediado por seu avo materno, o notorio ladrao e 
mentiroso Autohco, Odisseu tern uma rela 9 ao especial com Hermes, deus de 
ladroes, mercadores e viaj antes (no universo da Odisseia , a fronteira entre as tres 
categorias nao e muito nitida). Amaestria na dissunula 9 ao e na maquina 9 ao de 
estratagemas infabveis quando o fracasso parece eminente, manifesta nas a 9 oes 
e falas de Odisseu e Telemaco, tern uma pre-historia, e disso nos damos conta 
num momento em que, aparentemente por um descuido, o heroi, de novo, quase 
poe tudo a perder. 


As narratives 

A Odisseia e um poema que contem um numero bastante acentuado de 
narrativas dentro da narrativa principal, curtas e longas, ate longuissima, como no 
caso das aventuras contadas por Odisseu aos feacios: do canto 9 ao 12, narra tudo 
o que lhe acontecera (inclusive relatos que ele ouviu!) desde que saira de Troia. 
As historias sao narradas por bardos profissionais, por criaturas divinas ou 
assombrosas, ou entao por aqueles que vivenciaram o que contam; verdadeiras, 
mentirosas, duvidosas ou sonhadas. 

Tomemos como primeiro exemplo o episodio da cicatriz mencionada ha 
pouco. Embora seja o narrador que o conte, no momento mesmo em que a ama 
ve a cicatrize reconhece seu senhor, nao fica claro se o ponto de vista adotado 
por ele e o seu mesmo, narrador objetivo, ou de uma das personagens envolvidas 
- Odisseu ou ama que, naquele momento, como que teria se lembrado do 
evento que liga Odisseu a todos os servidores mais velhos da casa. De fato, o 
carater objetivo da narrativa horn eric a e um equivoco, no minimo parcial, na 
recepcao dos poemas: o narrador conhece varios modos de embutir diferentes 
olhares, o de personagens e dele proprio, em sua narrativa (De Jong 2001). 

Embora nem sempre seja obvio por que algumas historias sao apresentadas 
com mais detalhes e outras, com menos - basta comparar o modo como o 
narrador transmite as tres cancoes cantadas pelo bardo feacio Demodoco, no 
canto 8 -, e sempre significativa a ocasiao em que alguem decide rememorar 
determ inado evento passado. Quase nunca e o narrador que conta algo que 
aconteceu antes do evento que abre o poema, a decisao dos deuses de permitir 
que Odisseu partisse da ilha de Calipso e que Telemaco fosse em busca de 
noticias do pai. Toda narrativa interna a narrativa principal e um ato de 
com unicacao que envolve as personagens, mas tambem um ato dirigido ao 
ouvinte externo ao poema. Estao em jogo, de forma bastante concentrada, 
diferentes niveis de com unicacao: pelo modo de as personagens se comunicarem 
entre si, o narrador se comunica com seu publico. 

Como fez no inicio do canto 9, o narrador tambem poderia ter dado a palavra 
a Odisseu na prolongada noite em que o heroi enfim se reune com a esposa, no 
canto 23. Todavia, nao ouvimos Odisseu inebriando Penelope com a narrativa de 
sua viagem, apenas a vozdo narrador, que nao repete tudo de que ja tomamos 
conhecimento anteriormente, mas fazum breve resumo. Isso indica o dominio 


da narrasao, pois uma narrativa tao longa ao final do poema seria um anticlimax. 
No entanto, essa razao, digam os tecnica, nao e a unica. 

Em primeiro lugar, na terra da vida boa e tranquila que e a ilha dos feacios, 
nao pode faltar um excelente aedo, confrade de Homero - como ele, cego 
(Graziosi 2002) conhecedor de fa9anhas humanas e divinas, tao bom que, 
gramas a Musa, narra eventos cuja veracidade, precisao e completude sao 
elogiadas por alguem que deles participou, o proprio Odisseu (Werner 2013). As 
historias de Demodoco, porem, tambem funcionam como uma estrutura 
contrastiva, ou, no minimo, como um proemio para a longuissima narra9ao de 
Odisseu. Mortais so excepcionalmente podem afirmar que determinado deus 
agiu entre os homens; mas, mesmo sem a lira e a onisciencia que a Musa 
fornece a um bardo, Odisseu e dotado de algo que os gregos conceitualizaram 
por meio da Musa: a capacidade de fazer uma narrativa transformar 
acontecimentos terriveis numa experiencia que causa deleite (Halliwell 201 1). 
Mais que deleitar, Odisseu e capaz, como as Sirenas, de enfeiti9ar seu publico 
madrugada adentro (Peponi 2012). Se ha um contador de historias insuperavel na 
Odisseia, esse e Odisseu. 

Por meio das narrativas de Odisseu, o proprio Homero refor9a seu dominio 
sobre as muitas idas e vindas que dao forma ao poema monumental e atestam 
seu dominio da tradi9ao epica e folclorica que ultrapassa o proprio poema; como 
Odisseu, ele e um mestre dos volteios reais e metaforicos, espaciais, temporais e 
retoricos, ou seja, um homem “muitas-vias”, polutropos, adjetivo que qualifica o 
heroi no primeiro verso do poema (Pucci 1998). Ao inves de contar a historia de 
Odisseu de modo linear, desde o fim de Troia ate sua morte, distribui, por todo o 
poema, historias e historietas, rememora9oes e previsoes pertinentes a guerra e a 
seus herois, todas elas guardando as mais diversas camadas de sentido que 
cumpre, tanto aos receptores internos quanto aos externos ao poema, perceber e 
interpretar (Werner 2011). 

O mundo percorrido por Odisseu na sua decada de errancia nao pertence as 
terras conhecidas pelos ouvintes de Homero; a viagem de Odisseu e uma viagem 
pelo imaginario e por meio dele. Isso nao significa que os ouvintes e leitores de 
Homero, na recep9ao do poema na Antiguidade, tenham entendido o poema 
como uma fic9ao. Nao se duvidava, por exemplo, que a Guerra de Troia tivesse 
acontecido, mas muito cedo se defendeu que Homero cometera excessos tipicos 


dos poetas, cujo proposito era deleitar seu publico. O poema se tornou canonico, 
era ouvido e lido por toda a elite, mas intelectuais de cepas diversas 
apresentavam corregoes aos eventos e informagoes relatados no poema. 

Algo nao muito diferente fazem os modernos quando, em um mapa do mundo 
mediterraneo, tragam a viagem de Odisseu, eliminando aquilo que ha de 
maravilhoso. Nao ha mapa capazde reproduzir a ilha de Eolo, o senhor dos 
ventos, uma terra que se move. Na melhor das hipoteses, qualquer tragado 
contemporaneo e uma ficgao aproximativa; na pior, um falseamento do modo 
como Homero e seus espectadores pensavam o mundo por meio da poesia. 
Assim, por exemplo, nao ha nenhuma palavra na Grecia arcaica ou cl&ssica que 
se aplique aquilo que chamamos de mar Mediterraneo. As coordenadas utilizadas 
pelo narrador para localizar seus ouvintes sao outras. Claro que algumas delas sao 
geopoliticas e dizem respeito ao mundo dos ouvintes, mas nao temos mais acesso 
a esse mundo. O sitio arqueologico encontrado na Turquia no seculo XIX pelo 
alemao Schliemann talvezseja o da cidade que, em um processo longo e para 
sempre perdido, entrou na literatura grega e ocidental sob o nome de Troia, ou 
seja, sofreu uma guerra que passou a ser cantada em poemas. Ou talveznao. 

Por isso, muito mais importantes para entendermos como um poeta falava de 
um mundo desconhecido para seus ouvintes gregos sao as coordenadas 
antropologicas que dao forma a narrativa do heroi, essas sim bastante familiares. 
Ao contar aos feacios o que viu e o que sofreu, Odisseu ao mesmo tempo diz 
como e (ou deveria ser) o mundo e o homem (grego), quais as normas de uma 
sociedade civilizada, quais os limites entre homens, deuses e animais, e ate onde 
o engenho humano permite o dominio de forgas indomitas (Vidal-Naquet em 
Segal 1996). Os cic lopes e Polifemo, por exemplo, sao uma versao exacerbada 
dos incivilizados pretendentes de Penelope (Bakker 2013); Alcinoo e os fe&cios, 
idealmente tao hospitaleiros, sao tao justos e prosperos quanto Odisseu e Itaca sob 
o seu reinado, no passado e no futuro. 

Alem de Odisseu saber contar verdades com aparencia (para nos) de 
mentiras - ao longo da historia da recepgao da Odisseia, mais de uma vezse 
assinalou que o heroi teve sorte de encontrar um publico tao credulo quanto os 
feacios -, ele tambem e eximio contador de mentiras com aparencia de 
verdades (Malta 2012a; Kelly 2008). Essa e mais uma razao para ouvirmos o 
longo relato do mestre do discurso antes de sua noite de segundas nupcias com 


Penelope, pois desde o instante em que chega a Itaca ate o momento em que, 
ainda como cretense, conversa a sos com a esposa, ele encanta quem o ouve, as 
vezes mais, as vezes menos, criando uma falsa biografia que altera de acordo 
com seus ouvintes ocasionais e quisa a partir de outras versoes antigas da historia 
de seu retorno. Devemos nos perguntar, portanto, se, quando os ouvintes de 
Odisseu (e o narrador) o comparam a um aedo, o narrador nos indica haver algo 
no modo como Odisseu constroi suas historias que independe do conteudo de 
verdade da narrativa (Pratt 1993). 

So Odisseu e chamado, na Iliada e na Odisseia, de poluainos. Esse adjetivo 
epico e composto por “muito” ( polu ) e pelo substantivo ainos, termo polissemico 
que se refere a um tipo especial de discurso (Nagy 1979). Quem denomina 
Odisseu dessa forma (“muita-historia”) sao as Sirenas, e, em vista do contexto, 
seu objetivo pode ser o de bajula-lo como alguem que e “muito-elogiado”, ou 
seja, “objeto de muitas historias” (entre elas, por exemplo, a Iliada , onde o 
adjetivo aparece mais vezes que na Odisseia ), ou entao como alguem “que conta 
muitas historias”, mas, nesse caso, decerto nao conhece tantas historias quanto 
elas (Pucci 1998). 

Ainos, porem, nao e qualquer historia, mas aquela por meio da qual o narrador 
conta algo que desafia o interlocutor a buscar e compreender, alem da 
superficie, um sentido profundo; entende-se, assim, por que o termo passou a ser 
utilizado, entre outros, para um tipo de narrativa que conhecemos como fabula. 
No final do canto 14, Odisseu, em sua identidade de mendigo cretense, lan?a 
mao de um ainos, muito elogiado por Eumeu, cujo objetivo e conseguir 
emprestado um manto para suportar a noite fria na cabana do porqueiro. A 
historia, que carrega um elogio tanto de Odisseu, sua personagem central, quanto, 
de forma algo ambigua, do proprio cretense, tern uma fun^ao material, 
pragmatica, interna ao poema, qual seja, conseguir o manto. Um nivel de 
comunicagao homologo esta presente na situa?ao em que Odisseu conta sua 
longa historia aos feacios, embora nem eles nem o narrador da Odisseia se 
refiram a essa narrativa como um ainos : Odisseu lucra uma quantidade nada 
desprezivel de presentes de seus ouvintes apos interromper sua narrativa e sugerir 
que ja estaria na hora de ir se deitar. 

Tanto no ainos contado a Eumeu quanto nas aventuras narradas aos feacios, o 


que menos interessa a nos, no momento em que Odisseu relata como cegou 
Polifemo ou conversou com Aquiles no Hades, e se a historia e verdadeira ou 
nao, em que pese o curioso elogio feito por Alcinoo a Odisseu quando da 
mencionada interrup<;ao. Anarra<;ao precisa atingir seu objetivo, e esse, mesmo 
quando for material (e ele com frequencia o e, dadas as condifoes de vida de 
aedos e mendigos, grandes contadores de historias no poema), e secundario em 
relafao ao louvor (ou a censura), direto ou indireto, dos valores compartilhados 
(ou nao) por quern narra e sua plateia. Boas historias, sempre na forma e no 
conteudo (na Odisseia , pelo menos idealmente, parece nao haver separa^ao 
entre ambos), refletem pessoas dignas, o que, por sua vez, depende sempre do 
contexto da comunica9ao. Nao ha como Odisseu ser louvado por Polifemo, por 
exemplo. Penelope, Telemaco e Eumeu, sempre que ouvirem de um estranho 
que aporta em Itaca noticias alvissareiras acerca de Odisseu, tern motivos de 
sobra para desconfiar das intern; oes do interlocutor, mesmo quando ele e um 
adivinho que nos sabemos ter razao ou entao o proprio Odisseu disfarfado (Malta 
2012b). Depois de acompanharmos as performances, verbais e nao verbais, de 
Odisseu em Itaca, vemos com outros olhos o modo como conquistou a confianga 
dos feacios. Em ultima instancia, a historia e a identidade de um individuo nao 
sao dados inequivocos, pois dependem de (repetidas) performances e sempre 
correm o risco de se tornar outra coisa. Nao por acaso o ceticismo, qualidade que 
Penelope demonstra ter em alto grau, e tao valorizado no poema (Zerba 2009). 

Para o cenario que o naufr&gio de Odisseu, nu e sozinho, cria na terra dos 
feacios, ja somos preparados de antemao, pois Telemaco tambem viaja e 
depara, nos cantos 3 e 4, com homens justos, cortes suntuosas e contadores de 
historias. E por meio do que e narrado em Pilos, onde reina Nestor, e em Esparta, 
governada por Menelau, que conhecemos outros casais e outras “ historias de 
retorno”, um sentido suplementar de nostos na poesia epica grega. Assim como 
Penelope para Odisseu, Helena e Clitemnestra tern um papel fundamental no 
retorno de Menelau e Agamemnon, respectivamente. Se Clitemnestra e uma 
adultera para quern a Odisseia nao tern quase nenhuma palavra simpatica, 
Helena e uma figura ambigua, em geral odiada, mas tambem encantadora e 
admirada (Werner 201 1). Em parte, e como se o poema precisasse, ao mesmo 
tempo, exibir uma heroina virtuosa ao maximo - Penelope - como respons&vel 
ultima pelo retorno do heroi principal, e, em contraponto, flertar com imagens 


femininas imorais e amoralmente sensuais (Katz 1991; Felson 1997). 

No canto 8, que narra o dia em que, desde a aurora, tudo parece levar apenas 
ao embarque de Odisseu rumo a itaca, somos surpreendidos pelo segundo canto 
de Demodoco, que recria o adulterio de Afrodite, deusa da beleza e do amor e, 
na Odisseia, esposa de Hefesto, o habil deus dos artesaos; o amante e Ares, deus 
da guerra na sua face mais violenta e desregrada. Aqui e dificil nao pensar em 
Odisseu e Penelope. Essa historia recontextualiza a briga que acabara de 
acontecer entre o heroi e alguns feacios arrogantes, j ovens excessivamente 
confiantes em seu vigor fisico, avatares de Ares, que, durante uma serie de 
disputas esportivas, zombam de Odisseu. Esse se mostra superior aos outros 
competidores no lan9amento de disco e deixa claro que venceria em todas as 
outras modalidades, exceto na corrida. 

Com isso, a tessitura narrativa refor9a uma serie de paralelos possiveis entre 
Odisseu e Hefesto, de um lado - ambos sobrepujados, num primeiro momento, 
por machos mais vistosos -, e de outro Aquiles e Ares, guerreiros confiantes no 
proprio vigor. E nao so porque o primeiro canto de Demodoco j a tivera Odisseu 
como um de seus personagens, mas porque a oposi9§o entre as esferas da astucia 
e da for9a e um tema subjacente a todo o canto 8. Desse modo, porem, de 
alguma forma Penelope se avizinha de Afrodite, ou seja, sua fidelidade recebe 
estranhos holofotes, e a potencia de Odisseu e posta em suspenso: se no canto 5 
ele e um amante cansado, e so no canto 10 que o veremos satisfazendo a ninfa 
Circe. 

Aexplora9ao dos papeis sexuais do homem e da mulher, casados ou na idade 
de casar, e uma constante no poema e e sempre significativa; basta 
compararmos os cantos 3 e 4, complementares e inversamente simetricos, no 
que dizrespeito aos casais que hospedam Telemaco. No inicio do episodio dos 
feacios, tudo gira em torno de Nausicaa, virgem nubente, e assim o casamento 
como institui9ao social fundamental marca toda a estada de Odisseu, para quem, 
porem, a uniao com a jovem nao e uma op9&o, pois, como sabemos desde a 
separa9§o entre o heroi e Calipso, Penelope e Itaca jamais deixam de suscitar 
uma saudade quase mortal em Odisseu, salvo durante o ano que passa, indolente, 
com Circe. 

Por que, entao, o narrador da Odisseia, em um episodio que mostra fe&cios e 
Odisseu se divertindo, escolhe como vitima de adulterio um deus que tanto se 


assemelha a Odisseu? A explica? ao de que o canto, complementando uma 
interven?ao de Alcinoo e urn prazeroso espetaculo de dan?a, apazigua os animos 
do brioso Odisseu e dos inconsequentes feacios e, por certo, pertinente. Depois de 
Odisseu passar uma descompostura naqueles que lembram os pretendentes de 
Penelope (Louden 1999), assinalando que a beleza fisica nao e nada se 
comparada a urn discurso bem-feito, no qual forma e conteudo moral se 
espelham, Demodoco, ao retratar um deus feio mas muito habil que supera um 
deus muito mais belo e rapido, coloca numa chave potencialmente jocosa a 
moral que Odisseu havia apresentado com seriedade. 

Todavia, se observarmos com aten?ao, veremos que quern ri sao alguns 
deuses; de Odisseu e dos feacios apenas se dizque sentiram prazer, o efeito 
esperado de um canto ao fim de um agradavel banquete. Alem disso, resta o 
problema do objeto de desejo, Afrodite. Na cena divina, ouvimos Hermes 
comentar que, mesmo se tivesse passado por situa?ao ainda mais vergonhosa que 
a de Ares, teria valido a pena dormir com a supremamente desejada Afrodite. 
Com isso, ficamos com duas “morais”, a seria e a jocosa. Sera que na Odisseia 
temos de fato apenas uma Penelope, aquela que sofre por conta da ausencia do 
marido?Por um lado, sim: se Hermes consegue se identificar com Ares, para 
nos, receptores da Odisseia, e impossivel nos identificarmos com os pretendentes, 
pois a vileza deles e o sofrimento da rainha sao inequivocos no mundo mortal do 
poema, que tambem e o nosso. 

Devemos levar em conta, porem, que a identidade de Penelope, mais que a 
de qualquer outra personagem do poema, e construida atraves dos olhos e, 
sobretudo, dos relatos dos outros; basta atentarmos ao que diz Atena sobre ela a 
Odisseu quando este chega a Itaca, ou entao a interpreta?ao dada por Odisseu ao 
comportamento de Penelope quando ela aparece aos pretendentes e deles pede 
presentes, ao anunciar que enfim chegou o momento de se casar. Assim, se no 
primeiro canto somos apresentados a uma sofredora reduzida a um papel 
meramente passivo, sobretudo agora que o filho parece come?ar a tomar as 
redeas da casa, no canto seguinte, um dos lideres dos pretendentes, Antinoo (que, 
ate no nome, e “anti” a inteligencia - noos - necessaria para o nostos), apresenta 
Penelope como a principal responsavel pela invasao da casa de Odisseu, j a que 
durante tres anos ela ludibriou quern a cortejava com a promessa de que 
escolheria o preferido assim que concluisse a mortalha que ela, astuta. 


desmanchava. Aidentidade de Penelope talvezseja tao elusiva dada a quantidade 
de papeis narrativos que precisa executar: mae preocupada com a vida do filho; 
“viuva” declarada que precisa controlar seus pretendentes, de quem, contudo, 
arranca presentes; esposa fiel que decide, sozinha, organizar uma prova para 
escolher o novo marido (Felson 1997). 

Muito se discutiu sobre a funfao da tessitura da mortalha na economia da 
Odisseia, ja que a relafao entre a rainha e aqueles que a cortejam, e, vale dizer, 
o prazo para a escolha do marido, nao parece depender da descoberta da 
artimanha. Nao se avanfa muito ao supor que a historia seja tao ligada a 
representa9ao tradicional de Penelope que nao haveria como nao ser incluida, 
mesmo no caso de ter sofrido notavel alterafao (em vezde fazer um vestido de 
casamento, que, uma vezterminado, permitiria as bodas, Penelope, a lutuosa, faz 
uma mortalha); mais produtivo e verificarmos que a historia da mortalha e 
contada tres vezes ao longo do poema, em contextos bem distintos e por outras 
personagens, mas com os mesmos versos, o que nos oferece uma situa9ao 
diametralmente oposta, por exemplo, as tres can$5es de Demodoco. 

Na primeira vez, no canto 2, Antinoo apresenta uma Penelope em franca 
oposi9ao a personagem sofredora e algo passiva do canto anterior; mas e justo 
essa imagem da rainha ardilosa que, em filigrana, a acorn panha em algumas de 
suas cenas - sobretudo nos cantos 18 e 19, e que culmina no truque da cam a ao 
qual submete Odisseu no canto 23, quando, sem ter certeza de que o homem que 
tern diante de si e seu marido, dizque ele pode dormir no leito do casal, que, 
porem, nao esta mais nos mesmos aposentos. Ora, a cama, uma obra-prima de 
carpintaria (Odisseu como artesao!), jamais poderia ter sido deslocada de onde 
estava a nao ser por um homem, o que indicaria que Penelope lhe tinha sido 
infiel. Quando Odisseu reage, indicando conhecer a cama que nunca fora vista 
por mais ninguem alem do casal e de uma velha serva fiel, Penelope tern certeza 
de que o marido voltou. 

Enquanto Antinoo revela o engodo da mortalha durante uma assembleia de 
itacenses para mostrar a Telemaco e aos demais habitantes nao necessariamente 
comprometidos com os pretendentes que e Penelope a causadora da atual 
desgra9a do jovem, fazendo com que a riqueza de sua familia seja literalmente 
devorada, a rainha, no canto 19, repete a historia na conversa que tern com o 
cretense (Odisseu) em um encontro ansiado pelos receptores do poema. Assim 


como Arete, a rainha feacia, a primeira atitude de Penelope ao ficar sozinha 
com o estranho e perguntar quem ele e. Como j a fizera em Esqueria, Odisseu 
burla seu interlocutor e, talvez, o proprio receptor, pois ele elogia a rainha, por 
meio de um simile, como se estivesse elogiando um rei (Levaniouk201 1). Nao 
surpreende que o longo dialogo entre os esposos no canto 19 seja uma das 
passagens nas quais alguns leitores julgam identificar um dialogo cifrado entre 
Odisseu e Penelope, atraves do qual ambos conversariam sobre a identidade 
verdadeira, ja reconhecida, de Odisseu (Duarte 2012). Por mais engenhosa que 
seja essa interpreta?ao, ela esta em contradi^ao com uma serie de outras cenas, 
em particular o reconhecimento por meio do leito conjugal, o verdadeiro climax 
no reencontro entre marido e mulher. 

O elogio indireto do rei Odisseu funciona como pano de fundo para um (novo) 
elogio de Odisseu, ou melhor, para a contrapos^ao entre duas situates, a 
presente, de Penelope, que nao poderia ser mais desgra^ada, e o significado do 
retorno do marido para ela. E nesse momento que a rainha conta a seu ouvinte 
que, embora seja esperta - a astucia e sua unica defesa contra a violencia dos 
j ovens -, a epoca dos ardis passou e nao lhe resta nenhuma outra medida para 
evitar o que menos quer, o casamento. Nao surpreenderia se agora Odisseu 
revelasse sua identidade para acalmar a esposa, mas esse instante nao vem. 
Mesmo assim, e sobre Odisseu que os dois conversam, ja que o cretense, como 
fizera com Eumeu, mas nao diante dos pretendentes, evoca os instantes em que 
compartilhou da companhia do memoravel heroi. 

Nesse momento, a fragil rainha, que sofre demais ao se sentir para sempre 
longe do marido, mas ao mesmo tempo experimenta certo consolo e prazer ao 
ouvir historias sobre ele por intermedio de alguem que, sem nenhuma duvida, 
com ele se parece inclusive no fisico, nao poderia estar mais distante da 
personagem do truque da mortalha, mormente por ser ela mesma vitima de uma 
arma?ao - o disfarce de Odisseu, que, ao compor e recompor suas biografias, 
espelha uma manifesta^ao da arte da solerte tecela (Clayton 2004). Nesse 
sentido, e quase que por um acerto de contas poetico que a penultima burla do 
poema (a ultima e a identidade falsa apresentada por Odisseu ao pai) sera 
aplicada com sucesso pela rainha, e a vitima sera Odisseu. Se no canto de 
Demodoco o truque e de Hefesto, e Afrodite e so um corpo sem voz, ainda que 
belissimo, vitima passiva da armadilha no leito conjugal, em Itaca Penelope usa 


a cama constririda com habilidade pelo marido como uma artimanha que 
confirma em definitivo a identidade dele e a astucia dela. A“odisseia” de 
Odisseu e concluida grafas a Penelope. 

Enfim, no ultimo canto ainda ouvimos mais uma veza historia da mortalha. A 
cena se passa no Hades, onde se encontram, primeiro, as almas ou espectros de 
Aquiles e Agamemnon, que comparam o climax funebre de suas carreiras 
heroicas, e depois chegam as almas dos pretendentes. Um deles, ao conversar 
com Agamemnon, resume os eventos de Itaca, inserindo a mesma historia j a 
conhecida, os mesmos versos. Mais uma vez, o contexto requalifica a historia: do 
ponto de vista dos pretendentes, foi apenas gra9as a Penelope que Odisseu obteve 
a vitoria contra eles, ou sej a, juntos enganaram os pretendentes e idealizaram a 
prova do arco. 

Essa ultima manifesta9ao de um pretendente e mais um sinal claro de que as 
historias narradas no poem a nao podem ser entendidas fora de seu contexto de 
enuncia9ao, pois se trata de uma percep9§o equivocada dos eventos, e as 
multiplas rela$ 5 es entre quem narra, o que e narrado e quern ouve, dentro e fora 
do poema, nem sempre saltam aos olhos ou sao corretamente apreendidas por 
quem ouve. Ironicamente, a narra9ao do pretendente fazcom que Agamemnon 
produza o elogio mais contundente de Penelope em todo o poema. 


A investiga^ao 

Como ja deve ter ficado claro ate aqui, a Odisseia e, em varios niveis, composta 
por travessias que tambem sao intelectuais: Odisseu aprende que o tipo de 
heroismo que fez dele um vencedor em Troia tern seus limites no novo mundo de 
seu longo retorno, e que as fa^anhas que realizou em Troia tern outro sentido 
quando lhes e dada uma forma por meio de um canto poetico; Telemaco aprende 
que sua hera^a “genetica”, ou seja, o heroismo do pai, depende de uma 
aprendizagem pratica, na qual e fundamental que ele e seus interlocutores o 
vejam, de fato, como filho de Odisseu; Penelope, a cetica, em nenhum momento 
pode se entregar a suas emo?oes e se submeter a uma das diferentes pressoes 
que sofre (Zerba 2009). Em suma, aprendemos nos que todas as personagens 
tern propositos e sentimentos em rela£ao aos quais devemos medir tudo o que 
eles fazem e dizem. 

Apesar de o estilo oral do poema dificultar uma distint o semantica precisa 
entre os varios termos que se referem a orgaos emocionais e cognitivos 
humanos, bem como a suas faculdades, e o noos aquele que mais 
particularmente circunscreve um tipo de inteligencia que se distingue por nao se 
submeter com facilidade a influencia das emofoes. No Hades descrito por 
Odisseu no canto 1 1, por exemplo, o adivinho tebano Tiresias e, entre os 
espectros que la se encontram, o unico a quern foi disponibilizada essa faculdade, 
ou seja, so ele ainda consegue saber de algo que extrapola a memoria e pode 
auxiliar Odisseu em seus feitos futuros. 

E gra?as a Tiresias que Odisseu sabe como agir quando chegar a ilha dos bois 
do Sol, derradeira escala para os companheiros de Odisseu ainda vivos aquela 
altura da viagem (canto 12). Ressalte-se que nao basta o conhecimento objetivo; 
o heroi informa aos companheiros que eles nao podem devorar os bois sagrados, 
e mesmo assim eles sucumbem ao apetite (Bakker 2013). Se compararmos o 
Odisseu desse episodio com aquele que, a despeito de todos os sinais negativos e 
da vontade dos companheiros medrosos, quis entrar na caverna de Polifemo e la 
permanecer ate o dono voltar, vemos que a contento parece ser algo que a 
personagem adquire ao longo de seu retorno, e nao uma marca tradicional do 
heroi. Ao completar a fuga bem-sucedida da caverna do ciclope, Odisseu nao 
consegue deixar de bradar seu nome e reafirmar sua identidade heroica; mais 
tarde, porem, concluida a vingan?a contra os pretendentes, a ama Euricleia quer 


extravasar sua alegria por meio de gritos rituais eede imediato contida pelo 
heroi. 

Se, no episodio do ciclope, a bazofia de se fazer conhecido possibilitou a 
vingan^a de Poseidon, em Itaca Odisseu tera que firmar um acordo politico com 
seus concidadaos - um pacto que ultrapasse o ciclo de vinganpas - para 
conquistar paze prosperidade em casa e na ilha. Feito inedito no mundo dos 
herois, como fica claro pelo modo como Zeus e obrigado a intervir na derradeira 
cena do poema, quando Odisseu mais uma vezparece incorporar o furor 
guerreiro tao tipico da Iliada e que manifestara em sua partida da ilha dos 
cic lopes. Odisseu, portanto, e um heroi da conten?ao, do autodominio, nao so 
porque seu retorno e bem-sucedido por conta dessa quahdade, mas porque e para 
ela que apontam todas as historias acerca de suas fa9anhas em Troia 
mencionadas na Odisseia. Entretanto, nao ha como negar um residuo inquietante 
de uma moral guerreira que poderiamos chamar de “iliadica”. 

Toda investiga9ao ou aprendizagem que, gra9as ao fluxo da narrativa, marca 
uma personagem do poema e, antes de tudo, um movimento de que o receptor e 
convidado a participar e, ao mesmo tempo, uma cena construida para que o 
proprio receptor decida o que lhe foi mostrado e dito. Assim, os cantos iniciais 
sao uma pequena “odisseia” de Telemaco, uma viagem intelectual e real durante 
a qual o jovem precisa coletar elementos para deliberar sobre o destino de sua 
propriedade seriamente amea9ada. Ao mesmo tempo, o narrador nos apresenta 
uma serie de indicios que nos leva a refletir acerca das dificuldades do retorno de 
Odisseu - por exemplo, ate que ponto sao elas resultado da a9&o de homens ou 
deuses. Nem tudo e dito de forma inequivoca, embora seja uma analise 
recorrente do discurso epico supor que o narrador nos informa tudo aquilo que 
julga importante para que acorn panhemos sua narra9ao e dela tiremos o 
maxim o deleite. 

Quando Telemaco chega a Esparta, cidade regida por Menelau, logo fica 
claro para o ouvinte que o jovem nao se dirigira a um rei ou a um pai, mas 
sobretudo a um casal com uma historia que produz marcas evidentes no presente. 
Na casa que recebe Telemaco e seu companheiro de viagem, Pisistrato, filho de 
Nestor, festejam-se dois casamentos, um dos quais e o do filho bastardo do rei, 
Grandafl^ao. Impossivel nao lembrar do “rapto” de Helena, que tanto 
sofrimento causou nao so a Menelau como a todos os gregos, e por causa do qual 


Menelau teve apenas uma filha (que tambem casa nesse mesmo dia!) com sua 
mulher legitima. 

Na sequencia, o narrador descarta os casamentos, revelando uma 
arbitrariedade que explicita a fun^ao deles, qual seja, evocar as consequencias 
da uniao entre Helena e Paris. Ao fim do banquete no qual os dois hospedes se 
entretiveram, Helena decide honrar a memoria do desaparecido Odisseu e 
propoe que se contem historias “troianas”. E curioso que em nenhuma delas a 
personagem central seja o heroi - em ambas, Helena e a protagonista, tanto na 
primeira, narrada pela propria rainha, na qual se caracteriza como esposa 
devotada ao primeiro marido, alem de vitima da mesma Afrodite que ajuda 
Odisseu a conquistar Troia; como na segunda, narrada por Menelau, quando ela 
ja desposou Deifobo, irmao de Paris, aquela altura ja morto, e quase poe a 
perder o decisivo truque dos gregos, o cavalo de madeira. O narrador nao e 
explicito, mas e dificil nao pensar que a segunda historia e apresentada por 
Menelau para que Telemaco - e nos - tenhamos outra impressao de sua esposa. 

Penelope decerto nao e Helena, mas as duas historias nao deixam de apontar 
para o momento em que Odisseu estara de volta e dependera de mulheres de 
cuja fidelidade, em ultima instancia, nao tem certeza (Olson 1995). De fato, 
todas as historias e historietas do poema relacionam-se com o enredo principal, o 
retorno de Odisseu, mas os vinculos precisam ser construidos e reconstruidos 
pelos ouvintes, pois as vezes, como no caso do segundo canto de Demodoco, eles 
sao ambiguos, assim como muitas vezes sao ambiguos os sinais que as 
personagens principais do poema constantemente interpretam. 

Arma importante contra aquilo que nao se domina e o ceticismo. 
Sintomaticamente, o unico lugar em que Odisseu parece estar a vontade e a terra 
dos feacios, onde tanto Nausicaa quanto Alcinoo nada dizem que lhe cause 
desconfian 9 a (compare-se com a rea 9 §o do heroi ao acordar em Itaca apos ter 
sido conduzido pelos feacios), algo tanto mais notavel se pensarmos nas situapoes 
muito parecidas, narradas entre os cantos 9 e 12, nas quais um rei ou uma ninfa 
quase causaram sua desgra^a - entre os lestrigoes, por exemplo, quando a filha 
do rei leva um companheiro de Odisseu diretamente para o estomago do pai; e 
na ilha de Circe, quando a maga quase transforma Odisseu em um animal. Ate 
mesmo em Atena ele nao confia incondicionalmente, e com razao, pois a deusa 
e ele mesmo sao mestres do disfarce e do engodo. Alem disso, embora em Troia 


ela tenha reiteradas vezes se revelado sua aliada, ele nao mais vivenciou seus 
favores ao embarcar de volta, rauito pelo contrario. 

Odisseu, quando enfim desembarca em Itaca, nao reconhece a terra natal. Os 
motivos nao sao enunciados de forma univoca na narra9ao, o que sugere que nao 
so as personagens, ao interagirem, como tambem o leitor, precisam tomar 
cuidado com o que ouvem. Por um lado, Atena cria uma neblina; por outro, 
Odisseu, afastado por vinte anos, tern o alibi de nao reconhecer o que lhe era 
familiar. O narrador talvezesteja fazendo uso da estrutura que a critica homerica 
chama “dupla motiva^ao” - decisoes, desejos ou pensamentos de mortais podem 
ser expressos, ao mesmo tempo, como oriundos dos deuses e de um orgao ou 
faculdade cognitiva e / ou emocional (Pelliccia 1995 ). No canto 13 , a interven9ao 
de Atena representaria a propria decisao do heroi, ou seja, nao revelar sua 
identidade para ninguem. Embora nao se possa descartar que esse modelo esteja 
subjacente ao episodio em questao, ele nao serve, todavia, para explicar as idas e 
vindas do verdadeiro duelo que se estabelece entre a deusa e o heroi, e o 
narrador nao se esfor9a por esclarecer se Atena espalhou a neblina apenas para 
que pudesse metamorfosear Odisseu e com ele preparar a vingan9a vindoura. 

Por outro lado, nesse momento ainda nao sabemos se Odisseu conseguir& ser 
sempre o heroi astucioso que decide nao agir de modo intempestivo; essa duvida 
e parte integrante da caracteriza9ao do heroi, ou seja, do ritmo de suas aventuras, 
passadas e futuras. Odisseu oscila entre o descontrole e um total controle, e isso 
faz parte de sua caracteriza9ao tradicional, de sorte que, na recep9ao de sua 
identidade heroica na literatura posterior, essa pode refletir valores ora positivos 
ora negativos. 

No primeiro momento da cena entre Atena e o heroi, a atividade de 
reconhecimento dizrespeito ao que se ve. Assim, nao apenas Itaca, mas tambem 
a deusa sao desconhecidas ao heroi, j a que Atena aparece disfar9ada de jovem 
pastor. Quanto a Odisseu, nao lhe restam senao as palavras para alterar a 
realidade vista por seu interlocutor, pois acredita encontrar-se numa situa9ao que 
lhe e amplamente desfavoravel: nao sabe onde esta nem com quern esta lidando 
e precisa proteger seu notavel tesouro, os incontaveis presentes que recebeu dos 
nobres feacios. Trata-se do primeiro momento em que cria uma biografia 
mentirosa, o disfarce de cretense. Dessa forma, entre a deusa e o heroi, que 
excelem na astucia, respectivamente, dentre deuses e homens (pelo menos e o 


que a deusa afirma), fica estabelecido um embate, mais ou menos inofensivo, 
que retorna mesmo depois de parecer concluido por meio da revela9ao da 
identidade de Atena (Clay 1997 ). Decidir quem e o vencedor, ou seja, quem se 
mostra mais esperto em rela<;ao as inten^oes do outro, fica a cargo do leitor. Por 
um lado, a persona de pastor adotada por Atena nao consegue fazer Odisseu 
revelar quem e; por outro, Odisseu declara que ele tambem sabe reconhecer um 
deus quando afirma em retrospectiva que a menina que o ajudou na ilha dos 
feacios (canto 7 ) era, na verdade, a deusa disfargada, informa9ao que o narrador 
ja nos dera nesse episodio, mas que parecia nao ser do conhecimento de Odisseu. 

As semelhanfas da cena entre a deusa e o heroi e a do teste da cama 
arquitetado por Penelope nao parecem casuais; em ambas, a realidade nao e 
clara para o individuo. Assim, na Odisseia , o que im porta para que os herois 
permane9am vivos e realizem seus objetivos e a inteligencia e a astucia, que nao 
se contentam com a superficie aparente e sabem criar disfarces e mentiras. 
Todavia, as intersec9oes entre o que se ve e o que nao se ve, e entre o que e dito e 
o que nao e dito, produzem constantes interroga9oes acerca da caracteriza9ao de 
suas principals personagens, em especial, de Penelope e de Odisseu. O poema e 
fruto de um truque do seu narrador: a constru9ao de um texto que nao deixa de 
ser aberto mesmo ao recebermos, satisfeitos, um final felizpara o casal de Itaca. 


4 O adjetivo “grego” nao aparece nos poemas homericos, mas sim os 
intercambiaveis “danao”, “aqueu”e “argivo”. 


DATRADUCAO 


Para a presente tradu^ao da Odisseia, baseei-me no texto grego das tres edi$oes 
citadas na Bibliografia ao final deste volume, bem como em pesquisas da 
bibliografia critica.t^] 

As caracterlsticas gerais mais relevantes que procurei conferir a tradu?ao 
foram clareza, fluencia e poeticidade, elementos fundamentals do original. 
Sintaticamente, o texto grego e, em geral, simples; quanto ao vocabulario, 
mesmo o sentido de term os compostos que so eram usados no dialeto 
“homerico” costumava ser cristalino para os ouvintes antigos, por isso a op^ao 
por termos compostos nao eruditos, derivados da simples justaposi9ao entre 
term os correntes do vernaculo. 

Clareza e fluencia nao sao estranhas a um poema narrativo oral: ainda que 
tenha sido escrito ja nos seculos VIII ou VII aC, durante vdrios seculos ele teve 
na performance oral seu meio precipuo de transmissao e recep?ao. De qualquer 
forma, a Odisseia , independentemente do modo como adquiriu a forma em que 
hoje e editada, resultou de uma tradigao poetica oral com protocolos particulars. 
Atradugao procura reproduzir pelo menos alguns elementos proprios de tal 
oralidade, como, por exemplo, a repetiijao de expressoes e estruturas poeticas, 
pois o modo como o sentido e construido na recep9ao do poema depende de tais 
repeti^oes (Foley 1991 e 1999). 

Para que elas fizessem sentido para um leitor da tradu9ao, optou-se por 
reproduzir o mesmo conteudo do verso original sempre que isso nao for?asse 
uma ordem sintatica estranha demais no portugues. Dessa forma, preservou-se 
boa parte dos enjambements, que, em Homero, sao de varios tipos quanto a 
estrutura sint&tica, grosso modo os que ocorrem quando o sentido de um verso 
esta completo no final, mas o verso seguinte compoe sua expansao (“De muitos 
homens viu urbes e a mente conheceu, / e muitas afli9oes sofreu ele no mar”) e 
aqueles na sua varia9ao sintaticamente mais marcada, quando uma frase carece 
de um elemento essencial ao final do verso (“Do varao me narra, Musa, do 
muitas- vias, que muito / vagou apos devastar a sacra cidade de Troia.”), estes 
ultimos menos comuns. 

Colaboram para o ritmo e a constru9ao de sentido do poema tanto os 


enjambements quanto a posifao em que determ inado termo ou formula, da qual 
se fala mais abaixo, se encontra no verso. 

Um exemplo no qual fica clara a importancia conferida ao enjambement 
325-27 e 340-42): 

Entre eles cantor cantava, bem famoso, e, quietos, 
sentados ouviam. Dos aqueus cantava o retorno 
funesto, que, desde Troia, impos-lhes Palas Atena. 

[...] bebam vinho. Mas interrompe esse canto 
funesto, que sempre, no peito, meu cora?ao 
tortura, depois que assaltou-me afli^ao inesquecivel. 

Primeiro o narrador (versos 325-27) e depois Penelope (versos 340-42) 
empregam o mesmo adjetivo, na mesma posi9ao metrica, em enjambement, 
para qualificar, ela, o proprio canto apresentado naquele momento; ele, talvez 
ambiguamente, o tema do canto. O modo semelhante e distinto como ambos 
caracterizam o canto e acentuado pelo enjambement e salienta um problema que 
e construido em varios niveis nessa cena bastante importante. 

A formula e um dos principals elementos definidores da poesia oral grega em 
hexametros, podendo ser entendida como um grupo de palavras reiterado, 
sempre na mesma posi9§o metrica. Ela e um meio expressivo que faz parte de 
uma linguagem particular, qual seja, a dos poemas arcaicos em hexametros; um 
autor a designou como “os sintagmas epicos mais perfeitos gramaticalmente: 
metrica, fonetica e semanticamente” (Balder 2005, p. 123). O sistema de 
formulas foi um meio utilizado pelo aedo para tornar presente, no momento da 
performance do poema, uma realidade ausente, o mundo passado dos herois 
(Balder 1997). Uma formula, portanto, nao e apenas um meio de expressao, mas 
tambem de performance, a forma marcada de comunica9ao entre um aedo e 
seu publico, permitindo que se evoque um mundo que nao existe mais e que se 
espera continue a ser evocado pelas gera9oes futuras. 

De modo mais restrito, formulas constituidas por um nome acorn panhado de 
um epiteto, um termo qualificativo (em geral, um adjetivo), sugerem uma 
realidade propria que tern um sentido determ inado no e pelo contexto epico. 
Assim, “Atena olhos-de-coruj a” nao e a deusa Atena cultuada em uma cidade 


especifica, cercada de determinados mitos locais, e sim a Atena tal como 
configurada na poesia homerica e que se pretende fa?a sentido para todos os 
gregos. Vale lembrar que uma religiao politeista e fenomeno marcado pela 
pluralidade, de sorte que os poemas homericos, a medida que se tornaram 
canonicos na Grecia arcaica, de algum modo tambem contribuiram para criar 
ou refor9ar algum tipo de unidade religiosa, por tenue que fosse. 

Outro exemplo (1, 328-31): 

Em cima, compreendeu nojulzo seu inspirado canto 
a filha de Icario, Penelope bem-ajuizada; 
e a elevada escadaria de sua morada desceu, 
nao sozinha, mas com ela seguiam duas criadas. 

“Nao sozinha”, em enjambement, nao tem apenas a fun?ao de informar ao 
ouvinte que Penelope estava acorn panhada. Autiliza^ao dessa expressao na 
mesma posi?ao do verso sublinha, para um ouvinte familiarizado com a 
linguagem formular do genero, que uma mulher nobre nao costuma aparecer 
sozinha diante de homens que nao sejam da sua familia, e isso e particularmente 
relevante para Penelope, caracterizada no poema como avessa aos pretendentes, 
portanto, reticente em deixar os aposentos femininos. 

Em todas as demais passagens (6, 84; 18, 207; 19, 601) em que a expressao 
surge nessa mesma posi9ao do verso - ou seja, comporta-se como uma formula 
-, trata-se da mesma situa9ao social. A mulher e geralmente Penelope, e a 
formula participa da constru9ao de uma cena em que se narra o deslocamento 
da rainha por sua casa. No modelo de tradu9&o pelo qual se optou aqui, tambem 
e importante que a expressao formular “e a elevada escadaria de sua morada 
desceu” ocupe um verso inteiro, como no original grego, porque, quando a 
personagem tem uma fala antes de se locomover, a formula que antecede “nao 
sozinha” e outra (18, 206-7 e 19, 600-1): 

Assim falou e desceu dos aposentos lustrosos, 
nao sozinha, mas com ela seguiam duas criadas. 


Isso disse e subiu aos aposentos lustrosos. 


nao sozinha, mas com ela iam outras criadas. 


Num primeiro momenta, a varia?ao nas expressoes que denotam o movimento 
da rainha parece ser de menor importancia, contingencia do estilo oral. Todavia, 
no caso da passagem do canto 1 , enfatiza-se, por meio da “elevada escadaria”, 
nao so a riqueza da casa de Odisseu, mas sobretudo a distancia (fisica e moral) 
entre Penelope e os pretendentes. Quanto as outras duas passagens com a 
formula para “duas criadas”, e somente aqui, no verso anterior a repetiijao, que 
se utiliza a expressao formular “desceu / subiu dos / aos aposentos lustruosos”. 
Trata-se da narra?ao de dois eventos que ocorrem no mesmo dia, aquele em que 
Odisseu enfim ve sua mulher e com ela conversa; a formula delimita, no tempo, 
o encontro daqueles que ainda nao podem se unir como casal. Assim, a 
expressao “aposentos lustrosos” esta ligada a uniao marital entre os dois, e so e 
empregada mais uma vez( 22 , 428 ) em referenda a esses mesmos aposentos, 
imediatamente antes da noite de “nupcias” entre os dois. 

Desse modo, a tradufao foi elaborada para permitir ao leitor a reconstru9ao 
desses nexos oriundos da repetipao de palavras ou grupos de palavras, sobretudo 
quando na mesma posi^ao do verso, j a que no poema verifica-se a reitera9ao de 
cenas inteiras (por exemplo, a recep9ao de um hospede), de a9oes especificas (a 
triplice repeti9ao do engodo de Penelope) ou de versos isolados, como vista 
acima. Alem disso, ao nao variar a tradu9ao de determinado termo, marquei o 
uso reiterado de palavras que tern um carater metonimico forte, ou seja, 
definem temas ou personagens: “fama” e cognatos, por exemplo, traduzem 
kleos, um termo que define a propria poesia epica. Diversas expressoes ou 
term os isolados sao destacados no original por meio da posi9ao (inicio ou fun de 
versos), como o tematicamente muito importante “retorno / retornar”. 

“Inteligente” e um adjetivo que utilize apenas para traduzir um participio 
grego que na maior parte das vezes qualifica Telemaco, personagem que, se nao 
passa por certa “inicia9ao” ao longo do poema, no minimo se ve em certas 
situa9oes nas quais, para se sair bem, precisa agir de forma homologa ao 
heroismo do pai. Ora, e para isso que o adjetivo aponta desde o inicio do poema. 
Sua reitera9ao contribui para cristalizar a caracteriza9§o da personagem, 
tornando-a mais presente para o ouvinte do poema. 

“Enfeiti9ar” e um dos term os que, no poema, designam o efeito de um canto 


poetico sobre seu publico; o outro, muito mais comum, e “agradar”. Ao termo, 
portanto, precisa ser conferido o devido destaque, e sua particularidade e 
assinaladaja na primeira vezem que aparece no poema (1, 337-80): 

Femio, sabes muito outro feitifo que age sobre os mortais, 
a?oes de varoes e deuses que cantores tornam famosas [...] 

Seu conteudo metapoetico e essencial para a compreensao do poema e para isso 
os tres sintagmas fundamentais dos dois versos citados, cujos nucleos sao 
“feitigo”, “a9oes” e “tornam famosas”, devem ser distinguidos na forma como 
aparecem no original. 

Nem todas as formulas homericas sao aqui traduzidas por formulas 
equivalentes em portugues, apenas quando sao particularmente significativas e / 
ou nao exigem contorcionismo sintatico. Na ttadu^ao de epitetos que, em grego, 
sao compostos por uma unica palavra, sempre se buscou, em primeiro lugar, a 
clareza de expressao, clareza que tambem e seu atributo na dic9&o homerica. Os 
epitetos, porem, sao traduzidos de maneiras diversas: 

* epitetos especiais, por exemplo, Atena “olhos-de-coruja”: esses epitetos 
distintivos (ou seja, que costumam caracterizar apenas uma unica realidade) 
sao constitutivos da poesia epica grega e, portanto, receberam uma tradu<;ao 
distintiva por meio de adjetivos compostos por justaposi^ao. Espero que tal 
op?ao reproduza, pelo menos em parte, a combina9ao de estranheza e 
familiaridade que tais adjetivos causavam a audiencia antiga. As vezes, um 
deus e referido no poema apenas por seu epiteto, por exemplo, “treme-terra” 
e “juba-cobalto” para Poseidon, Argifonte para Hermes e Citereia para 
Afrodite - esses dois ultimos epitetos nao traduzidos porque seu sentido se 
perdeu, ou melhor, todas as interpreta9oes oferecidas sao incertas; 

* epitetos genericos, como “excelso”: epitetos ornamentais dessa especie sao, 
com frequencia, traduzidos por adjetivos simples ou sintagmas cuja estrutura 
seja comum na sintaxe da lingua portuguesa, pois tais epitetos, j unto com o 
substantivo que qualificam, sobretudo quando na mesma posi9ao do verso, 
funcionam metonimicamente, como se viu acima no emprego da expressao 
“nao sozinha”. 


Enumero, a seguir, algumas formulas cujo sentido talveznao seja claro a 
primeira vista para o leitor da tradu9ao: 

* “o sacro impeto de Alcinoo”: linguagem arcaica ou arcaizante, e uma 
perifrase do nome do agente, no caso, Alcinoo; “(sacra) for9a de Heracles 
(/Telemaco)” 6 uma formula homologa; 

* “dirigiu-se-lhes e nomeou-os”: com o tempo, “nomear”, nessa e em 
formulas paralelas, perdeu o sentido de “chamar alguem pelo nome” e 
tornou-se virtualmente sinonimo de “dirigir-se a alguem”; 

* “varoes, que sobre a terra comem pao”: a formula reitera um tra90 
inalienavel da humanidade, a de que os homens comem pao e, portanto, nao 
sao deuses, animais ou criaturas intermediarias entre essas tres categorias 
principais; 

* “deusa divina”: formula pleonastica que pode ser aplicada a qualquer deusa; 

* “matan9a e perdi9ao”: esse e um outro caso em que dois elementos 
virtualmente sinonimos sao usados em combina9ao; o termo aqui traduzido 
por “perdi9ao” pode ter tido, no inicio, o sentido de “destino”; uma formula 
sinonima dessa e “ (negra) perdi9ao da morte”; 

* “mar emba9ado”: refere-se ao horizonte no mar, quando o limite entre ceu e 
mar parece se dissolver em uma bruma; 

* “leitos (bem) perfurados”: enfatiza a excelencia da carpintaria, ou seja, uma 
cama cujas partes estao bem encaixadas; 

* “medo amarelo”: aponta para a palidez resultante do medo; 

* “bem femininas mulheres”: enfatiza a oposi9ao entre mulheres e homens. 

Assim como uma performance epica, na epoca de composi9ao dos poemas, 
representava um distanciamento significativo do tempo, do lugar e, em especial, 
da linguagem do publico-alvo, a presente tradu9ao nao recuou diante da tarefa de 
recriar, mesmo que contra certas estruturas morfossintaticas da lingua 
portuguesa, alguns elementos distintivos da linguagem artificial da poesia epica 
arcaica, por exemplo, o uso bastante comum de um verbo acompanhado de um 
sujeito ou objeto com a mesma raiz(“entre eles cantor cantava”: 1, 325). Isso foi 
feito levando-se em conta que, ainda que a tradu9ao, num primeiro momento, 
possa soar estranha para um falante do portugues, a leitura continua possibilitara 
que o texto se torne cada vezmais familiar e fluente. 


E necessario levar em conta que a comunicasao entre o aedo e seu publico e 
oral, o que tambem ajuda a explicar constru^oes sintaticas como a seguinte, na 
qual o falante como que muda de “intenfao sintatica” no meio da frase (8, 236- 
40): 

Estranho, como nao nos desagrada o que falas, 
mas queres revelar a excelencia que te segue, 
encolerizado porque a ti esse varao, erguido na pista, 
provocou como mortal algum depreciaria tua excelencia, 
todo que soubesse, em seu juizo, falar com acerto; 

As formulas que introduzem ou fecham discursos diretos sao, de proposito, mais 
duras sintaticamente no portugues, pois na performance dos poemas marcam a 
passagem do discurso de um sujeito de performance para outro, quais sejam, o 
aedo / Homero / narrador e a personagem (Bakter 2013). Em geral, quando a 
sintaxe soar arrevesada, e porque ela acentua algo significativo. Assim, quando 
Penelope conta para o cretense (Odisseu) que “primeiro o deus soprou, em meu 
juizo, um manto, / apos grande urdidura armar no palacio, tramar - / fina e bem 
longa”, tal sintaxe reproduzuma especie de contraponto entre a a9§o de tecer e 
“destecer”. De qualquer forma, oralmente, pode soar bem menos barroca. 

No grego homerico, e muito comum a estrutura enfatica do husteron proteron, 
“primeiro o que vem depois”. Em portugues, sempre que o texto soasse muito 
estranho, nao mantive essa forma. Assim, em vezde “cresceram e nasceram”, 
optei por “nasceram e cresceram”. 

Nao segui sempre os nomes da mitologia grega consagrados em portugues. 
Assim, adotei Sirenas (na Odisseia, apenas duas criaturas que vivem numa ilha) 
para quebrar a ideia comum de que as criaturas que Odisseu encontra em sua 
viagem se assemelham as sereias da mitologia nordica. Diversos idiomas 
possuem dois term os distintos para essas criaturas bastante diversas (em ingles, 
mermaids e sirens). Odisseu, e nao Ulisses, foi escolhido, sobretudo, para facilitar 
o jogo de linguagem que e feito no poema com palavras da familia de “odiar”. 

Optei por traduzir alguns nomes proprios, pois faz parte da dic?ao epica a 
explora9ao poetica e tematica desses nomes, mas nao traduzi nenhum nome de 
personagem central, unico criterio rigido adotado para a decisao acerca de quais 


nomes verter ou nao. Escolhi traduzir boa parte dos nomes de tres grupos 
principals: certos acidentes geograficos (como a pedra Corvo); personagens 
secundarias cujo nome contribui para criar uma especie de atmosfera epica 
(pensemos nos nomes dos jagun90S “figurantes” em Grande sertao: veredas) ou 
apontar determinado tema; e a maioria das personagens feacias, com excefao 
das centrais, pois elas remetem, em sua quase totalidade, ao ambiente maritimo, 
e compoem um catalogo, a certa altura, de nomes “falantes” ( noms parlants), 
um tipico tourde force do aedo grego (comparemos com o catalogo de nereidas 
na Iliada e o das filhas de Oceano na Teogonia). 

No final do volume, apresentamos um glossario composto por todos os nomes 
que receberam uma versao traduzida no poema, acorn panhados do equivalente 
grego e, eventualmente, de uma explica?ao adicional acerca da tradu?ao. 
Tambem acrescentamos ao glossario a maioria dos nomes nao traduzidos cujo 
sentido parece ser explorado no poema ou em algum momento da evolugao da 
tradi?ao oral epica. Para esse segundo grupo, o nome vem acompanhado de uma 
tradufao e, eventualmente, uma sumaria explica^o de seu sentido. 

Utilizei “mui”, que soa arcano, na formula “mui sacra Pilos”. O tom do 
adjetivo contribui para a caracterizafao da cidade e sua ligafao com seu rei, o 
anciao Nestor. 

Ao termo “polvo”, preferi “muitos-pes” (5, 432), por acreditar que o leitor 
atento sabera de que animal se trata e porque “muitos” fortalece a rela9ao com 
Odisseu, caracterizado por uma serie de epitetos com “muito.”. No imaginario 
grego, o polvo tambem e uma criatura astuta (Vernant & Detienne 2008). 

Uma familia de termos importante no poema dizrespeito a realidade da polis. 
“Urbe” e “cidade” sao usados indistintamente; busquei refletir, de alguma forma, 
o carater fluido da nova realidade politica e social que adquiria forma “classica” 
durante os seculos de cristaliza^ao da linhagem do poema. Neste, tambem nao ha 
rigor no emprego dos termos que se referem a essa realidade. 

Outro termo de dificil tradu9ao, tendo em vista a realidade social grega, e 
xenos, que traduzo por “estranho”, seu sinonimo “estrangeiro”, “hospede” ou 
“aliado”, dependendo do contexto. “Aliado” deve ser entendido como uma 
alian9a “pacifica” entre nobres, ou seja, nao se trata de um contexto de guerra, 
mas de algo proximo daquilo que entendemos por “amizade”, com a 
componente afetiva menos marcada e a presen9a de uma caracteristica moral. 


pois o termo e seus cognatos implicam um feixe de deveres e direitos que devem 
ser respeitados por ambas as partes da rela^o. 

Nao e possivel reconstruir com exatidao um modelo de moradia a partir do 
vocabulario utilizado na Odisseia ; o que chamamos de “casa” ou “moradia” tern 
como equivalentes diversos term os gregos. Por um lado, o palacio de Menelau e 
o de Alcinoo claramente evocam estruturas mais majestosas que o periodo 
historico em que o poema tomou forma; por outro, nao se trata de uma 
reprodugao dos palacios micenicos. De qualquer forma, o palacio de Odisseu, a 
cabana de Eumeu ou a gruta de Calipso refletem uma mesma estrutura basica 
cujo centro e uma construfao quadrangular ( megaron ) que no singular traduziu- 
se por “salao” e, no plural, por “saloes” ou “palacio”, pois sua estrutura b&sica e 
um salao junto ao qual ha um ou mais quartos. Nele aconteciam todas as 
atividades sociais masculinas. Esse termo aparece tambem no plural, podendo 
apenas indicar que se trata de uma casa majestosa ou sugerir que, ao contrario 
do normal, uma casa muito rica poderia ter mais de um salao. A entrada da casa 
se chega por meio de um patio. O que se traduziu por “portico”, “colunata” e 
“vestibulo” dizrespeito a entrada da casa, mas nao lhes e dada uma descr^ao 
arquitetonica nem minima nos poemas. No salao havia uma especie de lareira 
usada para aquecimento e prepare de refei9oes. 

No caso da morada de Odisseu, Penelope passa a maior parte do tempo nas 
dependences exclusivas das mulheres no segundo andar, ou seja, ela nao e 
obrigada a frequentar o salao onde se reunem os pretendentes, mas ha certo 
contato, pois ela ouve o que la se passa e vice-versa. Tambem ha um ou mais 
depositos, um deles referido como quarto de Odisseu, no qual se guardam 
provisoes e riquezas, talvezem uma especie de porao. 

Duas atividades muito apreciadas, competi?6es esportivas e dan?a, sao 
realizadas em espafos proprios, ao ar livre, respectivamente traduzidos por 
“pista” e “arena”. 

O leitor moderno vai estranhar como varios objetos reluzem em Homero, 
desde pes ate roupas, passando por poltronas; em geral isso se da pelo uso 
extensivo de azeite de oliva. 

Servi?os domesticos e agricolas ou pecuarios sao realizados sobretudo por 
empregados que alguns especialistas definem como escravos, outros, como 


trabalhadores livres dependentes. Diversos term os sao utilizados em referenda a 
eles, enfatizando sobretudo a rela9ao entre o empregado e a casa na qual 
trabalha. Por isso o mesmo individuo, no poema, pode ser referido como 
“escravo”, “criado” ou “servo” (Thalmann 1998 ). 

Os termos “arauto” e “assistente” aludem a homens livres que realizam 
diversos tipos de atividades: o arauto e encarregado, por exemplo, de levar 
mensagens, acompanhar chefes em missoes importantes e convocar 
assembleias; os assistentes compoem uma categoria mais geral e podem 
inclusive abarcar os arautos, sendo incumbidos, entre outros afazeres, de diversas 
tarefas domesticas, como preparar uma refei?ao. 

“Rei” e um termo que, em Homero, nao se refere a uma monarquia 
dinastica, de sorte que em uma mesma comunidade, como em Itaca, pode haver 
diversos reis, que sao os homens mais poderosos politica e economic am ente. 
“Rei”, portanto, nao e uma tradufao ideal, mas e tradicional, ja que, mesmo em 
Homero, toda comunidade tern um governante cuja autoridade predomina sobre 
os outros homens poderosos e que costuma ser passada de pai para filho. 

Um pratica social bastante comum em Homero e a suplica, que pode ser 
realizada por meio de uma cerimonia ritual ou, no outro extremo, apenas por 
meio de um discurso mais ou menos formalizado. O gesto central e o toque nos 
joelhos daquele que se encontra em vantagem, ou seja, que recebe a suplica. 
Quando o proprio toque nao for possivel ou desejavel, a men9ao dele (“tocar os 
joelhos”) pode ser meramente incorporada no discurso. 

As capacidades mentais e emocionais, bem como os orgaos que por elas sao 
responsaveis e seu proprio resultado, eram compreendidos pelos gregos na epoca 
de Homero de um modo totahnente diverso daquele de hoje. Toda tradu9ao, 
portanto, sera meramente aproximativa. Assim, embora nenhum valor fosse 
atribuido ao cerebro, utilizamos “mente” para traduzir uma faculdade que se 
desenvolve no “peito” (ou simplesmente no “intimo”), a regiao de todas essas 
faculdades. As duas principals sao o “juizo”, uma faculdade/orgao sobretudo 
intelectivo, e “animo”, sobretudo emocional. “Impeto” e uma emo9ao ou 
faculdade central que dizrespeito a energia sentida por um humano para realizar 
uma tarefa, com frequencia, guerreira, e que comumente e referida como 
advinda da atua9&o direta de um deus sobre o humano. 

Outro campo semantico de dificil tradu9ao dizrespeito ao destino (“sorte”; 


“quinhao”; “fado”). A referenda principal e o momento da morte, como em “o 
quinhao funesto... da morte”. O quinhao de Odisseu (“cumpre-lhe...”), porem, 
tambem e o de um dia retornar a Itaca. Aporq:ao de vida que cada um tem pode 
ser referida como algo tecido pelas Fiandeiras quando do nascimento, ja que a 
sina de todos os mortais e, por definifao, morrer apos certo lapso de tempo. Nem 
todas as a9oes dos homens encontram-se predeterm inadas ou dependem de uma 
decisao dos deuses para ocorrer, mas quando estes decidem algo (“prender no 
jugo”), nao ha como o mortal escapar. Quando alguem morre de forma 
inesperada ou de forma rapida e indolor, fala-se das flechas de Artemis ou 
Apolo, dependendo do sexo do morto. 

Por fim, algumas notas que esclarecem elementos de ordem diversa no 
poema (os numeros identificam os versos): 

CANTO 1 

[110] O grego bebia o vinho diluindo-o em agua. 

[122] O sentido da formula “palavras plumadas” nao e mais inequivoco para 
nos, mas “plumadas” pode se referir ao voo das aves ou de flechas, ou seja, 
ao modo como um discurso se dirige do falante para o ouvinte ou, mais 
precisamente, ao discurso que atinge seu alvo. 

[344] Helade refere-se a uma regiao da Grecia continental. 

[349] “Come-grao”: formula que refor9a, atraves do modo de alimenta9ao, a 
mortalidade dos humanos, ou seja, a diferen9a entre eles e os deuses. 

[440] “Leito bem-perfurado”, o sentido exato do epiteto se perdeu; uma 
possibilidade e que se referia ao modo como cordas eram presas no leito para 
sustentar um colchao. 

CANTO 2 

[80] O cetro e marca de autoridade, utilizado em diferentes contextos; na 
assembleia, ele fica na mao daquele que tem a palavra. 

[135] Erinias sao divindades ctonicas terriveis, ligadas sobretudo a vingan9a. 
[227] “Anciao” refere-se a Laerte. 

CANTO 3 

[2] “Paramo muito-bronze” refere-se ao ceu, portanto, talvez, a sua firmeza e 
solidez, ou ao brilho das moradas dos deuses. 


CANTO 5 

[333-34] Leucoteia e o nome que essa heroina, Ino, ganhou apos morrer e ser 
divinizada. 

CANTO 6 

[106] Leto, fecundada por Zeus, gerou Apolo e Artemis, deuses flecheiros. 
[162] Broto de palmeira no templo de Apolo em Delos, aqui utilizado para 
enfatizar a altura (portanto, a beleza), a juventude e o valor de Nausicaa (de 
Jong 2001). 

CANTO 10 

[81-82] Comentadores divergem na interpretafao de Lamos e Telepilos: o 
primeiro talvez sej a outro nome do rei dos lestrigoes ou, mais provavelmente, 
do fundador da cidade, e o segundo o nome da cidade. 

CANTO 1 1 

[235] Aqui se inicia o que os eruditos chamam de “catalogo de heroinas”, ou 
sej a, uma sucessao de mulheres da idade dos herois, boa parte delas, parceira 
sexual de deuses de quern geraram filhos homens. 

[271] Epicasta e outro nome de Jocasta, mae e esposa de Edipo. 

[291] Ahistoria do adivinho que conquistou a filha de Neleu e contada com 
outras inform a?oes no canto 15 (versos 225ss.). 

[300] O destino post-mortem dos gemeos Castor e Polux (ou Polideuces) varia 
nas fontes; aqui, as vezes estao no Hades, as vezes, entre os deuses tal 
imortais. 

[601] Heracles, aqui, e tratado como possuidor de dupla natureza, pois, ao 
morrer, sua alma ou espectro rumou para o Hades, mas, ao mesmo tempo, 
foi imortalizado e esta no Olimpo, casado com Juventude. 

[623] Cerbero e o cao que vigia a entrada, ou melhor, a saida da morada de 
Hades. 

[634] Gorgo e um monstro que inspira terror em quern para ele olha. 

CANTO 12 

[172] “Branquearam a agua com os pinhos polidos”: refere-se a espuma 
produzida na agua do mar pelo movimento incessante dos remos. 


CANTO 14 

[145-7] Eumeu, por excesso de zelo, nao nomeia Odisseu porque seu nome 
remete a “odio”. 

CANTO 18 

[6] O trocadilho e com Iris, a mensageira dos deuses na Iliada (na Odisseia e 
Hermes). 

CANTO 19 

[179] Minos tem uma rela<;ao especial com Zeus, mas o que exatamente e 
dito aqui permance obscuro; e provavel a rela^ao com algum ritual de 
renova9ao da ordem social (por meio de leis?), portanto, com o renascimento, 
reinicio de uma comunidade (Levaniouk201 1). 

[404] O que Euricleia discretamente sugere e que Odisseu receba o nome 
Muito-rogado. 

[518] Dificil reconstituir a historia aludida por Penelope, pois pode remeter a 
duas historias conhecidas distintas, ainda que inter-relacionadas; em uma 
delas as personagens sao as irmas Procne, Filomela, o rei Tereu e seu filho 
Itis; nessa se conta de uma mae que mata seu filho para vingar-se da 
violencia do marido contra sua irma. Todas as personagens envolvidas, no 
final, transform am -se em passaros. Na outra versao, aquela a qual 
provavehnente Penelope alude (Levaniouk201 1), Filomela e casada com 
Zeto, rei que construiu as muralhas de Tebas, e, por ter somente um filho, 

Itilo, tem inveja de Anfion, irmao gemeo do rei, e de sua esposa Niobe, que 
tem vasta prole. Ao tentar matar o primogenito desse casal, mata, sem 
querer, o proprio filho, e se transforma no rouxinol que, a noite, entoa 
lamentoso canto. 

[573-75] Aqui e mencionado pela primeira vezo procedimento do concurso 
com o arco, cujos detalhes serao informados nos cantos 20 e, sobretudo, 21.0 
arco e de um modelo tal que a corda nao permanece fixa nas duas 
extremidades, ou seja, cada atirador precisa retesa-la (armar o arco) antes de 
verga-lo, o que e bastante dificil. Os machados que deveriam ser atravessados 
pelo arco sao fixados no patio ou no salao onde, na sequencia, Odisseu matara 
todos os pretendentes. 


CANTO 20 

[66] As filhas de Pandareu tern uma vida tao desafortunada que, 
“literalmente, perdem sua face humana e sao transformadas em criaturas 
terriveis, vingativas” como as Erlnias (Levaniouk201 1, p. 278). 

[156] Trata-se de um festa anual em honra de Apolo, que acontece no inlcio 
da primavera, ou seja: na segunda metade do poema, o frio do final do 
inverno ainda e constante. 

CANTO 21 

[295] Referenda a luta entre centauros e lapitas, comandados por Peirltoo, 
cujo casamento foi perturbado por um centauro que bebeu demais, foi punido 
e depois, debalde, buscou vingansa. 

CANTO 22 

[444] Afrodite aqui e virtualmente sinonimo de desejo sexual. 

CANTO 23 

[275] Destroi-joio e como o povo, que desconhece a navega?ao e seus 
instrumentos, se referira ao remo de Odisseu, assemelhado a uma ferramenta 
agricola. 

CANTO 24 

[40] O que normalmente se traduzpor “memoria” e, de fato, uma 
capacidade mais ampla, nao apenas mental mas tambem flsica; diz respeito a 
capacidade de por em pratica um conhecimento - no caso, como o guerreiro 
esta morto, ele nao pode agir como um cavaleiro. 

[413] Rumor e, aqui, uma divindade. 


5 As passagens assinaladas entre colchetes [...] sao provaveis interpolafoes 
tardias, ou seja, versos adicionados em um momento da transmissao dos textos 
em que o poema, na Antiguidade, j& recebera uma forma escrita razoavelmente 
estavel. Versos seguidos por uma numera^o acrescida de um “a” sao 
encontrados em um numero muito pequeno de manuscritos e podem ter sido 


acrescentados ao poema em uma fase relativamente tardia de sua transmissao 
na Antiguidade. 


PERSON AG ENS PRINCIPAIS 


AGAMEMNON comandou os aqueus em Troia; quando volta da guerra, e morto 
pela esposa Clitemnestra, que vivia em adulterio com Egisto. 

ALCINOO rei dos feacios, povo ligado ao deus Poseidon. 

ANTICLEIA mae de Odisseu, morre antes de o filho voltar para Itaca. 

ANTINOO junto com Eurimaco, lidera os pretendentes de Penelope. 

AQUILESjovem heroi, nao muito depois de derrotar o maior guerreiro troiano, 
Heitor, e morto pelo irmao deste, Paris, em conjunto com Apolo. 

ARETE esposa de Alcinoo, rei feacio. 

AUTOLICO avo materno de Odisseu; no imaginario grego, o espertalhao por 
excelencia, cujo equivalente divino e Hermes. 

CALIPSO ninfa que ajuda o naufrago Odisseu e o toma por marido, na sua ilha, 
durante sete anos. 

CASSANDRA filha de Priamo e Hecuba, no final da guerra torna-se concubina 
de Agamemnon, ao lado de quem morre assassinada. 

CIRCE ninfa que conhece magia, num primeiro momento tenta prejudicar 
Odisseu e seus companheiros, mas depois os ajuda. 

CLITEMNESTRA esposa de Agamemnon e mae de Orestes; vive em adulterio 
com Egisto e participa da morte do marido e sua concubina quando estes 
chegam a Micenas. 

DEMODOCO bardo cego dos feacios. 

EUMEU porqueiro, foi escravizado quando crian?a; de origem nobre, e um fiel 
servidor da familia de Odisseu. 

EURIALO jovem nobre feacio, desafia Odisseu e, uma vezque esse se mostra 
superior, oferece-lhe um presente valioso para se desculpar. 

EURICLEIA fiel servidora da familia de Odisseu, de quem foi ama; e de origem 
nobre. 

EURILOCO principal companheiro de Odisseu, cujas instru?oes nem sempre 
segue. 

EURIMACO j unto com Antinoo, um dos lideres dos pretendentes de Penelope. 

FEMIO bardo que os pretendentes obrigam a cantar na casa de Odisseu. 

FILOCTETES guerreiro aqueu, e picado por uma cobra e, por conta do fedor da 
ferida, e abandonado em uma ilha no caminho para Troia; e resgatado anos 


depois, porque ele e/ou seu arco sao impre sc indive is para a conquista da cidade. 

FILOITIO pastor de bois de Odisseu. 

HEITOR grande heroi troiano, filho de Priamo e Hecuba, esposo de Andromaca 
e pai de Astianax. 

HELENA esposa de Menelau, esta na origem da guerra de Troia por ter sido 
raptada (ou seduzida: no imaginario grego antigo, sao equivalentes) por Paris, 
jovem da familia real de Troia; so teve uma filha com Menelau. 

HERACLES heroi da gera?ao que antecede a dos herois que lutaram em Troia; 
excelente arqueiro, tambem se destaca pela forfa. 

LAERTE pai de Odisseu; quando este partiu para Troia, j a nao era mais o rei de 
Itaca; vive afastado do ambiente politico, em situa9ao precaria. 

MENELAU esposo de Helena, tambem demorou para chegar a Esparta, sua 
cidade. 

NAUSICAA filha adolescente - portanto, em idade de casar - de Alcinoo. 

NEOPTOLEMO filho de Aquiles com a princesa Deidamia; e levado a Troia 
quase no fim da guerra, pois uma profecia dizia que a cidade so seria tomada se 
ele e Filoctetes 1& estivessem; na conquista da cidade, mata Priamo e o pequeno 
Astianax, o ca9ula de Heitor e Andromaca. 

NESTOR anciao que lutou em Troia, sabio conselheiro, perdeu seu filho Antiloco 
na guerra; mora com a esposa e outros filhos homens em Pilos. 

ODISSEU rei de Itaca, participou da guerra de Troia, para onde foi quando 
Telemaco, seu unico filho com Penelope, ainda era bebe. 

ORESTES filho de Agamemnon, vinga a morte do pai, matando a mae e seu 
marido Egisto. 

PENELOPE esposa de Odisseu e parente de Clitemnestra e Helena. 

POLIFEMO ciclope que captura Odisseu e e por ele cegado; filho de Poseidon. 

PRIAMO anciao troiano, ainda era rei da cidade, embora nao lutasse no campo 
de batalha; na conquista da cidade, e morto por Neoptolemo. 

TELEMACO filho unico de Odisseu e Penelope; tem cerca de vinte anos quando 
Odisseu chega a Itaca. 


ODISSEIA 


5 

10 

15 

20 

25 

30 


Do varao me narra, Musa, do muitas-vias, que muito 
vagou apos devastar a sacra cidade de Troia. 

De muitos homens viu urbes e a mente conheceu, 
e muitas afl^oes sofreu ele no mar, em seu animo, 
tentando garantir sua vida e o retorno dos companheiros. 
Nem assim os companheiros socorreu, embora ansiasse: 
por iniquidade propria, a deles, pereceram, 
tolos, que as vacas de Sol Hiperion 
devoraram. Esse, porem, tirou-lhes o dia do retorno. 

De um ponto dai, deusa, filha de Zeus, fala tambem a nos. 
Os outros todos que escaparam do abrupto fim 
estavam em casa, apos escapar da guerra e do mar. 

Somente a ele, do retorno privado e da mulher, 
detinha augusta ninfa, Calipso, deusa divina, 
em cava gruta, almejando que fosse seu esposo. 

Mas quando o ano chegou e os ciclos volveram-se, 
os deuses destinaram-lhe a casa retornar, 
rumo a Itaca, e nem la escapou de provas, 
e estava entre os seus. Os deuses se apiedavam, todos, 
salvo Poseidon. Incansavel, manteve a ira 
contra o excelso Odisseu ate esse em sua terra chegar. 

Porem aquele foi ter com etiopes, distantes moradores - 
etiopes, divididos em dois grupos, varoes dos extremos: 
uns, onde Hiperion mergulha, outros, onde levanta -, 
para aceitar hecatombe de touros e carneiros. 

Nisso deleitava-se, sentado no banquete; e os outros, 
no palacio de Zeus Olimpio, estavam reunidos. 

Entre eles tomou a palavra o pai de varoes e deuses; 
lembrara-se, no animo, do impecavel Egisto, 
a quern matou o filho de Agamemnon, o afamado Orestes. 
Dele lembrou-se e entre os imortais palavras enunciou: 
“Incrivel, nao e que os mortais responsabilizam aos deuses? 
Dizem de nos vir os males; mas eles tambem por si mesmos, 
gramas a sua iniquidade, alem do quinhao tern aflipoes, 


35 como agora Egisto: alem do quinhao, do filho de Atreu 
desposou a lidima esposa, e a ele, que retornara, matou, 
sabendo do abrupto fun, poisja lhe disseramos, 
enviando Hermes, o Argifonte aguda-mirada, 
que nao o matasse nem cortejasse a consorte: 

40 ‘Por Orestes se dara a vingan?a pelo filho de Atreu 
quando tornar-se jovem e desejar sua terra’. 

Assim falou Hermes, mas nao persuadiu 

ao julzo de Egisto, benevolente. Agora tudo junto pagou”. 

E a ele respondeu a deusa, Atena olhos-de-coruja: 

45 “6 nosso pai, filho de Crono, supremo entre poderosos, 

deveras jazesse ai em merecido fim; 
assim tambem pere?a todo que fizer tais afoes. 

Mas pelo atilado Odisseu dilacera-se meu cora9ao, 
pelo desditoso; longe dos seus, ha muito sofre miser ias 
50 em ilha correntosa, onde fica o umbigo do mar, 
ilha arvorejada, onde uma deusa habita, 
filha de Atlas juizo-ruinoso, que do mar 
todo as profundas conhece, e o proprio sustem pilares 
grandes que mantem a terra e o paramo separados. 

55 Sua filha segura o desgra9ado, lamentador, 
e sempre com moles e solertes contos 
tenta enfeiti9a-lo para Itaca olvidar. Mas Odisseu, 
ansiando somente mirar fuma9a irrompendo 
de sua terra, deseja morrer. Para ele nem assim 
60 aponta teu cora9ao, Olimpio? Acaso Odisseu, 

junto a naus argivas, nao te agradou com caros sacrificios 
na larga Troia? Por que contra ele esse odio, Zeus?’. 
Respondendo, disse-lhe Zeus junta-nuvens: 

“Minlia filha, que palavra te escapou da cerca de dentes! 
65 Como eu, nesse caso, esqueceria o divino Odisseu, 
aos mortais superior na mente e nos sacrificios dados 
aos deuses imortais, que do largo paramo dispoem? 

Mas Poseidon, o terra-sustem, sem cessar continua 


colerico pelo ciclope, de quern Odisseu o olho cegou, 

70 o excelso Polifemo, cuj a robustez supera 

a de todos os ciclopes. Gerou-o Toossa, a ninfa, 
filha de Fore is, que cuida do mar ruidoso, 
unida a Poseidon em concava gruta. 

Depois disso, a Odisseu Poseidon treme-solo 
75 nao tenta matar, mas faz vagar longe da patria. 

Mas vamos nos aqui, planejemos todos 
o retorno, para que chegue. Poseidon pora de lado 
sua colera, pois por certo nao podera, contr a todos 
os deuses imortais em oposifao, brigar sozmho”. 

80 Aele respondeu a deusa, Atena olhos-de-coruja: 

“Nosso pai, filho de Crono, supremo entre poderosos, 
se isso agora e caro aos deuses ditosos, 
que retorne Odisseu muito-juizo a sua casa, 
e Hermes, entao, o condutor Argifonte, 

85 instiguemos a ilha Ogigia para, sem demora, 
a ninfa belas-trangas anunciar o firme designio, 
o retorno de Odisseu juizo-paciente, para que retorne. 
Mas eu partirei para Itaca a fim de seu filho 
mais instigar e impeto por em seu peito: 

90 que a agora chame os aqueus cabelo-comprido 

e anuncie a todos os pretendentes, que sempre abatem 
suas copiosas ovelhas e lunadas vacas tropegas. 

Vou envia-lo a Esparta e a arenosa Pilos 
para do retorno do caro pai se informar, caso algo ouvir, 
95 e que perten?a-lhe distinta fama entre os homens”. 

Apos falar assim, atou aos pes be las sandalias, 
imortais, douradas, que a levavam sobre as aguas 
e sobre a terra sem -fim com lufadas de vento. 

Tomou a brava lanpa, afiada com ponta de bronze, 

100 pesada, grande, robusta, com que subjuga filas de varoes 
herois contra quern tern rancor, a de pai ponderoso. 

E partiu, dos cumes do Olimpo lan 90 u-se 


e parou na cidade de Itaca, no portico de Odisseu, 
no umbral do patio, e na paima trazia lan?a bronzea, 

105 semelhante ao aliado, lider dos tafios, Mentes. 

Achou, claro, os arrogantes pretendentes; eles 
com pedras, diante das portas, deleitavam o animo, 
sentados no couro de bois que eles mesmos abateram. 
Para eles os arautos e ageis assistentes 
110 misturavam, uns, vinho e agua nas anforas, 
outros, com esponjas esburacadas, mesas 
lavavam e dispunham, e muita carne partiam. 

Primeiro a ve-la foi o deiforme Telemaco; 
sentado entre pretendentes, agastado no cora9ao, 

1 15 no intimo mirava o distinto pai: ao voltar um dia, 
fizesse esses pretendentes pela casa se dispersar, 
retomasse ele mesmo sua prerrogativa e regesse sua casa. 
Nisso refletia, sentado entre os pretendentes, e viu Atena. 
Foi logo ao portico, indignado no animo 
120 por um hospede tardar nos portoes. Parado perto, 
apertou-lhe a mao direita, tomou a lan?a bronzea 
e, falando, dirigiu-lhe palavras plumadas: 

“Sauda^ao, estranho, por nos ser&s acolhido. Depois, 
apos tomar parte no jantar, enunciaras o que precisas”. 

125 Assim falou, tomou a frente, e seguiu-o Palas Atena. 
Quando eles estavam dentro da alta casa, 
a lan9a postou, levando-a ate um grande pilar, 
dentro de um guarda-lan9a bem-polido, onde outras 
lan9as de Odisseu juizo-paciente havia, muitas; 

130 a ela guiou a poltrona na qual estendera um tecido, 
bela, artificiosa; embaixo, para os pes, banqueta. 

Ao lado, para si, pos variegada cadeira, longe dos outros 
pretendentes, para o estranho, agastado com o alarido, 
nao se enfastiar do jantar, em meio a soberbos, 

135 e para que o interrogasse acerca do pai ausente. 

Uma criada despejou agua - trazida em jarra 


bela, dourada - sobre bacia prateada 

para que se lavassem; ao lado estendeu polida mesa. 

Governanta respeitavel trouxe pao e pos na frente, 

140 e, j unto, muitos petiscos, oferecendo o que havia. 

O trinchador tomou e dispos gamelas com carnes 
de todo tipo, e junto deles punha ta?as douradas; 
e para eles o arauto vinha, amiude, escan^ar. 

E entraram os arrogantes pretendentes. Entao esses 
145 em ordem sentaram-se em cadeiras e poltronas. 

Para eles os arautos vertiam agua nas maos, 
e pao as escravas, a frente, amontoavam em cestas, 

[e mo?os preencheram anforas com bebida 

148 a e a todos distribuiam apos verter as primlcias nos calices]. 

E eles esticavam as maos sobre os alimentos servidos. 

150 Mas apos apaziguar o desejo por bebida e comida, 
aos pretendentes interessou, no peito, outra coisa, 
canto e dan?a, esses, o suplemento do banquete. 

Lira muito bela urn arauto pos nas maos 
de Femio, que cantava aos pretendentes, obrigado. 

155 E ele, dedilhando a lira, entoava belo preludio, 
mas Telemaco dirigiu-se a Atena olhos-de-coruja, 
perto pondo a cabe?a, para nao os ouvirem os outros: 

“Caro hospede, te indignaras contra minha fala? 

Bern, a eles isto interessa, lira e canto; 

160 e facil, pois comida de outrem devoram de graga, 
do varao cujos ossos brancos ja apodrecem na chuva, 
jazendo em terra firme, ou ondas no mar os fazem rolar. 

Se vissem que a Itaca esse homem retornou, 
todos rezariam para ser mais ligeiros nos pes 
165 que mais abastados com ouro e vestes. 

Nao, esta morto assim, vil quinhao, e nao tern os 
consolo, ainda que algum dos home ns terrestres 
afirme que voltara: perdeu-se seu dia de retorno. 

Mas vamos, dize-me isto e conta com precisao: 


170 quem es?De que cidade vens?Quais teus ancestrais? 
Chegaste em que nau? Como os nautas a ti 
conduziram ate Itaca? Quem proclamaram ser? 

De modo algum creio que a pe aqui chegaste. 

Amim dizisto, a verdade, para eu bem saber, 

175 se e tua primeira visita, ou se ja es aliado 

da familia, pois muitos varoes vinham a nossa casa, 
outros, pois ele buscava a companhia de homens”. 
Aele, entao, replicou a deusa, Atena olhos-de-coruja: 
“Portanto a ti, com muita precisao, isso direi. 

180 Proclam o ser Mentes, do atilado Anquialo 
o filho, e reino sobre o povo tafio. 

Cheguei h& pouco com nau e companheiros, 
singrando o vinoso mar rumo a homens outra-lingua, 
ate Temessa atras de bronze, e levo ardente ferro. 

185 Minha nau esta aqui no campo, longe da cidade, 
na baia de Reitron, sob o Neion coberto de mato. 
Aliados proclam am os ser, um da familia do outro, 
ha tempo, caso ao anciao perguntares, indo ate ele, 
ao heroi Laerte, que dizem nao vir mais 
190 a cidade, mas distante, no sitio, sofre miserias 
com velha criada que, a ele, comida e bebida 
dispoe quando a fadiga se apossa de seus membros, 
arrastando-se pelo seu fertil vinhedo no morro. 

Entao vim, pois falaram que ele estava na cidade, 

195 teu pai; mas eis que deuses o tiraram do caminho. 
Nao esta morto sobre a terra, o divino Odisseu, 
mas, ainda vivo, creio, e retido no extenso mar, 
em illia correntosa, e homens crueis o detem, 
selvagens, que algures o seguram contra a vontade. 
200 Agora para ti eu adivinharei como no animo 
lan^am os imortais e como acredito que se dara, 
nao sendo adivinho nem conhecendo aves ao claro. 
Nao flcara mais muito tempo longe da cara 


terra patria, nem se grilhoes de ferro o detiverem; 

205 planej ara seu retorno, j a que e o muito-truque. 

Mas vamos, dize-me isto e conta, com precisao, 
se, de fato, grande assim, es filho dele, de Odisseu. 

Incrivel: na cabe^a e nos belos olhos assemelhas-te 
aquele, pois bem amiude nos reunimos um com o outro, 

210 antes de ele embarcar para Troia, aonde tambem outros 
argivos, os melhores, foram em suas cavas naus. 

Desde entao Odisseu eu nao vi, nem ele a mim”. 

Aela, entao, o inteligente Telemaco retrucou: 

“Portanto eu a ti, hospede, com muita precisao, direi. 

215 Minha mae dizque dele sou filho, mas eu mesmo 
nao sei: ninguem, por si so, sua origem conhece. 

Tom ara tivesse eu sido filho de algum ditoso 
varao que envelhec esse junto a seus bens. 

Agora, de quern se tornou o mais desventurado dos mortais, 
220 dele afirmam que nasci, ja que isso tu me indagas”. 

A ele, entao, replicou a deusa, Atena olhos-de-coruja: 

“Os deuses, por certo, nao tornaram ingloria tua linhagem 
para o futuro, pois a ti, desse feitio, Penelope gerou. 

Mas vamos, dize-me isto e conta com precisao: 

225 que banquete, que multidao e essa? Precisas disso? 

Festa ou casamento? Pois um aim 090 isso nao e, 
porque a mim, desmedidos, com soberba parecem 
banquetear-se pela casa. Um varao se indignaria 
vendo tanta vergonha, todo sensato que chegasse”. 

230 Aela, entao, o inteligente Telemaco retrucou: 

“Hospede, j a que isso me perguntas e investigas, 
naquela epoca esta casa rica e impecavel devia 
ser, enquanto aquele varao ainda estava na cidade. 

Mas outro desejo foi o dos deuses, maquinando males, 

235 ao tornarem desaparecido aquele mais que a todos 

os homens, pois ate com ele morto nao me afligiria assim, 
se, entre seus companheiros, tivesse sido subjugado em Troia, 


ou nos bra 90 s dos seus, apos arrematar a guerra. 

Entao todos os aqueus lhe teriam erigido urn tumulo, 

240 e a seu filho teria granjeado grande fama para o futuro. 
Aele, porem, as Harpias agarraram sem rumor: 
partiu desaparecido, despercebido, e dores e lamentos 
deixou-me; aflito, nao gemo por aquele 
somente, pois deuses me armaram outras agruras vis. 
245 Quantos nobres tern poder sobre as ilhas, 

Duliquion, Same e a matosa Zacintos, 
e quantos regem pela rochosa Itaca, 
tantos cortejam m inha mae e esgotam a casa. 

Ela, nem recusar as hediondas bodas nem as completar, 
250 disso nao e capaz; eles, porem, devastam, comendo, 
minha casa. Logo despedafarao tambem a mim”. 

E a ele, atenazada, dirigiu-se Palas Atena: 

“Incrivel, por certo do afastado Odisseu muito 
precisas: nos aviltantes pretendentes desceria os bra?os. 
255 Ah! Se de volta a casa, nas portas da frente, 
e stive sse com elmo, escudo e duas lan? as, 
tal como eu pela primeira vezo mirei, 
em nossa casa bebendo e deleitando-se, 
voltando de Efira, de junto de Ilo, filho de Mermero, 

260 pois Odisseu foi tambem ate la sobre nau veloz 
em busca de P 09&0 assassina para com ela 
untar flechas ponta- bronze a. Mas aquele nao lha 
deu, pois temia indignar os deuses sempre-vivos; 
mas meu pai lha deu, pois o amava por demais. 

265 Assim Odisseu encontrasse os pretendentes; 
todos seriam destino-veloz e bodas-amargas. 

Nao, isto repousa nos joelhos dos deuses, 
se, apos retornar, ele se vingard ou nao 
em seu palacio; ja a ti pe 90 que ponderes 
270 como expulsaras os pretendentes do salao. 

Vamos agora, ouve e atenta a meu discurso: 


amanha, convoca a dgora os herois aqueus, 
e discurso enuncia a todos, os deuses por testemunhas. 
Pretendentes, ordena que se dispersem a suas casas, 

275 e tua mae, se o animo impele-a a ser desposada, 
que va logo a morada do pai, que muito possui; 
eles irao preparar as bodas e dispor um dote 
de grande monta, o que convem seguir com a filha amada. 
Ja a ti darei arguto conselho, caso fores persuadido: 

280 equipa nau excelente com vinte remadores, 

e parte em busca de novas do pai ha tempo ausente, 
para o caso de um mortal algo te dizer ou ouvires o rumor 
de Zeus, que, mais que tudo, trazfama aos homens. 
Primeiro vai a Pilos e interroga o divino Nestor, 

285 e de la ate Esparta, para junto do loiro Menelau; 

ele foi, dos aqueus coura?a-bronzea, o ultimo a chegar. 

Se ouvires da subsistence e do retorno de teu pai, 
sim, embora arruinado, ainda aguentarias um ano; 
se ouvires que ele esta morto e nao vive mais, 

290 apos retornares, entao, a cara terra patria, 

ergue-lhe cenotafio e tambem oferta oferendas 
a fare, quanto convem, e da a mae a um varao. 

Mas quando tiveres aquilo feito e completado, 
planeja entao no juizo e no animo 
295 como os pretendentes em teu palacio 

mataras, com truque ou as claras; tu nao precisas 
continuar com tolices, pois nao tens mais idade. 

Nao escutaste que fama logrou o divino Orestes 
entre todos os homens apos matar o assassino do pai, 

300 Egisto astucia-ardilosa, que matara seu pai glorioso? 
Tambem tu, amigo, pois te vejo muito belo e alto, 
se bravo para tambem geragoes futuras te elogiarem. 

Mas eu descerei agora a nau veloz, 

ate os companheiros, que, impacientes, me aguardam; 

305 que a ti isso ocupe, e atenta a meu discurso”. 


Aela, entao, o inteligente Telemaco retrucou: 

“Hospede, por certo com benevolencia dizes isso, 
como pai para filho, e disso nunca me esquecerei. 

Mas vamos, fica, embora sofrego pela rota, 

310 para que, banho tornado, apos deleitar teu corasao, 
com um dom rumes ao navio de animo alegre, 
algo valioso e muito belo, que te sera preciosidade 
minha, algo com que caros aliados a aliados presenteiam”. 
Aele, entao, respondeu a deusa, Atena olhos-de-coruja: 

315 “Nao me segures mais, pois almejo partir; 
o dom, que teu cora?ao pede que me des, 
no retorno seja dado para eu o levar para casa, 
apos muito belo pegares; para ti haverd retribuigao”. 

Ela, apos falar assim, partiu, Atena olhos-de-coruja, 

320 e como ave pela chamine voou; e no animo dele 
pos impeto e audacia e fe-lo lembrar-se do pai 
ainda mais que no passado. Ele em seu juizo refletiu 
e pasmou-se no animo: pensou tratar-se de um deus. 

Presto foi aos pretendentes, heroi igual ao deus. 

325 Entre eles cantor cantava, bem famoso, e, quietos, 
sentados ouviam. Dos aqueus cantava o retorno 
funesto, que, desde Troia, impos-lhes Palas Atena. 

Em cima, compreendeu no juizo seu inspirado canto 
a filha de Icario, Penelope bem-ajuizada; 

330 e a elevada escadaria de sua morada desceu, 
nao sozinha, mas com ela seguiam duas criadas. 

Quando alcan 90 u os pretendentes, divina mulher, 
parou ao lado do pilar do teto, solida constru^ao, 
apos puxar, para diante da face, o veu reluzente; 

335 e criadas devotadas, uma de cada lado, se postaram. 

Aos prantos, entao dirigiu-se ao divino cantor: 

“Femio, sabes muito outro feiti^o que age sobre os mortais, 
afoes de varoes e deuses que cantores tornam famosas; 
desses canta um, sentado junto deles, e, quietos, 


340 bebam vinho. Mas interrompe esse canto 
funesto, que sempre, no peito, meu coragao 
tortura, depois que assaltou-me afligao inesquecivel. 

De notavel pessoa tenho saudade, lembrando-me sempre 
do varao cuja fama e ampla na Helade ate o meio de Argos”. 

345 Aela, entao, o inteligente Telemaco retrucou: 

“Ora, minha mae, por que te desagrada que o leal cantor 
deleite como a mente o instiga?Nao sao os cantores 
os responsaveis, mas, de algum modo, Zeus; ele que da 
ao homem come-grao como quiser, a cada um. 

350 Nao cabe indignagao contra ele ao cantar a ma sorte dos danaos; 
os homens, com efeito, tornam mais famoso o canto 
que for o mais recente a circundar os ouvintes. 

Que teu coragao e animo suportem ouvir, 
pois nao so Odisseu perdeu o dia do retorno 
355 em Troia; muitos outros herois tambem pereceram. 

Mas entra na casa e cuida de teus proprios afazeres, 
do tear e da roca, e ordena as criadas 
que executem o trabalho; o discurso ocupara os varoes 
todos, mormente a mim, de quem e o poder na casa”. 

360 Ela ficou pasma e foi de volta a casa, 

pois o inteligente discurso do filho pos no animo. 

Subiu aos aposentos com as criadas mulheres 
e chorou por Odisseu, caro esposo, ate sono doce 
langar-lhe sobre as palpebras Atena olhos-de-coruja. 

365 E os pretendentes iniciaram arruaga no umbroso palacio; 
todos rezaram para a seu lado no leito deitar-se. 

Entre eles o inteligente Telemaco tomou a palavra: 

“Pretendentes de minha mae, de brutal desmedida, 
agora, deleitemo-nos com o banquete, e que barulheira 
370 nao haja, pois isto e belo, ouvir um aedo 

deste feitio, semelhante a deuses na vozhumana. 

Pela manha, indo ate a agora, sentemo-nos 
todos e eu vos enunciarei um discurso resoluto: 


abandonai o palacio; cuidai de outros banquetes, 

375 comendo vossos bens, indo de uma casa a outra. 

Se isto vos parece mais lucrativo e melhor, 
o sustento de um so homem ser destruido de gra9a, 
devastai-o; mas eu clamarei aos deuses sempre-vivos, 
que Zeus um dia conceda que a retribu^ao ocorra; 

380 entao, serieis destruidos de graga dentro de casa”. 

Assim falou, e todos, com dentes mordendo os labios, 
admiraram-se de Telemaco, pois falou com audacia. 

Aele, entao, dirigiu-se Antlnoo, filho de Persuasivo: 
“Telemaco, deveras te ensinam os proprios deuses 
385 a seres fala-altiva e falares com audacia. 

Que nao a ti, de Itaca cercada-de-mar, o filho de Crono 
tome rei, o que te cabe por linhagem pelo legado paterno”. 
Aele, entao, o inteligente Telemaco retrucou: 

“Antinoo, te irritaras contra minha fala? 

390 Ate isso, caso Zeus o desse, eu gostaria de conquistar. 

Dizes que e o que ha de pior entre os homens? 

De modo algum e ruim ser rei. Rapido sua casa 
torna-se rica, e ele mesmo e mais honrado. 

Mas, na verdade, reis aqueus tambem ha outros 
395 muitos em Itaca cercada-de-mar, jovens e anciaos; 

que um deles isso tudo possua, pois morreu o divino Odisseu. 
Eu, todavia, serei senhor de nossa casa 
e de escravos que, para mim, apresou o divino Odisseu”. 
Aele, entao, Eurimaco, filho de Polibo, retrucou: 

400 “Telemaco, repousa nos joelhos dos deuses 

quern, em Itaca cercada-de-mar, sera rei dos aqueus; 
e que tu mantenhas teus bens e reine sobre tua casa. 

Que nao venha varao que, contra ti, com violencia 
arranque teus bens enquanto Itaca for habitada. 

405 Mas quero-te, nobre, indagar acerca do hospede: 
de onde vem aquele varao? De que terra proclama 
ser? Qual e sua linhagem e o solo patrio? 


Traznoticia de que teu pai esta voltando 
ou atras de necessidade propria vem aqui? 

410 Quao subita foi a partida veloz, e nao ficou 
para travar contato; vil nao aparentava ser”. 

Aele, entao, o inteligente Telemaco retrucou: 

“Eurimaco, por certo perdeu-se o retorno de meu pai; 
nao mais confio em noticias se vem de alhures, 

415 nem atento a profecia que minha mae, 

para a casa chamando um profeta, dele indague. 

Aquele e meu aliado paterno, de Tafos, 
e proclama ser Mentes, do atilado Anquialo 
o filho, e reina sobre o navegador povo tafio”. 

420 Isso falou Telemaco e no juizo reconheceu a deusa imortal. 
E aqueles para a dan?a e o desejavel canto 
volveram-se e deleitaram-se, e ficaram ate a noite. 
Enquanto se deleitavam, veio-lhes a negra noite. 

Entao, para se deitar, voltaram a suas casas. 

425 Telemaco, onde, no patio muito belo, seu quarto 
de alto pe-direito fora feito, em local todo protegido, 
la rumou ao leito, cogitando muita coisa no juizo. 

A seu lado, trazia tochas ardentes a sempre devotada 
Euricleia, filha de Voz, filho de Persuadidor 
430 a qual um dia Laerte comprou usando seus bens, 
ela ainda na puberdade, e deu vinte bois; 
como a devotada esposa honrava-a no palacio, 
e no leito nunca a tomou, evitando a raiva da mulher: 
a seu lado trazia tochas ardentes; das escravas era 
435 a que dele mais gostava e o criou quando pequeno. 

Ele abriu as portas do quarto solido, 

sentou-se na cama e tirou a tunica macia; 

e essa lan£ou nas maos da ancia de espirito agudo. 

Ela, apos dobrar a tunica, dela cuidar 
440 e pendura-la num gancho junto ao leito bem-perfurado, 
saiu do quarto, fechou a porta com ma^aneta 


prateada e puxou o ferrolho por meio da correia. 

La ele, por toda a noite, coberto por velo, 
ponderava, em seu juizo, o trajeto que planejara Atena. 



Quando surgiu a nasce-cedo, Aurora dedos-roseos, 
pos-se para fora do leito o caro filho de Odisseu; 
vestiu suas vestes, pendurou a espada afiada no ombro, 
atou aos pes reluzentes be las sandalias 
5 e saiu do quarto, de frente semelhante a um deus. 

De imediato aos arautos clara-vozordenou 
convocar a agora os aqueus cabelo-comprido. 

Aqueles os convocaram, e estes se reuniram bem rapido. 
Entao, apos estarem reunidos, todos juntos, 

10 foi a agora e na palma trazia lan9a bronzea - 

nao sozinho, mas dois lepidos caes seguiam com ele. 
Prodigiosa gra9a vertia Atena sobre ele; 
e todo o povo contemplou-o em sua chegada. 

Sentou-se no assento do pai; anciaos deram-lhe lugar. 

15 Dentre eles o heroi Eglpcio come90u a falar, 
ja encurvado pela idade e com muita experiencia. 
Tambem seu filho, o lanceiro Antifo, 
para Ilion belos-potros rumara em cavas naus, 
com o excelso Odisseu; mas matou-o o selvagem ciclope 
20 na cava gruta, e por ultimo aprontou-o para o j antar. 
Tinha tres outros filhos: um junta va-se aos pretendentes, 
Eurinomo, e dois cuidavam dos campos paternos. 

Nem assim daquele olvidou, lamentando-se, atormentado. 
Por ele vertendo lagrimas, tomou a palavra e disse: 

25 “Ouvi agora de mini, itacenses, o que vou falar: 
nossa assembleia nao se reuniu, nem houve sessao 
desde que o divino Odisseu partiu em cavas naus. 

E agora, quern a reuniu? Quern tanto necessita, 
algum dos j ovens varoes ou dos mais velhos? 

30 Ouviu noticia de um exercito a caminho, 

do que nos deveria falar ao claro por antes saber, 
ou anuncia e revela outro tema publico? 

Nobre parece-me, aben9oado. Que para ele 
Zeus complete o que deseja de bom em seu juizo”. 


35 

40 

45 

50 

55 

60 

65 


Isso disse, e o prenuncio alegrou o caro filho de Odisseu; 
nao ficou tempo sentado, e desejou falar. 

Postou-se no meio da agora; o cetro pos em sua mao 
o arauto Persuadidor, versado no inteligente. 

Entao, primeiro ao anciao abordando, disse: 

“Anciao, esse varao nao esta longe, logo saberas 
quern - eu reuni o povo; enorme aflisao me atinge. 

Nao ouvi noticia de um exercito a caminho, 
do que vos deveria falar ao claro por antes saber, 
nem anuncio ou revelo outro tema publico, 
mas minha propria necessidade - um mal tombou em casa, 
dois ate: primeiro perdi o nobre pai, que um dia entre vos 
aqui reinava e era como um pai amigavel; 
agora, porem, um muito maior, que logo a casa toda, 
de todo, ira despeda^ar e todo o sustento perder. 
Pretendentes atacam minha mae, contra sua vontade, 
caros filhos de varoes que, j usto aqui, sao os melhores, 
eles que a casa do pai dela tern pavor de partir, 

Icario, que deveria, ele, fazer o noivado da filha 
e entrega-la a quern quisesse, a quern o agradasse. 

E eles, frequentando nossa casa todos os dias, 
abatendo bois, ovelhas e gordas cabras, 
festejam e bebem fulgente vinho, 
levianos. Isso se desperd^a a larga. Nao ha varao, 
tal como era Odisseu, para afastar o dano da casa. 

Nos nao temos como afasta-los; sim, tambem depois 
mostraremos ser debeis e pouco versados em bravura. 

Por certo me defenderia, se capacidade eu tivesse. 

Houve a^Ses nao mais toleraveis, e nao e decoroso 
como minha casa esta em ruinas: indignai-vos tambem, 
envergonhai-vos diante de outros homens, vizinhos, 
os que moram nos arredores. E temei a ira dos deuses 
para que nao se realinhem, irritados com vis a^oes. 

Suplico por Zeus Olimpio e por Tern is, 


que dissolve e instaura assembleias de homens: 

70 recuai, amigos, deixai-me sozinho ser torturado 

por funesta dor, a nao ser que meu pai, o distinto Odisseu, 
inimigo, tenha infligido males a aqueus belas-grevas, 
pelos quais, vingando-vos, males infligis, inimigos, 
esses ai instigando. Amim, seria mais vantajoso 
75 que comesseis meus bens imoveis e o gado: 

se vos os tivesseis comido, logo haveria compensa^o; 
sim, pela cidade rogariamos, com discursos 
pedindo bens, ate que tudo fosse recuperado. 

Mas agora dores ineludiveis la 119 a is em meu animo”. 

80 Apos falar assim, irado, lan90u o cetro ao chao, 
e l&grimas jorraram; e piedade tomou todo o povo. 

Entao todos os outros atentaram, e ninguem ousou 
responder a Telemaco com duros discursos. 

So Antinoo, respondendo, lhe disse: 

85 “Telemaco fala-altiva, de impeto incontido, que falaste, 
aviltando-nos! Gostarias de nos pregar a macula. 

Contra ti nada fizeram os pretendentes aqueus, 
e sim tua cara mae, destacada conhecedora de estratagemas. 
Ja e o terceiro ano, e rapido sera o quarto, 

90 desde que frustra o animo no peito dos aqueus. 

Atodos da esperan9a e fazpromessas a cada varao, 
enviando recados; e sua mente concebe outra coisa. 

Pois cogitou este outro ardil no juizo: 
apos grande urdidura armar no palacio, tramava - 
95 fina e bem longa. De imediato nos disse: 

‘M090S, meus pretendentes, morto o divino Odisseu, 
esperai, mesmo avidos por desposar-me, ate o manto 
eu completar - que meus fios, em vao, nao se percam -, 
mortalha para o heroi Laerte, para quando a ele 
100 o quinhao funesto agarrar, o da morte dolorosa; 
que, contra mini, no povo, aqueia alguma se indigne 
se ele sem pano jazer depois que muito granjeou’. 


Assim falou, e foi persuadido nosso animo orgulhoso. 

E entao de dia tramava a enorme urdidura, 

105 e a noite desenredava-a com tochas postadas ao lado. 

Tres anos o truque nao se notou, e persuadiu os aqueus; 
mas ao chegar o quarto ano e a primavera se achegar, 

107 a as luas finando, e muitos dias passarem, 
uma das mulheres falou, a que sabia ao claro, 
e a apanhamos desenredando a trama radiante. 

110 E assim ela a completou, a contragosto, obrigada. 

Ati os pretendentes isto responderao, para que saibas 
tu mesmo em teu animo, e saibam todos os aqueus: 
envia de volta tua mae e ordena-lhe que aceite casar 
com quern o pai mandar e a ela agradar. 

115 Se ainda retardar muito tempo os filhos de aqueus, 

refletindo, no animo, no que sobremodo lhe deu Atena - 
a tecnica de trabalhos bem belos, um juizo distinto 
e truques que nunca ouvimos de alguem, nem das antigas, 
as que no passado viveram, aqueias belas-trangas, 

120 Tiro, Alcmena e Micena belas-tran^as: 

nenhuma delas ideias semelhantes as de Penelope 
conheceu; porem, a que pensou nao e moderada. 

Bom, teus recursos e teus bens eles comerao 
enquanto ela mantiver esta ideia, essa que agora 
125 os deuses poem em seu peito: grande fama para si 
adquire, mas, para ti, a saudade de muitos recursos. 

Nos nao iremos antes aos campos nem a outro lugar 
ate que seja desposada pelo aqueu que ela quiser”. 

Aele, entao, o inteligente Telemaco retrucou: 

130 “Antinoo, e impossivel afastar de casa, contra sua vontade, 
quern me gerou, quern me criou, e meu pai esta alhures, 
vivo ou morto. E injusto eu pagar elevada compensagao 
a Icario, se, de bom grado, eu fizer minha mae retornar. 
Sofrerei males da parte de meu pai, e outros o deus 
135 me dara, pois minha mae invocara as hediondas Erinias 


ao deixar sua casa. Indigna^ao contra mim os homens 
mostrarao: assim, eu nunca direi esse discurso. 

Abandonai o palacio; cuidai de outros banquetes, 

140 comendo vossos bens, indo de uma casa a outra. 

Se isto vos parece melhor e mais lucrativo, 
o sustento de um so homem ser destruido de gra^a, 
devastai-o; mas clamarei aos deuses sempre-vivos 
que Zeus um dia conceda que a retribui^ao ocorra; 

145 entao, serleis destruidos de gra?a dentro de casa”. 

Assim falou Telemaco, e duas aguias Zeus ampla-visao 
enviou-lhe do alto, do pico do monte, em voo. 

As duas por um tempo voaram com lufada de vento, 
proximas uma da outra esticando as asas; 

150 mas quando alcan9aram o meio da agora muita-fala, 
la, apos voltear, bateram suas asas rapido, 
miraram as cabe9as de todos e tinham a ruina nos olhos: 
com as garras arranharam faces e pesco90s 
e a direita lan9aram-se atraves das casas, da cidade deles. 
155 Eles pasmaram-se com as aves ao ve-las, 

e revolveram no animo o que iria, de fato, se completar. 
Entre eles tambem falou o velho heroi Haliterses, 
filho de Buscador, o unico a superar os de sua idade 
no conhecimento das aves e nos enunciados profeticos. 

160 Refletindo bem, entre eles tomou a palavra e disse: 

“Ouvi agora de mim, itacenses, o que vou falar: 
falo sobretudo aos pretendentes quando isto revelo. 

Contra eles rola grande desgra9a, pois Odisseu, 
nao muito tempo longe dos seus ficara, mas talvezja 
165 esteja perto, e para esses ai engendra matan9a e perdi9&o, 
para todos: tambem sera um mal para muitos outros 
de nos, moradores de Itaca bem-avistada. Nao, bem antes 
planejemos como os faremos parar: que eles, por si, 
parem, pois isso lhes e de pronto muito melhor. 

170 Nao adivinho sem experiencia, mas sei faze-lo bem. 


Afirmo que tambem para ele tudo se completou 
como lhe discursei quando para Ilion embarcavam 
os argivos, e com eles partiu Odisseu muita-astucia: 
apos muitos males sofrer e perder todos os companheiros, 
175 irreconheclvel para todos, no vigesimo ano, 

em casa chegaria. Tudo isso agora se completa”. 

A ele, entao, Eurlmaco, filho de Polibo, retrucou: 

“Anciao, vamos agora, adivinha para teus filhos 
em casa, para que um mal nao sofram no futuro; 

180 nisso sou muito melhor adivinho que tu. 

Sao muitas as aves que, sob os raios do sol, 
zanzam; nem todas, profeticas. Odisseu, porem, 
longe pereceu, e assim tambem tu, com ele, 
devias ter morrido; nao enunciarias tantas profecias 
185 e o ja encolerizado Telemaco nao ati?arias assim, 
para tua casa aguardando um dom, caso ele o levar. 

Eu, porem, te falarei, e isto se completara: 
se com muito saber antigo ao varao mais jovem, 
induzindo com palavras, incitas a endurecer, 

190 a ele mesmo, primeiro, ocorrerao mais problemas, 

[e nada podera realizar por causa deles;] 
e para ti, anciao, imporemos pena, que, no animo, 
doera pagar: duro te sera o sofrimento. 

A Telemaco, diante de todos, eu mesmo aconselharei: 

195 que a sua mae ele ordene voltar a casa do pai, 
e eles as bodas irao preparar e dispor um dote 
de grande monta, o que convem seguir com filha amada. 
Nao creio que antes cessarao os filhos de aqueus 
a dificil corte, pois, seja como for, a ninguem tememos, 
200 por certo nao a Telemaco, embora sendo muito-discurso, 
nem atentamos para profecia que tu, anciao, 
anuncias, irrealizavel, e es mais odiado ainda. 

Ja os bens serao vilmente consumidos, e jamais iguais 
havera, enquanto ela atrasar os aqueus 


205 nessas bodas; mas nos, aguardando todos os dias, 
por sua excelencia disputamos e atras de outras 
nao vamos, das adequadas ao casamento conosco”. 

Aele, entao, o inteligente Telemaco retrucou: 

“Eurimaco e todos os outros ilustres pretendentes, 

210 isso, de vos, nao mais suplico nem disso falo. 

Ja o conhecem os deuses e todos os aqueus. 

Mas vamos, dai-me nau veloze vinte companheiros, 
que, para mim, ida e volta, efetuarao o percurso. 

Sim, irei a Esparta e a arenosa Pilos 
215 buscar noticia do retorno do pai ha tempo ausente, 
caso um mortal algo me disser ou ouvir o rumor 
de Zeus, que, mais que tudo, trazfama aos homens. 

Se da subsistence e do retorno de meu pai ouvir, 
sim, embora arruinado, ainda aguentaria um ano; 

220 se ouvir que ele esta morto e nao vive mais, 
apos retornar, entao, a cara terra patria, 
irei lhe erguer cenotafio e tambem ofertarei oferendas, 
a farta, quanto convem, e a um varao darei a mae”. 

Apos falar assim, sentou-se, e entre eles ergueu-se 
225 Mentor, que do impecavel Odisseu era companheiro, 
e este, ao embarcar, confiou-lhe toda a propriedade; 
que obedecesse ao anciao e com firmeza tudo guardasse. 
Refletindo bem, entre eles tomou a palavra e disse: 

“Ouvi agora de mim, itacenses, o que vou falar: 

230 que nunca mais um rei porta-cetro sej a solicito, 
suave e amigavel, nem, no juizo, saiba o medido, 
mas sempre seja duro e cometa iniquidades, 
pois ninguem se lembra do divino Odisseu, 
dentre aqueles que regeu, e era como um pai amigavel. 
235 Mas nao me oponho aos arrogantes pretendentes 
quando agem, violentos, com tramoias da mente: 
arriscando suas cabe?as, devoram com violencia 
a casa, e de Odisseu afirmam nunca ira retornar. 


Nao, me indigno com o resto do povo, como todos 
240 estao quietos, sentados, ao inves de, abordando-os, 
segurardes, sendo muitos, os poucos pretendentes”. 

E a ele Leocrito, filho de Fortificante, retrucou: 

“Insultante Mentor, doido nojuizo, que coisa falaste, 
instigando-os a nos fazer parar. E dificil, por um banquete, 
245 brigar contra varoes que estao em maior numero. 

Ainda que o itacense Odisseu, ao voltar em pessoa, 
concebesse, no animo, expulsar do salao 
os ilustres pretendentes que se banqueteiam na casa, 
a esposa, mesmo dele muito carente, nao se alegraria 
250 com sua volta: la mesmo alcan9aria ultrajante fado 
se combatesse o grupo; tu nao falaste com adequa9§o. 
Vamos, dispersai-vos, cada um rumo a sua lida, 
e para este al apressarao a rota Mentor e Haliterses, 
os qua is, desde o inicio, sao companheiros do pai. 

255 Mas, creio, por muito tempo sentado, noticias 
ouvira em Itaca e nunca completara essa rota”. 

Assim ele falou, e rapido dissolveu a assembleia. 

Eis que se dispersaram, cada um rumo a sua casa, 
e os pretendentes foram a casa do divino Odisseu. 

260 Telemaco, afastando-se ate a orla do oceano, 
lavou as maos no mar cinzento e orou a Atena: 
“Ouve-me, deus que ontem vieste ate nossa casa 
e me ordenaste, em nau sobre o mar emba9ado, 
buscar noticia do retorno do pai ha tempo ausente 
265 e partir. Tudo isso atrasam os aqueus, 

e sobretudo os pretendentes com sua vil arrogancia”. 
Assim falou, orando, e das cercanias veio-lhe Atena, 
semelhante a Mentor no corpo e na vozhumana, 
e, falando, dirigiu-lhe palavras plumadas: 

270 “Telemaco, doravante nao seras vil nem imponderado, 
se, de fato, em ti foi instilado o bom impeto do pai, 
distinto como ele era para completar palavra e a9ao; 


entao va nao sera a rota, nem incompleta. 

Mas se nao es rebento dele e de Penelope, 

275 entao nao espero que completes o que concebes. 

Sim, poucos filhos com o pai se parecem, 
a maioria e pior, e poucos, melhores que o pai. 

Mas como doravante nao seras vil nem imponderado, 
e a astucia de Odisseu de modo algum te falta, 

280 ha a expectativa, entao, de que completes esses feitos. 
Por ora ignora piano e mente dos pretendentes 
irresponsaveis, pois nem sao ponderados nem civilizados. 
Nao conhecem a negra perdi?ao da morte 
que deles est& perto: todos, em um so dia, perecerao. 

285 Nao mais sera postergada a rota que concebes: 
para ti eu sou um tal companheiro de teu pai 
que irei preparar nau veloze contigo seguirei. 

Ja tu, indo para casa, junta-te aos pretendentes, 
apronta provisoes e em vasilhas tudo acomoda, 

290 vinho em anforas dupla-al?a e cevada, tutano de varoes, 
em peles compactas; eu, entre o povo, companheiros 
voluntarios rapido selecionarei. Ha naus, 
muitas, em Itaca cercada-de-mar, novas e antigas; 
dessas escolherei para ti uma excelente, 

295 e iremos ligeiro apronta-la e lanfar ao amplo mar”. 
Assim falou Atena, filha de Zeus; e nao muito tempo 
Telemaco demorou-se apos ouvir a vozhumana do deus. 
E foi a sua casa, agastado em seu cora^ao. 

Achou os arrogantes pretendentes em seu palacio 
300 pelando cabras e queimando cerdas de cevados no p&tio. 
Eis que Antinoo riu e foi direto a Telemaco; 
deu-lhe forte aperto de mao, dirigiu-se-lhe e nomeou-o: 
“Telemaco fala-altiva, de impeto incontido, que outra 
vileza no peito nao te ocupe, palavra ou aijao, 

305 mas, por mim, come e bebe, igual no passado. 

Por certo tudo isto os aqueus realizarao para ti, 


nau e seletos rem adores, para bem rapido chegares 
a mui sacra Pilos atras de noticia do ilustre pai”. 

Aele, entao, o inteligente Telemaco retrucou: 

310 “Antinoo, nao e possivel entre vos, soberbos, 
banquetear atento e se gaudiar tranquilo. 

Nao basta ja terdes devastado muitos e distintos 
bens meus como pretendentes? Eu ainda era tolo. 

Agora sou grande e, ao ouvir um discurso dos outros, 

315 entendo; alem disso, cresce meu animo; 

tentarei lan^ar perniciosa perdigao contra vos, 
ou ja em Pilos ou aqui mesmo nessa terra. 

Eu irei, e nao sera va a rota que menciono - 
passageiro, pois dono nem de navio nem de remadores 
320 sou: assim, creio, pareceu-vos mais vantaj oso”. 

Falou e puxou sua mao da mao de Antinoo, 
facil. E os pretendentes preparavam o banquete na casa. 
Debochavam dele e o ridicularizavam com palavras; 
e desse modo falavam os j ovens arrogantes: 

325 “Por certo Telemaco cogita nossa matanga. 

Ou trara alguns protetores da arenosa Pilos 
ou ate de Esparta, pois agora seu anseio e terrivel, 
ou pretende tambem ir a Efira, de fertil solo, 
para de la trazer droga tira-vida, 

330 lanpa-la numa anfora e perder-nos a todos”. 

Por sua vez, retrucava outro dos j ovens arrogantes: 
“Quern sabe tambem ele proprio, sobre cava nau, 
longe dos seus, pere9a, vagando como Odisseu. 

Assim ele avolumaria ainda mais nosso trabalho: 

335 todos os bens dividiriamos, e a propriedade 
dariamos a sua mae e a quem a desposasse”. 

Assim falavam, e ele ao quarto alto-teto do pai desceu, 
amplo, onde havia ouro e bronze amontoados, 
roupas em baus e perfumado oleo em profusao. 

340 Dentro, cantaros com vinho antigo, doce de beber. 


estavam de pe, contendo divina bebida, pura, 
ajustados em fila junto a parede, caso urn dia Odisseu 
a casa retornasse apos padecer muita agonia. 

Na frente, com tranca, portas solidas, bem justas, 

345 duplas; por 1& a governanta, de noite e de dia, 

passava, tudo guardando com mente multiperspicaz, 
Euricleia, filha de Voz, filho de Persuadidor. 

Aela dirigiu-se Telemaco apos chama-la ao quarto: 
“Maezinha, vamos, derrama vinho em anforas dupla-al9a 
350 doce, o mais saboroso depois do que tu guardas, 
pensando neste desditoso, caso vier de alhures 
o divinal Odisseu apos fugir da perdi?ao da morte. 

Enche doze, e cerra todas com tampos. 

Despeja-me cevada em alforjes bem-costurados; 

355 que haja vinte medidas de cereal, cevada moida na mo. 
Tu mesma se a unica a saber; tudo esteja posto junto, 
pois a noite eu o recolherei, quando ja tiver 
a mae subido aos aposentos e pensado no repouso; 
irei, com efeito, a Esparta e a arenosa Pilos 
360 buscar noticia do retorno do caro pai, caso algo ouvir”. 
Assim falou, e pos-se a ulular a cara nutriz Euricleia 
e, lamentando-se, dirigiu-lhes palavras plumadas: 

“Por que, filho querido, veio a teu juizo 

essa ideia? Como queres percorrer a extensa terra, 

365 sendo o am ado unico? Ele pereceu apartado da patria, 
o divinal Odisseu, em terra estrangeira. 

Eles, logo que fores, contra ti planejarao males por tr&s, 
para morreres por um ardil, e tudo isso dividirao. 

Nao, permanece aqui junto ao que e teu; nao careces 
370 pelo mar ruidoso sofrer males nem ficar a deriva”. 

Aela, entao, o inteligente Telemaco retrucou: 

“Coragem, maezinha, o piano nao existe sem um deus. 
Nao, jura que a minha mae isso nao relataras 
antes do decimo primeiro, decimo segundo dia 


375 ou ate que ela tenha saudade e 0119a que parti 

para, com seu choro, a catita cutis nao machucar”. 

Isso disse, e a velha jurou a grande jura dos deuses. 

E depois que j urou por complete essa j ura, 
logo derramou-lhe vinho em anforas dupla-al9a 
380 e despejou-lhe cevada em alforjes bem-cosidos. 

Telemaco, indo para casa, juntou-se aos pretendentes. 
Entao teve outra ideia a deusa, Atena olhos-de-coruja: 
assemelhada a Telemaco, toda a cidade percorreu 
e, de pe, ao lado de cada heroi, enunciava o discurso, 

385 pedindo que se reunissem a noite, j unto a nau veloz. 

Ela entao a Ponderado, o ilustre filho de Prudente, 
pediu nau veloz; ele, benevolente, prometeu-lha. 

E o sol mergulhou, e todas as rotas escureciam; 
nisso empurrou a nau veloz ao mar e nela colocou 
390 todo cordame que levam as naus bom-conves. 

Postou-a na ponta do porto; ao redor, nobres companheiros 
em grupo reuniram -se: a deusa instigava cada um. 

Entao teve outra ideia a deusa, Atena olhos-de-coruja: 
partiu rumo a casa do divino Odisseu; 

395 la, sobre os pretendentes, verteu doce sono, 

fe-los-os vagar bebados e derrubou as ta9as das maos. 
Apressavam-se pela urbe em ir dormir, e pouco tempo 
ficavam sentados, pois sono caia sobre suas palpebras. 

Ja Telemaco, a ele dirigiu-se Atena olhos-de-coruja, 

400 apos chama-lo para fora do palacio bom para morar, 
semelhante a Mentor no corpo e na vozhumana: 
“Telemaco, ja teus companheiros belas-grevas 
estao sentados junto aos remos e aguardam tua partida; 
sim, vamos, nao atrasemos mais tempo a jornada”. 

405 Falou assim e foi na frente Palas Atena 

celere; ele depois, atras das pegadas da deusa. 

E quando tinham descido ate a nau e o mar, 
toparam na praia os companheiros cabelo-comprido. 


E entre eles falou a forga sacra de Telemaco: 

410 “Para ca, amigos: busquemos as provisoes; j a tudo 
foi reunido na casa. Minha mae de nada sabe 
nem as escravas, e uma so ouviu meu discurso”. 

Apos falar assim, foi na frente, e eles o seguiam. 

Tendo tudo trazido, sobre a nau bom-conves 
415 depositaram como pedira o caro filho de Odisseu. 
Telemaco embarcou na nau, e Atena comandava; 
sentou-se na popa da nau, e proximo dela 
sentou-se Telemaco. E os outros soltaram os cabos 
e, apos embarcar, sentaram j unto aos ca^os dos remos. 
420 A eles brisa bem-vinda enviou Atena olhos-de-coruj a, 
Zefiro sopra-do-alto, zunindo sobre o mar vinoso. 
Telemaco, instigando os companheiros, ordenou-lhes 
pegar no cordame; e eles ouviram quern os instigou. 

O m astro de abeto, dentro da concava enora, 

425 ergueram, fixaram e prenderam com estais, 

e ifaram a branca vela com tiras de couro bem-tran 9 adas. 
Vento inflou o meio da vela, e, nos dois lados, onda 
agitada, purpura, rugia na proa, e a nau se movia; 
e ela corria onda abaixo, cumprindo o percurso. 

430 E prenderam o cordame ao longo da negra nau veloz 
e puseram de pe as anforas cheias de vinho; 
libavam aos imortais deuses sempiternos, 
e, entre todos, mais a filha de Zeus, a olhos-de-coruj a. 

Toda a noite e pela aurora, ela a rota percorria. 



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E sol levantou-se e deixou o oceano bem belo 
ate o paramo muito-bronze, para brilhar a imortais 
e a humanos mortals sobre o solo fertil. 

E eles a Pilos, a cidade bem-construlda de Neleu, 
chegaram. Os habitantes, na orla do mar, sacrificavam 
touros negros a Poseidon, o treme-solo, juba-cobalto. 

Eram nove grupos de assentos, e quinhentos estavam 
sentados em cada, e cada um ofertava nove touros. 
Enquanto comeram vlsceras, ao deus queimavam coxas, 
e aqueles aportaram direto; a vela da nau simetrica, 
apos baixar, recolheram, atracaram-na e desceram. 
Telemaco desembarcou da nau, e Atena comandava. 

Aele, primeiro, dirigiu-se a deusa, Atena olhos-de-coruja: 
“Telemaco, nao precisas mais ter vergonha, nem um pouco. 
Ve, por isso navegaste pelo oceano, para teres notlcia 
do pai, onde a terra o oculta e qual destino alcan?ou. 

Vai agora direto a Nestor doma-cavalos; 
que saibamos o piano que ele guarda no peito. 

Suplica-lhe tu mesmo que fale sem subterfugios. 

Algo falso nao dira, pois e muito inteligente”. 

Aela, entao, o inteligente Telemaco retrucou: 

“Mentor, como entao devo chegar, como sauda-lo? 

Ainda nao sou versado em discursos argutos. 

Varao jovem tern vergonha de inquirir um mais velho”. 
Aele, entao, dirigiu-se a deusa, Atena olhos-de-coruja: 
“Telemaco, uma ideia tu mesmo teras em teu juizo, 
e outra a divindade vai sugerir, pois nao acredito 
que em oposi?ao aos deuses foste gerado e nutrido”. 

Falou assim e foi na frente Palas Atena, 
celere; ele depois, atras das pegadas da deusa. 

Chegaram a reuniao e aos assentos dos varoes de Pilos, 
e 1&, sentado Nestor com os filhos, companheiros ao redor, 
preparando o banquete, assavam e espetavam a came. 
Entao viram os estranhos, e todos foram juntos, 


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com as maos os saudaram e pediram que sentassem. 
Primeiro Pisistrato, filho de Nestor, achegou-se, 
tomou a mao de ambos e acorn odou-os junto ao banquete 
em velos macios, sobre a areia do mar, 
ao lado do irmao, Trasimedes, e de seu pai. 

Deu-lhes por?oes de visceras e vinlio vertia 
em calice dourado; com uma sauda^ao, dirigiu-se 
a Palas Atena, filha de Zeus porta-egide: 

“Agora, estranho, faze ora<;ao ao senhor Poseidon; 
topastes com seu banquete ao virdes para ca. 

Mas quando tiveres libado e orado como e a norma, 
de tambem para esse ai o calice de vinho doce como mel 
para libar, pois creio que ele tambem, aos imortais, 
fa?a preces: todos os homens precisam dos deuses. 

Mas e mais jovem; tern a mesma idade que eu: 
por isso a ti, por primeiro, darei a tag a dourada”. 

Assim falou e entregou-lhe o calice com doce vinho; 
e alegrou-se Atena com o inteligente varao civilizado, 
pois a ela, por primeiro, deu a ta£a dourada. 

De imediato orou com fervor ao senhor Poseidon: 

“Ouve, Poseidon sustem-a-terra, e nao relutes, 
para nos que oramos, em completar estes feitos. 

ANestor, primeiro, e aos filhos concede majestade, 
e depois aos outros confere agradavel retribu^ao, 
a todos os pilios, pela esplendida hecatombe. 

De ainda que Telemaco e eu retornemos apos fazer 
aquilo pelo qual para ca viemos com negra nau veloz”. 
Assim fez a prece e ela mesma tudo completou. 

E deu a Telemaco o belo calice dupla-alfa; 
do mesmo modo fez a prece o caro filho de Odisseu. 
Aqueles, apos assar a carne de fora e a tirar de espetos, 
repartiram-na e partilharam majestoso banquete. 

Mas, apaziguado o desejo por bebida e comida, 

entre eles come^ou a falar o gerenio, o cavaleiro Nestor: 


“Ve, agora e mais adequado investigar e questionar 
70 quem sao os estranhos, pois se deleitaram com a comida. 
Estranhos, quem sois? Donde navegastes por fluentes vias? 
Acaso devido a um assunto, ou, levianos, vagais, 
tal como piratas ao mar? Esses vagam 
arriscando suas vidas, levando dano a gentes alheias”. 

75 Aele, entao, o inteligente Telemaco retrucou 

coraj osamente; coragem, no peito, a propria Atena 
pos, para que acerca do pai ausente o interrogasse 
e para que lhe pertencesse distinta fama entre os homens: 
“Nestor, filho de Neleu, grande majestade dos aqueus, 

80 perguntas de onde somos: eu te contarei. 

Nos de Itaca, sob o Neion, chegamos; 
o assunto de que falo e privado, nao da cidade. 

A vasta fama de meu pai persigo, esperando algo ouvir, 
do divino Odisseu juizo-paciente, que um dia, dizem, 

85 contigo combatendo, aniquilou a cidade dos troianos. 

Ve, de todos os outros que guerrearam contra troianos, 
sabemos onde cada um finou-se em funesto fim; 
a ele ate fim ignoto impos o filho de Crono. 

Ninguem pode dizer ao claro quando finou-se, 

90 se em terra firme subjugado por vardes inimigos, 
se tambem no oceano, entre as ondas de Anfitrite. 

Por isso cheguei agora a teus joelhos, esperando quereres 
narrar sua funesta ruina, se acaso viste 
com teus olhos ou ouviste de outro o discurso 
95 de que vaga: infelizao extremo, assim a mae o gerou. 

Nada edulcores, com respeito ou piedade por mim, 
mas conta-me bem com que visao te deparaste. 

Suplico-te, se um dia para ti meu pai, o nobre Odisseu, 
cumpriu palavra ou a^ao sob promessa 
100 na terra troiana, onde sofrestes desgra9as, aqueus. 

Disso agora para mim te lembra, e narra-me sem evasivas”. 
Aele, entao, respondeu o gerenio, o cavaleiro Nestor: 


“Amigo, j a que me lembraste da agonia que, naquela 
terra, suportamos, filhos de aqueus, de impeto incontido, 

105 de quanto com as naus sobre o mar emba?ado 
vagando atras de butim aonde Aquiles comandasse, 
de quanto em torno da grande urbe do senhor Priamo 
lutamos; la, entao, quantos morreram, os melhores: 
la repousa o guerreiro Ajax, la Aquiles, 

110 la Patroclo, conselheiro de mesmo peso que deuses, 
la meu caro filho, nao so forte como destemido. 

Antiloco, notavel como lesto corredor e guerreiro - 
muitos outros males alem desses sofremos: que 
homem mortal poderia enuncid-los todos? 

1 15 Nem se ficasses cinco, mesmo seis anos a meu lado 

e inquirisses quantos males la sofreram os divinos aqueus; 
antes, irritado, para tua terra patria voltarias. 

Nove anos contra eles costuramos males com cuidado, 
com todo truque, e quase nao os completou o filho de Crono. 
120 La ninguem queria rivalizar em astucia diante dele, 
pois o divino Odisseu por demais sobressaia, 
com todo truque, o teu pai, caso de fato 
fores dele o rebento. Reverencia me toma ao mirar-te: 
quanto aos discursos, sao adequados, e nao seria de crer 
125 um varao mais jovem discursar com tal adequa?ao. 

La, durante essa epoca, eu e o divino Odisseu 
nunca divergimos, nem na assembleia nem no conselho, 
mas, em um so animo, com ideia e refletida decisao, 
pensavamos como se daria o melhor para os aqueus. 

130 Porem, apos saquear a escarpada urbe de Priamo, 
partimos nas naus e um deus dispersou os aqueus, 
e Zeus, entao, no juizo armou funesto retorno 
para os argivos, pois nem ponderados nem civilizados 
eram todos; assim muitos deles toparam sorte ruim 
135 gra?as a ira ruinosa da olhos-de-coruja, a de pai ponderoso, 
que instituiu disputa entre am bos os filhos de Atreu. 


Os dois chamaram a assemble ia todos os aqueus 
a toa, sem adequaipao, quando o sol se punha - 
e eles foram, nocauteados por vinho, os filhos de aqueus - 
140 e discursaram discursos, o porque de a tropa reunir. 

La Menelau ordenou a todos os aqueus 
que se lembrassem do retorno sobre o amplo dorso do mar; 
e a Agamemnon de todo nao agradou, pois queria 
a tropa refrear e fazer sacras hecatombes 
145 a fim de apaziguar a terrivel raiva de Atena. 

Tolo; nao sabia que nao seria convencida: 
a mente dos deuses sempre-vivos nao da volta logo. 

Assim os dois, retrucando com duras palavras, 
firmes ficaram; e ergueram-se os aqueus belas-grevas 
150 com ruido prodigioso, e a decisao, dupla, agradou-lhes. 

A noite descansamos, revolvendo no juizo duras a?oes, 
uns contra os outros; entao Zeus forjou nefasta desgra9a: 
pela manha puxamos naus, alguns, ate o divino mar, 
e nelas pusemos bens e mulheres cintura-marcada. 

155 Mas metade da tropa persistiu em ficar para tras 

la mesmo, com o filho de Atreu, Agamemnon, pastor de tropa; 
metade, embarcamos e dirigimos as naus, que rapido 
navegavam, e um deus alisou o mar muito-monstro. 

Chegando a Tenedos, fizemos sacrifices aos deuses, 

160 ansiando ir para casa; e Zeus nao projetava o retorno, 
implacavel, ele, que urna segunda vezinstigou disputa vil. 

Uns partiram, apos voltar as naus ambicurvas, 
em torno do senhor Odisseu, o atilado variegada-astucia, 
de novo levando apoio ao filho de Atreu, Agamemnon; 

165 mas eu, com o conjunto das naus que me seguiam, 
parti, pois sabia que a divindade armava males. 

E partiu o filho viril de Tideu e instigou companheiros. 

Bern depois, atras de nos partiu o loiro Menelau; 
em Lesbos alcangou-nos, ao revolvermos o longo trajeto: 

170 ou prosseguiriamos ao norte da escarpada Quios, 


junto a ilha de Psira, tendo ela a esquerda, 
ou ao sul de Quios ao longo da ventosa Mimas. 

Pedimos ao deus que exibisse um prodigio, e ele a nos 
mostrou e ordenou que, rumo a Euboia, o meio do mar 
175 cortassemos, para bem rapido escapar do nefasto. 

E pos-se a soprar sibilante vento; as naus, mui ligeiro, 
atravessaram o piscoso percurso e em Gueraistos, 
a noite, aportaram. A Poseidon muitas coxas de touros 
depusemos, apos medir a grande superficie das aguas. 

180 Era o quarto dia quando em Argos as naus simetricas 

os companheiros do filho de Tideu, Diomedes doma-cavalos, 
atracaram; mas eu ate Pilos segui, e nunca cessou 
a brisa depois que o deus come^ou a faze-la soprar. 

Assim cheguei, filho querido, na ignorancia; nada sabia 
185 daqueles aqueus, quern se salvou, quern foi destruido. 

Uma vezsentado em meu palacio, as informa^oes 
que tive, como e norma, aprenderas, e nao te esconderei. 
Falou-se que chegaram bem os mirmidoes, famosos na lan9a, 
que o ilustre filho do animoso Aquiles conduziu, 

190 e, a salvo, a Filoctetes, o radiante filho de Poias. 

Idomeneu conduziu ate Creta todos os companheiros 
que escaparam da guerra, e o mar de nenhum o privou. 

Do filho de Atreu ate vos ja ouvistes, mesmo longe vivendo, 
como voltou, e como Egisto armou seu funesto fim. 

195 Todavia, esse ai pagou de volta de forma lastimavel. 

Como e bom que o varao morto ainda deixe um filho, 
pois tambem Orestes se vingou do assassino do pai, 

Egisto astucia-ardilosa, que matara seu pai glorioso. 

Tambem tu, amigo, pois te vejo muito belo e alto, 

200 se bravo, para tambem gerasoes futuras te elogiarem”. 

Aele, entao, o intehgente Telemaco retrucou: 

“Nestor, filho de Neleu, grande majestade dos aqueus, 

deveras ele se vingou e os aqueus 

levarao sua extensa fama, um canto aos vindouros. 


205 Ah! Se deuses me revestissem com tao grande for9a 
para vingar-me dos pretendentes pela acre transgressao, 
desmedidos que, contra mini, engenham a9oes iniquas. 
Mas os deuses nao me destinaram tal fortuna, 
a meu pai e a mim. Agora, todavia, cumpre aguentar”. 
210 Aele entao respondeu o gerenio, o cavaleiro Nestor: 
“Amigo, j a que disso me lembraste em tua fala, 
dizem que por causa de tua mae muitos pretendentes, 
em teu palacio, em oposi9ao a ti, engenham males. 
Dize-me se es oprimido de bom grado ou se o povo 
215 te odeia na cidade, seguindo sugestao do deus. 

Quern sabe um dia se vingue de sua violencia ao chegar, 
ou sozinho, ou todos os aqueus presentes tambem. 

Que a ti deseje ser cara Atena olhos-de-coruja 
assim como um dia se ocupou do majestoso Odisseu 
220 na terra troiana, onde nos, aqueus, sofremos agonias, 
pois nunca vi deuses, assim as claras, sendo caros, 
como ao lado daquele, as claras, esteve Palas Atena; 
se a ti assim desejar ser cara e cuidar com o animo, 
com isso alguns deles se esqueceriam das bodas”. 

225 Aele, entao, o inteligente Telemaco retrucou: 

“Anciao, creio que nunca essa palavra se completara; 
falaste grande demais; espanto-me. Nao tenho esperan9a 
de que isso ocorreria, nem se deuses o quisessem”. 

Aele, entao, dirigiu-se a deusa, Atena olhos-de-coruja: 
230 “Telemaco, que palavra te escapou da cerca de dentes! 
Facil o deus, querendo, e de longe, salva um varao. 

Eu mesmo preferiria, apos padecer muita agonia, 
voltar para casa e ver o dia do retorno 
a voltar e ser morto no lar, como a Agamemnon, 

235 Egisto e sua esposa mataram com um truque. 

Todavia a morte imparcial nem mesmo os deuses, 
ate a varao amado, sao capazes de afastar sempre que 
o quinhao funesto agarra, o da morte dolorosa”. 


Entao a ela o inteligente Telemaco retrucou: 

240 “Mentor, nao falemos raais disso, mesmo aflitos; 
aquele nunca mais tera retorno de verdade, mas ja 
planejaram-lhe os imortais a negra perdi?ao da morte. 
Agora acerca de outra historia quero inquirir e questionar 
Nestor, pois e mais civilizado e prudente que outros: 

245 tres sao as gera^Ses de varoes, dizem, que ja regeu 
e, para mim, parece um deus quando o miro. 

Nestor, filho de Neleu, narra tu a verdade: 
como morreu o filho de Atreu, Agamemnon amplo-poder? 
Onde estava Menelau?Que fim lhe armou 
250 Egisto astucia-ardilosa? Pois alguem bem melhor matou! 
Ocorreu nao estar na Argos aqueia, mas alhures 
vagava entre os homens, e teve coragem de mata-lo?’. 
Aele entao respondeu o gerenio, o cavaleiro Nestor: 
“Portanto eu a ti, filho, falarei toda a verdade. 

255 Isso tu mesmo podes adivinhar como teria ocorrido, 
se tivesse se deparado com Egisto vivo no palacio 
o filho de Atreu ao voltar de Troia, o loiro Menelau: 
entao sobre ele, morto, nao teriam terra amontoado, 
mas a ele caes e aves teriam devorado, 

260 jazendo no solo longe da urbe, e a ele nenhuma 

aqueia teria pranteado, pois feito bem inaudito armou. 
Enquanto la completavamos muitas prova9oes, 
ele, placido no interior de Argos nutre-potro, 
buscava enfeiti^ar a esposa de Agamemnon com palavras. 
265 Ela, no inlcio, rej eitava a a9ao ultraj ante, 

divina Clitemnestra, pois tinha um juizo valoroso. 

Ao lado havia um varao cantor, a quern muito pediu 
o filho de Atreu, indo a Troia, que guardasse a consorte. 
Mas quando o quinhao dos deuses a prendeu no jugo, 

270 entao aquele conduziu esse cantor a uma ilha deserta, 
deixou-o como presa e butim as aves de rapina 
e, ambos querendo, conduziu-a ate sua casa. 


Muitas coxas queimou sobre sacros altares de deuses 
e muitas oferendas pendurou, tecidos e ouro: 

275 completou feito inaudito que nunca no animo esperara. 
Quanto a nos, naveg&vamos juntos vindos de Troia, 
o filho de Atreu e eu, sabendo ser caros um ao outro. 

Mas ao chegarmos a sacra Sunion, ponta de Atenas, 
la, Febo Apolo, ao timoneiro de Menelau, 

280 com suas flechas suaves, matou apos chegar, 
enquanto tinha nas maos o leme da celere nau; 
matou a Frontis, filho de Onetor, superior aos outros 
no pilotar um navio quando sopram raj adas. 

Assim ele la foi retido, embora sofrego pela rota, 

285 ate enterrar o companheiro e oferecer oferendas. 

Mas quando tambem ele, celere, indo sobre o mar vinoso 
em concavas naus, o escarpado monte Maleia 
alcan?ou, entao rota hedionda Zeus ampla-visao 
planejou e verteu sopro de ventos sibilantes, 

290 e ondas inchadas, portentosas, feito morros. 

La, apos as naus separar, umas achegou de Creta, 
onde cidonios moravam, junto as correntes do Iardano. 

Ha uma pedra, lisa e escarpada, que cai no oceano 
no extremo de Gortina no mar emba 9 ado; 

295 la Noto empurrou grande onda rumo a ponta oeste, 
ate Faisto, e pequena pedra a grande onda quebrou. 

As naus, ve, foram la, e com esforgo da morte escaparam 
os varoes, mas as naus, contra os recifes, destro?aram 
as ondas; todavia, cinco outras naus proa-cobalto 
300 achegaram-se do Egito, vento e agua levando-as. 

Assim ele la, juntando muitos recursos e ouro, 
vagou com as naus em meio a homens outra-lingua; 
nisso armava Egisto, em casa, estas funestas a<;6es: 
matou o filho de Atreu, e o povo esteve sob seu jugo. 

305 Por sete anos reinou sobre Micenas muito-ouro; 
entao, no oitavo, veio-lhe um mal: o divino Orestes 


voltou de Atenas e matou o assassino de seu pai, 

Egisto astucia-ardilosa, que a seu pai glorioso matara. 
Apos mata-lo, aos argivos deu banquete funebre 
310 pela mae hedionda e pelo covarde Egisto; 
no mesmo dia veio-lhe Menelau bom-no-grito, 
trazendo bens, tantos quanto as naus puderam levar. 
Tambem tu, amigo, nao vagues tempo longe de casa, 
deixando teus bens para tras e, em tua casa, varoes 
315 tao soberbos; que nao te devorem tudo, 

dividindo teus bens, e tu o trajeto fagas em vao. 

Mas eu insisto e reclamo que ate Menelau 
vas; e ele que voltou ha pouco do estrangeiro, 
destes homens de onde nunca, no animo, esperariam 
320 voltar todos que, primeiro, tempestades desviaram 
no mar tao grande, de onde nem mesmo aves 
no mesmo ano voltam, pois e grande e fero. 

Mas agora vai com tua nau e teus companheiros; 
se queres ir por terra, para ti ha carro e cavalos, 

325 e ha meus filhos, que teus condutores serao 

ate a divina Lacedemonia, onde vive o loiro Menelau. 
Suplica-lhe tu mesmo que fale sem subterfugios. 

Algo falso nao dira, pois e muito inteligente”. 

Assim falou, o sol desceu e vieram as trevas. 

330 E entre eles falou a deusa, Atena olhos-de-coruja: 
“Anciao, isso contaste ponto por ponto; 
mas agora cortai as linguas e misturai o vinho 
para que a Poseidon e a outros imortais 
libemos e nos ocupemos do descanso, pois e hora. 

335 A luz j a desceu rumo as trevas, e nao convem 
tardar-se no banquete dos deuses, mas retornar”. 

Falou a filha de Zeus, e eles ouviram sua vozhumana; 
para eles os arautos vertiam agua nas maos, 
e mogos preencheram anforas com bebida 
340 e a todos distribuiam apos verter as primicias nos calices. 


As llnguas lan?avam ao fogo, e de pe sobre elas libavam. 
Mas depois de libar e beber quanto quis o animo, 
entao Atena e o deiforme Telemaco, 
ambos, prepararam-se para voltar a cava nau. 

345 Mas Nestor os conteve e abordou-os com palavras: 

“Que Zeus e outros deuses imortais impe?am isso, 
que vos, para longe de mim, rumo a nau veloz, partis 
como de alguem sem vestimenta, desvalido, 
que nao tem len<;6is e muitas capas em casa, 

350 nem para si nem para hospedes terem sono suave. 

Mas possuo, sim, capas e be las mantas. 

Por certo o caro filho desse varao Odisseu nao 
repousara na plataforma da nau enquanto eu 
viver e, depois, ficarem meus filhos no palacio 
355 para hospedes hospedar, todo que vier a minha casa”. 
Aele, entao, dirigiu-se a deusa, Atena olhos-de-coruja: 
“Isso falaste bem, caro anciao; convem que a ti 
Telemaco obedesa, ja que e muito mais decoroso assim. 
Mas ao passo que ele agora te seguira para dormir 
360 em teu palacio, eu, por outro lado, a negra nau 

irei, para encorajar os companheiros e dizer-lhes tudo. 
Proclamo ser, entre eles, o unico de mais idade; 
o restante, varoes mais jovens, seguem por amizade, 
todos com idade igual a do animoso Telemaco. 

365 La eu de sc ansaria junto a negra nau concava 
agora; mas de manha ate os animosos cauconios 
irei, onde obrigafao me e devida, nem recente, 
nem pequena. Ja tu a ele, pois alcan 90 u tua casa, 
envia com o carro e um filho: de-lhe os cavalos 
370 que correm mais ligeiro, os melhores em forga”. 

Assim falou e partiu Atena olhos-de-coruja 
feito brita-ossos; e pasmaram-se todos os aqueus. 

O anciao admirou-se quando viu com seus olhos; 
tomou a mao de Telemaco, dirigiu-se-lhe e nomeou-o: 


375 “Amigo, nao espero que fraco e covarde seras 

se a ti, tao jovem, deuses acompanham, condutores. 

Esse nao era outro dos que habitam as moradas olimpias 
mas a filha de Zeus, Tritogueneia traz-butim, 
que tambem honrava a teu nobre pai, entre os argivos. 
380 Mas senhora, se propicia, da-me distinta fama, 
a mim, meus filhos e minha respeitavel consorte; 
para ti sacrificarei novilha larga-fronte, 
indomada, que nunca um varao sob o jugo guiou: 
essa te sacrificarei, apos envolver com ouro os chifres”. 
385 Assim falou, rezando, e o ouviu Palas Atena. 

Aestes conduziu o gerenio, o cavaleiro Nestor, 
a seus filhos e genros, ate sua be la morada. 

Quando alcan9aram a esplendida casa desse senhor, 
em ordem sentaram-se nas cadeiras e poltronas. 

390 Aos que chegavam, o anciao misturou na anfora 
vinho suave, que no decimo primeiro ano 
a governanta abriu apos afrouxar a cobertura; 
esse na anfora o anciao misturou e, libando, 
rezou a Atena, a filha de Zeus porta-egide. 

395 Mas depois de libar e beber quanto quis o animo, 
os outros, para se deitar, voltaram a suas casas, 
mas a ele fez la deitar o gerenio, o cavaleiro Nestor, 
a Telemaco, o caro filho do divino Odisseu, 
num leito perfurado sob a colunata ressoante, 

400 junto a Pisistrato boa-lan9a, lider de varoes, 

que, de seus filhos, ainda solteiro, vivia no palacio. 

Ele mesmo se deitou no interior da alta casa, 
e a senhora esposa preparou-lhe cam a e len9ois. 

Quando surgiu a nasce-cedo, Aurora dedos-roseos, 

405 pos-se para fora do leito o gerenio, o cavaleiro Nestor. 
Apos sair, sentou-se nas pedras polidas 
que estavam diante de suas altas portas - 
brancas, lustradas com oleo: sobre elas antes 


Neleu sentava, conselheiro de mesmo peso que deuses; 
410 mas ele, ja subjugado pela morte, partira ao Hades, 
e agora Nestor, o gerenio, sentava, guardiao dos aqueus, 
com o cetro. Em torno os filhos, em grupo, reuniram-se 
apos virem dos quartos, Siso, Troposo, 

Perseu, Areto e o notavel Trasimedes. 

415 Aeles entao juntou-se o sexto, o heroi Pislstrato, 
e ao lado puseram o deiforme Telemaco. 

Entre eles come^u a falar o gerenio, o cavaleiro Nestor: 
“C61eres, caros filhos, cumpri-me um desejo 
para, por primeiro, entre os deuses eu propiciar Atena, 
420 que, visivel a mim, veio ao rico banquete do deus. 
Vamos, que va um a planicie atras de vaca, para logo 
chegar, e a conduza um varao vaqueiro de bois; 
outro, indo a negra nau do animoso Telemaco, 
guie todos os seus companheiros e deixe so dois; 

425 outro a Laerque verte-ouro para ca ordene 

vir a fim de envolver com ouro os chifres da vaca. 

Os restantes, ficai aqui reunidos, e instrui, la dentro, 
as escravas na casa, que preparem esplendido banquete 
e tragam assentos, madeira para o entorno e agua clara”. 
430 Assim falou, e todos eles agiram: a vaca veio 
da planicie, e vieram da simetrica nau veloz 
os companheiros do energico Telemaco, e veio o ferreiro 
com as ferramentas na mao, meios para efetuar sua arte, 
a bigorna, o martelo e a bem-feita ping a, 

435 com os quais trabalhava o ouro; e veio Atena 

para os sacrifices receber. O anciao, cavaleiro Nestor, 
deu o ouro; aquele, entao, com pericia os chifres da vaca 
envolveu para a deusa, ao ver a oferenda, se alegrar. 
Avaca conduziam pelos chifres Troposo e Siso. 

440 Numa bacia florida, Areto trouxe do quarto 

agua para eles, e na outra mao, numa cesta, trazia 
graos de cevada; Trasimedes, firme guerreiro, machado 


afiado na mao, estava ao la do para a vaca golpear. 

Perseu tinha a gamela. O anciao, c a valeiro Nestor, 

445 com agua e cevada iniciou o rito; efusivo, a Atena 

rezou ao dar primlcias, lan9ando pelos da cabepa no fogo. 
Mas apos rezar e lan?ar graos de cevada para frente, 
logo o filho de Nestor, o magnanimo Traslmedes, 
golpeou-a, parado perto: o machado decepou os tendoes 
450 do pesco?o e soltou o Impeto da vaca; e elas ulularam, 
as filhas, as noras e a respeitavel esposa de Nestor, 
Eurldice, a mais velha das filhas de Glorioso. 

Os outros depois, erguendo-a do chao largas-rotas, 
seguraram-na; e degolou-a Pisistrato, llder de tropa. 

455 Ao j orrar negro sangue, a vida deixou os ossos, 

e logo a desmembraram, rapido deceparam as coxas, 
tudo pela ordem, com gordura encobriram-nas, 
camada dupla, e sobre elas puseram pe?as cruas. 
Queimava-as sobre toras o anciao e nelas fulgente vinho 
460 aspergia; perto, j ovens com garfos cinco-pontas nas maos. 
Mas apos queimar coxas e comer visceras, 
cortaram o restante, transpassaram em espetos 
e assaram, tendo nas maos os espetos pontiagudos. 

Nisso banhara a Telemaco a bela Policasta, 

465 a mais jovem filha de Nestor, filho de Neleu. 

Depois de o banhar e ungir a larga com oleo, 
lan^ou belo manto e uma tunica em torno dele, 
e ele saiu da banheira, no porte semelhante a imortais; 
indo para junto de Nestor, pastor de tropa, sentou-se. 

470 Tendo assado a came de fora e a tirado dos espetos, 
banquetearam-se sentados; nobres varoes se ergueram 
e vinho escan9avam em calices dourados. 

Mas apos apaziguar o desejo por bebida e comida, 
entre eles come90u a falar o gerenio, o cavaleiro Nestor: 
475 “Filhos, vamos, para Telemaco cavalos bela-pelagem 
trazei e jungi ao carro para que percorram a rota”. 


Assim falou, e eles o ouviram direito e obedeceram, 
e, celeres, jungiram cavalos velozes ao carro. 

Nele a governanta colocou pao e vinho, 

480 e alimentos que comem reis criados por Zeus. 

Entao Telemaco subiu no carro muito belo; 
ao lado, o filho de Nestor, Pisistrato, lider de tropa, 
no carro subiu e as redeas segurou com as maos. 
Chicoteou para puxarem, e eles de bom grado voaram 
485 pela planicie e deixaram a escarpada cidade de Pilos. 
Agitaram o dia todo o jugo que levavam nos dois lados. 
E o sol mergulhou, e todas as rotas escureciam; 
e chegaram a Feras, rumo a casa de Diodes, 
o filho de Tocaioso, que Alfeio gerou como filho. 

490 La descansaram a noite, e ele lhes regalou. 

Quando surgiu a nasce-cedo, Aurora dedos-roseos, 
jungiram os cavalos e subiram no variegado carro; 
e partiram do portico, da colunata ressoante. 

Chicoteou para puxarem, e eles de bom grado voaram. 
495 Atingiram a planicie fertil, onde entao tentaram 

findar o trajeto; e os rapidos cavalos alongaram o passo. 
E o sol mergulhou, e todas as rotas escureciam. 



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E eles chegaram a cava Lacedemonia, cavernosa, 
e dirigiram-se a casa do majestoso Menelau. 

Acharam-no em sua propriedade dando festa 
a camaradas pelas bodas do filho e da filha impecavel. 
Essa ao filho de Aquiles rompe-batalhao enviava; 
em Troia, primeiro, prometeu e indicou 
que a daria, e os deuses lhes completavam as bodas. 

Aela, pois, com cavalos e carro, enviava em viagem 
a urbe bem famosa dos mirmidoes, a quern aquele regia. 
Para o filho, de Esparta fezconduzir a filha de Defensor, 
para o muito amado que lhe nascera, o forte Grandafli?ao, 
de escrava; deuses nao deram mais rebento a Helena 
desde que, primeiro, gerou a filha encantadora, 

Hermione, que tinha a formosura da dourada Afrodite. 

Assim banqueteavam, na enorme casa de alto pe-direito, 

os vizinhos e camaradas do majestoso Menelau, 

com deleite. E entre eles cantava divino cantor 

com a lira; dois acrobatas, entre eles, 

liderando canto e dan9a, volteavam no meio. 

Pois aqueles dois, no portico da casa, eles e os cavalos, 
o heroi Telemaco e o radiante filho de Nestor, 
esperavam: achegando-se, viu-os o senhor Veridico, 
agil assistente do majestoso Menelau, 
e foi levar a noticia, na casa, ao pastor de tropa; 
parado perto, dirigiu-lhe palavras plumadas: 

“Ha dois estranhos aqui, Menelau criado-por-Zeus, 
dois varoes, assemelhados a linhagem do grande Zeus. 

Pois dize: devemos soltar seus velozes cavalos 
ou envia-los de partida a outro para que os acolha?’. 

Muito perturbado, a ele dirigiu-se o loiro Menelau: 

“Nunca foste tolo, Veridico, filho de Auxiliador, 
no passado; agora, como crian9a, falas tolices. 

Ve, nos dois, apos amiude comer regalos 

de outros homens, aqui chegamos, esperando que Zeus, 


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no futuro, nos poupe de agonia. Pois solta os cavalos 
dos estranhos e fa?a-os adentrar para festejar”. 

Assim falou, e ele correu pelo salao e chamou outros, 
ageis assistentes, que seguiram junto a ele. 

Soltaram do jugo os cavalos suados 
e prenderam-nos nos estabulos equestres; 
a eles jogaram espelta e, com ela, branca cevada; 
os carros apoiaram nas paredes resplandecentes 
e os hospedes introduziram na casa divina. Mirando-a, 
admiravam-se com a casa do rei criado-por-Zeus: 
assim como o do sol ou da lua, clarao havia 
pela casa de alto pe-direito do majestoso Menelau. 
Tendo-se deleitado em mirar com os olhos, 
entraram na bem-polida banheira e banharam-se. 

Apos as escravas banha-los, unta-los com oleo 

e em torno lan9ar espessas capas e tunicas, 

em poltronas sentaram-se junto a Menelau, filho de Atreu. 

Uma criada despejou agua - trazida em jarra 

bela, dourada - sobre bacia prateada 

para que se lavassem; ao la do estendeu polida mesa. 

Governanta respeitavel trouxe pao e pos na frente, 

e junto, muitos petiscos, oferecendo o que havia. 

O trine hador tomou e dispos game las com carnes 
de todo o tipo, e junto deles punha ta?as douradas. 
Saudando-os, dirigiu-se-lhes o loiro Menelau: 

“De pao servi-vos e alegrai-vos; e apos 
partilhar do jantar, perguntaremos quern sois, 
que varoes. Em vos nao pereceu a linhagem dos pais, 
mas sois de linhagem dos que sao reis criados-por-Zeus, 
os porta-cetro, pois vis nao gerariam gente de tal indole”. 
Falou e passou-lhes com a mao nacos de gordo 
lombo de boi assado, pois com eles fora homenageado. 

E eles esticavam as maos sobre os alimentos servidos. 

Mas apos apaziguar o desejo por bebida e comida, 


entao Telemaco falava ao filho de Nestor, 

70 perto pondo a cabe^a para nao os ouvirem os outros: 
“Observa, filho de Nestor, tu que agradas meu animo, 
o relampejo do bronze pela casa ruidosa, 
e o do ouro, do am bar, da prata e do marfim. 

Morada assim, por dentro, creio ser a de Zeus Olimpio, 

75 com tanta coisa sem conta: reverencia me toma ao mirar”. 
No que disse, prestou aten?ao o loiro Menelau 
que, falando, dirigiu-lhes palavras plumadas: 

“Caros filhos, nenhum mortal deveria disputar com Zeus: 
imortais sao suas posses e morada; 

80 dos varoes, algum talvez disputara comigo 

em posses. Sim, apos muito padecer e muito vagar, 
conduzi-as nas naus e no oitavo ano cheguei, 
depois de vagar por Chipre, Fenicia e entre egipcios; 
os etiopes alcancei, os sidonios, os erembos 
85 e a Libia, onde cordeiros de subito tern chifres completos. 
Tres vezes ovelhas procriam no ciclo de um ano; 
la nem senhor nem pastor tern carencia 
de queijo e de came e nem de leite doce, 
mas sempre tern leite abundante para a ordenha. 

90 Enquanto eu por ai, recolhendo muitos recursos, 
vagava, outro assassinou meu irmao 
as ocultas, de surpresa, com truque da nefasta esposa; 
assim reino, nao me agradando dessas posses. 

Dos pais deveis ter ouvido isso, sejam eles quern 
95 forem, pois muito padeci e perdi a propriedade 
bem boa para morar, com muita coisa preciosa. 

Eu deveria ate com a ter^a parte em casa 
ter vivido, e os varoes, a salvo, os que morreram 
na ampla Troia, longe de Argos nutre-potro. 

100 Mas, ainda que chorando a todos, angustiado, 
muitas vezes sentado em nosso palacio - 
primeiro com lamento deleito-me no peito, depois 


paro: rapido alguem se sacia do lamento gelado - 
a eles todos nao choro tanto, embora atormentado, 

105 quanto a um unico, que me fazodiar sono e alimento 
ao lembrar, pois nenhum aqueu tanto aguentou 
quanto Odisseu aguentou e assumiu. Assim foi preciso 
ele sofrer agruras, e eu, dor sempre inesquecivel 
por ele, pois ha muito esta ausente, e nada sabemos, 

1 10 se esta vivo ou morto. Talvezchorem por ele agora 
Laerte, o anciao, a prudente Penelope 
e Telemaco, que deixou, recem-nascido, em casa”. 
Assim falou, e naquele instigou desejo de chorar o pai: 
apos do pai ouvir, lagrimas das p&lpebras ao chao lanfou, 
115 a capa purpura tendo puxado para diante dos olhos 
com ambas as maos. Mirou-o Menelau 
e entao cogitou no juizo e no animo 
se deixaria que ele mesmo se lembrasse do pai 
ou primeiro o interrogaria e com minucias iria testd-lo. 
120 Enquanto revolvia isso no j uizo e no animo, 

Helena para fora do perfumado quarto alto-teto 
veio, semelhante a Artemis roca-dourada. 

Para ela, Adreste postou cadeira bem-feita 
e Alcipe trazia uma manta de la suave; 

125 Filo trazia prateada cesta, que lhe oferecera 

Alcandra, esposa de Polibo, que morava na Tebas 
egipcia, onde a maior parte da riqueza esta nas casas: 
ele deu a Menelau duas banheiras prateadas, 
uma dupla de tripodes e dezmedidas de ouro. 

130 A parte, a esposa regalou Helena com belas gra?as: 
deu-lhe roca dourada e uma cesta prateada 
com rodas, com acabamento em ouro na borda. 

Essa trouxe a criada Filo e a pos junto de Helena, 
repleta de fio preparado; e sobre ela 
135 a roca estava estendida, carregada de roxa la. 

Sentou-se na cadeira, e, embaixo, para os pes, banqueta. 


De pronto questionou o marido acerca de tudo: 

“E sabemos, Menelau criado-por-Zeus, quern 
esses varoes proclamam ser para vir a nossa casa? 

140 Engano-me ou digo a verdade? Pede-me o animo. 

Pois afirmo que nunca vi alguem tao parecido, 
homem ou mulher, e reverencia me toma ao mirar, 
como esse ai se parece com o filho do energico Odisseu, 
Telemaco, que deixou, recem-nascido, em casa 
145 aquele varao, quando por mim, cara-de-cadela, aqueus 
foram ate Troia, incitando guerra tenaz”. 

Respondendo, disse-lhe o loiro Menelau: 

“Agora eu tambem percebo, mulher, como comparas: 
daquele, sim, sao tais pes e tais maos, 

150 o brilho dos olhos, a cabe?a e os cabelos acima. 

Ha pouco eu, lembrando-me, sobre Odisseu 
discursei, o quanto aquele, agoniado, aguentou 
por mim, e ele verteu choro agudo sob as celhas, 
a capa purpura tendo puxado para diante dos olhos”. 

155 A ele, entao, Pisistrato, filho de Nestor, retrucou: 

“Filho de Atreu, Menelau criado-por-Zeus, lider de tropa, 
deveras, esse ai e o filho daquele, como dizes; 
mas ele e judicioso e considera indigno, no animo, 
chegar pela primeira veze falar impertinencias 
160 diante de ti, cuja voz nos deleita como a do deus. 

A mim enviou o gerenio, o cavaleiro Nestor, 
para segui-lo como condutor; ele desejava te ver 
para que lhe sugiras alguma palavra ou agao. 

Muitas afl^oes tern o filho de pai que se foi 
165 no palacio onde nao ha outros que o ajudem; 

assim agora para Telemaco ele se foi, e outros nao 
ha, esses que, na cidade, afastariam o mal”. 
Respondendo, disse-lhe o loiro Menelau: 

“ Inc rive 1, deveras o filho de caro varao a minha casa 
170 veio, ele que por mim aguentou muitas provas; 


pensei que dele, ao voltar, seria mais amigo que de outros 
argivos, se, pelo mar, tivesse aos dois permitido o retorno 
com naus velozes ocorrer o Olimpio, Zeus ampla-visao. 
Em Argos, tornaria uma urbe seu lar e casa lhe faria, 

175 de Itaca conduzindo-o com suas posses, seu filho 
e todo o povo, apos uma unica cidade ter evacuado 
entre as que ha na regiao e por mim sao regidas. 

Estando aqui, amiude nos reuniriamos; a nos nada 
mais separaria em nossa amizade e deleite reciprocos 
180 antes que a negra nuvem da morte nos encobrisse. 

Mas isso deve ter invejado o proprio deus, 
o que deixou sem retorno apenas aquele infeliz”. 

Assim falou, e neles todos instigou desejo por choro. 
Chorava a argiva Helena, nascida de Zeus, 

185 chora vam Telemaco e Menelau, filho de Atreu, 

e nem o filho de Nestor manteve os olhos sem lagrimas: 
lembrara-se, no animo, do impecavel Antiloco, 
morto pelo filho radiante da resplandecente Aurora. 

Apos dele lembrar-se, falou palavras plumadas: 

190 “Filho de Atreu, Nestor, o anciao, dizia que superas 

os mortais em inteligencia quando de ti lembr&vamo-nos 
em nosso palacio e nos questionavamos um ao outro. 
Agora, se acaso for possivel, ouve-me: eu nao 
me deleito com lamentos no jantar, e tambem Aurora 
195 nasce-cedo havera. Nao me indigna, em absoluto, 
que se chore o homem que morre e o fado alcana. 

E so esta a honraria aos lamentaveis mortais, 
tosar-se a cabeleira e lagrimas lan?ar face abaixo. 
Tambem meu irmao esta morto, e nao foi o pior 
200 dos argivos. Tu deves sabe-lo; j a eu nunca 

o encontrei nem vi, e superior a outros dizem que foi 
Antiloco, superior como lesto corredor e guerreiro”. 
Respondendo, disse-lhe o loiro Menelau: 

“Meu caro, ja que disseste tudo que inteligente varao 


205 diria e faria, e mesmo um que fosse mais velho: 
sim, es de tal pai, pois falas o que e inteligente. 

Facil se reconhece rebento de varao a quem o filho de Crono 
destina fortuna quando ele casa e nasce, 
e assim concedeu a Nestor, para sempre, todo dia, 

210 que ele envelhefa agradavelmente em seu palacio 
e os filhos sejam sensatos e os melhores na lan^a. 

Deixemos de lado o choro que antes ocorreu, 
lembremo-nos de novo do jantar, e que vertam 
agua nas maos. Discursos tambem havera na aurora, 

215 para que Telemaco e eu conversemos entre nos”. 

Assim falou, e Seguro verteu agua nas maos, 
o agil assistente do majestoso Menelau. 

E eles esticavam as maos sobre os alimentos servidos. 

Mas entao teve outra ideia Helena, nascida de Zeus; 

220 de pronto lan?ou droga no vinho do qual bebiam, 

contra afli?ao e raiva, para o obllvio de todos os males. 

Quem a tomasse, apos ser misturada na anfora, 
nesse dia nao lan9aria 16 grim as face abaixo, 
nem se a mae e o pai tivessem morrido, 

225 nem se na sua frente irmao ou filho querido 

com bronze tivessem matado, e a ele, visto com os olhos. 
Afilha de Zeus possuia tais drogas astuciosas, 
benignas, que lhe deu Polidamna, esposa de Ton, 
no Egito, onde o solo fertil produz inumeras 
230 drogas, muitas benignas, misturadas, muitas funestas, 
e cada um e medico habilidoso, superior a todos 
os homens: sim, sao da estirpe de Pea. 

Apos lan? a- la e ordenar que o vinho se escan9asse, 
de novo, respondendo com um discurso, falou: 

235 “Filho de Atreu, Menelau criado-por-Zeus, e tambem vos, 
filhos de nobres varoes: o deus a um, logo a outro - 
Zeus - confere um bem ou um mal, pois pode tudo. 

Agora continuai o banquete sentados no palacio 


e deleitai-vos com discursos, pois contarei o que convem. 
240 Tudo eu nao vou enunciar nem especificar, 

quantas provas enfrentou o perseverante Odisseu, 
mas so esta que executou e ousou o vigoroso varao 
na terra troiana, onde sofrestes desgrafas, aqueus. 

A si mesmo com golpes ultraj antes desfigurou, 

245 jogou trapos vis nos ombros, e, semelhante a um servo, 
imergiu na urbe amplas-ruas dos varoes inimigos. 
Ocultando a si mesmo, assemelhou-se a outro heroi, 
Pedinte, ele que um tal nao era entre as naus aqueias. 
Aele semelhante, imergiu na urbe troiana, e calaram-se 
250 todos; eu fui a unica a reconhece-lo naquele estado 
e o interroguei. Ele, com argucia, esquivava-se. 

Mas quando o banhei e ungi com oleo, 

vesti-o com vestes e j urei poderosa j ura, 

que antes nao revelaria Odisseu entre os troianos, 

255 antes que ele chegasse as rapidas naus e as cabanas, 
e entao contou-me toda a ideia dos aqueus. 

Muitos troianos tendo matado com bronze pontiagudo, 
dirigiu-se aos argivos e levou muita informa?ao. 

Nisso outras troianas ulularam alto; e meu peito 
260 alegrou-se, pois meu corafao ja se inclinara a retornar 
para casa logo, e lastimava a loucura que Afrodite 
dera ao me levar para la, longe da cara terra patria, 
eu deixando para tras a filha, o talamo e o esposo 
que de nada carece, no juizo e na aparencia”. 

265 Respondendo, disse-lhe o loiro Menelau: 

“Por certo isso tudo, mulher, falaste com adequafao. 

De muitos j a apreendi o piano e a mente, 
de varoes herois, e percorri a extensa terra; 
mas nunca alguem assim eu vi com os olhos, 

270 tal era o caro corafao de Odisseu juizo-paciente. 

Que foi isto que executou e ousou o vigoroso varao 
no cavalo falquejado onde, assentados todos, os melhores 


argivos traziamos matan^a e perdi?ao aos troianos! 

Foste depois tu ate la; deve ter te ordenado 
275 a divindade que quis dar gloria aos troianos; 

a ti, enquanto vinhas, seguia o teomorfico Deifobo. 

Tres vezes circundaste a cava tocaia, tocando-a, 
e chamavas pelo nome os melhores danaos, 
copiando a vozdas mulheres de todos os argivos. 

280 E eu, o filho de Tideu e o divino Odisseu, 
sentados no meio, escutamos quando gritaste. 

Nos, os outros dois, pusemo-nos de pe com vontade 
ou de ir para fora ou de dentro logo responder; 
mas Odisseu segurou-nos e conteve nossa ansia. 

285 Todos os outros ficaram atentos, filhos de aqueus, 
e so Antic lo quis responder-te com palavras. 

Mas Odisseu apertou-lhe a boca com as maos 
fortes sem cessar e salvou todos os aqueus; 
enquanto o retinha, para longe levou-te Palas Atena”. 

290 Aele, entao, o inteligente Telemaco retrucou: 

“Filho de Atreu, Menelau criado-por-Zeus, lider de tropa, 
assim e pior: isso nao o afastou do funesto fim - 
nem se de ferro fosse, no intimo, seu cora9§o. 

Vamos, dirijamo-nos a cama para tambem agora, 

295 adormecidos sob o doce sono, nos deleitarmos”. 

Assim falou, e a argiva Helena ordenou as escravas 
que postassem camas sob a colunata, belas mantas 
purpura lanfassem, em cima estendessem lengois 
e por ultimo pusessem capas de la para que se cobrissem. 
300 Elas sairam do salao levando a tocha nas maos 

e estenderam a cama; aos hospedes conduzia o arauto. 
Esses no vestibulo da casa, la mesmo dormiram, 
o heroi Telemaco e o radiante filho de Nestor. 

O filho de Atreu dormiu no interior da alta casa; 

305 ao lado Helena peplo-bom-talhe deitou-se, divina mulher. 
Quando surgiu a nasce-cedo, Aurora dedos-roseos, 


pos-se para fora do leito Menelau bom-no-grito, 
vestiu as vestes, pendurou a espada afiada no ombro 
e atou aos pes reluzentes be las sandalias; 

310 saiu do quarto, de frente semelhante a um deus. 

Junto a Telemaco sentou-se, dirigiu-se-lhe e nomeou-o: 
“Que necessidade te trouxe aqui, heroi Telemaco, 
a divina Lacedemonia sobre as amplas costas do mar? 
Algo publico ou privado? Isso me narra sem evasivas”. 
315 Aele, entao, o inteligente Telemaco retrucou: 

“Filho de Atreu, Menelau criado-por-Zeus, llder de tropa, 
vim para me narrares soada acerca do pai. 

Minha casa e devorada, os ferteis campos, destruidos, 
a casa cheia de hostis varoes, e eles sempre abatem 
320 minhas numerosas ovelhas e lunadas vacas tropegas: 
pretendentes de minha mae, de brutal desmedida. 

Assim agora me ache go de teus joelhos, se quiseres 
narrar seu funesto fim, se acaso viste 
com teus olhos ou ouviste o discurso de outro 
325 que vaga: infelizao extremo, assim a mae o gerou. 

Nada edulcores com respeito ou piedade por mim, 
mas conta-me bem com que visao te deparaste. 
Suplico-te, se um dia para ti meu pai, nobre Odisseu, 
cumpriu palavra ou a^ao sob promessa 
330 na terra troiana, onde sofrestes desgrasas, aqueus. 

Disso agora para mim te lembra, e narra sem evasivas”. 
Muito perturbado, a ele dirigiu-se o loiro Menelau: 

“ Inc rive 1, deveras no leito de varao j uizo-forte 
cobi^aram deitar-se, eles proprios sendo covardes. 

335 Como quando a cerva, na moita de forte leao, 
adormece os filhotes, lactentes recem-nascidos, 
e investiga encostas e vales herbosos, 
pastando, e ele entao se achega de seu leito 
e sobre aqueles dois lan?a fado ultrajante: 

340 assim Odisseu sobre eles ultrajante fado lanfara. 


Tomara, 6 Zeus pai, Atena e Apolo, 
com o porte que, entao, em Lesbos bem-construida, 
na disputa com Filomeleides, ele se ergueu, lutou 
e o derrubou com for9a, e se alegraram todos os aqueus - 
345 assim aos pretendentes encontrasse Odisseu: 
todos seriam destino-veloz e bodas-amargas. 

Quanto ao que me indagas e suplicas, eu nao 
tergiversarei pelas bordas nem te enganarei, 
mas do que me falou o verazanciao maritimo, 

350 disso nada esconderei de ti nem palavra ocultarei. 

No Egito, ansioso por retornar, os deuses a mim ainda 
mantinham, pois nao lhes fizera hecatombes completas; 

[os deuses sempre queriam a lembran9a do dever.] 

Bern, uma ilha la existe no mar muito encapelado 
355 diante do Egito, e a denominam Faros, 

tao distante dele quanto cava nau um dia inteiro 
realiza quando um vento sibilante sopra de tras. 

Ha um porto seguro, donde naus simetricas 
se lan9am rumo ao mar apos tirar a agua escura. 

360 La deuses mantinham-me ha vinte dias; nunca ventos 
havia que soprassem para o mar, os que de naus 
tornam-se condutores sobre as amplas costas do mar. 

Toda a comida e o impeto dos varoes se teriam esgotado 
se um deus nao me tivesse lamentado, de mim se apiedado, 
365 a filha do altivo Proteu, o anciao maritimo, 

Eidotea, pois sobremodo instiguei seu animo. 

Ela me achou andando so, longe de companheiros, 
pois sempre vagavam em volta da ilha e pescavam 
com anzois recurvos, a fome a torturar o estomago. 

370 Ela, de pe perto de mim, dirigiu-me a palavra e disse: 

‘Es tao tolo, estranho, e j uizo-frouxo; 
ou de bom grado deixas estar e te deleitas com a agonia? 
Pois ha tempo na ilha es contido, nenhuma saida 
consegues achar, e murcha o cora9ao dos companheiros’. 


375 Assim falou, e eu, respondendo, lhe disse: 

‘Eu te anuncio, seja que deusa tu fores, 
que nao sou detido aqui de bom grado, mas devo 
ter ofendido os imortais, que do largo paramo dispoem. 
Quanto a ti, dize-me - e os deuses sabem de tudo: 

380 que imortal me detem e afastou do caminho, 

e do retorno, como eu voltarei sobre o mar piscoso’. 
Assim falei, e ela logo respondeu, deusa divina: 
‘Portanto eu te falarei, estranho, com muita precisao. 
Costuma vir para ca o verazanciao mantimo, 

385 imortal, o egipcio Proteu, que do oceano 

todo as profundas conhece, subordinado a Poseidon: 
dizem que ele e meu pai e que me gerou. 

Se acaso o emboscares e conseguir pegar, 
ele te dira o caminho, os pontos do trajeto 
390 e o retorno, como voltaras sobre o mar piscoso. 
Tambem te dira, 6 criado-por-Zeus, se quiseres, 
qualquer mal ou bem que em teu palacio ocorreu 
enquanto te ausentas por longo e dificil trajeto’. 

Assim falou, e eu, respondendo, lhe disse: 

395 ‘Tu mesma planeja a tocaia contra o anciao divino, 
para que, antevendo-me ou pressentindo, nao escape: 
e dificil para um varao mortal dominar o deus’. 

Assim falei, e ela logo respondeu, deusa divina: 
‘Portanto eu a ti, com muita precisao, direi. 

400 Quando o sol j a atinge o meio do firmamento, 
entao vem do mar o verazanciao mantimo 
com lufada de Zefiro, encoberto pelo revolto escuro; 
apos sail - , deita-se para dormir nas cavas grutas. 

Em torno dele, filhotes de focas da be la filha do mar 
405 juntos cochilam, do mar cinzento tendo emergido, 
exalando acre odor do mar profundo. 

La eu, conduzindo-te quando a aurora surgir, 
te deitarei na file ir a ; e tu, seleciona companheiros, 


tres, os melhores junto as naus bom-conves. 

410 Todos os maleficios te direi que vem de tal anciao. 

As focas, primeiro, ira contar e inspecionar; 
mas quando todas viu e enumerou de cinco em cinco, 
ele ir& se deitar no meio, como pastor no rebanho de ovelhas. 
Mas uma vezque o virdes repousar-se, 

415 nesse momenta fazei uso de vigor e for^a; 

contende-o la, mesmo que se agite, avido por safar-se. 

Ele tentara, tornando-se tudo o que sobre a terra 
ha de movente, e tambem agua e fogo flama-divina. 

Quanto a vos, firme aguentai e apertai-o mais. 

420 Mas quando ele mesmo te inquirir com palavras, 
tal como era quando o viste repousar-se, 
nesse instante cessa a forfa e solta o anciao, 
heroi, e pergunta qual deus te oprime 
e do retorno, como voltaras sobre o mar piscoso’. 

425 Assim falou e mergulhou no mar faz-onda; 
eu, ate as naus, que estavam nas dunas, 
fui, e muito meu corafao revolveu-se enquanto ia. 

Mas apos descer ate a nau e o mar, 
preparamos o jantar e veio a noite imortal, 

430 e entao repousamos junto a rebenta?ao do mar. 

Quando surgiu a nasce-cedo, Aurora dedos-roseos, 
entao ao longo da orla do mar larga-passagem 
fui e com ganas ajoelhei-me aos deuses; levei tres 
companheiros, aqueles em quern mais confiava para toda a 
435 opera?ao. Eidotea, apos mergulhar no amplo ventre do mar, 
trouxe quatro peles de focas do oceano, 
todas recem-tiradas: armava um truque contra o pai. 

Tendo escavado leitos nas dunas marinhas, 
aguardava sentada; e nos fomos para bem perto dela: 

440 deitamo-nos em fila, e pele lanpou sobre cada um. 

La deu-se a mais terrivel tocaia, pois terrivel a tortura 
do odor nefasto de focas nutridas pelo mar; 


quern, ao lado de monstro marinho, dormiria? 

Mas ela nos salvou e planejou grande ajuda: 

445 trouxe ambrosia e pos sob o nariz de cada um, 

pois bem doce exalava e destruiu o odor do monstro. 

Amanha toda aguardamos com animo resistente, 
e as focas vieram do mar em conjunto. Elas entao 
em fila deitaram-se junto a rebenta9§o do mar; 

450 o anciao, ao meio-dia, veio do mar, achou as focas 
bem-nutridas, todas inspecionou e contou seu numero. 

A nos contou primeiro entre os monstros, e no animo 
nao pensou ser um truque; entao tambem ele se deitou. 

Nos, berrando, arremetemos, e em volta os bravos 
455 lan?amos; e o anciao nao esqueceu da arte ardilosa, 
mas primeiro tornou-se um leao com bela juba, 
e depois serpente, pantera e grande javali; 
e tornou-se fluida agua e arvore copa-elevada. 

E nos firme aguentavamos com animo resistente. 

460 Mas quando cansou-se o anciao perito em maleficios, 
nesse momenta, inquirindo-me com palavras, falou: 

‘Que deus contigo, filho de Atreu, planejou tal piano 

para, com tocaia, eu ser pego sem remedio? De que precisas?’. 

Assim falou, e eu, respondendo, lhe disse: 

465 ‘Tu sabes, anciao - por que me inquires com evasivas?- 
que ha tempo na ilha sou detido, nenhuma saida 
consigo achar e murcha-me o cora9ao no ultimo. 

Quanto a ti, dize-me - e os deuses sabem de tudo - 
que imortal me detem e afastou do caminho, 

470 e do retorno, como eu voltarei sobre o mar piscoso’. 

Assim falei, e ele, logo respondendo, disse-me: 

‘Por certo deverias a Zeus e aos outros deuses 
ter feito beta sacrificio e embarcado para rapido 
chegar a tua patria, navegando sobre o mar vinoso. 

475 Antes nao teras teu quinhao; ver os teus e atingir 
a casa bem-construida e tua terra patria, 


so depois que voltares a agua do Egito, do rio 
caido de Zeus, e fizeres sagradas hecatombes 
aos deuses irnortais, que do largo paramo dispoem; 

480 os deuses entao te darao o traj eto que desej as’. 

Assim falou, e meu cora^ao rachou-se, 

porque ordenou-me, de novo sobre o mar emba9ado, 

viajar ao Egito, urn longo e dificil traj eto. 

Assim mesmo, respondendo com um discurso, falei: 

485 ‘Isso, portanto, completarei, anciao, como ordenas. 

Mas vamos, dize-me isto e conta com precisao: 
todos com as naus a salvo chegaram, os aqueus, 
os que Nestor e eu deixamos ao sair de Troia, 
ou um finou-se em amargo fim, em sua nau 
490 ou nos bra?os dos seus, apos arrematar a guerra?’. 

Assim falei, e ele, logo respondendo, disse-me: 

‘Filho de Atreu, por que me indagas isso?Tu nao precisas 
saber, nem conhecer minha mente; afirmo que tu 
pouco tempo nao choraras apos de tudo estares a par. 

495 Sim, muitos deles morreram, muitos restaram : 
so dois chefes dos aqueus courapa-bronzea 
no retorno morreram; tambem tu na luta estavas. 

E um unico, ainda vivo, e retido no extenso mar. 

Ajax foi subjugado entre as naus longo-remo. 

500 Primeiro, Poseidon aproximou-o das Pedras 
Gyras, enormes, e salvou-se para fora do mar; 
teria escapado da perdi9§o, embora odiado por Atena, 
se nao tivesse lan9ado soberba fala, grande loucura: 
disse que, contra deuses, escapou de grande abismo de mar. 
505 Mas a ele, seus altos brados, Poseidon ouviu; 
presto, apos tomar o tridente nas maos robustas, 
golpeou a Pedra Gyra e fendeu-a em duas. 

Parte la mesmo ficou, parte no mar caiu, 
onde estivera Ajax em sua grande loucura: 

510 levou-o pelo infinite mar faz-onda. 


Assim la pereceu, apos engolir agua salgada. 

Teu irmao mais ou menos fugiu da perdi9§o e escapou 
em cavas naus; salvou-o a senhora Hera. 

Mas quando quase iria o escarpado monte Maleia 
515 atingir, entao, apos apanha-lo, uma rajada 

pelo mar piscoso levou-o, com gemidos profundos, 
ate o limite das lavouras, onde habitara Tiestes 
no passado, e entao morava o filho de Tiestes, Egisto. 

Mas quando tambem de la surgia seguro retorno, 

520 de novo os deuses desviaram o vento, em casa chegaram, 
e ele, alegre, desembarcou na terra patria 
e beijava, tocando-a, sua patria; dele muitas 
calidas lagrimas caiam, pois, feliz, viu sua terra. 

Mas viu-o, da atalaia, o vigia que postara 
525 Egisto astucia-ardilosa; prometera-lhe, como paga, 
dois talentos de ouro. Ficou de guarda um ano; 
que nao viesse de subito e se lembrasse da for9a impetuosa. 
E foi levar a noticia, na casa, ao pastor de tropa. 

Presto Egisto planejou ardiloso estratagema: 

530 apos escolher, no povo, vinte, os melhores herois, 

armou tocaia e, do outro lado, pediu que se desse banquete. 
E ele foi chamar Agamemnon, pastor de tropa, 
com cavalos e carro, cogitando a9oes ultraj antes. 

Sem ele saber do fim, levou-o para cimaeo matou 
535 apos o banquete como quern mata um boi no cocho. 

Poupou-se companheiro algum que seguia o filho de Atreu, 
nenhum de Egisto, todos mortos no palacio’. 

Assim falou, e meu cora9&o rachou-se; 
chora va sentado na areia, e nao mais meu cora9ao 
540 quis ficar vivo e enxergar a luz do sol. 

Mas depois que chorei e rolei ate me fartar, 
entao disse-me o verazanciao maritimo: 

‘Filho de Atreu, nao chores mais, tanto tempo, 
pois nada realizaremos; mas bem rapido 


545 experimenta como chegaras a terra patria. 

De fato, ou o alcanfaras ainda vivo ou Orestes 
antes; e tu participarias do funeral’. 

Assim falou, e meu corasao, meu animo orgulhoso 
de novo, em meu peito, embora atormentado, jubilou; 
550 e, falando, dirigi-lhe palavras plumadas: 

‘Desses, entao, eu sei; tu o terceiro varao nomeia, 
seja quem for o ainda vivo, retido no extenso mar - 
ou morto; embora atormentado, quero ouvir’. 

Assim falei, e ele, logo respondendo, disse-me: 

555 ‘O filho de Laerte, que em Itaca tem sua casa; 
vi-o numa ilha, vertendo copiosas lagrimas, 
no palacio da ninfa Calipso, que a ele, obrigado, 
retem: nao consegue atingir sua patria terra. 

Nao tem naus com remos nem companheiros 
560 que o levariam sobre as amplas costas do mar. 

E para ti nao ha dito divino, Menelau criado-por-Zeus, 
que em Argos nutre-potro vais morrer e achar o fado, 
mas a ti ate o campo Elisio, os limites da terra, 
os imortais conduzirao, onde esta o loiro Radamanto - 
565 la a subsistence e a mais facil para os homens: 
nao ha neve, nem forte tempestade nem chuva, 
mas sempre rajadas de Zefiro, soprando soantes, 
Oceano envia para refrescar os homens -, 
porque tens Helena e para eles es genro de Zeus’. 

570 Assim falou e mergulhou no mar faz-onda, 

e eu, ate as naus, com os excelsos companheiros, 
fui, e muito meu cora 9 ao revolveu-se enquanto ia. 
Mas apos descermos ate a nau e o mar, 
preparamos o jantar e veio a noite imortal, 

575 e entao repousam os junto a rebenta?ao do mar. 
Quando surgiu a nasce-cedo, Aurora dedos-roseos, 
primeiro puxamos as naus ate o divino mar 
e colocamos mastros e velas nas naus simetricas; 


tendo embarcado, sentaram-se j unto aos calfos, 

580 e, alinhados, o mar cinzento golpeavam com remos. 

De novo no Egito, o rio caido de Zeus, 
ancorei as naus e fiz hecatombes completas. 

Depois de suspender a raiva dos deuses sempre-vivos, 
ergui cenotafio a Agamemnon, para inextinguivel ser sua fam 
585 Apos isso completar, retornei, e deram-me uma brisa 
os imortais, que rapido me conduziram a terra patria. 

Pois bem, agora fica em meu palacio 

ate chegar o decimo primeiro, decimo segundo dia. 

Ai te enviarei sao e salvo e darei radiantes presentes, 

590 tres cavalos e um carro bem-polido; depois 
te darei be la ta$a para que libes aos deuses 
imortais lembrando-te de mim todos os dias”. 

Aele, entao, o inteligente Telemaco retrucou: 

“Filho de Atreu, por muito tempo nao me retenhas aqui. 

595 Ate mesmo um ano junto a ti eu conseguiria 
Ficar, e nao teria saudade de casa ou dos pais; 
as maravilhas, ouvindo teus discursos e palavras, 
deleito-me. Mas ja se impacientam os companheiros 
na mui sacra Pilos, e tempo tu aqui me retens. 

600 Ja o dom, o que me deres, seja algo precioso: 

cavalos nao conduzirei a Itaca, mas para ti mesmo 
aqui os deixarei, para tua gloria, pois reges planicie 
larga, na qual ha muito trevo, ha jun?a, 
trigo, espelta e branca cevada em largas espigas. 

605 Ja em Itaca nao ha trilhas largas nem prado; 
e nutre-cabra, e mais agrad&vel que nutre-potro. 

Nenhuma ilha e para cavalos nem tern prado, 
essas que jazem sobre o mar; e Itaca supera todas”. 

Assim falou, e sorriu Menelau bom-no-grito, 

610 com a mao acariciou-o, dirigiu-se-lhe e nomeou-o: 

“Es de sangue valoroso, caro filho, pois falas assim; 
portanto eu farei a troca, pois sou capaz. 


Dos dons, de quantos haveres ha em minha casa, 
vou te dar o mais belo e o mais valioso. 

615 Vou te dar um a anfora bem-feita: de prata 

ela e toda, e sua borda tern acabamento em ouro, 
obra de Hefesto. Deu-ma o heroi Luzio, 
rei dos sidonios, quando em sua casa albergou-me 
ao la passar no retorno; com ela quero te presentear”. 
620 Assim eles disso falavam entre si, 

e convivas vieram a morada do rei divino. 

Conduziam ovelhas e traziam fortificante vinho; 
e pao enviaram-lhes as esposas belo-veu. 

Assim eles preparavam a refei9ao no palacio. 

625 E os pretendentes, diante do salao de Odisseu, 

deleitavam-se com discos e lanfas, arremessando-os 
em solo nivelado, como no passado, desmedidos. 
Sentados estavam Antinoo e o deiforme Eurimaco, 
chefes dos pretendentes, de longe os melhores em valor. 
630 O filho de Prudente, Ponderado, deles aproximou-se 
e a Antinoo, inquirindo-o com um discurso, dirigiu-se: 
“Antinoo, acaso sabemos ou nao em nosso juizo 
quando Telemaco voltara da arenosa Pilos? 

Partiu levando-me uma nau; ela me e necessaria 
635 para cruzar ate a espa?osa Elida, onde tenho cavalos, 
doze femeas, e, lactentes, mulas robustas, 
nao domadas: uma delas trarei e devo domar”. 

Assim falou, e espantaram-se no animo; nao pensaram 
que fora a Pilos de Neleu, mas, alhures, la mesmo, 

640 no campo estivesse com as ovelhas ou o porqueiro. 
Aele, entao, disse Antinoo, filho de Persuasivo: 
“Narra-me sem evasivas: quando partiu e que j ovens 
seguiram-no?De Itaca, seletos, ou seus proprios 
empregados e escravos? Tambem isso poderia realizar. 
645 Quanto a isto, dize-me a verdade para eu bem saber, 
se a for9a, contra tua vontade, tomou a negra nau. 


ou de bom grado lha deste ao pedir com um discurso”. 
Aele o filho de Prudente, Ponderado, retrucou: 

“Eu de bom grado lha dei; o que faria qualquer outro, 
650 quando um homem tal, inquieto no animo, 

Ihe solicitasse? Seria dificil negar o dom. 

Jovens do povo, os melhores depois de nos, 
esses o seguiram; percebi que embarcou, como chefe, 
Mentor ou um deus que a ele em tudo se assemelhava. 
655 Mas isto me espantou: vi aqui o divino Mentor 

ontem de manha; mas embarcara na nau para Pilos”. 
Apos assim falar, dirigiu-se a casa do pai, 
e desses dois irritou-se o animo arrogante. 

Fizeram os pretendentes sentar-se e pararam os jogos. 
660 E entre eles falou Antinoo, filho de Persuasivo, 

atormentado; seu julzo, enegrecido, de muito impeto 
encheu-se, e seus olhos pareciam fogo cintilante: 
“Incrlvel, completou feito inaudito com soberba, 
Telemaco - esse trajeto; criamos que nao o completaria. 
665 Se contra tantos o jovem menino partiu assim, 
apos puxar a nau e escolher, do povo, os melhores, 
dano ulterior comegara a ocorrer; mas que sua 
for 9 a Zeus destrua antes que nossa desgrafa se torne. 
Vamos, dai-me nau veloze vinte companheiros, 

670 para que, na sua volta, de tocaia o vigiemos 
no canal entre Itaca e a escarpada Samos; 
que seja lastimavel sua viagem motivada pelo pai”. 
Assim falou, e todos aprovavam e o incitavam; 
presto, apos se erguerem, foram a casa de Odisseu. 

675 Eis que Penelope muito tempo nao ignorou 

os discursos que os pretendentes ruminaram no juizo. 
Falou-lhe o arauto Medon, que soubera dos pianos, 
estando fora do patio, e eles, dentro, o piano tramavam. 
E foi, pela casa, levar a noticia a Penelope. 

680 Quando passou pela soleira, dirigiu-se -lhe Penelope: 


“Arauto, por que te enviaram os pretendentes ilustres? 

Para ordenares as escravas do divino Odisseu 
que cessem os afazeres e lhes preparem o banquete? 
Nunca tivessem vindo me cortejar ou mesmo se reunido: 
685 que pela ultima e derradeira vez agora aquijantem. 

Vos, amiude reunidos, tantos recursos devastais, 
as posses do atilado Telemaco. Nada dos vossos 
pais ouvistes no passado, ainda crianpas, 
como foi Odisseu entre vossos genitores, 

690 nada fazendo nem falando de imoderado contra alguem 
nesta terra? Isso e o costume dos reis divinos: 
entre os mortais, odiara um; a outro, pode querer bem. 

Ele nunca, de modo algum, foi iniquo para um varao. 

Mas esse vosso animo e apoes ultraj antes 
695 se mostram, e nao ha gratidao no futuro por boa conduta”. 
E a ela dirigiu-se Medon, versado no inteligente: 

“Ve bem, rainha, que isso fosse o mal maior. 

Todavia, outra coisa, muito mais grave e aflitiva, 
pensam os pretendentes; nao o complete o filho de Crono! 
700 Telemaco anseiam matar com bronze afiado, 
a casa voltando; partiu atras de novas do pai 
rumo a mui sacra Pilos e a divina Lacedemonia”. 

Assim falou, e os joelhos e o corapao dela fraquejaram; 
tempo ficou sem fala de palavras, seus dois olhos 
705 encheram-se de lagrimas e a vozabundante conteve-se. 
Bem depois, respondendo com palavras, lhe disse: 

“Arauto, por que meu menino partiu? Ele nao precisava 
embarcar em naus velozes que sao cavalos marinhos 
proprios de varoes e atravessam aguas extensas. 

710 Para que seu nome nao fique entre os homens?”. 

E a ela dirigiu-se Medon, versado no inteligente: 

“Nao sei; ou algum deus o instigou, ou o proprio 
animo foi impelido a ir a Pilos para informar-se 
do retorno de seu pai ou de que fado alcanpou”. 


715 Tendo falado assim, saiu pela casa de Odisseu. 

Aela envolveu aniquiladora aflipao, e nao mais suportou 
ficar na banqueta, mesmo muitas havendo na casa, 
e sentou-se na soleira do quarto bem-trabalhado, 
infeliz, chorando; em torno escravas sohnpavam, 

720 todas, tantas quantas na casa havia, j ovens e velhas. 

Entre elas, chorando sem parar, Penelope falou: 

“Ouvi, queridas; o Olimpio, em excesso, deu-me dores, 
mais que a todas que comigo cresceram e nasceram, 
eu que primeiro perdi o nobre marido animo-leonino, 

725 que em todas as qualidades supera os danaos, 

nobre, cuja fama e ampla na Helade ate o meio de Argos. 
Agora, porem, rajadas agarraram meu menino amado 
do palacio, sem registro, e que partira nem ouvi. 

Terriveis! Nem vos pusestes no juizo, cada uma, 

730 me acordar no leito, cientes ao claro no animo, 
quando ele subiu na cava nau negra. 

Se eu tivesse ouvido que se la ng aria nesse trajeto, 
entao por certo ficaria, embora avido por partir, 
ou nesse palacio me deixaria morta. 

735 Agora, ligeiro, alguem chame Finorio, o anciao - 

meu escravo, que deu-me meu pai quando vim para ca, 
e meu jardim muita-arvore mantem - para que, bem rapido, 
ele conte a Laerte tudo isso, sentado ao lado, 
e assim, talvez, apos no juizo um piano tramar, 

740 saia de casa e se lamurie para o povo, esses com ganas 
em matar seu descendente e do excelso Odisseu”. 

Aela, entao, dirigiu-se a cara ama Euricleia: 

“Mo?a querida, mata-me tu com bronze impiedoso, 
ou me deixa na casa, mas nada te ocultarei. 

745 Sabia eu de tudo e forneci-lhe quanto me ordenou, 
comida e doce vinho; e arrancou-me poderosa jura, 
que nao te falasse antes do decimo segundo dia 
ou ate que tivesses saudade e ouvisses que partira. 


para, com teu choro, a catita cutis nao machucar. 

750 Mas apos te lavar, vestir roupas limpas no corpo 
e subir aos aposentos com tuas criadas mulheres, 
faze uma prece a Atena, filha de Zeus porta-egide: 
entao ate mesmo da morte ela o podera salvar. 

E nao desgrace o anciao desgra9ado; nao creio 
755 que a deuses ditosos a estirpe de Arquesio de todo 
seja odiosa, mas ainda havera quern se ocupe 
da casa grandiosa e dos ferteis campos ao longe”. 

Isso dito, o choro acalmou e de seus olhos se afastou. 

Ela, apos se lavar, vestir roupas limpas no corpo 
760 e subir aos aposentos com suas criadas mulheres, 
pos graos de cevada no cesto e orou a Atena: 

“Escuta-me, rebento de Zeus porta-egide, Atritone, 
se um dia, no palacio, para ti o muita-astucia Odisseu 
queimou gordas coxas ou de boi ou de ovelha, 

765 disso agora para mim te lembra: protege meu caro filho 
e afasta os pretendentes dotados de vil arrogancia”. 

Isso disse e ululou, e a deusa ouviu-lhe a prece. 

E os pretendentes iniciaram uma arrua?a no umbroso palacio; 
desse modo falavam os j ovens arrogantes: 

770 “Claro, as bodas conosco a rainha muito-pretendente 
apronta e nao sabe que a morte do filho foi arranjada”. 

Assim diziam, mas nao sabiam o que fora arranjado. 

Entre eles, Antinoo tomou a palavra e disse: 

“Insanos, escapai de discursos soberbos 
775 todos v6s, que ninguem anuncie tambem la dentro. 

Vamos, fiquemos de pe, em silencio, e realizemos 
o discurso que, no juizo, agradou a nos todos”. 

Isso disse e escolheu os vinte melhores herois, 
e se encaminharam a nau velozna orla do oceano. 

780 A nau, por primeiro, ao mar profundo puxaram, 
m astro e velas puseram na negra nau 
e aprontaram os remos nas correias de couro, 


tudo em ordem; e desfraldaram a branca vela. 

As armas Ihes trouxeram assistentes magnanimos. 

785 Apos puxa-la da praia para a agua, desembarcaram; 

la partilharam do jantar e aguardaram a chegada da noite. 
Ela no andar de cima, Penelope bem-ajuizada, 
jazia sem comer, sem tocar em comida ou bebida, 
revolvendo se seu filho impecavel escaparia da morte 
790 ou seria subjugado pelos pretendentes soberbos. 

Aquilo que no meio de varoes o leao cogita, 
com medo, ao fecharem ardiloso cerco em torno dele, 
enquanto revolvia isso, veio-lhe sono prazeroso; 
adormecia reclinada, e relaxavam todas suas articula9oes. 
795 Entao teve outra ideia a deusa, Atena olhos-de-coruja: 
criou um espectro, de corpo feito mulher, 

Altiva, a filha de Icario grandioso-animo, 
que Eumelo desposou, em Feras habitando. 

Enviou-o a morada do divino Odisseu 
800 para que de Penelope, que se lamentava, gemendo, 
afastasse o choro e lamento lacrimoso. 

Entrou no quarto, passando pela correia do ferrolho, 
parou acima da cabe^a e dirigiu-lhe o discurso: 

“Dormes, Penelope, agastada no caro cora9§o? 

805 Nao, a ti nao perm item os deuses de vida tranquila 
que chores ou te atormentes, pois deve retornar 
teu menino: de modo algum foi ofensivo aos deuses”. 

A ela entao respondeu Penelope bem-ajuizada, 
docemente bem adormecida nos portais oniricos: 

810 “Por que, irma, vieste para ca?Nao costumas 
aparecer, ja que muito longe, distante habitas. 

Entao me ordenas parar com a agonia e as dores 
muitas, que me perturbam no juizo e no animo; 
eu que primeiro perdi o nobre marido animo- leonino, 

815 que em todas as qualidades supera os danaos, 

nobre, cuja fama e ampla na Helade ate o meio de Argos. 


Agora, porem, o menino querido partiu em cava nau, 
tolo, nao conhecendo bem labutas nem assemblers. 

Por esse eu choro ate mesmo mais que por aquele. 

820 Por esse eu tremo e tenho medo que algo sofra 
entre os da regiao aonde vai ou no mar: 
inimigos ha muitos que contra ele engenham, 
ansiando mata-lo antes que atinja a terra patria”. 

Aela respondendo, falou o debil espectro: 

825 “Coragem, e em teu julzo nao temas em excesso; 
poderosa guia vai com ele, a quern tambem outros 
varoes rezam para que os acompanhe, pois e capaz, 

Palas Atena: de ti, ao lamuriar-te, apieda-se; 
ela agora me enviou ate ti para isso anunciar”. 

830 Aela, entao, dirigiu-se Penelope bem-ajuizada: 

“Se es mesmo um deus e de um deus a vozescutaste, 
vamos, conta-me tambem acerca daquele sofredor, 
se em algum lugar ainda vive evea luzdo sol, 
ouja esta morto e na morada de Hades”. 

835 A ela respondendo, falou o debil espectro: 

“Daquele nao te farei um relato continuo, 

se esta vivo ou morto; e ruim lanfar frases ao vento”. 

Isso disse e junto ao ferrolho, pelo batente, deslizou 
rumo as lufadas de vento; e ela pulou do sono, 

840 a filha de Ic&rio: seu caro corafao rejubilou, 

tao efetivo o sonho ao irromper no apogeu da noite. 

E os pretendentes embarcaram e cruzavam fluentes vias, 
revolvendo a abrupta morte de Telemaco nojuizo. 

Ha uma ilha no meio do mar, rochosa, 

845 no meio entre Itaca e a escarpada Samos, 

Asteris, pequenina, na qual ha portos abriga-nau, 
um de cada lado; la esperavam-no, de tocaia, os aqueus. 



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Aurora, de junto do ilustre Tltono, do leito 
ergueu-se, para levar luza imortais e a mortals; 
os deuses estavam em assembleia, e, entre eles, 

Zeus troveja-no-alto, cujo poder e o maior. 

Atena relatava-lhes as muitas agruras de Odisseu, 
lembrando-se; ele, na casa da ninfa, a preocupava: 
“Zeus pai e outros ditosos deuses sempre-vivos, 
nunca mais alguem seja sollcito, suave e amigavel 
como rei porta-cetro, nem, no julzo, saiba o medido, 
mas sempre seja duro e cometa iniquidades, 
pois ninguem se lembra do divino Odisseu, 
aqueles que regeu, e era como um pai amigavel. 

Mas ele esta numa ilha, sofrendo forte agonia, 
no palacio da ninfa Calipso, que o retem 
e ele nao consegue atingir sua terra patria. 

Nao tern naus com remos nem companheiros 
que o levariam sobre as amplas costas do mar. 

Agora, porem, anseiam matar o menino amado 
ao voltar para casa; partiu atras de novas do pai 
rumo a mui sacra Pilos e a divina Lacedemonia”. 

E a ela respondendo, falou Zeus junta-nuvens: 

“Minha filha, que palavra te escapou da cerca de dentes! 
Ve bem, essa ideia nao ponderaste tu mesma, 
que Odisseu daqueles se vingue ao chegar? 

Telemaco envia tu com habilidade, pois es capaz, 
para que, ileso de todo, sua patria terra alcance 
e os pretendentes, na nau, de volta retornem”. 

Falou e a Hermes, o caro filho, dirigiu-se: 

“Hermes; sim, tu, pois de resto es o mensageiro: 
a ninfa belas-tran^as anuncia o firme designio, 
o retorno de Odisseu juizo-paciente, que retornara 
nem por deuses escoltado nem por homens mortais, 
mas ele, em balsa muita-corda sofrendo miserias, 
no vigesimo dia alcanfara Esqueria grandes-glebas, 


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a terra dos feacios, na origem proximos dos deuses; 
do fundo do peito, como a um deus irao honra-lo 
e numa nau conduzirao a cara terra patria, 
bronze, ouro a granel e vestes tendo-lhe dado, 
muito, o que nem de Troia teria ganhado Odisseu, 
ainda que incolume voltasse com sua parte do butim. 
Assim seu quinhao e ver os seus e atingir 
a casa com alto teto e a sua terra patria”. 

Isso disse, e nao desobedeceu o condutor Argifonte. 
Presto entao, atou aos pes be las sandalias, 
imortais, douradas, que o levavam sobre as aguas 
e sobre a terra sem-fim com lufadas de vento. 

Tomou a vara com que encanta olhos de vardes, 
de quern quer, e outros, adormecidos, desperta; 
com ela nas maos, voou o poderoso Argifonte. 

Cruzou a Pieria e do c6u tombou no mar; 
apressou-se sobre as ondas feito gaivota, 
que, pelos feros ventres do mar ruidoso, 
a ca$ar peixes, as cerradas asas n’agua molha: 
a ela semelhante, por muita onda Hermes deixou-se ir. 
Mas quando atingiu a ilha, longinqua, 
la, saindo do mar violeta, a terra firme 
foi ate alcanpar a grande gruta, onde morava 
a ninfa belas-tranfas; e encontrou-a dentro. 

Fogo na lareira, intenso, ardia, e ate longe o odor 
de cedro bem-rachado e tuia recendia pela ilha, 
queimados; e ela dentro, cantando com bela voz, 
ativa junto ao tear, tramava com aurea lanfadeira. 
Bosque ha via em torno da caverna, verdejante: 
amieiro, choupo-preto e perfumado cipreste. 

La repousavam aves asa-comprida, 
corujas, falconetes, corvos lingua-corn prida, 
marinhos, que se ocupam de feitos maritimos. 

Ai enroscava-se, em torno da cava gruta, 


vinha exuberante, florejante com uvas. 

70 Fontes em linha, quatro, fluiam com llmpida agua, 
proximas entre si, cada uma correndo para um lado. 

Em torno, prados macios com violeta e aipo 
floriam; mesmo um imortal, la chegando, 
se admiraria ao olhar e se deleitaria no juizo. 

75 La parado, admirava-se o condutor Argifonte. 

Mas depois que tudo admirou em seu animo, 
presto foi a ampla gruta. Vendo-o de frente, 
nao o desconheceu Calipso, deusa divina, 
pois nao se desconhecem os deuses mutuamente, 

80 os imortais, nem se um bem longe habita. 

Ao energico Odisseu dentro nao encontrou, 
mas ele chora va na praia, sentado, como antes, 
com la grim as, gemidos e afl^oes lacerando o animo: 
costumava mirar o mar ruidoso, vertendo l&grimas. 

85 E a Hermes perguntou Calipso, deusa divina, 

tendo-o feito sentar-se em poltrona brilhante, lustrosa: 
“Por que ate mim vieste, Hermes bastao-dourado, 
respeitavel e caro?Nao costumas aparecer. 

Fala o que pensas; o animo ordena que eu cumpra 
90 se posso cumprir, e see algo que deve se-lo. 

[Vem mais para frente para eu te honrar com um dom”.] 
Isso tendo dito, a deusa pos ao lado uma mesa, 
apos enche-la de ambrosia, e misturou o tinto nectar; 
e ele bebia e comia, o condutor Argifonte. 

95 Aposjantar e o animo fortificar com a comida, 
entao a ela, com palavras respondendo, disse: 

“Perguntas, deusa, por que eu, deus, vim; a ti, 
sem subterfugios, narrarei a historia: tu o pedes. 

Zeus me ordenou que ca viesse, sem eu querer; 

100 quern, de bom grado, cruzaria tanta agua salgada, 

incontavel?Nao ha urbe de homens perto, que a deuses 
fazem sacrificios e hecatombes seletas. 


Mas nao pode a mente de Zeus porta-egide 
outro deus nem ultrapassar nem frustrar. 

105 Diz que urn varao esta al, o mais lastimoso de todos 
os varoes que em volta da urbe de Prlamo lutaram 
nove anos e, no decimo, a cidade pilharam e foram 
para casa; no retorno, porem, ofenderam a Atena, 
que instigou-lhes vento danoso e grandes ondas. 

1 1 0 Entao os outros todos pereceram , nobres companheiros, 
e eis que vento e ondas trouxeram-no para ca. 

Aele, agora, te ordenou de pronto o enviar de volta; 
nao lhe cumpre aqui, longe dos seus, morrer, 
mas ainda e seu quinhao ver os seus e alcan?ar 
115 a casa com alto teto e sua terra patria”. 

Assim falou, e tremeu Calipso, deusa divina, 
e, falando, dirigiu-lhe palavras plumadas: 

“Sois terriveis, deuses, ciumentos mais que todos: 
com deusas vos irritais quando deitam-se com varoes 
120 as claras ou se uma fazdele seu homem amado. 

Assim, quando a Orion agarrou Aurora dedos-roseos, 
com ela irritaram-se os deuses de vida tranquila 
ate que a ele, em Ortigia, a trono-dourado, pura Artemis, 
com suas flechas suaves, veio e matou. 

125 Assim quando a Jasao Demeter belas-tran9as, 
cedendo a seu animo, uniu-se em enlace amoroso 
sobre pousio com tres sulcos; pouco tempo ignorou-o 
Zeus, que o matou, lan9ando um raio cintilante. 

Assim agora irritai-vos comigo, deuses, por ter um mortal. 
130 Aele eu salvei enquanto a quilha cavalgava, 

sozinho, pois sua nau veloz, com um raio cintilante 
Zeus atingiu e despeda90u no meio do mar vinoso. 

Entao os outros todos pereceram, nobres companheiros, 
mas eis que a ele vento e ondas para ca trouxeram. 

135 Aele eu acolhia, alimentava e dizia 

que o faria imortal e sem velhice por todos os dias. 


Mas como nao pode a mente de Zeus porta-egide 
outro deus nem ultrapassar nem frustrar, 
que va, se ele o esta incitando e instigando, 

140 sobre o mar ruidoso. Conduzi-lo, porem, nao posso; 
nao tenho naus com remos nem companheiros 
que o conduziriam sobre as amplas costas do mar. 

Mas a ele, sollcita, vou sugerir e nao esconder 
como alcan9ara, ileso de todo, sua terra patria”. 

145 E a ela dirigiu-se o condutor Argifonte: 

“Assim agora envia-o de volta, e a colera de Zeus atenta, 
que nunca, no porvir, rancoroso, a ti seja cruel”. 

Isso dito, partiu o poderoso Argifonte; 
e ela ate o energico Odisseu, a senhora ninfa, 

150 foi, logo apos ouvir o comunicado de Zeus. 

Achou-o na praia, sentado; nunca em seus olhos 
as lagrimas secavam, e ia-se sua doce vitalidade, 
chorando pelo retorno, pois j a nao lhe agradava a ninfa. 
Mas a noite dormia, obrigado, 

155 na cava gruta, sem querer, junto a ela, que queria; 
de dia, nas pedras e nas praias sentado, 

Iacerando o animo com l&grimas, gemidos e afli9oes, 
mirava o mar ruidoso, vertendo lagrimas. 

Parada proximo, falou-lhe a deusa divina: 

160 “Desditoso, nao chores mais aqui, nem tua vida 

se esvaia, pois agora, muito solicita, de volta te enviarei. 
Vamos, corta grandes troncos e com bronze constroi 
larga balsa; e o deque prende sobre ela, 
ereto, para que te leve pelo mar emba9ado. 

165 Quanto a mim, pao, agua e vinho tinto, 

deliciosos, disporei, que de ti a fome afastariam, 
e com roupas te cobrirei; e enviarei brisa detr&s 
para que, ileso de todo, tua terra patria alcances 
se quiserem os deuses, que do largo paramo dispoem, 

170 esses que sao mais fortes que eu para pensar e realizar". 


Assim falou, e tremeu o muita-tenencia, divino Odisseu, 
e, falando, dirigiu-lhe palavras plumadas: 

“Claro, deusa, que tu armas algo outro, nao a condusao, 
quando pedes que de balsa cruze grande abismo de mar, 
175 assombroso e aflitivo; esse nem simetricas naus 
velozes cruzam, felizes com a brisa de Zeus. 

E nem eu, contra ti, numa balsa embarcaria, 
exceto se ousares, deusa, a grande jura jurar-me 
de que nao planejaras, contra mim, outra desgrasa”. 

180 Assim falou, e sorriu Calipso, deusa divina, 

com a mao acariciou-o, dirigiu-se-lhe e nomeou-o: 

“De fato es trapaceiro, versado em sagacidade; 
que discurso e esse que planejaste para falar! 

Agora saibam disso a terra, o largo paramo acima 
185 e a agua que flui para baixo, o Stix - esse o maior 
juramento, o mais terrivel entre os deuses ditosos - 
de que nao planejarei, contra ti, outra desgra?a. 

Mas penso e planejarei exatamente o que para mim 
mesma eu armaria, se tivesse tal necessidade. 

190 Ve, minha mente e moderada, e em mim mesma 
o animo no peito nao e de ferro, mas compassivo”. 

Falou assim e foi na frente a deusa divina, 
celere; ele depois, atras das pegadas da deusa. 

E chegaram a cava gruta, a deusa e o varao; 

195 e ele la sentou-se na poltrona donde se erguera 
Hermes, e a ninfa serviu todo tipo de iguaria, 
para comer e beber, o que mortais varoes comem; 
ela sentou-se em face do divino Odisseu, 
e junto dela as escravas puseram ambrosia e nectar. 

200 E eles esticavam as maos sobre os alimentos servidos. 
Mas apos deleitarem-se com bebida e comida, 
entre eles comeipou a falar Calipso, deusa divina: 
“Divinal filho de Laerte, Odisseu muito-truque, 
entao de fato para casa, a cara terra patria 


205 de pronto queres ir? Se feliz, apesar de tudo. 

Se soubesses, em teujuizo, quantas agruras 
deveras aguentar antes de atingir a terra patria, 
ficando aqui mesmo, comigo cuidarias desta casa 
e imortal serias, embora ansiando ver 
210 tua esposa, que sempre desejas todos os dias. 

Com certeza nao pior que ela proclamo ser, 

nem no porte, nem no fisico, pois nao e possivel 

que as mortais disputem com imortais em porte e aparencia”. 

Respondendo, disse-lhe Odisseu muita-astucia: 

215 “Senhora deusa, nao me odeies por isso. Tambem sei 
de tudo, que, comparada a ti, a bem-ajuizada Penelope 
6 pior em aparencia e altura a quern mira de frente: 
ela e mortal, e tu, imortal e sem velhice. 

Mas quero ainda assim e desejo todos os dias 
220 voltar para casa e ver o dia do retorno. 

Se de novo um deus me golpear no mar vinoso, 
resistirei, tendo no peito animo resistente, 
pois ja muito, demais sofri e muito aguentei 
em ondas e guerra; que, depois de tudo venha o retorno”. 

225 Assim falou, o sol desceu e vieram as trevas; 
os dois tendo ido ao recesso da cava grata, 
deleitaram-se com o amor, lado a lado ficando. 

Quando surgiu a nasce-cedo, Aurora dedos-roseos, 

Odisseu presto vestiu capa e tunica, 

230 e ela grande manto branco vestiu, a ninfa, 
leve e gracioso, a cintura cingiu com cinto 
belo, dourado, e sobre a cabe<?a deitou o veu. 

Entao projetou a condu^ao do energico Odisseu: 
deu-lhe grande machado, ajustado a palma da mao, 

235 bronzeo, nas duas pontas agudo; nele havia 

um cabo de oliveira muito belo, bem-engastado. 

Deu-lhe depois enxo bem-polida e guiou-o na vereda 
ao extremo da ilha, onde havia grandes arvores - 


amieiro, choupo-negro e abeto alcanfa-o-ceu - 
240 ha muito sem seiva, secas, que facil lhe flutuariam. 
Mas apos lhe mostrar onde havia grandes arvores, 
ela foi para casa, Calipso, deusa divina, 
e ele cortou os troncos; e rapido realizou sua obra. 
Vinte derrubou ao todo, podou-os com o bronze, 

245 aplanou habilmente e endireitou com o prumo. 
Trouxe a verruma Calipso, deusa divina; 
furou entao todos e encaixou-os entre si, 
e a todos ajustou com pregos e encaixes. 

O espafo do casco da nau que torneia um varao - 
250 mercante, larga - bem-versado em carpintaria, 
tao larga balsa construiu Odisseu. 

O deque, ao erguer e estruturar com varios apoios, 
fazia; e completava-o com largas pranchas. 

Nele erguia um mastro e uma verga a ele adaptada; 
255 depois disso, fezum leme para manobrar. 
Circundou-a toda com cerca de salgueiro, 
defesa contra ondas; nela despejou muita madeira. 
Trouxe panos Calipso, deusa divina, 
para fazer a vela; ele bem artefatou ate isso. 

260 Nela prendeu bravos, adrifas e escotas. 

Com alavancas, entao, empurrou-a ao mar divino. 
Era o quarto dia, e para ele tudo foi completado; 
e no quinto enviou-o da illia a divina Calipso, 
tendo-o banhado e vestido com vestes olorosas. 

265 Dentro pos-Ihe a deusa um odre de vinho escuro, 
esse um e outro de agua, grande, e tambem comida 
num alforje: pos-lhe alimentos deliciosos, muitos; 
e brisa fez que soprasse, tranquila e tepida. 

Felizcom a brisa, soltou a vela o divino Odisseu. 

270 Ele manobrou, habil, com o leme, 

sentado - sono em suas palpebras nao tombou -, 
mirando as Pleiades e Boeiro, que tarde se poe, 


e a Ursa, que Carro tambem denominam, 
ela que no raesmo lugar se volta e em Orion se fixa, 
275 a unica a nao partilhar dos banhos no Oceano; 
de fato, ordenara-lhe Calipso, deusa divina, 
que cruzasse o mar com ela a sua esquerda. 

Ja dezessete dias navegava, o mar cruzando, 
e no decimo oitavo surgiram montes umbrosos 
280 da terra dos feacios, do ponto mais proximo a ele: 
assemelhava-se a um escudo no mar emba<;ado. 

E a ele, voltando dos etiopes, o poderoso treme-solo, 
de longe, dos montes dos solimos viu; surgiu-lhe 
singrando pelo mar. Irou-se no peito ainda mais, 

285 agitou a cabe?a e a seu animo discursou: 

“ Inc rive 1, por certo os deuses mudaram de opiniao 
acerca de Odisseu enquanto eu, entre etiopes, estava; 
ja proximo esta da terra feacia, onde Ihe cumpre 
escapar do grande limite de agonia que o atinge. 

290 Mas creio que o perseguirei ate se fartar de desgra?a”. 
Isso dito, reuniu nuvens e o mar turvou, 
as maos no tridente: atifou todas as rajadas 
de todos os ventos e, com nuvens, encobriu 
terra e mar por igual; e a noite desceu do ceu. 

295 Juntos Euro e Noto cairam, o tempestuoso Zefiro 
e Boreas, nascido do paramo, e grande onda rolava. 
Entao fraquejaram os joelhos e o cora^ao de Odisseu, 
e, perturbado, falou a seu animo energico: 

“Ai de mim, pobre coitado, o que ainda me resta? 

300 Temo que tudo que a deusa falou sej a infalivel: 
disse que eu no mar, antes de atingir a terra patria, 
enfrentaria afl^oes: tudo isso agora se completa. 

Com que nuvens cinge Zeus o largo paramo; 
turvou o mar, e arremessam-se rajadas 
305 de todos os ventos: agora e certo meu abrupto fim. 

Tres vezes ditosos, quatro, os danaos que morreram 


na ampla Troia, obsequiando os filhos de Atreu. 

Tivesse eu morrido e meu destino alcan9ado 
no dia em que, contra mim, la 119 as bronzeas numerosos 
310 troianos lan9aram em torno do finado filho de Peleu. 

Teria obtido oferendas, e minha fama os aqueus levariam; 
agora me foi destinado ser alcan9ado por morte deploravel”. 
Apos falar assim, grande onda o golpeou do alto, 
terrlvel, impetuosa, e chacoalhou a balsa. 

315 Para longe da balsa ele proprio caiu, e o leme 
das maos deixou ir; ao meio quebrou-lhe o mastro 
rajada de ventos mesclados, terrlvel. 

Longe a vela e a verga calram no mar. 

Sob a agua segurou-o muito tempo, e nao pode 
320 logo subir, sob o furor da grande onda: 

as vestes o oprimiam, as que lhe dera a divina Calipso. 

Bern depois emergiu, e da boca cuspiu agua do mar, 
acre, que em abundancia da cabe9a escorria. 

Nem assim da balsa esqueceu, embora acabado, 

325 mas, lan9ando-se nas ondas, agarrou-a, 

e no meio sentou-se, da morte certeira tentando escapar. 
Levava-a grande onda pela corrente, para la e para ca. 
Como Boreas no fim do verao leva espinhos de cardo 
pelo plaino, e, em profusao, se prendem um ao outro, 

330 assim, pelo mar, ventos a levavam para la e para ca: 
ora Noto a Boreas lan9ava-a para que fosse levada, 
ora Euro a Zefiro deixava-a para ser perseguida. 

E viu-o a filha de Cadmo, Ino linda-canela, 

Leucoteia, que antes fora mortal com vozhumana, 

335 e agora, no mar, partilhava da honra dos deuses. 

Ela apiedou-se de Odisseu, sofrendo a deriva; 
feito gaivota, em voo emergiu do oceano, 
sentou-se sobre a balsa muita-corda e enunciou-lhe: 
“Desditoso, por que assim a ti Poseidon trem e-solo 
340 odeia, terrivel, ja que te engendra muitos males? 


Ve, nao te destruira, embora muito encolerizado. 

Mas aja assim, e creio que nao te falta entendimento: 
apos tirar as roupas, deixa a balsa entregue aos ventos 
e, nadando com os bra90s, esfor9a-te pelo retorno 
345 a terra dos feacios, onde teu destino e escapar. 

Vamos, esse veu sob o peito ajeita, 
imortal; nao temas sofrer nem ser destruldo. 

Mas quando, com as maos, tocares terra firme, 
solta-o e o lan9a rumo ao mar vinoso, 

350 bem longe da terra, e vira-te para o outro lado”. 

Apos falar assim, a deusa deu-lhe o veu, 
e ela de volta no mar mergulhou, no faz-onda, 
a gaivota assemelhada; e onda escura encobriu-a. 

Mas ele cogitou, o muita-tenencia, divino Odisseu, 

355 e, perturbado, falou a seu animo energico: 

“Ai de mim, que um ardil nao tenha de novo tram ado 
o imortal, quando me ordena desembarcar da balsa. 
Ainda nao obedecerei, pois longe, com os olhos 
a terra eu vi, onde ela me disse que escaparia. 

360 Mas assim agirei, e parece-me ser o melhor: 
enquanto houver troncos com encaixes ajustados, 
aqui ficarei e resistirei, sofrendo agonias; 
mas quando uma onda dissipar a balsa, 
nadarei, pois nao e possivel prever algo melhor”. 

365 Enquanto revolvia isso no j uizo e no animo, 
lan90u-lhe grande onda Poseidon treme-solo, 
terrivel e aflitiva, arqueada, e golpeou-o. 

Como o vento bravio que dissipa uma pilha de palha, 
seca, e a ela dispersa para todos os lados, 

370 assim dispersou seus grandes troncos. E Odisseu 

cavalgava o tronco, como a guiar um cavalo de corrida. 
Despiu-se da roupa que lhe dera a divina Calipso 
e de imediato o veu sob o peito ajeitou; 
de cabe9a jogou-se no mar, estendendo os bra90s, 


375 ansiando nadar. Viu-o o poderoso treme-solo, 
moveu a cabefa e a seu animo discursou: 

“Assim agora, apos muitos males sofrer, vague no mar 
ate homens criados por Zeus encontrar. 

Mas nem assim, espero, desprezaras a desgrafa”. 

380 Falou assim, chicoteou os cavalos bela-pelagem, 
e foi ate Aigas, onde fica sua morada gloriosa. 

Porem Atena, filha de Zeus, teve outra ideia: 
dos outros ventos, deles o percurso estancou 
e ordenou a todos que parassem e repousassem; 

385 e instigou o ventoso Boreas, que quebrou as ondas 
para que ao navegador povo feacio se j untasse 
Odisseu linhagem-divina, e fugisse da perdi^ao da morte. 
La, duas noites e dois dias, na onda potente 
vagava, e seu cora9ao amiude pressentiu o fim. 

390 Mas quando trouxe o terceiro dia Aurora belas-tranfas, 
entao o vento parou e a calmaria 
surgiu sem ventos; ele, proximo, viu a terra 
com muito agu9ado olhar, erguido por grande onda. 

Como quando aos filhos felicidade traza vida 
395 do pai que j az doente, sofrendo lancinante agonia, 

definhando ha tempo, pois hedionda divindade atacou-o, 
e entao, para sua felicidade, deuses o livram da desgra9a - 
tal felicidade sentiu Odisseu ao ver terra e bosque, 
e nadou com pressa de por os pes em terra firme. 

400 Mas quando estava a distancia de um grito, 

ouviu um rugido contra os rochedos do oceano - 
roncava grande onda contra a seca terra firme, 
quebrando terrivel, tudo coberto de espuma do mar; 
sem angras protetoras de navios nem ancoradouros, 

405 cabos salientes havia, e recifes e rochas. 

Entao fraquejaram os joelhos e o cora9ao de Odisseu, 
e, perturbado, ele falou a seu animo energico: 

“Ai, apos Zeus a mim conceder, sem esperan9a, 


ver a terra, e eu completar a travessia desse abismo, 

410 nao se mostra salda para fora do mar cinza. 

La fora ha rochas pontiagudas, em torno a onda 
freme com estrondo e, lisa, a rocha se ergue; 
fundo e o mar ate a beira e, impossivel, com os pes, 
ambos, se firmar, e escapar da desgra?a. 

415 Que a mim, tentando sail - , nao lance contra o penedo 
grande onda, agarrando-me; sera vao meu impeto. 

Se mais para diante eu nadar, para acaso encontrar 
praias obliquas e angras do oceano, 
temo que uma rajada novamente me agarre 
420 e pelo mar piscoso me leve, com gemidos profundos, 
ou que do mar uma divindade envie contra mim 
enorme monstro, um dos tantos que nutre a famosa Anfitrite, 
pois sei do odio que me tern o famoso treme-terra”. 
Enquanto revolvia isso no juizo e no animo, 

425 grande onda o levou rumo ao &spero cabo. 

La a pele teria sido lacerada e os ossos, partidos, 
se em seu juizo tal nao lhe pusesse Atena olhos-de-coruja: 
com ambas as maos, arremetendo-se, agarrou o penedo 
e nele grudou-se, gemendo, ate a grande onda passar. 

430 E assim dela escapou, mas, em refluxo, a ele de novo 
golpeou, arremetendo-se, e longe lanijou-o ao mar. 

Como quando o muitos-pes da toca e arrancado 
e nas ventosas copiosos pedregulhos se prendem, 
assim, nas rochas, de suas maos coraj osas 
435 a pele foi lacerada; e a ele grande onda encobriu. 

La o infelizOdisseu - mais que seu quinhao - teria morrido, 
se sagacidade nao lhe tivesse dado Atena olhos-de-coruja: 
emergindo das ondas, que quebravam rumo a costa, 
nadava pelo lado, mirando a terra, se acaso achasse 
440 praias obliquas e angras do oceano. 

Mas quando diante da boca do rio belo-fluxo 
chegou, nadando, ai pareceu-lhe ponto excelente, 


livre de rochas, e havia protepao contra o vento; 
reconheceu-o era seu fluxo e rezou em seu intimo: 

445 “Ouve-me, senhor, seja quern fores; muito-implorado, 
vou a ti, fugindo do mar, das amea 5 as de Poseidon. 

E digno de respeito, tambem aos deuses imortais, 
todo varao que chega depois de vagar, como eu agora 
alcan^o tua corrente e joelhos apos muito aguentar. 

450 Pois, senhor, apieda-te; teu suplicante proclamo ser”. 
Isso dito, ele logo parou sua corrente, conteve a onda, 
na frente dele produziu calmaria e salvou-o 
rumo a fozdo rio. Entao os dois joelhos vergou 
e os robustos brapos: o mar dobrara seu cora^ao. 

455 Inchada estava sua came, e muito mar gotejava 
da boca e da pele. Eis que ele, sem folego e sem voz, 
jazia, exaurido, e fadiga terrivel o atingiu. 

Quando voltou a si e no peito o animo se recompos, 
entao sim soltou de si o veu da deusa. 

460 No rio desagua-no-mar deixou-o tombar; 

de volta levou-o grande onda com a corrente, e logo Ino 
recebeu-o com suas maos; ele, apos do rio se afastar, 
sob o junco arrojou-se e beijou o solo fertil. 

Perturbado, falou a seu animo energico: 

465 “Ai de mim, o que devo sofrer? O que ainda me resta? 
Se, no rio, ao longo da incomoda noite eu vigiar, 
que a geada vil e, junto, o fresco orvalho 
nao subjuguem o animo esgotado pela exaustao; 
a brisa sopra do rio, gelada, antes da aurora. 

470 Mas se subir ao penhasco e ao bosque umbroso, 
nos cerrados arbustos adormecer (se permitirem 
o frio e a fadiga), e ate mim o doce sono vier, 
temo tornar-me presa e butim de feras”. 

Pareceu-lhe, ao refletir, ser mais vantajoso assim: 

475 foi ao bosque que encontrou j unto a uma clareira, 
proximo a agua. Eis que se pos sob dois arbustos 


nascidos no mesmo lugar: zambujeiro e oliveira. 

Nao os cortava o impeto de ventos que sopram umidos, 
e nunca o sol luzidio com seus raios os atingia, 

480 nem chuva os cruzava de todo, tao compactos 

nasceram, enredados um ao outro. Debaixo Odisseu 
meteu-se, e presto juntou um leito com suas maos, 
largo, pois havia um monte de folhas, em abundancia, 
quantidade para dois, tres homens se protegerem 
485 contra o inverno, ainda que fosse muito duro. 

Vendo-o, alegrou-se o muita-tenencia, divino Odisseu, 
deitou-se no centro e sobre si entornou um monte de folhas. 
Como quando alguem oculta um ti?ao na cinza negra, 
no limite das lavouras, onde nao ha outros vizinhos, 

490 e salva o germe do fogo para nao precisar acender alhures, 
assim Odisseu cobriu-se com as folhas. E nele Atena 
vertia sono sobre os olhos, para rapido o livrar 
da fadiga penosa apos encobrir suas palpebras. 



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Assim ele la dormia, o muita-tenencia, divino Odisseu, 

dominado por sono e fadiga. E Atena 

foi ate a terra, a cidade dos varoes feacios. 

Eles antes moravam na espa^osa Hipereia, 
proximo aos cic lopes, varoes arrogantes, 
que os lesavam, pois na for9a eram superiores. 

De la fe-los erguer-se o deiforme Nauveloz, 
e assentou-os em Esqueria, longe de varao come-grao; 
em volta puxou muro para a cidade, construiu casas, 
feztemplos de deuses e dividiu as glebas. 

Mas ele, ja subjugado pela morte, partira ao Hades, 
e Alcinoo regia, versado em projetos vindos de deuses. 
A sua casa foi a deusa, Atena olhos-de-coruja, 
o retorno do energico Odisseu armando. 

Foi ate o quarto muito artificioso no qual uma mo?a 
dormia, semelhante a imortais no fisico e na aparencia, 
Nausicaa, filha do energico Alcinoo, 
e junto duas criadas, cuja beleza vinha das Gra?as, 
de cada lado do umbral, as brilhantes portas trancadas. 
Como o sopro do vento, lanfou-se a cama da mo9a, 
parou acima da cabe9a e dirigiu-lhe o discurso, 
assemelhada a filha de Dimas, famoso pelas naus, 
de mesma idade que ela e agrad&vel a seu animo. 
Semelhante a ela, disse-lhe Atena olhos-de-coruja: 
“Nausicaa, como a mae te gerou assim desleixada? 
Tuas vestes lustrosas jazem descuidadas, 
e tuas bodas estao perto, onde tu mesma deves belezas 
trajar e as de outros providenciar, de quern te conduzir; 
gra9as a isso, marcha entre os homens um dizer 
bom, e o pai e a senhora mae se agradam. 

Vamos, temos que lavar tudo quando a aurora surgir; 
contigo seguirei como ajudante, para que r&pido 
aprontes, pois nao seras virgem por muito tempo. 

Pela cidade, j a te cortejam os melhores 


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entre todos os feacios, onde esta tua propria familia. 
Vamos, incita o famoso pai antes da aurora 
a preparar mulas e carro, para que conduza 
cintos, peplos e lustrosas mantas. 

Tambem para ti mesma sera bem melhor que ir 
com os pes: os po?os sao bem longe da cidade”. 

Ela, apos falar assim, partiu, Atena olhos-de-coruja, 
ao Olimpo, onde dizem a sede dos deuses, sempre segura, 
ficar: nao e sacudido por ventos, nunca por chuva 
e molhado nem neve a ele se achega, mas o ceu de todo 
se estende sem nuvens, e acima corre branco clarao; 
ali deleitam-se os deuses ditosos todos os dias. 

Para la foi a olhos-de-coruja, apos instruir a mofa. 

Logo veio Aurora belo-trono, que a despertou, 

Nausicaa belo-peplo; presto espantou-se com o sonho 
e saiu pela casa para anunciar aos genitores, 
e 1& dentro os encontrou, ao caro pai e a mae. 

Essa, sentada junto a lareira com criadas mulheres, 
volteava fios purpura na roca; e com aquele na porta 
deparou, de saida para encontrar reis renomados 
no conselho, c ham ado por ilustres feacios. 

Ela, parada bem perto, disse ao caro pai: 

“Querido papai, nao poderias preparar-me um carro, 
alto, boas-rodas, para eu levar esplendidas vestes 
ao rio para lavar, aquelas minhas que sujas estao? 
Tambem convem que tu, na companhia dos proceres, 
planejes pianos com roupas limpas sobre a pele. 

E sao cinco os teus filhos que vivem no palacio, 
dois deles casados, tres, florescentes solteiros; 
eles sempre querem, com roupas recem-lavadas, 
ir a arena de dan?a: tudo isso ocupa meu juizo”. 

Assim falou, com vergonha de nomear vicej antes bodas 
ao caro pai; ele tudo percebeu e reagiu com o discurso: 
“Nao te nego as mulas, crianga, ou outra coisa. 


Vai; e para ti os escravos prepararao um carro, 

70 alto, boas-rodas, equipado com a parte superior”. 

Isso dito, deu a ordem aos escravos, e eles obedeceram. 
Eles entao, fora, o carro boas-rodas com mulas 
aprontavam, conduziam as mulas e jungiram ao carro; 
e a 11109a trazia do quarto resplandecentes roupas. 

75 Essas ela dispos sobre o carro bem-polido. 

Amae na canastra punha iguarias deliciosas 
de todo o tipo, punha alimentos e vertia vinho 
em odre de cabra; e a 11109a embarcou no carro. 

Deu-lhe fluido oleo de oliva em lecito dourado 
80 para que se ungisse com suas criadas mulheres. 

Ela pegou o chicote e as redeas lustrosas 
e chicoteou para puxarem; e as mulas faziam estrepito. 
Esticavam-se sem cessar; levavam a roupa e a ela, 
nao sozinha, mas com ela seguiam duas criadas. 

85 Quando alcan9aram a mui bela corrente do rio, 
onde as tinas eram perenes, e muita agua, 
bela, corre do fundo, para limpar ate o bem sujo, 
la elas desatrelaram as mulas para longe do carro. 
Enxotaram-nas ao longo do vertiginoso rio 
90 para pastarem capim doce como mel; e outras, do carro, 
pegavam a roupa com as maos e levavam a agua escura, 
e pisoteavam-na nas tinas rapido, rivalizando. 

Mas depois de lavar e limpar toda a sujeira, 
em ordem estenderam-na ao longo da orla, onde o mar 
95 ao bater na praia mais lavava pedregulhos. 

Elas se banharam e ungiram a larga com oleo, 
partilharam o aim 090 junto as margens do rio 
e aguardaram a roupa secar sob os raios do sol. 

Mas apos as escravas e ela deleitarem-se com comida, 
100 brincavam com a bola, tendo as fitas soltado, 

e entre elasNausicaa alvos-bra90s dirigia a musica. 

Tal vai Artemis pelos montes, a verte-setas, 


ou pelo muito elevado Taigeto ou pelo Erimanto, 
deleitando-se com javalis e corfas velozes. 

105 Com ela as ninfas, filhas de Zeus porta-egide, 
campestres, brincam, e no juizo se alegra Leto; 
aquela mantem cabe?a e fronte acima de todas, 
e facil de reconhecer, e todas sao belas - 
assim, entre as criadas, sobressaia a virgem indomada. 
110 Mas quando ia de novo retornar para casa, 
apos jungir as mulas e dobrar as belas vestes, 
teve outra ideia a deusa, Atena olhos-de-coruja: 

Odisseu despertaria e veria a 11109 a de bela face 
para que ela o guiasse a cidade dos vardes feacios. 

1 15 Arainha entao lanpou a bola para uma criada; 
ela errou a criada, e em fundo remoinho caiu. 

Soltaram alto grito, e despertou o divino Odisseu. 
Sentando-se, revolvia no juizo e no animo: 

“Ai de mim, dessa vezatinjo a terra de que mortais? 

120 Serao eles desmedidos, selvagens e nao civilizados, 
ou hospitaleiros, com mente que teme o deus? 

E como se me envolvesse feminina gritaria de mo 9 as, 
de ninfas, que habitam escarpados cumes de montes, 
fontes de rios e campos forrageiros; 

125 talvez estej a perto de homens dotados de fala. 

Pois bem, eu mesmo vou verificar e ver”. 

Isso dito, dos arbustos emergiu o divino Odisseu, 
e do bosque cerrado quebrou, com mao encorpada, ramo 
folheado, para no corpo proteger as vergonhas de homem 
130 Foi como leao da montanha, confiante na bravura, 
que vem castigado por chuva, vento, e seus olhos 
faiscam. Mas ele vai para o meio de bois e ovelhas 
ou atras de corgas selvagens; ordena-lhe o estomago 
que, para testar as ovelhas, va a uma casa protetora - 
135 assim ia Odisseu as mo 9 as belas-tran 9 as 
unir-se, embora nu: a necessidade o atingiu. 


Aterrorizante pareceu a elas, enfeado pela salsugem, 
e abalaram, uma para cada lado nas praias salientes. 

So a filha de Alcinoo ficou, pois nela Atena 
140 pos coragem no peito e tirou o medo dos membros. 
Parada, encarou-o; ele, Odisseu, cogitou 
se, tocando os joelhos, suplicaria a 11105 a de be la face 
ou assim mesmo, de longe, com palavras amaveis 
suplicaria que mostrasse a cidade e desse-lhe roupas. 

145 Pareceu-lhe, ao refletir, ser mais vantaj oso assim, 
de longe suplicar com palavras amaveis, 
para a mopa nao se enraivecer, tocada nos joelhos. 

De pronto amavel e vantaj oso discurso lhe disse: 
“Imploro-te, senhora; es uma deusa ou mortal? 

150 Se es deusa, uma das que do largo paramo dispoem, 
a ti eu a Artemis, a filha do grande Zeus, 
comparo, proxima em aparencia, altura e fisico; 
se es um mortal dos que moram sobre a terra, 
tres vezes ditosos sao teu pai e a senhora tua mae, 

155 tres vezes ditosos os irmaos; muito o animo deles, 
sempre com gaudio, rejubila por tua causa, 
ao mirarem tal rebento dirigir-se a arena. 

Sera no coragao, de longe, o mais ditoso de todos 
quern prevalecer com dadivas e para casa te conduzir. 
160 Nunca vi mortal assim com meus olhos, 

homem nem mulher, e reverencia me toma ao mirar-te. 
Sim, em Delos, certa vez, junto ao altar de Apolo, um tal 
broto de palmeira, jovem e ascendente, percebi; 
pois fui tambem ate la, e grande tropa seguia-me 
165 em jornada na qual muitas agruras me atingiriam - 
assim como, ao ve-lo, assombrei-me no animo 
muito tempo, pois nunca ascendeu tal tronco da terra, 
a ti, mulher, admiro, assombro-me e temo terrivelmente 
tocar-te os joelhos; e cruel afli 5 ao me atinge. 

170 Ontem, no vigesimo dia, escapei do mar vinoso; 


ate entao onda e ventosas rajadas sempre me levavam 
desde a ilha de Ogigia. Agora a divindade me expeliu, 
para que tambem aqui eu sofra um mal: nao creio 
que cessara, mas deuses, antes, completarao ainda muitos. 
175 Tern piedade, senhora; de ti, apos padecer muito mal, 
acheguei-me por primeiro; nao conhe 90 nenhum outro 
homem dos que dispoem dessa cidade e terra. 

Mostra a cidade e de-me trapos para recobrir-me, 
se trouxeste um saco de roupas ao vires para ca. 

180 Que deuses te deem tudo que desejas em teujuizo, 
marido e casa, e te presenteiem com concordia 
distinta; de fato, nada e mais forte e melhor que isto, 
quando, em concordia nas ideias, dominam a casa 
marido e mulher: ha muitas agonias a inimigos 
185 e alegrias a amigos, e a reputagao deles e maxima”. 
Aele, entao, Nausicaa alvos-brafos retrucou: 

“Estranho, como nao pareces ser vil nem insensato heroi, 
e Zeus mesmo, o Olimpio, fortuna distribui aos homens, 
aos distintos e aos vis, o que ele quer a cada um: 

190 tambem a ti talvez isso deu; porem, cumpre aguentares. 
Pois bem, ja que alcannas nossa terra e cidade, 
nao careceras de veste nem de outra coisa 
que convem a calejado suplicante diante de nos. 

Aurbe te mostrarei e vou dizer-te o nome do povo: 

195 sao os feacios que habitam essa cidade e regiao, 
e eu mesma sou a filha do energico Alcinoo, 
de quern depende o vigor e a forfa dos feacios”. 

Assim falou e deu ordens as criadas belas-tran 9 as: 
“Criadas, parai! Para onde fugis ao ver o heroi? 

200 Acaso pensais tratar-se de um varao inimigo? 

Nao existe este varao, humano mortal, nem nascera, 
o que chegar a terra dos varoes feacios 
trazendo briga; somos carissimos aos imortais. 

Habitamos bem longe no mar muito encapelado, 


205 nos confins, e nenhum outro mortal nos frequenta. 

Mas esse ai, desgra?ado, chega aqui apos vagar, 
e agora cumpre dele cuidar; sob Zeus estao todos 
os estranhos e mendigos, e o dom e pequeno e querido. 
Vamos, criadas, dai comida e bebida ao estranho, 

210 e banhai-o no rio onde ha prote9§o contra o vento”. 

Isso dito, elas pararam, entre si deram ordens 
e acorn odaram Odisseu junto a prote9ao, ordens 
de Nausicaa, filha do energico Alcinoo; 
ao lado dele, puseram manto e tunica para vestir-se; 

215 deram-lhe, num lecito dourado, fluido oleo de oliva, 
e lhe pediram que se banhasse nas correntes do rio. 

Sim, entao entre as criadas falou o divino Odisseu: 
“Criadas, ficai paradas assim longe, para eu mesmo 
banhar-me, tirando a salsugem dos ombros, e com oleo 
220 me ungir; ha tempo meu corpo nao ve unguento. 

Diante de vos eu nao me banharei, pois tenho pudor 
de ficar nu no meio de mo9as belas-tran9as”. 

Assim falou, e foram para longe e inform aram a jovem. 
E ele, com agua do rio, lavou a pele, o divino Odisseu, 
225 da salsugem que cobria o dorso e os largos ombros; 
e da cabe9a removeu a sujeira do mar ruidoso. 

Mas apos tudo lavar e a larga se ungir, 

vestiu as vestes que lhe dera a virgem indomada, 

e a ele tornou Atena, nascida de Zeus, 

230 maior e mais encorpado a quern o visse, e da cabe9a 
fez tom bar madeixas cacheadas, semelhantes a jacintos. 
Como quando reveste a prata com ouro o varao 
habilidoso, a quern ensinaram Hefesto e Palas Atenas 
tecnica de todo o tipo, e completa obras graciosas - 
235 assim sobre ele verteu gra9a, na cabe9a e nos ombros. 
Entao sentou-se, afastando-se ate a orla do oceano, 
fulgurante em beleza e gra9a; e a mo9a contemplava-o. 
Entao entre as criadas belas-tran9as ela falou: 


“Escutai-me, criadas alvos-brasos, vou falar. 

240 Cora a aj uda de todos os deuses que do Olimpo dispoem 
esse homem veio frequentar os excelsos feacios: 
antes, com efeito, pareceu-me ser ordinario; 
agora parece com deuses, que do largo paramo dispoem. 
Tomara homem assim fosse chamado de meu marido, 
245 morando nessa terra, e lhe agradasse ficar aqui mesmo. 
Vamos, criadas, dai comida e bebida ao estranho”. 

Assim falou, e elas a ouviram direito e obedeceram, 
e junto a Odisseu puseram comida e bebida. 

Ele bebia e comia, o muita-tenencia, divino Odisseu, 

250 a larga; ha muito tempo nao tocava em comida. 

E Nausicaa alvos-bra^os teve outra ideia: 
apos dobrar as vestes, colocou-as no belo carro, 
jungiu as mulas forte-casco e ela mesma subiu. 

Exortou Odisseu, dirigiu-se-lhe e nomeou-o: 

255 “Agora, estranho, poe-te a cidade, para que te guie 
a casa de meu atilado pai, onde tu, afirmo, 
conheceras, entre todos os feacios, os melhores. 

Mas aja assim, e creio que nao te falta entendimento: 
ao passarmos pelos campos e culturas dos homens, 

260 marcha rapido j unto as criadas, atras das mulas 
e do carro; e eu, na estrada, serei a condutora. 

E ao pisarmos na cidade, rodeada por muralha 
elevada, belo porto ha em cada lado da cidade 
e a entrada e estreita; ate a via naus ambicurvas 
265 sao puxadas. Todas tem uma rampa, cada uma. 

La fica a agora, em torno do belo templo de Poseidon, 
ajustada com blocos arrastados de pedreira. 

La ocupam-se com o cordame das negras naus, 
com cabos e velas, e afilam seus remos. 

270 Aos feacios arco e alj ava nao interessam, 
mas velas, remos de naus e naus simetricas, 
com as quais se alegram, cruzando o mar cinza. 


Deles evito fala amarga, que ninguem por tras 
me insulte; e sao bastante soberbos na cidade. 

275 Talvez um mais vil diga assim, apos encontrar-nos: 
‘Quem e esse que segue Nauslcaa, belo e alto, 
um estranho? Onde o achou? Sim, sera seu marido. 

Por certo cuidou de alguem a deriva longe de sua nau, 
varao de terra distante, pois nao os ha nas cercanias; 
280 ou ate ela, depois de prece, deus muito rogado chegou 
apos do paramo descer, e a tera por todos os dias. 

E melhor, ela propria circulando, se achou marido 
alhures; de fato, ela desonra, na cidade, aqueles 
feacios que a cortejam, muitos e distintos’. 

285 Assim falarao, essas seriam as criticas contra mim. 
Tambem me indignaria contra toda que isso fizesse, 
uma que, contra os seus, vivos o pai e a mae, 
se unisse a varoes antes de atingir bodas publicas. 
Estranho, atenta assim a minha palavra para que logo 
290 obtenhas condu?ao e retorno da parte de meu pai. 
Toparemos o bosque radiante de Atena junto a trilha - 
alamos; la corre fonte e, no entorno, ha um prado; 
la fica o dominio de meu pai e luxuriante vinhedo, 
tao longe da cidade quanto a distancia de um grito. 

295 La sentado, aguarda um tempo, ate nos 

irmos a cidade e chegarmos a casa de meu pai. 

Mas quando creres que nos chegamos a casa, 
entao tambem vai a cidade dos feacios e indaga 
pela casa de meu pai, o energico Alcinoo. 

300 E facil de reconhecer, e ate uma crian?a tola 
te guiaria: de fato, nao sao semelhantes a ela 
as casas dos feacios, tal e a casa de Alcinoo, 
heroi. Mas quando te abarcarem o patio e a casa, 
muito rapido cruza o salao, ate alcanfares 
305 minha mae. Ela senta-se j unto a lareira, a luz do fogo, 
volteando fios purpura na roca, assombro a visao, 


reclinada contra a coluna; criadas sentam-se atras dela. 

Ai mesmo a poltrona de meu pai esta escorada, 
na qual be be vinho, sentado como um imortal. 

310 Passa por ele e bra 90 s em torno dos joelhos da mae 
lan? a, a fim de que o dia do retorno vej as 
rapido, com alegria, mesmo se es de bem longe. 

Se ela em seu animo for benevola para contigo, 
ha a expectativa, entao, de ver os teus e voltar 
315 para a casa bem-construida e a tua terra patria”. 

Apos falar assim, a^oitou, com chicote luzidio, 
as mulas; elas rapido deixaram as correntes do rio. 
Corriam bem e trotavam bem com seus cascos; 
e ela conduzia direito, para que junto seguissem a pe 
320 as criadas e Odisseu; com j uizo aplicava o asoite. 

E o sol mergulhou, e eles alcan^aram o famoso bosque 
consagrado a Atena, onde sentou-se o divino Odisseu. 

De imediato orou a filha do grande Zeus: 

“Ouve-me, rebento de Zeus porta-egide, Atritone; 

325 pelo me nos agora me e scuta, pois antes nunc a escutaste 
o golpeado ao golpear-me o famoso treme-terra. 

Da que aos feacios eu chegue, amigo e digno de piedade”. 
Assim falou, rezando, e ouviu-o Palas Atena; 
e a ele ainda nao apareceu de frente, pois respeitava 
330 o irmao do pai: ele com veemencia manteve a colera 
contra o excelso Odisseu ate esse em sua terra chegar. 



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Assim ele rezava, o muita-tenencia, divino Odisseu, 
e a forfa das mulas levava a moga a cidade. 

Ela, quando chegou a esplendida casa do pai, 
freou-as no portico; os irmaos, em torno dela, 
postaram-se, semelhantes a imortais; do carro 
soltaram as mulas e para dentro levaram as vestes. 

Ela mesma foi a seu quarto; acendera-lhe o fogo 
a ancia de Apeiraie, a camareira Eurimedussa, 
que um dia naus ambicurvas trouxeram de Apeiraie; 
elegeram-na honraria para Alcinoo, pois todos 
os feacios regia, e como a um deus o povo o ouvia: 
essa criou Nausicaa alvos-bra90s no palacio. 

Ela atifou-lhe o fogo e dentro preparou o jantar. 

Entao Odisseu moveu-se rumo a cidade; em torno Atena 
verteu densa bruma, benevola para Odisseu, 
para que nenhum animoso feacio, topando-o, 
provocasse-o com palavras e perguntasse quern era. 

Mas quando ia penetrar na cidade adoravel, 
entao topou-o a deusa, Atena olhos-de-coruja, 
semelhante a jovem menina levando um cantaro. 

Parou diante dele, e ele a interpelou, o divino Odisseu: 
“Crianfa, nao me conduzirias a casa do varao 
Alcinoo, que rege entre esses homens? 

De fato eu, calejado estranho, aqui chego 
de longe, terra distante; dai, nao conhe90 nenhum 
homem dos que dispoem dessa cidade e da terra”. 

A ele, entao, dirigiu-se a deusa, Atena olhos-de-coruja: 
“Portanto eu, pai estrangeiro, a casa que me pedes 
mostrarei, ja que mora perto de meu pai impecavel. 

Mas vai bem quieto, e eu na estrada te conduzirei, 
e nao encares homem algum nem o interrogues. 

Ve, eles nao toleram muito homens estrangeiros, 
nem sao hospitaleiros com quern vem dalhures. 
Confiantes em suas naus velozes, rapidas, 


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cruzam o grande mar, pois isso lhes deu o treme-solo: 
suas naus sao rapidas como asa ou pensamento”. 

Falou assim e foi na frente Palas Atena, 
celere; ele depois, atras das pegadas da deusa. 

Os feacios, famosos pelas naus, nao o perceberam 
passando por eles na cidade; de fato, Atena 
nao permitia, a be las- tr an? as, fera deusa, pois nevoa 
prodigiosa verteu sobre ele, benevola em seu animo. 
Assombrou-se Odisseu com portos e naus simetricas, 
com a agora dos proprios herois e grandes muralhas, 
altas, equipadas com estacas, assombro a visao. 

Mas quando chegaram a esplendida casa do rei, 
entre eles come?ou a falar a deusa, Atena olhos-de-coruja: 
“Esta e a casa, pai estrangeiro, que me pedes 
para indicar-te. Toparas os reis criados por Zeus 
partilhando banquete. Tu entra e no animo nada 
temas, pois o varao audacioso, o melhor em todos 
os feitos revela-se, ainda que venha dalhures. 

Bern, primeiro a senhora alcan?aras no palacio; 

Arete e o nome pelo qual e chamada, e os mesmos 
progenitores tern que geraram o rei Alcinoo. 

Primeiro a Nauveloz Poseidon treme-solo 
gerou com Periboia, na beleza a melhor das mulheres, 
a mais jovem filha do energico Eurimedon, 
que um dia foi rei dos autoconfiantes gigantes. 

Mas perdeu o iniquo povo e perdeu-se a si mesmo; 
com ela Poseidon uniu-se e gerou a crian?a, 
o animoso Nauveloz, que os fe&cios regia. 

Nauveloz gerou Rompedor e Alcinoo. 

Ao primeiro alvejou Apolo arco-de-prata, sem varao 
e recem-casado, e na casa deixou unica filha, 

Arete; dela Alcinoo fezsua consorte 
e honrou-a como nao e honrada na terra outra 
mulher das que hoje, sob os varoes, a casa mantem. 


Assim ela, de corafao, foi e tern sido honrada 
70 pelos caros filhos, pelo proprio Alcinoo 

e pelo povo, que, olhando-a como a um deus, 
saudam-na com discursos quando anda na cidade. 

Sim, a ela nao faltam ideias nobres; 
solve brigas daqueles com quem for benevola, ate varoes. 
75 Se ela em seu animo for benevola para contigo, 
ha a expectativa de ver os teus e voltar 
para a casa alto-teto e tua terra patria”. 

Apos falar assim, partiu Atena olhos-de-coruja 
sobre o mar ruidoso, deixou a encantadora Esqueria, 

80 dirigiu-se a Maratona e a Atenas amplas-vias 
e entrou na casa protetora de Erecteu. E Odisseu 
ia a casa famosa de Alcinoo; muita coisa seu cora 9 ao 
revolvia, ele de pe, antes de atingir o bronzeo portal. 

Assim como o do sol ou da lua, clarao havia 
85 pela casa de alto pe-direito do energico Alcinoo. 

Paredes bronzeas estendiam-se nas duas dire 9 oes, 
do umbral ao fundo, e, em torno, cornija de lapis-lazuli; 
douradas portas fechavam a solida casa; 
prateados batentes estavam de pe no bronzeo portal, 

90 prateado lintel sobre eles, e a ma 9 aneta era dourada. 
Dourados e prateados caes havia de cada lado, 
que Hefesto fizera com arguto discernimento 
para vigiarem a morada do energico Alcinoo, 
sendo imortais e sem velhice por todos os dias. 

95 La poltronas havia, apoiadas na parede nos dois lados, 
do umbral ao fundo, forma 9 ao continua, onde mantos 
finos, bem-tecidos, foram lan 9 ados, obra de mulheres. 

La os lideres dos feacios costumavam sentar-se, 
bebendo e comendo, pois possuiam em abundancia. 

100 Dourados mancebos sobre bases bem-feitas 
estavam de pe com tochas ardentes nas maos, 
a noite iluminando a casa para os convidados. 


Cinquenta escravas havia em sua casa, mulheres. 

Umas moem em moinhos manuais graos cor de ma^a, 
105 outras tecem a trama e volteiam os fios na roca, 
sentadas, tais como as folhas do choupo altaneiro; 
dos tecidos da fechada trama, pinga fluido oleo. 

Como os feacios, mais habeis que todos os varoes 
em guiar nau velozsobre o mar, assim as mulheres 
110 na arte do tear: sobremodo lhes deu Atena 

a tecnica de trabalhos bem belos e julzo distinto. 

Fora do patio, proximo as portas, havia grande pomar 
de quatro medidas e cerca corria de ambos os lados. 

La havia grandes arvores, verdej antes, 

1 15 pereiras, romazeiras e macieiras fruto-radiante, 
doces figueiras e oliveiras verdej antes. 

Delas, nunca um fruto se perde ou falta, 
inverno ou verao, o ano inteiro; nao, e perene 
o sopro de Zefiro e faz uns crescer e outros madurar. 

120 Pera apos pera amadurece, ma?a apos ma?a, 
uva apos uva, figo apos figo. 

La a sua vinha muito-fruto esta enraizada: 
uma parte, trecho ensolarado de solo piano, 

6 seca pelo sol, e outras partes eles recolhem 
125 e outras pisoteiam; na frente ha cachos 

lan<;ando flor, e outros escurecem aos poucos. 

La canteiros arranj ados junto a fileira mais externa 
tern plantas de todo o tipo, cintilando o ano inteiro. 

Dentro ha duas fontes: uma, por todo o jardim 
130 e distribuida; outra, sob o umbral do patio se lan?a 
a alta casa, donde os citadinos pegavam agua: 
tais, na casa de Ale moo, os radiantes dons de deuses. 

La parado, admirava-se o muita-tenencia, divino Odisseu. 
Mas depois de com tudo se admirar em seu animo, 

135 celere, por sobre o umbral, entrou na casa. 

Encontrou os lideres e capitaes dos feacios 


libando com calices a Argifonte aguda-mirada, 
a quem por ultimo libavam ao lembrar-se do repouso. 

E ele cruzou o salao, o muita-tenencia, divino Odisseu, 
140 e j unto densa bruma, que em torno dele vertia Atena, 
ate alcan$ar Arete e o rei Alclnoo. 

Em torno dos joelhos de Arete Odisseu lan90u os bra<;os, 
e a bruma definida pela deusa foi dele afastada. 

Eles se calaram pela casa ao ver o heroi, 

145 espantados com a visao; e Odisseu fez a suplica: 

“Arete, filha do excelso Rompedor, 
teu esposo e teus joelhos alcanfo, apos muito aguentar, 
e esses convivas: deuses a eles deem fortuna 
durante suas vidas, e cada um legue aos filhos 
150 os bens no palacio e a honraria, a que deu o povo. 

Mas minha condu9§o acelerai para eu chegar a patria 
rapido, pois longe dos meus ha muito sofro miserias”. 
Apos falar assim, sentou-se nas cinzas da lareira 
junto ao fogo; e eles todos, atentos, se calaram. 

155 Bern depois, tomou a palavra o anciao heroi Donodenau, 
que, entre os varoes feacios, era o mais velho 
e em discursos, superior, com muito saber antigo. 
Refletindo bem, entre eles tomou a palavra e disse: 
“Alcinoo, isto nao e o melhor nem conveniente, 

160 um estranho sentar-se no chao, nas cinzas da lareira; 
esses ai aguardam teu discurso, contidos. 

Vamos, o estranho em poltrona pinos-de-prata 
faze sentar apos ergue-lo, e aos arautos ordena 
que vinho misturem para a Zeus prazer-no-raio 
165 libarmos, ele que a respeitaveis suplicantes acompanha; 
e que a governanta de algo ao estranho para jantar”. 
Entao, quando isso ouviu o sacro impeto de Alcinoo, 
tomou Odisseu pela mao, o atilado variegada-astucia, 
ergueu-o da lareira e indicou-lhe resplendente poltrona, 
170 apos fazer o filho se levantar, Domapovo sauda-herois, 


sentado a seu lado e de quem mais gostava. 

Uma criada despejou agua - trazida em jarra 

bela, dourada - sobre bacia prateada 

para que se lavassem; ao lado estendeu polida mesa. 

175 Governanta respeitavel trouxe pao e pos na frente, 
e, junto, muitos petiscos, oferecendo o que havia. 

Ele bebia e comia, o muita-tenencia, divino Odisseu. 
Nisso ao arauto falou o impeto de Alcinoo: 
“Mentenomar, mistura na anfora e distribui o vinho 
180 a todos no salao, para que a Zeus prazer-no-raio 

libemos, ele que a respeitaveis suplicantes acompanha”. 
Assim falou, e Mentenomar misturou vinho adofa-juizo 
e a todos distribuiu, apos verter as primicias nos calices. 
Mas depois de libar e beber quanto quis o animo, 

185 entre eles Alcinoo tomou a palavra e disse: 

“Aten9ao, lideres e capitaes dos feacios, 
vou falar o que o animo me ordena no peito. 

Agora, apos o banquete, vade dormir de volta a casa, 
e pela manha, apos mais anciaos convocar, 

190 entreteremos o estranho no palacio e aos deuses 

faremos belos sacrificios, e depois tambem da condufao 
lembraremos, para o estranho, livre de esfor?o e pena, 
sob a nossa condu9ao alcazar sua terra patria 
rapido, com alegria, mesmo se e de bem longe. 

195 Que no percurso nao sofra nenhum mal e desgra9a 
antes de desembarcar em sua terra: la, entao, 
sofrera o que, para ele, o destino e as pesadas Fiandeiras 
com linho fiaram ao nascer, quando a mae o gerou. 

Mas se algum dos imortais chegou do paramo, 

200 entao outra coisa e isso que os deuses engenham. 
Sempre, no passado, deuses apareciam vividos 
para nos, ao fazermos esplendidas hecatombes, 
e partilhavam do banquete sentados conosco. 

E se um de nos, viajante, mesmo sozinho, os topa, 


205 nao se disfarsam, pois deles somos proximos 

como os cic lopes e as tribos selvagens dos gigantes”. 
Respondendo, disse-lhe Odisseu muita-astucia: 

“Alclnoo, outra coisa deve ocupar teu julzo, pois nao 
me assemelho a imortais, que do largo paramo dispoem, 
210 nem no porte nem no fisico, mas a humanos mortais. 

De quern vos sabeis que demais suportaram agonia, 
a esses homens, em meus sofrimentos, me igualaria. 

Sim, e ainda mais desgrafas eu poderia enunciar, 
todo o conjunto que, devido aos deuses, aguentei. 

215 Mas permiti-me acabar o jantar, mesmo angustiado; 
depois do hediondo estomago, nada mais canalha 
existe, e que fazcom que seja lembrado a forsa, 
ate por alguem dilacerado no intimo e aflito. 

Assim tambem me aflijo no intimo, e ele, sem cessar, 
220 ordena-me comer e beber, e de tudo a mim 

faz esquecer, tudo que sofri, e exige que eu o encha. 

Vos, apressai-vos, quando a aurora surgir, 
para me desembarcar, desgra^ado, em minha patria, 
ainda que muito sofra: que a vida se va, eu vendo 
225 meus bens, escravos e a enorme casa de alto pe-direito”. 
Assim falou, e todos aprovavam e incitavam o rei 
a conduzir o estranho, pois falara com adequa?ao. 

E depois de libar e beber quanto quis o animo, 
os outros, para se deitar, voltaram a suas casas, 

230 e ele no salao ficou, o divino Odisseu, 
e, junto dele. Arete e o deiforme Alcinoo, 
sentados; e criados retiravam os apetrechos do jantar. 
Entre eles, Arete alvos-bra 90 s iniciou os discursos, 
pois reconhecera manto e tunica, ao ver as vestes 
235 belas que ela propria tecera com criadas mulheres; 
falando, dirigiu-lhe palavras plumadas: 

“Estranho, isto primeiro eu mesma te perguntarei: 
quern es - tua origem? Quern te deu essas vestes? 


Nao dizias que apos vagar pelo mar aqui chegaste?”. 
240 Respondendo, disse-lhe Odisseu muita-astucia: 

“E dificil, rainha, fazer um relato continue), 
pois muitas agruras me deram os deuses celestes; 
mas isto eu te direi, o que me inqueres e questionas. 
Uma ilha, Ogigia, longe no mar encontra-se. 

245 La a filha de Atlas, a ardilosa Calipso, 

mora, a belas-tran^as, fera deusa; ninguem a ela 
se une, nenhum deus, nenhum homem mortal. 

Mas a mim, desgra?ado, divindade guiou a seu lar, 
sozinho, pois minha nau velozcom raio cintilante 
250 Zeus atingiu e despeda?ou no meio do mar vinoso. 

La pereceram todos os outros, nobres companheiros, 
mas eu, apos abra^ar a quilha da nau ambicurva, 
nove dias fui levado; no decimo, a mim, na noite negra, 
deuses achegaram da ilha de Ogigia, onde Calipso 
255 belas-tran<;as mora, fera deusa, que, apos me apanhar, 
acolheu-me gentil, me alimentava e dizia 
que me faria imortal e sem velhice por todos os dias. 
Mas a mim, nunca meu animo no peito persuadiu. 

La fiquei sete anos continuos, e as vestes sempre 
260 com lagrima molhava, as imortais que me deu Calipso. 
Mas quando chegou, em seu curso, o oitavo ano, 
entao ordenou-me que retornasse, incitada 
por anuncio de Zeus, ou a ideia dela mudou. 

Enviou-me sobre balsa muita-corda e deu-me muito, 
265 comida e doce vinho, vestiu-me com vestes imortais 
e fez que a brisa soprasse, tranquila e tepida. 

Dezessete dias naveguei, cruzando o mar, 
e no decimo oitavo surgiram montes umbrosos 
da vossa terra, e rejubilou meu caro corafao, 

270 o do desventurado: eu ainda devia junta r- me a agonia, 
muita, que sobre mim instigou Poseidon treme-solo. 

Ele, impelindo ventos contra mim, bloqueou o curso, 


agitou o mar extraordinario e de modo algum a onda 
permitiu-me, gemendo sem cessar, ser levado na balsa. 
275 Aela, depois, uma rajada destro?ou; ja eu, 

nadando, cortei esse abismo, ate que da terra vossa 
vento e &gua, levando, achegaram-me. 

La, ao tentar sair, onda teria me for?ado contra a costa, 
lan§ando-me as grandes rochas num ponto infeliz. 

280 Mas, recuando, nadei de volta ate chegar 
a um rio, que me pareceu ponto excelente, 
livre de rochas, e havia protegao contra o vento. 

Ja fora, cal e recompus meu folego, e a noite divina 
chegou; eu, tendo saldo para longe do rio 
285 caldo de Zeus, adormeci nas moitas, e em torno folhas 
amontoei. E um deus vertia sono sem -fun. 

La, entre as folhas, agastado em meu cora^ao, 
dormi a noite toda, durante a aurora e o meio do dia. 

O sol mergulhou, e o doce sono deixou-me; 

290 criadas de tua filha, na praia, percebi 

brincando, entre as quais, ela, semelhante a deusas. 

Aela supliquei; e nao debcou de acertar ideia nobre, 
como nao esperarias que alguem maisjovem, ao topar-te, 
fizesse: sim, os mais j ovens sao sempre insensatos. 

295 Ela deu-me alimento suficiente e fulgente vinho, 
banhou-me no rio e deu-me essas vestes. 

O que te contei, apesar de angustiado, e a verdade”. 

Aele, entao, Alcinoo respondeu e disse: 

“Estranho, nao foi apropriado isso que pensou 
300 minha filha, pois a ti, com criadas mulheres, 

nao guiou a nossa casa, e tu suplicaste, primeiro, a ela”. 
Respondendo, disse-lhe Odisseu muita-astucia: 

“Heroi, nao censures, por mim, a mo?a impecavel; 
ela, de fato, ordenou que eu seguisse com as criadas, 

305 mas fui eu quem nao quis, com medo da reprova?ao, 
para teu animo nao se ressentir com a visao: 


somos rancorosos, as tribos de homens sobre a terra”. 
Aele, entao, Alcinoo respondeu e disse: 

“Estranho, meu caro cora?ao no peito nao e do tipo 
310 a ter raiva a toa; tudo que e moderado e melhor. 

Tomara, 6 Zeus pai, Atena e Apolo, 
que alguem, sendo assim como es e pensando como eu, 
tenha a minha filha, e eu o chame de meu genro, 
aqui ficando: uma casa e riquezas eu te daria, 

315 se quisesses ficar; contra a vontade, nao te conteria 
feacio algum; isso nao seria caro a Zeus pai. 

Eu mesmo marco essa condu^ao, quero que saibas, 
para amanha; tu, o tempo todo, dominado pelo sono, 
dormiras, e eles remarao na calmaria ate que chegues 
320 a tua patria, em casa, ao lugar que te e caro, 
ainda que seja bem mais distante que a Eubeia: 
dizem que fica longe ao maximo, os que a viram 
do nosso povo, quando ao loiro Radamanto 
conduziram para que visitasse Titio, filho de Terra. 

325 Foram ate la e, sem fadiga, chegaram ao alvo 
e, no mesmo dia, retornaram de volta para casa. 
Conheceras tu mesmo, em teu juizo, quao excelentes 
sao minhas naus e os mo?os no j ogar agua com o remo”. 
Isso dito, alegrou-se o muita-tenencia, divino Odisseu. 

330 Rezando, eis que falou, dirigiu-se-lhe e nomeou-o: 

“Zeus pai, tomara que tudo quanto falou complete 
Alcinoo; dele, sobre o solo fertil, 
a fama seria inextinguivel, e eu chegaria a patria”. 

Assim falavam essas coisas entre si, 

335 e Arete alvos-bra?os ordenou as criadas 

que postassem camas sob a colunata, belas mantas 
purpura lanfassem, em cima estendessem len<;6is 
e por ultimo pusessem capas de la para que se cobrisse. 

E elas sairam do salao com tocha nas maos; 

340 mas apos aprontar a cama compacta, afobadas, 


incitaram Odisseu, com palavras, a achegar-se: 
“Mexe-te ao leito, estranho; a cama esta pronta para ti”. 
Assim falavam, e ficou felizcom a ideia de repousar. 
Assim ele la dormia, o muita-tenencia, divino Odisseu, 
345 num leito perfurado sob a colunata ressoante; 
e Alcinoo deitou-se no interior da alta casa, 
e, ao lado, a senhora esposa preparou cama e lenfois. 



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Quando surgiu a nasce-cedo, Aurora dedos-roseos, 
saiu do leito o sacro Impeto de Alclnoo, 
e o divinal levantou-se, Odisseu arrasa-urbe. 

Aeles conduziu o sacro Impeto de Alclnoo 
a &gora dos feacios, construida ao lado de seus navios. 
Apos chegar, sentaram-se nas pedras polidas, 
vizinhos; e ela percorreu a cidade, Palas Atena, 
assemelhada ao arauto do atilado Alclnoo, 
tramando o retorno do energico Odisseu, 
e de pe, ao lado de cada heroi, enunciava o discurso: 
“Vamos la, llderes e capitaes dos feacios, 
ide a agora para vos inform ardes do estranho 
que ha pouco chegou a casa do atilado Alclnoo, 
apos vagar no mar, no porte semelhante a imortais”. 
Falou assim e incitou o Impeto e animo de cada um. 
Rapido, agora e assentos encheram-se de mortals 
reunidos; muitos, entao, viram e contemplaram 
o filho atilado de Laerte. Sim, nele Atena 
verteu prodigiosa gra?a, na cabefa e nos ombros, 
e fe-lo maior e mais encorpado a quern o visse, 
para que se tornasse caro a todos os feacios, 
assombroso e respeitavel, e cumprisse as provas, 
muitas, nas quais os feacios testaram Odisseu. 

Entao, apos estarem reunidos, todos juntos, 
entre eles Alcinoo tomou a palavra e disse: 

“Aten?ao, llderes e capitaes dos feacios, 
vou falar o que o animo me ordena no peito. 

Este estranho (nao sei quern e) vagava e me alcanfou, 
ou vindo dos homens do levante, ou do poente; 
condufao tenta apressar e suplica que seja certa. 

Que nos, como no passado, apressemos sua condu?ao; 
com efeito, ninguem que alcana minha casa 
espera muito tempo, aflito, por causa de condu$ao. 
Vamos, puxemos ate o divino mar negra nau 


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virgem, e que intros, cinquenta e dois, 
escolham-se entre o povo, os que soem ser os melhores. 
Apos vos todos terdes prendido nos toletes os remos, 
desembarcai; entao ocupai-vos com rapido banquete, 
vindo ate nos: eu vos receberei a todos bem. 

Aos mo^os e isso que pe?o; mas os outros, 
vos, reis porta-cetro, ate minha beta morada 
ide para que no palacio ao estranho acolhamos; 
que ninguem recuse. Fazei chamar o divino cantor, 
Demodoco; a ele a divindade sobremodo deu canto 
para deleitar por onde o animo o incita a cantar”. 

Apos falar assim, foi na frente, e eles o seguiam, 
os porta-cetro; e o arauto foi atras do divino cantor. 

E os mo^os selecionados, cinquenta e dois, 
foram, como ordenara, a orla do mar ruidoso. 

Mas apos descerem ate a nau e o mar, 
puxaram negra nau ao mar profundo, 
mastro e vela colocaram na negra nau 
e aprontaram os remos nas correias de couro, 
tudo em ordem, e desfraldaram a vela branca. 

Da praia para a agua a posicionaram; e entao 
rumaram a grande casa do atilado Alcinoo. 

Colunata, patio e casa estavam cheios de varoes 
reunidos; sim, eram muitos, j ovens e velhos. 

Para eles Alcinoo fez abater doze ovelhas e cabras, 
oito porcos dente-branco e dois lunados bois; 
esfolaram e prepararam-nos para am dvel banquete. 

E o arauto achegou-se, conduzindo o leal cantor 
a quern demais a Musa amou e lhe deu um bem e um mal: 
privou-o dos olhos e deu- lhe doce canto. 

Mentenomar pos-lhe poltrona pinos-de-prata 
no meio dos convivas, apoiando-a contra enorme pilar; 
em um gancho pendurou a lira aguda 
ai, sobre sua cabe^a, e indicou como pegar com as maos. 


o arauto; ao Iado pos cesta e be la mesa, 

70 ao lado, ta?a de vinho para beber quando o animo pedisse. 

E os outross esticavam as maos sobre os alimentos servidos. 
Mas apos apaziguar o desejo por bebida e comida, 
a Musa ati90u o cantor a cantar famosos feitos de varoes, 
poi‘9oes do enredo cuja fama entao ao largo paramo chegava, 
75 a disputa entre Odisseu e Aquiles, filho de Peleu, 
como entao pelejaram no rico banquete dos deuses 
com palavras assombrosas; o rei de varoes, Agamemnon, 
alegrava-se na mente, pois os melhores aqueus brigavam. 
Assim, de fato, anunciara-lhe no oraculo Febo Apolo 
80 na mui divina Pito, quando cruzou o umbral de pedra 
atras do oraculo. Entao rodava o inicio da desgra9a 
para troianos e danaos mediante os pianos do grande Zeus. 

Isso cantava o cantor muito glorioso; e Odisseu 
pegou o grande manto purpura com as maos robustas, 

85 por sobre a cabe9a conchegou-o e encobriu a bela face: 
tinha vergonha dos feacios por chorar sob as celhas. 

Quando o divino cantor parava de cantar, 
enxugava as lagrimas, puxava o manto da cabe9a 
e, tomando o calice dupla-al9a, libava aos deuses; 

90 mas quando recome9ava e instigavam-no a cantar 
os nobres feacios, pois deleitavam-se com as palavras, 
de novo Odisseu encobria a cabe9a e lamentava-se. 

Todos os outros nao notavam que chorava, 
e Alcinoo foi o unico que o observou e percebeu, 

95 sentado perto, e ouviu seus profundos gemidos. 

De pronto entre os feacios navegadores falou: 

“Aten9ao, lideres e capitaes dos feacios: 
ja saciamos o animo com o banquete compartilhado 
e a lira, essa parceira do banquete abundante; 

100 agora vamos sair e experimentar as provas 

todas, para que o estranho narre a quern lhe e caro, 
apos retornar a casa, quanto superamos os outros 


no boxe, na luta, nos saltos e com os pes”. 

Apos falar assim, foi na frente e eles o seguiam. 

105 Em um gancho pendurou a lira aguda, 

tomou a mao de Demodoco e levou-o do salao 
o arauto: guiou-o pela via que tomaram os outros, 
os melhores feacios, para admirar as provas. 

Foram a agora, e a eles juntou-se grande multidao, 

110 miriades; ej ovens levantaram-se, muitos e nobres. 
Ergueram-se Topodanau, Velosnomar, Remador, 

Barque iro, Popeiro, Pertomar, Remeiro, 

Marinheiro, Proeiro, Velocista, Embarquenau 
e Cercomar, filho de Muitanau, esse de Carpinteiro; 

1 15 e tambem Amplomar, semelhante a Ares destroi-gente, 
filho de Chumbodanau e o melhor em beleza e porte 
entre todos os feacios apos o impecavel Domapovo. 
Levantaram-se tres filhos do impecavel Alcinoo, 
Domapovo, Marinho e o excelso Nauglorioso. 

120 E eles por primeiro puseram-se a prova com os pes. 

Sua corrida estendia-se a partir da marca; todos juntos 
celeres voaram, erguendo poeira do plaino. 

Bern superior no correr foi o impecavel Nauglorioso: 
tanto quanto fazem duas mulas no pousio arado, 

125 tao adiantado alcan 90 u o povo, e o resto, atras. 

Outros na luta pungente se puseram a prova: 
nessa, entao, Amplomar superou todos os nobres. 

No salto, Cercomar a todos ultrapassou; 

no disco, entao, bem melhor que todos foi Remador, 

130 e no boxe, Domapovo, valoroso filho de Alcinoo. 

Apos nojuizo deleitarem-se todos com as provas, 
entre eles falou Domapovo, filho de Alcinoo: 

“Vamos, amigos, perguntemos ao estranho se uma prova 
aprendeu e conhece. No fisico, ao menos, nao e vil, 

135 nas coxas, panturrilhas, ambos os bra?os em cima, 
robusto pesco 9 Q e grande vigor: de juventude 


nao carece, mas foi alquebrado por muitos males. 

Eu nao digo haver outro mal maior que o mar 
para debilitar urn varao, ainda que seja bem forte”. 

140 Aele, entao, Amplomar respondeu e disse: 

“Domapovo, essa palavra falaste com adequa^ao. 

Tu mesmo agora o desafia, enunciando um discurso”. 
Quando isso ouviu o valoroso filho de Alclnoo, 
foi postar-se no centro e a Odisseu dirigiu-se: 

145 “Vai la tambem tu, pai estrangeiro, tenta as provas, 
se, talvez, uma aprendeste; pareces conhecer provas. 
Sim, nada traz fama maior ao varao, ele vivo, 
que o que executa com os pes e suas maos. 

Vai, tenta, dispersa agruras para longe do animo; 

150 nao mais sera postergada a rota, mas, para ti, nau 
ja foi puxada, e ha companheiros a postos”. 
Respondendo, disse-lhe Odisseu muita-astucia: 
“Domapovo, por que isso me impoes, melindrando-me? 
Agruras ha em meu juizo bem mais que provas, 

155 eu que antes muito sofri e muito aguentei, 

e agora, em vossa assembleia, precisando retornar, 
estou sentado, suplicando ao rei e a todo o povo”. 

E a ele Amplomar respondeu e provocou-o de frente: 
“Sim, estranho, eu nem te assemelho a heroi versado 
160 em provas, tais como ha, muitas, entre os homens, 
mas a quern, amiude com nau de muitos calfos, 
chefe de marinheiros, esses que sao mercadores, 
fica atento a carga e de olho em mercadorias 
e no lucro cobi9ado; nao pareces um atleta”. 

165 Olhando de baixo, disse-lhe Odisseu muita-astucia: 
“Estranho, nao falaste bem; varao iniquo pareces. 

Certo, os deuses nao conferem gra9as a todo 
varao, nem fisico, nem juizo, nem eloquencia. 

De fato, um, na aparencia, e varao mais debit, 

170 mas deus coroa suas palavras com formosura; outros 


deleitam-se em mira-lo, e ele fala de forma segura, 
com amavel respeito, destaca-se na aglomera^ao 
e, ao se deslocar na urbe, miram-no como a um deus. 

Ja outro, quanto a aparencia, e semelhante a imortais, 
175 mas a gra9a envolvente nao coroa suas palavras: 
assim tambem tua aparencia e proeminente - e outra 
nem um deus a faria mas na mente nao es sagaz 
Perturbaste meu animo no caro peito, 
falando sem elegancia. Eu nao desconhe90 provas, 

180 como tu discursas, mas entre os primeiros penso 

ter estado, ao confiar na juventude e em meus bra90s. 
Agora estou preso a miseria e afli9oes: a muito resisti, 
cruzando guerras de homens e ondas pungentes. 

Mas mesmo apos muitos males sofrer, a prova me porei 
185 insultoso foi o discurso, e me incitaste ao falar”. 

Falou e, com capa e tudo, pulou e tomou o disco, 
maior, maci90, mais pesado e nem um pouco menor 
que o tipo com o qual os feacios disputaram entre si. 
Apos gira-lo, lan90u-o de sua mao robusta. 

190 Apedra zuniu, e eles se encolheram contra o chao, 
feacios longo-remo, varoes famosos pelas naus, 
com o lan90 da pedra. Sobrepujou outras marcas, 
velozcorrendo de sua mao. Atena fixou o limite, 
e, no corpo de um varao, dirigiu-se-lhe e nomeou-o: 

195 “Tambem um cego, estranho, distinguiria essa marca 
com o toque, pois misturada nao esta com o resto, 
a primeira entre todas; e tu, fica confiante na prova: 
nenhum feacio a alcan9ara nem lan9ara mais longe”. 
Isso dito, jubilou o muita-tenencia, divino Odisseu, 

200 alegre ao notar companheiro afavel na pista. 

E entao, mais leve, entre os feacios falou: 

“Essa ai agora alcan9ai,j ovens; logo outra, depois, 
lan9arei a tal distancia, penso eu, ou ainda maior. 

A quern quer que cora9ao e animo impelir. 


205 que venha por-se a prova, pois me zangastes demais, 
no boxe, na luta ou ate com os pes, nao me oponho, 
qualquer feacio, salvo o proprio Domapovo. 

Pois ele me hospeda: quern combateria um amigo? 
Insensato, claro, e aquele varao, um nada, 

210 quern resolve disputar provas com quern o hospeda 
em cidade estrangeira; destitui-se de tudo. 

Quanto ao resto, nenhum rejeito nem menosprezo, 
mas quero conhece-los e medir-me de frente. 

Em tudo nao sou ruim, em todas as provas dos homens. 

215 Sei bem manusear o arco todo polido; 

seria o primeiro a flechar um varao na turba 
de inimigos, ainda que varios, muitos companheiros 
estivessem parados proximo, a flechar herois. 

So Filoctetes superava-me com o arco 
220 na terra troiana, quando nos, aqueus, disparavamos. 
Quanto aos outros, afirmo ser muito melhor que eles, 
tantos mortais quanto hoje sobre a terra comem pao. 

Com os vardes de antanho nao quererei disputar, 
nem com Heracles nem com Eurito da Oicalia; 

225 esses sim, ate com imortais disputavam no arco e flecha. 
Assim logo morreu o grande Eurito e nao chegou 
a velhice em seu palacio, pois, zangado, Apolo 
matou-o porque o desafiara a atirar com o arco. 

Lan?a atiro tao longe quanto nenhum outro a flecha. 

230 So temo que, com os pes, ultrapasse-me um 

feacio, pois de modo deveras ultrajante fui subjugado 
em meio a muitas ondas, ja que cuidados na nau 
nao eram perenes; por isso meus membros frouxos estao”. 
Assim falou, e eles todos, atentos, se calavam. 

235 Somente Alcinoo, respondendo, Ihe disse: 

“Estranho, como nao nos desagrada o que falas, 
mas queres revelar a excelencia que te segue, 
encolerizado porque a ti esse varao, erguido na pista, 


provocou como mortal algum depreciaria tua excelencia, 
240 todo que soubesse, em seu juizo, falar com acerto; 
mas agora atenta minha palavra, para tambem a outro 
heroi mencionares, quando em teu palacio 
te banqueteares com tua esposa e teus filhos, 
lembrando a nossa excelencia, feitos que tambem a nos 
245 Zeus confere sem parar desde o tempo dos pais. 

Nao somos impecaveis boxeadores nem lutadores, 
mas com pes corremos r&pido e com naus, os melhores; 
sempre nos sao caros o banquete, a lira, as dan^as, 
as vestes para trocar, os banhos quentes e os leitos. 

250 Pois bem, feacios que sois os melhores dan^arinos, 
folgai, para que o estranho diga a quern lhe e caro, 
apos retornar a casa, quanto superamos os outros 
na navega9ao, nos pes, na dan^a e no canto. 

Para Demodoco alguem, partindo logo, a lira aguda 
255 traga, a que em algum lugar esta em nossa casa”. 

Assim falou o teomorfico Alcinoo, e o arauto saiu 
para trazer a concava lira da casa do rei. 

Do povo, ergueram-se organizadores seletos, 
nove ao todo, que tudo bem montavam nas pistas; 

260 alisaram a arena e aumentaram uma bela pista. 

E o arauto aproximou-se, levando a lira aguda 
a Demodoco; ele foi ao meio, e, ao redor, mo?os 
puberes, versados em dan?a, estavam a espera. 

E golpearam a pista divina com os pes; Odisseu 
265 contemplou o cintilar dos pes e admirou-se no animo. 
Entao aquele, dedilhando a lira, entoou belo preludio 
acerca do amor entre Ares e Afrodite bela-grinalda, 
como, na primeira vez, uniram-se na casa de Hefesto 
as ocultas: presenteou a larga e aviltou cama e len9ois 
270 do senhor Hefesto. Presto veio-lhe um mensageiro, 

Sol, que os percebera na uniao amorosa. 

Hefesto, quando ouviu o discurso aflitivo, 


foi a ferraria, ruminando males no fundo do julzo; 
pos sobre o cepo a grande bigorna e forjou la90s 
275 inquebraveis, inafrouxaveis, para la ficarem imoveis. 

Mas apos montar, zangado, o ardil para Ares, 
foi ao quarto, onde ficava sua cama querida. 

Em torno dos postes, jogou lafos abarcando todos os lados, 
e muitos de cima caiam, pendendo da viga-mestra, 

280 leves teias de aranha que ninguem poderia ver, 
nem os deuses ditosos: montara algo bem ardiloso. 

Mas apos estender todo o ardil pela cama, 
simulou ir a Lemnos, cidade bem-construida, 
entre todas, de longe sua terra mais cara. 

285 Cega vigia nao mantinha Ares redea-dourada, 
quando viu Hefesto arte-famosa ir para longe; 
dirigiu-se a casa do bem famoso Hefesto, 
almejando amor com Citereia bela-grinalda. 

Ela ha pouco do pai muito possante, o filho de Crono, 

290 chegara e sentara-se; e ele entrou na casa, 

deu-lhe forte aperto de mao, dirigiu-se-lhe e nomeou-a: 
“Ali, querida, deitados na cama, deleitemo-nos; 

Hefesto nao est& mais em casa, mas ji 

foi a Lemnos encontrar os cintios lingua - a greste”. 

295 Assim falou, e ela alegrou-se com a ideia de repousar. 
Subiram no leito e deitaram-se; em volta, os la90s 
artificiosos de Hefesto muito-juizo irromperam, 
e nao se podia mexer membro algum nem o erguer. 

Entao perceberam que nao havia como fugir. 

300 E achegou-se deles o bem famoso duas-curvas, 
depois de meia-volta, antes de chegar em Lemnos, 
pois Sol permanecia de vigia e avisara-lhe. 

E foi a sua casa, agastado em seu cora9ao. 

Parado no portico, zanga selvagem o atingiu; 

305 deu berro aterrorizante e gritou a todos os deuses: 

“Zeus pai e outros ditosos deuses sempre-vivos, 


vinde ca para verdes feitos risiveis e intoleraveis, 
como a mim, zambo, a filha de Zeus, Afrodite, 
sempre desonra e ama Ares infernal, 

310 pois ele e belo e tern o pe perfeito, mas eu 

nasci fraco. Para mim, nenhum outro e responsdvel, 
exceto os dois pais, que nao me deveriam ter gerado. 

Mas vide onde os dois fazem amor deitados, 
apos subir em meu leito; atormento-me, vendo. 

315 Nao espero que se deitem assim nem por pouco tempo, 
embora bem enamorados: logo os dois nao quererao 
estar dormindo. Mas o ardil, o lafo os contera 
ate que o pai devolva, na totalidade, as d&divas 
que pus em suas maos pela mo 9 a cara-de-cadela, 

320 ja que sua filha e be la, mas nao e pudica”. 

Assim falou, e deuses reuniram-se na casa chao-bronzeo: 
veio Poseidon sustem-a-terra, veio o supercorredor, 
Hermes, e veio o senhor age-de-longe, Apolo. 

Deusas mulheres, por pudor, ficaram todas em casa. 

325 Pararam no portico os deuses, oferentes de bens; 
e riso inextinguivel irrompeu entre os deuses ditosos 
ao verem as artes de Hefesto muito-juizo. 

E assim falavam, fitando quern estava ao lado: 

“A 9 oes vis nao excelem; o lento alcana o rapido, 

330 assim como Hefesto, mesmo lento, agarrou Ares, 

Assim eles disso falavam entre si; 
e a Hermes disse o filho de Zeus, o senhor Apolo: 
“Hermes, filho de Zeus, condutor, doador de bens, 
eis que gostarias, imobilizado por la 90 s poderosos, 

335 de deitar na cam a ao lado da dourada Afrodite?”. 

A ele respondeu o condutor Argifonte: 

“Tomara isso ocorresse, senhor Apolo alveja-de-longe. 
Que tres vezes mais la 90 s, invenciveis, me detivessem, 
e vos me observasseis, deuses e todas as deusas, 

340 mas eu deitaria j unto a dourada Afrodite”. 


Assim falou, e o riso irrompeu entre os deuses imortais. 
Mas o riso nao tomou Poseidon, e pedia, sem cessar, 
a Hefesto obras-famosas que Ares libertasse; 
e, falando, dirigiu-lhe palavras plumadas: 

345 “Liberte-o; e eu prometo que ele, como ordenas, 
vai te pagar tudo que se deve entre deuses imortais”. 

E a ele dirigiu-se o bem famoso duas-curvas: 

“De mim, Poseidon sustem-a-terra, isso nao pe?as: 
reles e a garantia garantida em nome do reles. 

350 Como eu te prenderia entre os deuses imortais 

se Ares partisse, apos escapar do dever e do la 90 ?”. 

E a ele de novo dirigiu-se Poseidon treme-solo: 
“Hefesto, se Ares, de fato, apos escapar do dever, 
partir em fuga, eu mesmo te pagarei isso”. 

355 E a ele entao respondeu o bem famoso duas-curvas: 
“Nao e posslvel nem convem rejeitar tua palavra”. 
Apos falar assim, o impeto de Hefesto soltou o la?o. 

E quando os dois foram soltos do laipo bem forte, 
presto se foram: ele pos-se em direfao a Tracia, 

360 e ela alcanQou Chipre, Afrodite ama-sorriso, 

rumo a Pafos, onde tinha santuario e altar fragrante. 

La as Grafas banharam-na e untaram com oleo 
imortal, o que cobre os deuses sempre-vivos, 
e vestiram-na com vestes desejaveis, assombro a visao. 
365 Isso o cantor bem famoso cantava; e Odisseu 
deleitava-se no espirito ao ouvi-lo, ele e o restante 
dos feacios longo-remo, varoes famosos pelas naus. 

E Alclnoo pediu que Marinho e Domapovo 
sozinhos dan^assem, pois deles ninguem era rival. 

370 Quando eles a linda bola nas maos pegaram, 
purpura, que lhes fizera o atilado Polibo, 
essa um lan^ava em direfao as nuvens umbrosas, 
curvado para tras, e o outro da terra saltava para o alto 
e amparava-a facil antes de atingir o chao com os pes. 


375 Mas apos se porem a prova com a bola direto para cima, 
entao os dois dan^aram sobre a terra nutre-muitos, 
revezando amiude; os outros mo?os batiam as maos, 
parados na pista, e com isso era grande o barulho. 

Entao a Ale inoo falou o divino Odisseu: 

380 “Poderoso Alclnoo, insigne entre todos os povos, 
prometeste que os dan^arinos sao os melhores, 
e assim se verificou; reverencia me tom a ao mira-los”. 
Isso dito, jubilou o sacro impeto de Alclnoo 
e, de imediato, falou entre os feacios navegadores: 

385 “Atenfao, llderes e capitaes dos feacios: 
o estrangeiro parece-me deveras inteligente. 

Vamos, demo-lhe um regalo, como e adequado. 

Na cidade, doze re is muito destacados 
tern poder como chefes, e eu mesmo, o decimo terceiro: 
390 cada um de vos, para ele, manto bem-lavado, tunica 
e uma medida de ouro valioso buscai. 

Que logo tudo reunido tragamos, para que, com isso 
nas maos, alegre no animo o estranho va ao jantar. 

Que Amplomar com ele se reconcile, com palavras 
395 e um dom, pois uma palavra nao falou com adequasao”. 
Assim falou, e todos os outros aprovavam e o incitavam, 
e cada um despachou seu arauto para trazer os presentes. 
A ele, entao, Amplomar respondeu e disse: 

“Poderoso Alcinoo, insigne entre todos os povos, 

400 portanto me reconciliarei com o estranho, como pedes. 
Vou lhe dar esta espada toda de bronze, cujo punho 
e de prata, e bainha de marfim recem-trabalhado 
a envolve: para ele sera de muita valia”. 

Apos falar, pos nas maos a espada pinos-de-prata 
405 e, continuando, dirigiu-lhe palavras plumadas: 

“Se feliz, pai estrangeiro; se foi falada uma palavra 
fera, que rajadas de vento rapido a agarrem e levem. 

Ver a esposa e a patria alcazar: que deuses isso a ti 


concedam, pois longe dos teus ha muito sofres desgra?as”. 

410 Respondendo, disse-lhe Odisseu muita-astucia: 

“Tambem tu, amigo, se bem feliz, e os deuses te deem fortuna. 
Que nunca, no futuro, da espada que deste tenhas saudade, 
pois nos reconciliamos por meio de presente e palavras”. 

Falou e em torno dos ombros pos a espada pinos-de-prata. 

415 O sol mergulhou, e gloriosos dons eram-lhe trazidos. 

Ilustres arautos os levavam a casa de Alcinoo; 
apos recebe-los, os filhos do impecavel Alcinoo 
junto a mae respeitavel puseram os belos presentes. 

Aos homens conduziu o sacro impeto de Alcinoo, 

420 e, apos chegar, sentaram-se em altas poltronas. 

Entao a Arete dirigiu-se o impeto de Alcinoo: 

“Aqui, mulher, traze bem destacado bau, o melhor; 
dentro poe manto bem-lavado e tunica, tu mesma. 

No fogo esquentai um caldeirao e aquecei-lhe agua, 

425 para que, banhado e tendo visto todos os bem dispostos 
dons, esses que os impecaveis feacios ca trouxeram, 
com o banquete se deleite, ouvindo o canto do aedo. 

E a ele eu ofertarei essa minha bela ta?a 

de ouro, para que, de mim se lembrando todos os dias, 

430 libe no palacio a Zeus e aos outros deuses”. 

Assim falou, e Arete, entre as servas, pediu 
que pusessem grande tripode no fogo, rapido. 

Atripode para o banho puseram sobre o fogo ardente, 
e dentro vertiam agua e abaixo queimavam madeira. 

435 O fogo rodeava o ventre da tripode, e a agua aquecia; 
ao estrangeiro Arete trazia do quarto 
muito belo bau e nele punha os magnificos dons, 
vestes e ouro, que os feacios lhe deram; 
nele ela mesma colocou um manto e bela tunica 
440 e, falando, dirigiu-lhe palavras plumadas: 

“Ve logo a tampa, e, c61ere, em cima da um no 
para que ninguem te cause prejuizo na viagem 


quando dormires doce sono, indo na negra nau”. 

Ao ouvir isso, o muita-tenencia, divino Odisseu 
445 logo a tampa encaixou e, celere, em cima deu um no 
variegado, que um dia lhe ensinara a senhora Circe. 

De pronto, a governanta pediu-lhe que se banhasse 
entrando na banheira; felizno animo, ele viu 
a agua quente, ja que amiude nao recebia cuidados 
450 desde que deixara a morada de Calipso bela-juba; 
antes fora cuidado sem cessar como um deus. 

Apos as escravas o banharem e untarem com oleo, 
lan^aram em torno dele bela capa e tunica, 
e, fora da banheira, ate aos varoes bebe-vinho 
455 foi. Nausicaa, cuja beleza provinha de deuses, 
de pe ao lado de pilar do teto, solida construgao, 
admirou Odisseu ao ve-lo com os olhos 
e, falando, dirigiu-lhe palavras plumadas: 

“Se feliz, estranho, e que tambem um dia, na patria, 

460 de mim te lembres, a primeira a quern deves o resgate”. 
Respondendo, disse-lhe Odisseu muita-astucia: 

“Nausicaa, filha do energico Alcinoo, 

que assim agora fixe Zeus, ressoante marido de Hera, 

voltar para casa e ver o dia de retorno; 

465 entao a ti, tambem la, rezarei como a um deus 

sempre, todos os dias, pois tu me deste a vida, mo 9 a”. 

Falou e foi sentar na poltrona j unto ao rei Alcinoo. 

Eles ja distribuiam por 9 oes e misturavam o vinho. 

E o arauto achegou-se, conduzindo o leal cantor, 

470 Demodoco, honrado pelo povo; eis que o sentou 

em meio aos convivas, apoiando-o contra enorme pilar. 
Entao ao arauto dirigiu-se Odisseu muita-astucia, 
apos cortar um naco do lorn bo, do qual restou grande parte, 
um porco dente-branco, e farta banha havia em torno: 

475 “Arauto, vamos, da essa carne para que ele a coma, 
a Demodoco, e eu o saudarei, embora angustiado: 


para todos os homens sobre-a-terra os cantores 
tern por9ao de honra e respeito, pois seus enredos 
a Musa ensina e am a a ra?a dos cantores”. 

480 Assim falou, e o arauto, levando-a, pos nas maos 

do heroi Demodoco, que a aceitou e alegrou-se no animo. 

E eles esticavam as maos sobre os alimentos servidos. 

Mas apos apaziguar o desejo por bebida e comida, 
entao a Demodoco falou Odisseu muita-astucia: 

485 “Demodoco, eu te louvo como a nenhum mortal; 
ou a Musa ensinou-te, a filha de Zeus, ou Apolo: 
cantas com muita elegancia a sorte dos aqueus, 
quanto fizeram, sofreram e aguentaram os aqueus, 
como se la tivesses estado ou de outrem escutado. 

490 Pois bem, passa adiante e canta a arte do cavalo, 
o de madeira, que Epeu produziu com Atena, 
ardil que a acropole conduziu o divino Odisseu 
apos enche-lo de varoes, que Ilion aniquilaram. 

Se a mim essas coisas com adequa^o contares, 

495 logo a todos os homens tambem discursarei 

que o deus, benevolente, conferiu-te inspirado canto”. 

Isso dito, ele, instigado, pela deusa come9ava e exibia o canto, 
tomando o trecho onde eles, apos em naus bom-conves 
embarcar, singravam, tendo lan9ado fogo nas tendas, 

500 os argivos, e outros ja rodeavam o bem famoso Odisseu, 
sentados na agora dos troianos, encobertos no cavalo, 
pois os proprios troianos puxaram-no a acropole. 

Ele estava nessa posi9ao, e parolavam muito e sem ordem, 
sentados a sua volta. E tres inten9oes lhes agradavam: 

505 ou trespassar a oca madeira com bronze impiedoso, 
ou lan9a-lo das pedras apos empurra-lo ao topo, 
ou deixa-lo, grande dom propiciador de deuses. 

E foi assim, de fato, que depois iria cumprir-se: 
o destino era a ruina quando a urbe encobrisse 
510 grande cavalo de madeira onde, sentados, todos os melhores 


argivos estivessem, levando matan^a e perdi?ao aos troianos. 
Cantava como os filhos dos aqueus saquearam a urbe, 
despejados do cavalo, apos da oca tocaia sair. 

Cantava-os devastando a ingreme cidade por todo lado, 

515 e Odisseu rumo a morada de Deifobo 

indo, semelhante a Ares, com o excelso Menelau. 

Disse que la ousou e sofreu o mais terrlvel com bate 
e entao venceu gra9as a animosa Atena. 

Isso o cantor bem famoso cantava; e Odisseu 
520 derretia-se, e lagrimas molhavam, sob as palpebras, a face. 
Como a mulher cai sobre o caro marido, e o chora, 
o qual, na frente de sua cidade e do povo, caiu, 
tentando afastar, para urbe e filhos, o dia impiedoso; 
a ele, morrendo e convulsionando-se, ela ve 
525 e o abra9a e ulula com agudos. Mas aqueles, por tras, 
golpeando-a com lan9as nas costas e ombros, 
levam-na como escrava, vida de pena e agonia; 
e, com a dor mais lamentavel, so9obra sua face - 
assim Odisseu, sob as celhas, vertia lagrimas lamentaveis. 
530 Ninguem mais notou que derramava lagrimas; 

Alcinoo foi o unico que o observou e percebeu, 
sentado perto dele, e ouviu seus profundos gemidos. 

Logo falou entre os feacios navegadores: 

“Aten9ao, llderes e capitaes dos feacios. 

535 Que Demodoco ponha de lado a lira aguda; 
seu canto nao mais alegrando a todos. 

Desde que, no jantar, ergueu-se o divino cantor, 
desde entao nunca cessou o agonizante choro 
o estranho; grande tormento envolve seu juizo. 

540 Ponha de lado, e por igual nos deleitaremos todos, 
anfitrioes e hospede, pois bem mais belo sera assim; 
por causa do hospede respeitavel isto foi arranjado, 
condu9ao e amados dons, que, amigos, lhe damos. 

O hospede e o suplicante valem como irmao 


545 ao varao que alcanna discernimento, mesmo leve. 
Assim tambem tu nao escondas com ideias ladinas 
o que te indagar; e mais belo que tu fales. 

Dize teu nome, como la te chamavam mae e pai 
e os outros que na cidade e nas cercanias habitam. 

550 Entre os homens, ninguem e de todo sem nome, 
nem o vil nem o nobre, apos, de primeiro, nascer, 
mas um nome os genitores a todo que geram atribuem. 
Diga-me tua terra, o povo e a cidade, 
para que la te levem, mirando com o juizo, as naus. 

555 De fato, nao ha timoneiros entre os feacios, 
nem lemes existem, que outras naus possuem; 
elas conhecem os pensamentos e o juizo dos varoes, 
e de todos conhecem as cidades e os campos ferteis 
dos homens, e rapido cruzam o abismo do mar, 

560 encobertas em bruma e nuvens; e nunca tern 
medo de dano sofrer ou de ser destruidas. 

Mas isto um dia eu ouvi dizer meu pai 
Nauveloz: falava que Poseidon se irritaria 
conosco, pois somos seguros condutores de todos. 

565 Disse que, um dia, a engenhosa nau de varoes feacios, 
voltando da condu^ao sobre o mar emba^ado, 
golpearia e com grande morro encobriria nossa urbe. 
Assim falava o anciao; e isso o deus pode completar 
ou deixar incomplete), como for caro a seu animo. 

570 Mas vamos, dize-me isto e conta, com precisao, 
para onde vagaste, que regioes de homens atingiste 
e que habitantes e urbes boas para morar, 
os que sao crueis, selvagens e nao civilizados, 
e os amigos de hospedes, com mente que teme o deus. 

575 Fala por que choras e te lamentas dentro, no animo, 
ao ouvir o destino dos argivos danaos e de I lion. 

Isso deuses arranjaram, e destinaram a ruina 
aos homens para que fosse canto aos vindouros. 


Acaso tambem morreu, diante de Troia, parente teu, 
580 nobre, um genro ou sogro? Eles sao os m a is 

proximos apos os de sangue, os da propria fain ilia. 
Ou um varao companheiro, sabedor do que apraz, 
nobre? De fato, nao e pior que um irmao 
quern, sendo companheiro, sabe o que e inteligente”. 



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Respondendo, disse-lhe Odisseu muita-astucia: 

“Poderoso Ale moo, insigne entre todos os povos, 

eis algo belo, ouvir um aedo 

deste feitio, semelhante a deuses na vozhumana. 

Nao ha, eu afirmo, feito mais agradavel 

que o gaudio a dominar todo o povo, 

e, na casa, convivas prestam aten?ao ao cantor, 

sentados em ordem, e ao lado abundam as mesas 

em pao e came, e vinho, tirando da anfora, 

trazo escan9ao e entorna nos calices: 

isso, em meu julzo, parece ser o mais belo. 

E teu animo, de minhas tristes agruras, inclina-se 
a indagar para, ainda mais aflito, eu gemer. 

O que entao primeiro, o que, por ultimo, contarei? 

Muitas agruras deram-me deuses celestes. 

Agora o nome enunciarei primeiro, para vos tambem 
o saberdes, e eu, se escapar do dia impiedoso, 
vosso aliado ser, embora longe habitando. 

Sou Odisseu, filho de Laerte, que, por ardis, por todos 
os homens sou conhecido: minha fama o paramo atinge. 
Habito a bem-avistada Itaca; nela ha um monte, 

Neriton folhas-farfalhantes, saliente; perto, muitas 
ilhas encontram-se proximas umas das outras, 

Duliquion, Same e a matosa Zacintos. 

Ela propria, baixa, jazno mar e 6 a ultima 
rumo as trevas, e as outras, separadas, a aurora e ao sol - 
bruta, mas bela nutre-mo90s. Eu, de forma alguma, 
consigo ver algo mais doce que a terra da gente. 

Sim, la me detinha Calipso, deusa divina, 
na cava gruta, almejando que fosse seu esposo; 
igualmente Circe me deteve em seu palacio, 
a ardilosa de Aiaie, almejando que fosse seu esposo. 

Mas a mim, nunca meu animo no peito persuadiu. 

Assim, nada mais doce que a terra da gente ou os pais 


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ha, ainda que alguem, em terra estrangeira, longe, 
habite gorda propriedade, afastado dos pais. 

Vamos, que tambem meu retorno muita-agrura eu narre, 
o que Zeus me enviou quando eu voltava de Troia. 
Levando-me de I lion, o vento achegou-me dos cicones, 
de Ismaros; la eu saqueei a cidade e os matei. 

Da cidade tendo tornado esposas e muitas posses, 
dividimos para eu ninguem deixar sem sua parte. 

Entao pedi que recuassemos com pe agil, 
e esses grandes tolos nao obedeceram. 

La bebiam muito vinho, junto a costa abatiam 
muitas ovelhas, e lunadas vacas tropegas. 

Nisso os remanescentes cicones outros cicones chamaram, 
esses que eram seus vizinhos, muitos e melhores, 
habitando no interior, sabendo com carros 
combater contra varoes e, se necessario, a pe. 

E vieram, em numero de folhas e flores na primavera, 
na aurora; entao veio o sinistro destino de Zeus 
ate nos, desventurados, para sofrermos muita afli?ao. 
Postados, combateram j unto as naus velozes, 
atingindo-se uns aos outros com bronzeas lan9as. 

Durante a manha, enquanto crescia o sacro dia, 
firmes, resistimos a eles, embora em maior numero; 
quando Sol se curvou rumo a hora de soltar os bois, 
entao os cicones, subj ugando-os, vergaram os aqueus. 

Seis de cada nau, companheiros belas-grevas, 
pereceram; o restante, escapamos do quinhao da morte. 

De la navegamos para diante, atormentados no cora^ao, 
voltando da morte, apos perder caros companheiros. 

Mas nao quis que as naus ambicurvas seguissem 
sem tres vezes gritarmos o nome dos pobres companheiros, 
eles que pereceram no plaino, mortos pelos cicones. 

Zeus junta-nuvens instigou vento bravio 

com tempestade prodigiosa, e com nuvens encobriu 


terra e mar por igual; e a noite desceu do ceu. 

70 Elas entao foram levadas de lado, e suas velas 
a for 9 a do vento rasgou em tres, quatro peda?os. 
Recolhemos as naus os trapos, apavorados, 
e remamos com avidezrumo a costa. 

La, por duas noites e dois dias, sempre sem parar 
75 ficamos, consumindo o animo em fadiga e aflifoes. 

Mas quando trouxe o terceiro dia Aurora belas-tran 9 as, 
apos erguer os mastros e i 9 ar as brancas velas, 
sentamos; e vento e timoneiros as dirigiam. 

E agora ileso teria chegado a terra patria, 

80 mas, ao tentar dobrar o cabo Maleia, ondas, corrente 
e Boreas desviaram-me, e vaguei para longe de Citera. 

De la, nove dias, fui levado por ventos ruinosos 
sobre o mar piscoso; mas no decimo desembarcamos 
na terra dos lotofagos, que comem alimento floral. 

85 La fomos para terra firme e tiramos a agua, 

e os companheiros logo j antaram j unto as naus velozes. 
Mas depois de consumirmos comida e bebida, 
entao pedi a companheiros que fossem pesquisar 
quern seriam os varoes, que sobre a terra comem pao, 

90 apos dois escolher e um terceiro, arauto, enviar com eles. 
Eles, logo apos partir, juntaram-se a varoes lotofagos. 

Pois os lotofagos nao armaram o fim dos companheiros 
nossos, mas deram-lhes lotus como alimento. 

Todo aquele que comesse o fruto meloso do lotus 
95 nao desejava servir de mensageiro nem retornar, 
mas preferia la mesmo, com os varoes lotofagos, 
comendo lotus, permanecer e esquecer o retorno. 

A eles, que chora vam, conduzi as naus, a for 9 a, 
e, nas cavas naus, empurrando-os sob os bancos, prendi; 
100 e aos outros ordenei, leais companheiros, 

que sem demora embarcassem nas rapidas naus 
para ninguem do lotus comer e do retorno esquecer. 


Eles logo embarcaram e sentaram junto aos cal90s, 
e, alinhados, golpeavam o mar cinzento com remos. 

105 De la navegamos para diante, atormentados no cora^ao. 
E a terra dos cic lopes, soberbos, desregrados, 
chegamos, eles que, confiantes nos deuses imortais, 
nao plantain arvores com as maos nem aram, 
mas, sem semear nem arar, isso tudo germina, 

110 trigo, cevada e videiras, que produzem 

vinho de grandes uvas que a chuva de Zeus lhes fomenta. 
Eles nao tem assemblers decisorias nem normas, 
mas habitam os cumes de montes elevados 
em cavas grutas, e cada um impoe normas 
1 15 sobre filhos e mulheres, e nao cuidam uns dos outros. 

E pequena ilha la se espraia a margem do porto, 
nem perto nem longe da terra dos ciclopes, 
matosa; nela ha cabras inumeraveis, 
selvagens: movimento de homens nao as afasta, 

120 nem ca^adores a frequentam, os que, no mato, 
sofrem agonias percorrendo os picos dos montes. 

Eis que nao e coberta por rebanhos nem lavouras, 
mas ela, sem que se semeie e are, todos os dias 
esta privada de homens, mas nutre cabras que balem. 

125 Pois nao ha, j unto aos ciclopes, naus face-vermelha, 
nem varoes construtores de naus la ha, que fariam 
naus bom-conves capazes de tudo realizar, 
indo as cidades dos homens, tantas vezes quanto 
os varoes, uns ate os outros, com naus cruzam o mar; 

130 para eles tambem a ilha tornariam habitavel. 

De modo algum e ruim, e tudo produziria na esta9ao. 
Nela ha prados junto a costa do mar cinzento, 
umidos, macios; inesgotaveis seriam as videiras. 

Nela ha campos pianos: densas espigas de trigo sempre 
135 colheriam na esta9ao, visto o muito chorume no solo. 

Ha porto seguro, onde de cabos nao se precisa, 


nem lan^ar ancoras nem prender am arras, 
mas, tendo aportado, ficar o tempo ate o animo 
dos nautas os instigar e as brisas soprarem. 

140 E na cabe?a do porto flui agua radiante, 

fonte de uma caverna; em torno, alamos cresceram. 
Para la navegavamos, e um deus nos guiava 
pela noite sombria, e nada se revelava a visao: 
a brum a em torno era densa, e nem a lua, 

145 do c£u, se mostrava, encoberta por nuvens. 

Com isso ninguem fitava a ilha com os olhos, 
e nem grandes ondas rolando rumo a praia 
vim os antes de as naus bom-conves aportarem. 
Estando as naus atracadas, recolhemos todas as velas 
150 e na rebenta?ao do mar desembarcamos; 

la adormecemos e aguardamos a divina Aurora. 
Quando surgiu a nasce-cedo, Aurora dedos-roseos, 
admirados com a ilha, por ela perambulamos. 

Ninfas, filhas de Zeus porta-egide, impeliam 
155 cabras montesas para o almo90 dos companheiros. 
Rapido arcos curvos e dardos com longo soquete 
pegamos das naus e, arranjados em grupos de tres, 
atiramos; e deus logo nos deu bichos arrebatadores. 
Doze naus me seguiam, e a cada uma 
160 nove cabras couberam; so para mim foram dez. 

Entao assim, o dia inteiro ate o por do sol, 
ficamos, compartilhando carne sem-fim e doce vinho, 
pois nao se consumira o vinho tinto das naus, 
mas sobrava; muito cada um, em anforas dupla-alfa, 
165 havia posto, apos tom arm os a sacra urbe do cicones. 
Aterra dos cic lopes, que perto viviam, observavamos, 
sua fuma^a e o som de ovelhas e cabras. 

Quando o sol mergulhou e vieram as trevas, 
entao repousamos na rebenta9ao do mar. 

170 Quando surgiu a nasce-cedo, Aurora dedos-roseos, 


entao eu, realizando assembleia, disse entre eles: 

‘Os outros, vos aqui ficai, meus leais companheiros; 
mas eu, com minha nau e meus companheiros, 
vou verificar esses homens, de que tipo eles sao, 

175 se desmedidos, selvagens e nao civilizados, 
ou hospitaleiros, com mente que teme o deus\ 

Dito isso, embarquei e pedi aos companheiros 
que tambem embarcassem e os cabos soltassem. 

Logo embarcaram e sentaram-se junto aos ca^os, 

180 e, alinhados, golpeavam o mar cinzento com remos. 
Mas ao chegarmos a esse lugar que perto ficava, 
la vimos, no extremo, uma caverna junto ao mar, 
alta, a sombra de loureiros. La, grande rebanho, 
ovelhas e cabras, pernoitava; em torno, cerca 
185 alta se construira com blocos de uma pedreira, 
com grandes pinheiros e carvalhos alta-copa. 

La pernoitava um varao, portentoso, ele que o rebanho, 
sozinho, apascentava, afastado: aos outros nao 
visitava, mas, longe vivendo, normas ignorava. 

190 De fato, era um assombro portentoso, nao parecia 
um varao come-pao, mas um pico matoso 
dos altos montes, que surge so, longe dos outros. 

Entao aos demais leais companheiros pedi 
que la, junto a nau, ficassem e guardassem a nau; 

195 mas eu, apos escolher doze nobres companheiros, 
fui. Levava um odre de cabra com vinho escuro, 
doce, que me dera Maron, filho de Euantes, 
sacerdote de Apolo, que zela por Ismaros, 
porque, junto com filho e esposa, nos o protegemos, 
200 venerando-o, pois habitava bosque arvorej ado 
de Febo Apolo. Deu-me presentes radiantes: 
de ouro bem trabalhado, sete pesos me deu, 
me deu anfora toda de prata, e depois 
vinho em doze anforas dupla-alfa ao todo verteu, 


205 doce, puro, bebida divina. A esse ninguem 

conhecia, nem escravo nem criado, em sua casa, 
so ele proprio, a cara esposa e uma so governanta. 

Quando alguem bebesse esse vinho tinto, doce como mel, 
enchia um calice e doze medidas de agua 
210 vertia; um doce aroma da anfora emanava, 
prodigioso: entao impossivel seria abster-se. 

Eu trazia um grande odre cheio dele, e tambem acepipes 

no alforje: logo meu animo orgulhoso pensou 

que encontraria varao vestido com grande bravura, 

215 selvagem, nao conhecendo bem tradifoes nem normas. 
Celeres, nos dirigimos ao antro e dentro nao 
o achamos, mas apascentava no pasto gordos rebanhos. 
Apos chegar ao antro, a tudo contemplamos, 
cestos abarrotados de queijo, cercados repletos 
220 de ovelhas e cabritos: separados por categorias, 

encerrados, a parte os mais velhos, a parte medianos, 
a parte filhotes. Todas as vasilhas transbordavam de soro, 
e baldes e tigelas, fabricadas, com as quais ordenhava. 

La os companheiros suplicaram-me para, primeiro, 

225 pegar algum queijo e voltar, e depois, 
ligeiro, ate a nau veloz, cabritos e ovelhas 
dos cercados arrastar, e navegar pela agua salgada; 
mas nao obedeci (e teria sido muito mais vantajoso) 
para poder ve-lo, esperando que me desse regalos. 

230 Pois, apos surgir, nao seria amavel com os companheiros. 
Tendo la aceso o fogo, sacrificamos e tambem nos 
comemos parte do queijo e, dentro, o esperamos, 
sentados, ate voltar com ovelhas: trazia ponderoso peso 
de madeira seca que seria usado para seu jantar. 

235 Lan^ando-o fora do antro, produziu um estrondo; 
nos, com medo, recuamos ate o fundo do antro. 

Ele a ampla gruta tocou o gordo rebanho, 
tantas quantas ordenhava, e os machos deixou fora, 


carneiros e bodes, no exterior, atras da alta cerca. 

240 Entao ergueu e pos na entrada grande rocha, 
ponderosa: a ela, nem vinte e dois carros 
otimos, de quatro rodas, solevariam do solo; 
tal rochedo, alcantilado, colocou na entrada. 

Sentado, ordenhava ovelhas e cabras balentes, 

245 tndo com adequa^ao, e pos urn filhote sob cada uma. 

Logo metade do branco leite separou para coalhar 
e pos os coalhos, apos junta-los, em cestos tranfados; 
metade la colocou em barris, para que estivesse 
disponlvel para ele beber em seu jantar. 

250 Mas apos ocupar-se de suas tarefas com zelo, 
entao, ao acender o fogo, viu-nos e perguntou: 

‘Estranhos, quern sois? Donde navegastes por fluentes vias? 
Acaso devido a um assunto ou, levianos, vagais 
tal qual piratas ao mar? Esses vagam 
255 arriscando suas vidas, levando dano a gentes alheias’. 
Assim falou, e nosso cora^ao rachou-se, 
atemorizados com a vozpesada e o portento em si. 

Mesmo assim, com palavras respondendo, disse-lhe: 

1468, aqueus vindos de Troia, vagamos longe do curso 
260 devido a todos os ventos pelo grande abismo de mar 
e, ansiando ir para casa, por outra rota, outros percursos, 
viemos; assim, talvez, Zeus quis armar um piano. 

Tropa de Agamemnon, filho de Atreu, proclamamos ser, 
desse cuja fama e agora a maior sob o paramo: 

265 devastou grande cidade e tropas dilacerou, 

muitas. Nos, porem, chegando, a esses teus joelhos 
nos dirigimos, esperando nos hospedares bem ou mesmo 
dares um regalo, o que e costume entre hospedes. 

Mas respeita os deuses, poderoso; somos teus suplicantes. 
270 Zeus e o vingador de suplicantes e hospedes, 

o dos-hospedes, que respeitaveis hospedes acompanha’. 
Assim falei, e logo respondeu com impiedoso animo: 


‘Es tolo, e strange iro, ou vieste de longe, 
tu que me pedes aos deuses temer ou evitar. 

275 Os ciclopes nao se preocupam com Zeus porta-egide 
nem com deuses ditosos, pois somos bem mais poderosos; 
nem eu, para evitar a braveza de Zeus, a ti pouparia 
ou a teus companheiros se o animo nao me pedisse. 

Mas dize-me onde aportaste a nau engenhosa, 

280 algures no extremo ou perto, preciso saber’. 

Assim falou, testando-me, e eu, bem arguto, percebi; 
respondendo, disse-lhe com palavras ardilosas: 

‘Minha nau sucumbiu a Poseidon treme-solo; 
contra rochedo lanpou-a nos limites de vossa terra, 

285 levando-a rumo ao cabo; vento trouxe-a do mar. 

Mas eu, com esses ai, escapei do abrupto fim\ 

Assim falei, e nao me respondeu com impiedoso animo, 
mas, de subito, sobre os companheiros estendeu as maos, 
e, tendo dois agarrado, como cachorrinhos ao chao 
290 arrojou-os: miolos escorriam no chao e molhavam o solo. 
Apos corta-los em pedafos, aprontou o jantar; 
comia-os como leao da montanha, e nada deixou, 
visceras, carnes e ossos cheios de tutano. 

Nos, aos prantos, erguemos os brapos a Zeus, 

295 vendo o feito terrivel, e a impotencia deteve o animo. 

Mas quando o ciclope encheu o grande estomago, 
apos comer carne humana e, depois, beber leite puro, 
deitou-se no antro, esticando-se entre o rebanho. 
Considerei, no energico animo, dele chegar 
300 mais perto, puxar a espada afiada da coxa 

e golpear no peito onde o diafragma segura o figado, 
apos alcan^ar com a mao; mas outro animo impediu. 

La mesmo tambem nos nos finariamos em abrupto fim; 
da alta entrada, nao teriamos conseguido, no bra<;o, 

305 afastar a ponderosa pedra que la depositara. 

Assim, gemendo, aguardamos a divina Aurora. 


Quando surgiu a nasce-cedo, Aurora dedos-roseos, 
ele acendeu o fogo e ordenhou esplendido rebanho, 
tudo com adequa?ao, e sob cada femea deixou o filhote. 
310 Mas apos ocupar-se de suas tarefas com zelo, 

de novo ele agarrou dois de nos e o aim 090 preparou. 
Almo90u e para fora do antro tocou o gordo rebanho, 
tendo removido facil a grande rocha; mas entao 
de volta a pos, como se tarn pa pusesse na aljava. 

315 Com forte assobio, ao monte levou o gordo rebanho, 
o ciclope; mas eu permaneci, ruminando males, 
esperando me vingar, e Atena me dar o triunfo. 

Este, em meu animo, mostrou-se o piano melhor: 
jazia, junto ao cercado, grande vara do ciclope, 

320 verde, de oliveira; podara a vara a fun de leva-la 
quando secasse. Observando, nos a julgamos 
grande tal mastro de negra nau vinte-remos, 
amplo navio mercante, que cruza o grande abismo: 
tal seu tamanho, tal a espessura a quern a visse. 

325 Postado, dela cortei urn pau de uma bra9a, 

passei-o aos companheiros e pedi que o raspassem. 

Eles deixaram-no liso; e eu afiei, posicionado, 
a ponta, e logo o tomei e no fogo c ham ej ante girei. 
Condicionei-o bem, escondendo-o sob o esterco 
330 que grassava pela caverna em abundancia. 

Aos outros, pedi-lhes que tirassem na sorte 
quern ousaria comigo, apos erguer a estaca, 
friccionar seus olhos quando doce sono o alcan9asse. 
Foram destinados quern eu mesmo teria escolhido, 

335 quatro, e eu mesmo, o quinto, entre eles me inclui. 

E a noite voltou, apascentando o rebanho bela-pelagem. 
Logo a ampla gruta tocou o gordo rebanho, 
todo ele, besta alguma deixou dentro da alta cerca, 
ou pensando algo, ou como um deus ordenara. 

340 Entao ergueu e pos na entrada a grande rocha; 


sentado, ordenhava ovelhas e cabras balentes, 
tudo com adequa?ao, e pos um filhote sob cada uma. 

Mas apos ocupar-se de suas tarefas com zelo, 
de novo ele agarrou dois de nos e preparou o jantar. 

345 Entao dirigi-me ao ciclope, parado perto, 

com uma cumbuca com vinho escuro nas maos: 

‘Ciclope, aqui, bebe vinho, apos comer came humana, 
para saberes que vinho e esse que continha a nossa 
nau: era liba9ao para ti, caso a mim, apiedando-se, 

350 a casa conduzisses; mas tua loucura e insuportavel. 
Implacavel! Como, no futuro, te alcan9ara algum outro 
dos muitos homens? Pois com adequa9&o nao agiste’. 

Falei, ele aceitou e tudo bebeu; deleitou-se ao extremo 
ao beber a doce bebida e pediu-me de novo, a segunda vez 
355 ‘Se gentil e da-me mais um, e diga-me teu nome 
de pronto, para eu te dar um regalo que te agradard. 

De fato, tambem aos cic lopes o solo fertil produz 
vinho de grandes uvas que a chuva de Zeus lhes fomenta. 
Mas este e destilado da ambrosia e do nectar’. 

360 Assim falou, e eu, de novo, passei-lhe fulgente vinho; 
tres vezes dei, tres vezes tudo bebeu com insensatez. 

Mas quando o vinho circundou o juizo do ciclope, 
entao a ele me dirigi com palavras amaveis: 

‘Ciclope, perguntas meu nome famoso; a ti eu 
365 direi, e, tu, da-me um regalo, como prometeste. 

Ninguem e meu nome; Ninguem denominam-me 
a mae, o pai e todos os outros companheiros’. 

Isso falei, e ele logo respondeu-me com animo impiedoso: 
‘Ninguem comerei por ultimo, dentre seus companheiros, 
370 os outros antes: esse sera teu regalo’. 

Falou e, apos reclinar-se, caiu de costas, e entao 
deitou-se, o encorpado pesco90 de lado, e dele o sono 
domina-tudo apossou-se: a garganta regurgitava vinho 
e nacos de carne humana; sob o peso do vinho vomitava. 


375 Entao empurrei a estaca embaixo do monte de cinzas 
para esquent&-la; com palavras a todos os companheiros 
encorajava para ninguem recuar de medo. 

Mas quando a estaca de oliveira, embora verde, 
no fogo quase ia queimar, e refulgia as maravilhas, 

380 entao rapido retirei-a, e em torno companheiros 

postaram-se; a divindade neles soprou grande coragem. 
Eles, apos pegar a estaca de oliveira, afiada na ponta, 
empurraram-na no olho; e eu, erguido sobre ela, 
girava-a, como urn varao fura a madeira do navio 
385 com furador, e quern esta abaixo o gira com correia, 
tocando-o de cada lado, e ele corre sempre sem parar - 
assim da estaca ponta-em-brasa tomamos, em seu olho 
a giravamos, e sangue fluia em torno dela, quente. 

O calor chamuscou em volta toda sua palpebra e a celha, 
390 e a pupila queimava; suas raizes crepitavam com o fogo. 
Como quando o ferreiro mergulha na agua fria 
grande machado ou enxo, ao querer enrija-los, 
e alto eles sibilam: este, de novo, e o vigor do a £0 - 
assim chiava seu olho em torno da estaca de oliveira, 

395 e, aterrorizante, alto bradou, e em torno a rocha rugia. 
Nos, com medo, recuamos. Mas ele a estaca 
puxou do olho, salpicada de muito sangue. 

Depois lan<;ou-a para longe com as maos, fora de si, 
e alto chamava os cic lopes, que nas cercanias 
400 moravam em cavernas entre os picos ventosos. 

Tendo ouvido o grito, cada um acorria de um lado, 
e, de pe em torno da gruta, indagavam o que o afligia: 

‘O que, Polifemo, tanto te perturba para assim gritares 
atraves da noite imortal e tirar-nos do sono? 

405 Por certo ninguem quer teus rebanhos contra tua vontade! 
Por certo ninguem tenta matar-te com ardil ou violencia!’. 
A eles, entao, do antro falou o poderoso Polifemo: 
‘Amigos, Ninguem tenta com ardil, e nao com violencia’. 


Eles, em resposta, falavam as palavras plumadas: 

410 ‘Se entao ninguem a ti, que estas sozinho, violenta, 
de modo algum, e possivel evitar a doenga de Zeus; 
mas, tu, faze uma prece ao pai, o senhor Poseidon’. 

Assim falaram, afastando-se, e meu coragao sorriu, 
pois meu nome enganou-os, e a impecavel astucia. 

415 E o ciclope, gemendo e contorcendo-se em dores, 
apalpando-a com as maos, afastou a pedra da entrada 
e ele, na entrada, sentou-se, apos estender os bragos, 
esperando pegar um de nos entre as ovelhas que saiam. 
Assim esperava, em seu juizo, que eu fosse tolo. 

420 E eu refletia como se daria a melhor solugao, 

se descobriria soltura da morte para mim e os demais 
companheiros; todos os ardis, um piano eu tramava, 
lutando pela vida, pois perto grande perigo havia. 

Este, em meu animo, mostrou-se o piano melhor: 

425 havia carneiros machos, bem-nutridos, de espesso velo, 
belos e grandes, carregados de roxa la; 
eles, quieto, juntos eu prendia com vime bem-trangado, 
sobre o qual dormia o portento ciclope que ignorava regras 
e tomava tres a tres: o do meio levava um homem, 

430 os outros iam de cada lado, salvando os companheiros. 
Tres carneiros levavam cada heroi; quanto a mim - 
pois macho havia, de longe o melhor de todo o rebanho -, 
agarrei-lhe as costas, sob o ventre felpudo enrolei-me 
e me estendi; com as maos, no prodigioso velo 
435 enroscado, sem cessar segurei-me com animo resistente. 
Assim, gemendo, aguardamos a divina Aurora. 

Quando surgiu a nasce-cedo, Aurora dedos-roseos, 
entao ao pasto disparavam carneiros e bodes, 
e as femeas baliam nos cercados, nao ordenhadas, 

440 os uberes a explodir. O senhor, torturado 

por dor sinistra, apalpava o dorso de toda ovelha, 
cada uma, de pe; isto ele, tolo, nao percebeu: 


que os homens se agarravam ao peito das ovelhas lanosas. 

Ultimo do rebanho, o carneiro passava pela entrada, 

445 repleto de la e de mim, com pensamentos cerrados. 

Apos tatea-lo, disse-lhe o forte Polifemo: 

‘Carneirinho, por que me vais assim pela gruta, do rebanho 
o ultimo? Nao costumas marchar atras de ovelhas, 
mas, o primeiro entre todos; pastas as tenras flores do pasto 
450 a passos largos, o primeiro a chegar as correntes dos rios, 
o primeiro que almeja retornar ao curral 
a noite; agora, o derradeiro. Por certo tu, do senhor, 
tens saudade do olho? Aele cegou um homem vil, 
com despreziveis companheiros, apos subjugar ojuizo com vinho, 
455 Ninguem, que afirmo ainda nao ter escapado do fim. 

Se pudesses pensar como eu e ter linguagem 
para falar aonde aquele se esquiva de meu impeto; 
entao seus miolos, pela caverna, para la e para ca - 
ele golpeado, se espalhariam no solo, e meu corafao 
460 se aliviaria dos males que me deu esse nada, Ninguem \ 

Falou assim e deixou o carneiro partir pela entrada. 

Afastados um pouco da gruta e da cerca, 

primeiro do carneiro me soltei e soltei os companheiros. 

Ligeiro, os carneiros e bodes pe-fino, fartos em gordura, 

465 amiude olhando em volta, guiamos ate a nau 

chegar: nossos companheiros ficaram felizes conosco, 
que escapamos da morte; aos outros deploravam, gemendo. 

Mas nao permiti - com as celhas, negava a cada um - que 
chorassem, e ordenei que, r&pido, o rebanho bela-pelagem 
470 se lanpasse na nau, e se navegasse pela salsa agua. 

Logo embarcaram, sentaram-se junto aos cal?os, 
e, alinhados, golpeavam com remos o mar cinzento. 

Mas quando estava a distancia de um grito, 
eu entao me dirigi ao ciclope com provocagoes: 

475 ‘Ciclope, nao seria de homem covarde que irias 

comer companheiros na cava gruta com violencia brutal. 


Por certo te atingiriam as a§oes sinistras, 
implacavel, sem escrupulos em comer hospedes 
em tua casa; por isso puniram-te Zeus e outros deuses’. 

480 Assim falei, e ele enraiveceu-se muito no cora?ao; 
lan90u, apos rebenta-lo, o pico de grande monte 
que tombou bem na frente da nau proa-cobalto, 

[por pouco, e falhou em atingir a ponta do leme.] 

E o mar agitou-se por causa da rocha que caiu. 

485 A nau, para terra firme, levava a onda em refluxo, 
um vagalhao do alto-mar, e fe-la dirigir-se a costa. 

Mas eu, com as maos tendo pegado haste bem longa, 
alavanquei a nau; aos companheiros pedi, incitando-os, 
que tocassem os remos para escaparmos do dano, 

490 sinalizando com a cabefa; peito para frente, remaram. 
Mas apos percorrer, no mar, distancia duas vezes maior, 
entao quis chamar o ciclope; em volta, com fala amavel, 
companheiros tentavam conter-me de todos os lados: 
‘Implacavel! Por que queres provocar o varao selvagem? 
495 Agora mesmo proj etou proj etil ao mar e levou a nau 
de novo a costa, e j a pensavamos la perecer. 

Se ele ouvir o som ou a fala de alguem, 
despeda9ara nossas cabegas e as tabuas da nau 
ao projetar rochedo pontudo: tao longe arremessa’. 

500 Assim falaram, mas sem convencer meu animo energico 
e, respondendo, disse-lhe com animo rancoroso: 

‘Ciclope, se a ti algum homem mortal 
interpelar sobre o ultrajante cegamento do olho, 
afirma que Odisseu arrasa-urbe te cegou, 

505 o filho de Laerte, que tern sua casa em Itaca’. 

Assim falei, e ele bramou e respondeu-me com o discurso 
‘Incrivel, de fato alcan?ou-me velho dito divino. 

Havia aqui um adivinho, varao belo e grande, 

Telemo, filho de Eurimo, que, superior na adivinha9ao, 

510 envelheceu adivinhando para os ciclopes; 


afirmou-me que tudo isso se completaria no futuro, 
que, nas maos de Odisseu, eu perderia a visao. 

Mas sempre esperei que um heroi grande e belo 
aqui chegasse, investido de grande bravura; 

515 agora a mim um pequeno, um nada, um fracote 
o olho cegou, apos me subjugar com vinho. 

Mas te achega, Odisseu, para ser-te hospitaleiro 
e instigar o famoso treme-terra a te dar condu<;ao, 
pois dele eu sou filho, e meu pai ele proclam a ser. 

520 Ele mesmo, se quiser, me curara, e nenhum outro 
dos deuses ditosos e dos homens mortais’. 

Assim falou, e eu, respondendo, lhe disse: 

‘Tomara fosse capazde a ti, de vida e vitalidade 
privado, enviar a morada de Hades, para banco, 

525 assim como o olho nao te curara o treme-solo’. 

Assim falei, e ele entao ao senhor Poseidon 
rezou, estendendo os bravos ao paramo estrelado: 
‘Ouve-me, Poseidon sustem-a-terra, juba-cobalto. 

Se deveras sou teu, e meu pai proc lamas ser, 

530 da-me que Odisseu arrasa-urbe a casa nao volte, 
o filho de Laerte, que tern sua casa em Itaca. 

Mas se e seu quinhao ver os seus e alcan^ar 
a casa bem-construida e a sua terra patria, 
chegue tarde, mal, apos perder todo companheiro, 

535 e em nau alheia, e encontre desgra?as em casa’. 

Assim falou, rezando, e ouviu-o o juba-cobalto. 

E ele, de novo, rocha muito maior tendo erguido, 
girou-a e lanfou, e aplicou for?a incomensuravel. 

E tombou atras da nau proa-cobalto, 

540 por pouco, e falhou em atingir a ponta do leme. 

E o mar agitou-se por causa da rocha que caiu. 

Onda a nau levou para frente, e fe-la atingir terra firme 

Mas quando atingimos a ilha onde as outras 

naus bom-conves estavam, e ao redor companheiros 


545 persistiam em lamentar-se, sempre a nos aguardar, 
dirigimo-nos para la, a nau atracamos na praia 
e desembarcamos na rebenta9ao do mar. 

Tiradas da concava nau as bestas do ciclope, 
dividimo-las para que a ninguem faltasse sua parte. 

550 O carneiro, so para mim, os companheiros belas-grevas 
deram, honraria na divisao do rebanho. Aele, na praia, 
a Zeus nuvem-negra, filho de Crono, que rege todos, 
imolei e suas coxas queimei. Mas ele desprezou o sacrificio, 
e cogitava como sogobrariam todas 
555 as naus bom-conves e meus leais companheiros. 

Entao assim, o dia inteiro ate o por do sol, 
ficamos, compartilhando carne sem-fim e doce vinho; 
e quando o sol mergulhou e vieram as trevas, 
repousamos na rebenta^ao do mar. 

560 Quando surgiu a nasce-cedo, Aurora dedos-roseos, 
eu mesmo pedi aos companheiros, incitando-os, 
que embarcassem e soltassem os cabos. 

Logo embarcaram e sentaram-se junto aos cal?os, 
e, alinhados, golpeavam o mar cinzento com remos. 

565 De la navegamos para diante, atormentados no cora9ao, 
voltando da morte, apos perder caros companheiros. 



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“E a ilha de Eolo chegamos. Lk morava 
o filho de Cavaleiro, Eolo, caro aos deuses imortais, 
na ilha flutuante; em volta de toda ela, muralha 
bronzea, inquebravel, se ergue como rocha lisa. 

Dele tambem vivem doze rebentos no palacio, 
seis filhas e seis filhos em plena juventude. 

La ele as filhas deu aos filhos como esposas; 
eles sempre, junto ao caro pai e a devotada mae, 
banqueteavam-se. Havia comida em profusao, 
e a casa, cheirosa, reverberava no patio 
de dia; e a noite, junto as esposas respeitadas 
dormem com cobertas nos leitos bem-perfurados. 

E chegamos a sua cidade e a bela morada. 

Mes inteiro hospedou-me e perguntava de tudo, 
de Ilion, das argivas naus e do retorno dos aqueus; 
e eu tudo a ele, ponto por ponto, contei. 

Mas quando tambem eu pedi a viagem e roguei 
ser conduzido, nao negou e preparou a condu?ao. 
Deu-me saco de couro, que tirara de boi nove-anos, 
onde prendeu as rotas dos ventos uivantes, 
pois o filho de Crono fe-lo supervisor de ventos, 
que interrompesse ou instigasse qual quisesse. 

Na cava nau amarrou-o com corda fulgurante, 
prateada, para impedir o menor escoamento; 
mas para mim fezsoprar a lufada de Zefiro 
para levar as naus e a nos mesmos. Mas nao iria 
completar-se: nossa propria insensatez nos destruiu. 
Nove dias navegamos sem parar, noite e dia, 
e no decimo ja aparecia o solo patrio, 
e ate viamos homens perto mantendo o fogo. 

La doce sono se achegou de mim, exausto; 
sempre controlei o pe da nau, e a nenhum outro 
companheiro a dera para logo chegarmos a terra patria. 
E os companheiros com palavras falavam entre si 


35 e disseram que eu levava ouro e prata para casa, 
presentes do energico Eolo, filho de Cavaleiro. 

E assim falavam, fitando quern estava ao lado: 

‘Inc rive 1, como ele e caro e honrado entre todos 
os homens cuja cidade e terra alcana. 

40 Muita coisa traz de Troia, belas posses 

do butim, mas nos, apos completar rota igual, 
para casa voltaremos com as maos vazias. 

Agora deu-lhe isso, agradando-o por amizade, 

Eolo. Vamos, rapido olhemos o que e isso, 

45 quanto ouro e prata ha dentro do saco’. 

Isso falaram, e venceu o piano vil dos companheiros. 
Soltaram o saco, e todos os ventos jorraram; 
uma rajada logo os apanhou e levou para o alto-mar; 
choravam, para longe da terra patria. Ja eu, 

50 apos despertar, no animo impec&vel cogitei: 

ou morreria no mar, para fora da nau me atirando, 
ou quieto resistiria e ainda entre os vivos ficaria. 

Mas resisti e aguentei, e, encoberto, na nau 
jazia; e as naus foram levadas por rajadas ruins de vento 
55 de novo a ilha de Eolo, e gemiam os companheiros. 

La fomos para terra firme e tiramos a agua, 
e os companheiros logo j antaram j unto as naus velozes. 
Mas depois de consumirmos comida e bebida, 
entao eu, junto com um arauto e urn companheiro, 

60 fui a gloriosa morada de Eolo; encontrei-o 
banqueteando-se com a mulher e os filhos. 

Entrando na casa, rente ao batente na soleira 
sentamos; e eles pasmaram-se no animo e indagaram: 
‘Como vieste, Odisseu?Que divindade ruim te atacou? 

65 Por certo te enviamos, gentis, para chegares 
a tua patria, em casa, ao lugar que te e caro’. 

Assim falaram; e eu lhes disse, angustiado no coragao: 
‘Injuriaram-me maus companheiros e, alem deles, o sono 


terrivel. Mas ajudai, amigos, pois tendes esse poder’. 

70 Assim falei, abordando-os com palavras macias, 
mas se calavam; e o pai respondeu com o discurso: 

‘Sai da ilha bem rapido, mais desprezivel dos mortais; 
nao e de praxe eu enviar de volta ou nortear 
o varao que hostilizam os deuses ditosos. 

75 Sai, ja que, hostilizado pelos deuses, assim chegaste’. 

Dito isso, com gemidos profundos sai expulso da casa. 

De la navegamos para diante, angustiados no cora9§o. 
Remada pungente oprimia o animo dos varoes, 
pois por nosso desatino nao ha via mais condu?ao. 

80 Seis dias navegamos sem parar, de noite e de dia; 
no setimo chegamos a escarpada cidade de Lamos, 
a lestrigonia Telepilos, onde pastor a pastor 
chama, trazendo o rebanho, e o outro, levando, responde. 
La o varao insone conquistaria dupla paga, 

85 uma, apascentando bois, outra, vigiando brancas ovelhas: 
proximos sao os caminhos da noite e do dia. 

La fomos ao porto glorioso, que circunda rochedo 
alcantilado por toda a extensao, de ambos os lados, 
e cabos salientes, um defronte ao outro, 

90 na boca projetam-se, e a entrada e estreita - 

la dentro eles aportaram, todos, as naus ambicurvas. 

Eis que elas, dentro do cavo porto, foram presas 
lado a lado; de fato, nele nunca crescia uma onda, 
grande ou pequena, e havia luzidia calmaria. 

95 Somente eu contive fora a negra nau, 

ai mesmo no extremo, e com cabos prendi a rocha. 
Pus-me de pe apos subir a escarpada atalaia; 
la nao havia campos arados por bois ou varoes, 
vim os somente fuma?a irrompendo da terra. 

100 Entao ordenei que companheiros investigassem 

quern seriam os varoes que sobre a terra comem pao; 
dois escolhi e um terceiro, arauto, enviei com eles. 


Desembarcaram e foram a urbe por via plana, 
de onde carros, dos altos montes, desciam com madeira. 
105 Uma 11109a encontraram diante da urbe pegando agua, 
a filha altiva do lestrigao Antifates. 

Ela descera ate a fonte, a belas-correntes 
Artacia: de la ate a urbe carregavam agua. 

Eles, de pe ao lado, interpelavam-na e inquiriam 
110 quem era o rei deles e sobre quem regia. 

De pronto ela indicou a grandiosa casa do pai. 

Eles, apos chegarem a gloriosa casa, a esposa 
acharam, alta como o pico de um monte, e a abominaram. 
Ela logo fezchamar da agora o glorioso Antifates, 

1 15 seu marido, que contra eles armou funesto fim. 

Presto agarrou um companheiro e preparou a refei?ao; 
os outros dois, fugindo em disparada, chegaram as naus. 

E aquele lan?ou um grito pela urbe; tendo ouvido, 
acorriam os altivos lestrigoes, cada um de um lado, 

120 miriades, nao assemelhados a vardes, mas a gigantes. 

Dos rochedos, lanfavam penedos pesados demais 
para varoes; logo nefasto estrondo as naus percorreu, 
de homens destruidos e naus destro9adas: 
talpeixes trespassados, acabaram em detesta vel jantar. 

125 Enquanto eles os destruiam no porto mui profundo, 
eu, apos puxar da coxa a afiada espada, 
com ela cortei os cabos da nau proa-cobalto; 
logo pedi a meus companheiros, incitando-os, 
que tocassem os remos para escaparmos do dano: 

130 eles todos se apressaram, pois temeram o fim. 

Com satisfafao, mar adentro escapou das rochas salientes 
minha nau; as outras, em conjunto, la ficaram destruidas. 
Entao navegamos para diante, atormentados no cora^ao, 
voltando da morte, apos perder caros companheiros. 

135 E chegamos a ilha de Aiaie, onde morava 

Circe belas-trangas, fera deusa com vozhumana, 


irma de sangue do sinistro Aietes; 

ambos nasceram de Sol ilumina- mortal, 

tendo por mae Persa, que Oceano gerou como filha. 

140 Na praia aportamos a nau em silencio, 
em porto abriga-nau, e urn deus nos guiava. 

La desembarcamos, dois dias e duas noites 
jazemos, fadiga e afli 9 oes consumindo nosso animo. 

Mas quando trouxe o terceiro dia Aurora belas-tran 9 as, 
145 peguei minha lan 9 a e a afiada espada 

e rapido, para longe da nau, subi a um mirante 
esperando ver lavouras de homens e ouvir uma voz. 
Pus-me de pe, apos subir a escarpada atalaia, 
e fuma 9 a surgiu-me da terra largas-rotas, 

150 no palacio de Circe, atraves do capao cerrado e do mato. 
Meditei, entao, no juizo e no cora 9 &o, 
se investigaria, apos ver a fuma 9 a fulgente. 

E pareceu-me, ao refletir, ser mais vantajoso assim: 
primeiro ir a nau veloz na orla do oceano, 

155 alimentar os companheiros e faze-los investigar. 

Mas quando estava perto da nau ambicurva, 
comigo, sozinho, um deus comoveu-se, 
e a trilha um grande cervo galhudo enviou 
para mim. Esse ao rio rumava, vindo do pasto no bosque, 
160 para beber, pois o impeto do sol ja o atormentava. 
Enquanto ele descia, na espinha, no meio das costas, 
eu o atingi: a lan 9 a bronze a, certeira, atravessou-a. 

Ele tombou no po, berrando, e seu animo voou para longe. 
Com o pe sobre ele, a lan 9 a bronzea do ferimento 
165 arranquei. Apos depo-la ai mesmo no chao, 
debcei-a de lado; apanhei galhos e vime, 
e com corda de uma bra 9 a, bem-tran 9 ada, nos dois lados 
tendo torcido, prendi os pes do assombroso prodigio 
e me dirigi a negra nau, levando-o nas costas 
170 apoiado na lan 9 a, pois impossivel, sobre o ombro. 


levar com um bra^o: bastante grande era o animal. 
Joguei-o diante da nau e despertei os companheiros 
com fala amavel, achegando-me a cada homem: 
‘Amigos, por certo nao desceremos, embora angustiados, 
175 a morada de Hades antes que chegue o dia fatal. 

Vamos, enquanto na nau velozhouver comida e bebida, 
lembremo-nos de comer e nao nos esgotemos de fome\ 
Assim falei, e presto obedeceram a minhas palavras. 

Eles se descobriram junto a praia do mar ruidoso 
180 e contemplaram o cervo: muito grande era o animal. 
Mas apos se deleitar em mirar com os olhos, 
lavaram as maos e prepararam bem majestoso jantar. 
Entao assim, o dia inteiro ate o por do sol, 
ficamos, compartilhando carne sem-fim e doce vinho; 
185 e quando o sol mergulhou e vieram as trevas, 
repousamos na rebenta?ao do mar. 

Quando surgiu a nasce-cedo, Aurora dedos-roseos, 
entao eu, realizando assembleia, disse entre eles: 

‘Ouvi meu discurso, companheiros, mesmo sofrendo. 

190 Amigos, nao sabemos onde e a treva, onde, a aurora, 
nem onde o Sol ilumina-mortal vai sob a terra 
nem onde sobe. Mas planejemos ligeiro 
se ainda havera uma ideia: eu nao creio que haja. 

De fato, apos subir a escarpada atalaia, observei 
195 a ilha, que o mar infindo circunda como coroa. 

A propria se estende rasa; fuma?a, no meio dela, 
vi com meus olhos atraves de capao cerrado e mato’. 
Assim falei, e o cora<;ao rachou-se-lhes 
ao lembrarem-se dos feitos do lestrigao Antifates 
200 e da violencia do ciclope, o energico devora-gente. 
Choravam alto, vertendo copiosas lagrimas; 
mas em vao, de nada adiantou prantearem. 

Em dois grupos, todos os companheiros belas-grevas 
dividi e atribui um lider a ambos. 


205 Uns liderei, os outros, o deiforme Euriloco. 

As pedras, num elmo bronzeo, sacudimos rapido. 

Para fora pulou a pedra do energico Euriloco. 

Partiu, e com ele, vinte e dois companheiros 

aos prantos; deixaram-nos, Iamentando-os, para tras. 

210 Acharam no vale a casa bem-construida de Circe, 
de pedras polidas, num local todo protegido. 

No entorno, havia lobos da montanha e leoes, 
que ela enfeitifara apos lhes dar nocivas drogas. 

Eles nao atacaram os homens; pelo contrario, 

215 mexendo os longos rabos, puseram-se de pe. 

Tal caes que junto ao senhor que sai da mesa 
rabeiam: sempre lhes trazo que agrada o animo - 
assim, em torno deles, lobos garra-potente e ledes 
rabeavam. E eles temeram ao ver os terriveis portentos. 
220 Postaram-se no portico da deusa belas-tran?as 
e ouviam Circe dentro, cantando com bela voz, 
ativa junto ao grande tear imortal, tal como 
sao as finas, graciosas e radiantes obras das deusas. 

Entre eles come^u a falar Cidadao, lider de varoes, 

225 para mim o mais proximo e devotado dos companheiros: 
‘Amigos, dentro alguem, ativa junto ao tear, 
com gra?a canta, e todo o solo em torno ressoa, 
ou deusa ou mulher; vamos, gritemos sem demora’. 
Assim falou, e eles chamaram com brados. 

230 Ela, logo saindo, abriu as portas resplandecentes 
e convidou-os. Seguiram-na todos em ignorancia. 
Euriloco deixou-se ficar, pois pensou ser um ardil. 

Fe-los sentar-se, dentro, nas cadeiras e poltronas, 
e para eles queijo, cevada e mel amarelo 
235 no vinho pramnio mexeu; e ao alimento misturou 
drogas funestas, para de todo esquecerem a patria. 

Mas depois que lhes deu e beberam, de pronto, 
com golpes de vara, no chiqueiro os confinou. 


Eles, de porcos, tinham a cabefa, o som, as cerdas 
240 e o corpo, mas a mente era firme como antes. 

Assim pranteando foram confinados, e, para eles, Circe 
lan<;ou frutos do azevinho, do carvalho e da cornacea, 
o que porcos leito-no-solo sempre comem. 

Euriloco presto rumou a negra nau veloz 
245 para dar noticia dos companheiros, o amargo destino. 
Nao foi capazde dizer palavra, embora ansiando, 
o peito golpeado por dor enorme: seus olhos 
enchiam-se de la grim as, e o animo pensava em lamento. 
Mas apos todos, com afeto, lhe perguntarem, 

250 entao contou o fim dos companheiros restantes: 

‘Fomos pelo bosque, como pediste, ilustre Odisseu; 
encontramos, no vale, casa bem-construida, bela, 
de pedras polidas, num local todo protegido. 

La, ativa junto a grande tear, cantava de forma aguda 
255 ou deusa ou mulher; e eles chamaram com brados. 

Ela, logo saindo, abriu as portas resplandecentes 
e convidou-os; eles todos seguiram-na em ignorancia. 
Mas eu deixei-me ficar, pensando ser um ardil. 

E sumiram em conjunto, e nenhum deles 
260 reapareceu; sentado, vigiei muito tempo’. 

Assim falou, e eu a espada pinos-de-prata em volta 
dos ombros lancei, grande, bronzea, e arco e flechas; 
e presto pedi-lhe que me guiasse pelo mesmo caminho. 
Mas ele, com as maos em meus joelhos, suplicou-me 
265 [e, lamentando-se, dirigiu-me palavras plumadas:] 

‘Nao me obrigue a ir, criado-por-Zeus; debca-me aqui: 
sei que nem tu mesmo voltaras nem um outro 
de teus companheiros traras. Rapido com estes, 
partamos, pois ainda escapariamos do dia danoso’. 

270 Assim falou, mas eu, respondendo, lhe disse: 

‘Euriloco, pois, que fiques aqui, neste lugar, 
comendo e bebendo junto a negra nau concava. 


Eu irei: para mim e imperiosa a necessidade’. 

Assim falando, da nau afastei-me e do mar. 

275 Mas quando ia, ao longo do vale sagrado, 

alcan^ar a grande casa de Circe muitas-drogas, 
la Hermes bastao-dourado encontrou a mim, 
em dire?ao a casa, ele semelhante a jovem varao 
na prima barba, cuja juventude e a mais graciosa; 

280 deu-me forte aperto de mao e dirigiu-me a palavra: 
‘Nao, infeliz, aonde pelos cumes vais sozinho, 
ignorante da terra? Teus companheiros, na casa de Circe, 
como porcos estao confinados em buraco bem-cercado. 
Acaso vens liberta-los? Afirmo que nem mesmo tu 
285 retornaras, e ate tu ficaras onde os outros estao. 

Vamos, a ti livrarei dos males e salvarei; 
aqui, com essa droga benigna, a casa de Circe 
vai; ela afastara de tua cabe?a o dia danoso. 

Ati direi todos os astutos maleficios de Circe; 

290 vai te preparar mingau e, na comida, pora drogas. 

Mas nem assim te podera enfeitigar: nao o permitira 
a droga benigna que te darei; e direi tudo. 

Quando Circe te golpear com a vara bem longa, 
entao tu, apos puxar a afiada espada da coxa, 

295 lan9a-te contra Circe como que louco por mata-la. 

Ela, temerosa, pedira que deites no leito. 

Tu, entao, nao mais rejeites o leito da deusa 
para ela libertar teus companheiros e cuidar de ti, 
mas pede-lhe que jure a grande jura dos ditosos 
300 de que outra desgrafa nao planejara contra ti 

para que, quando nu, nao te deixe vil e emasculado’. 

Disse isso e deu-me a droga Argifonte, 

apos puxa-la do solo, e mostrou-me sua natureza. 

Na raizera preta, e ao leite assemelhava-se a flor; 

305 os deuses chamam-na ‘moli’. Extrai-la e dificil 
para home ns mortais; mas os deuses podem tudo. 


Hermes, entao, partiu rumo ao alto Olimpo 

pela ilha matosa, eeua casa de Circe 

fui, e muito meu corafao se revolveu enquanto ia. 

310 Postei-me na porta da deusa belas-tran5as; 

310 a Circe, dentro, eu ouvia, cantando com be la voz. 

La parado, gritei, e a deusa ouviu minha voz. 

Ela, logo saindo, abriu as portas resplandecentes 
e convidou-me; e eu a segui, angustiado no cora9ao. 
Dentro, fez-me sentar em poltrona pinos-de-prata, 

315 bela, artificiosa; embaixo, para os pes, banqueta. 

Fez-me um mingau em calice dourado para eu beber 
e nele a droga lan90u, refletindo vilezas no animo. 

E quando mo deu, bebi e nao me enfeit^ou, 
e, apos golpear com a vara, dirigiu-me a palavra: 

320 ‘Vai ja ao chiqueiro, deita com os outros companheiros’. 
Assim falou, e eu puxei a afiada espada da coxa 
e lancei-me contra Circe como que louco por mata-la. 
Ela, gritando alto, jogou-se, tocou meus joelhos 
e, lamentando-se, dirigiu-me palavras plumadas: 

325 ‘quern 6s? De que cidade vens? Quais teus ancestrais? 
Espanta-me: bebeste a droga e nao foste enfeiti9ado. 
Nenhum outro homem, nao, resiste a essa droga 
se a bebe, mal ela deixa a cerca dos dentes; 
tu tens, no peito, espirito que nao se pode encantar. 

330 Entao tu es Odisseu muitas-vias, do qual sempre 
afirmou que viria Argifonte bastao-dourado, 
e de Troia voltas com negra nau veloz. 

Vamos, poe a espada na bainha, e os dois entao 
subiremos em nosso leito, para que, tendo-nos unido 
335 num enlace amoroso, confiemos um no outro’. 

Assim falou, mas eu, respondendo, lhe disse: 

‘Circe, como pedes para ser amigavel contigo? 

De meus companheiros fizeste porcos no palacio 
e, tendo-me aqui, pedes com mente ardilosa 


340 que va ao quarto e suba em teu leito, 
para que, nu, me tomes vil e emasculado. 

Eu nao poderia querer subir em teu leito 

exceto se ousasses, deusa, a grande jura me jurar, 

de que, contra mim, outra desgra9a nao planejaras’. 

345 Assim falei, e ela logo jurou, como eu pedira. 

Entao, apos jurar por completo essa jura, 
nisso eu subi ao leito bem belo de Circe. 

Enquanto isso, criadas estavam ocupadas no pal&cio, 
quatro, as que faziam o trabalho da casa. 

350 Eis que elas provinham das fontes, dos bosques 
e dos rios sagrados, que correm ate o mar. 

Nas poltronas, uma delas lan?ava belas mantas 
purpura em cima, e embaixo punha panos; 
outra, diante das poltronas, estendia mesas 
355 de prata, e sobre elas dispunha cestas de ouro; 
a terceira, em anfora de prata misturou vinho 
ado9a-juizo, doce, e dispos os calices de ouro; 
a quarta trouxe agua e acendeu o fogo 
alto sob a grande tripode; e a agua esquentava. 

360 Mas quando a agua ferveu no bronze luzio, 

sentou-me na banheira e com a grande tripode me banhou, 

cabe9a, ombros, apos a agua temperar, 

ate arrancar fadiga tira-animo de meus membros. 

Apos me banhar e ungir a larga com oleo, 

365 em torno de mim lan90u bela capa e tunica, 

e, la dentro, fez-me sentar em poltrona pinos- de- prata, 
bela, artificiosa; embaixo, para os pes, banqueta. 

Uma criada despejou agua - trazida em jarra 
bela, dourada - sobre bacia prateada 
370 para que se lavassem; ao lado estendeu polida mesa. 
Governanta respeitavel trouxe pao e pos na frente, 
e, junto, muitos petiscos, oferecendo o que havia. 

Ela me disse para comer; e tal nao agradou a meu animo; 


sentado, refletia, e o animo percebeu vilezas. 

375 Quando Circe me viu sentado e nao sobre a comida 
esticando as maos, mas com aflifao hedionda, 
chegando mais perto, dirigiu-me palavras plumadas: 

‘Por que assim, Odisseu, sentado como um mudo, 
o animo consomes e nao tocas em comida e bebida? 

380 Acaso supoes outro ardil? Nao precisas 
temer, poisj& te jureio forte juramento’. 

Assim falou, mas eu a ela, respondendo, disse: 

‘Circe, que homem, no caso de ser sensato, 
antes ousaria compartilhar de comida e bebida, 

385 antes de soltar e ver com os olhos os companheiros? 
Mas se, solicita, pedes para beber e comer, 
solta os leais companheiros para eu os ver com os olhos’. 
Assim falei, e Circe partiu para fora do salao 
com a vara na mao, abriu as portas do chiqueiro 
390 e tangeu-os assemelhados a cevados de nove anos. 

Eles postaram-se um diante do outro, e ela, por eles 
passando, ungia cada um com outra pofao. 

De seus membros caiam cerdas que antes gerou 
a po?ao ruinosa que lhes dera a senhora Circe; 

395 e logo tornaram-se varoes, mais j ovens que dantes 
e muito mais belos e melhores a quem os mirasse. 
Reconheceram-me, e cada um apertou-me as maos. 

Em todos surgiu o lamento desejavel, e pela casa 
soou ruido a terror izante; a propria deusa apiedava-se. 
400 Ela, de pe perto de mim, falou, a deusa divina: 

‘Divinal filho de Laerte, Odisseu muito-truque, 
vai agora a nau veloz na orla do oceano. 

Primeiro puxai a nau para a terra firme, 
e os bens e todas as armas depositai em caverna; 

405 tu mesmo volta e conduzes os leais companheiros’. 
Assim falou, e obedeceu meu animo orgulhoso, 
e me encaminhei a nau veloz na orla do oceano. 


Entao achei os leais companheiros na nau veloz, 
infelizes, chorando, vertendo copiosas lagrimas. 

410 Como bezerros campestres circundam vacas do rebanho 
quando elas vao ao curral apos saciar-se de pasto; 
todos juntos saltam diante delas, e estabulos nao mais 
os retem, mas, mugindo sem parar, correm em torno 
das maes - assim eles, ao me verem com os olhos, 

415 vertiam lagrimas. Ao animo deles parecia 

ser como se tivessem chegado a sua patria e cidade, 
ftaca escarpada, onde nasceram e foram criados. 
Lamentando-se, dirigiam-me palavras plumadas: 

‘Como nos alegramos com teu retorno, criado-por-Zeus, 
420 como se houvessemos chegado a Itaca, a terra patria. 
Vamos, conta-nos do fim dos outros companheiros’. 
Assim falaram, mas eu lhes disse com palavras macias: 
‘Primeiro puxemos a nau para a terra firme, 
e os bens depositemos em caverna, e todas as armas. 

425 E apressai-vos todos em seguir j unto comigo, 

para verdes os companheiros na sacra casa de Circe 
bebendo e comendo, pois em abundancia possuem’. 
Assim falei, e presto obedeceram minhas palavras. 
Euriloco foi o unico a tentar conter os companheiros 
430 [e, falando, dirigiu-lhes palavras plumadas:] 

‘Coitados, aonde vamos? Qual desses males desej ais? 
Penetrar na morada de Circe, que a todos 
tornara porcos ou lobos ou leoes, 
e como tais sua grande casa vigiariamos, obrigados? 

435 Assim o ciclope os prendeu, quando ao patio foram 
nossos companheiros, e com eles esse ousado Odisseu. 
Tambem aqueles pereceram pela sua iniquidade’. 

Assim falou, mas eu, no espirito, meditei 
se, apos puxar da coxa a espada agu?ada, 

440 com ela deceparia sua cabe?a e a derrubaria no solo, 
embora contraparente proximo; mas com fala amavel 


companheiros tentavam conter-me de todos os lados: 

‘Divinal, deixemos, se tu o ordenas, 

que ele fique aqui junto a nau e a guarde; 

445 guia-nos ate a sacra morada de Circe’. 

Assim falando, afastaram-se da nau e do mar. 

E nem Euriloco, junto a cava nau, ficou para tras, 
mas seguiu: temeu minha terrivel reprova?ao. 

Nisso aos outros companheiros na casa Circe 
450 banhou gentilmente, ungiu a larga com oleo 
e em torno lan?ou espessas capas e tunicas; 
achamos a todos no palacio em belo banquete. 

Eles, apos terem se visto de frente e se reconhecido, 
pranteavam, lamentando-se, e, em volta, a casa gemia. 
455 Ela, de pe perto de mim, falou, a deusa divina: 

‘Divinal filho de Laerte, Odisseu muito-truque, 
agora nao mais inflameis choro copioso; tambem sei 
quantas aflifoes sofrestes no mar piscoso, 
quanto dano varoes hostis causaram em terra firme. 

460 Mas vamos, consumi a comida e bebei o vinho 
ate de novo recuperardes o animo no peito, 
como quando primeiro partistes da terra patria, 
a escarpada Itaca. Agora, exaustos e desanimados, 
sempre lembrais a errancia cruel. Nunca vosso 
465 animo festeja, pois sofrestes demais’. 

Assim falou, e nosso animo orgulhoso obedeceu. 

E la, por todos os dias durante o ciclo de um ano, 
quedamos, compartilhando carne sem-fim e doce vinho; 
mas quando o ano chegou, e as estates deram a volta, 
470 as luas finando, e os longos dias passaram, 

leais companheiros chamaram-me para fora e disseram 
‘Insano, agora te lembra do solo patrio, 
se foi pelo deus definido salvar-te e alcan?ar 
a casa bem-construida e a tua terra patria’. 

475 Assim falaram, e obedeceu meu animo orgulhoso. 


Entao assim, o dia inteiro ate o por do sol, 
quedamos, compartilhando carne sera-fim e doce vinho. 
E quando o sol mergulhou e vieram as trevas, 
eles deitaram-se pelos umbrosos saloes. 

480 Mas eu subi ao bem belo leito de Circe 

e supliquei-lhe pelos joe lhos, e a deusa ouviu minha voz, 
[e, falando, dirigi-lhe palavras plumadas:] 

‘Circe, cumpra-me a promessa que prometeste, 
para casa enviar-me; meu animo ja esta avido 
485 e o dos companheiros, que desgastam meu cora?ao, 
em volta de mim gemendo, quando acaso estas longe’. 
Assim falei, e ela logo respondeu, deusa divina: 

‘Divinal filho de Laerte, Odisseu muitos-truques, 
nao mais, a contragosto, fiqueis na minha casa. 

490 Mas carece primeiro completar outra rota e ir 
a morada de Hades e da atroz Persefone 
para consultar a alma do tebano Tiresias, 
o adivinho cego, de quern o juizo e seguro; 
para ele, embora morto, Persefone deu espirito, 

495 so ele e inteligente; sombras, os outros adej am \ 

Assim falou, e meu cora^ao rachou-se; 
chorava deitado na cama, e meu cora9ao nao 
quis ficar vivo e mirar a luz do sol. 

Mas depois que chorei e rolei ate me fartar, 

500 a ela, falando, dirigi palavras plumadas: 

‘Circe, mas quem nessa rota sera o guia? 

Nunca alguem atingiu o Hades com negra nau\ 

Assim falei, e ela logo respondeu, deusa divina: 

‘Divinal filho de Laerte, Odisseu muito-truque, 

505 que a falta de guia j unto a nau nao te ocupe. 

Fixa o mastro, desfralda a branca vela 
e senta: a brisa de Boreas a levara. 

Mas apos atravessar o Oceano com a nau, 
onde ha pequena praia e os bosques de Persefone, 


510 choupos altos e salgueiros que perdem a fruta, 

a nau la mesmo atraca no Oceano fundo-redemunho, 
e tu proprio vai a casa bolorenta de Hades. 

La no Aqueron desembocam Piriflegueton 
e Coquito, que e uma queda de agua do Stix - 
515 uma rocha e a confluencia de dois rios ressoantes; 
la entao, heroi, te aproxima e, como te ordeno, 
fosso cava, em torno de um cubito de altura e largura, 
e em sua borda verte liba9&o a todos os mortos, 
primeiro, misto com mel, depois com vinho doce 
520 e a ter9a com agua; em cima asperge branca cevada. 
Com zelo suplica as tibias cabe9as dos mortos 
que, uma vezem Itaca, iras vaquilhona, a melhor, 
sacrificar no palacio, enchendo o fogo de valores; 
a Tiresias, so para ele, imolaras, a parte, ovelha 
525 toda negra, a que sobressai entre vossos rebanhos. 
Apos suplicar com votos ao glorioso grupo de mortos, 
la sacrifica carneiro adulto e uma femea negra, 
dirigidos ao Erebo, e te vira para longe, tu mesmo, 
mirando as correntes do rio; la muitas 
530 almas de finados defuntos chegarao. 

Entao aos companheiros incita, e ordena-lhes 
que as bestas deitadas, abatidas por bronze impiedoso, 
queimem, apos esfola-las, e rezem aos deuses, 
ao altivo Hades e a atroz Persefone; 

535 tu mesmo, apos puxar a e spa da afiada da coxa, 
senta, e nao permitas que tibias cabe9as de mortos 
se acheguem do sangue antes de ouvires Tiresias. 
Entao o adivinho logo vira ate ti, 6 lider de tropa, 
para dizer-te a rota, os pontos do traj eto 
540 e o retorno, como voltaras no mar piscoso’. 

Assim falou, e logo veio Aurora trono-dourado. 

Ela mesma, capa e tunica, com vestes vestiu-me, 
e ela grande manto branco vestiu, a ninfa, 


leve e gracioso, a cintura cingiu com cinto 
545 belo, dourado, e sobre a cabe^a deitou o v£u. 

Eu, cruzando a casa, instigava os companheiros 
com fala amavel, achegando-me a cada homem: 

‘Agora nao mais, dormindo, resfolegai o doce sono, 
mas vamos, pois ja me orientou a senhora Circe’. 

550 Assim falei, e de todos convenci o ammo orgulhoso. 

Mas nem mesmo de la levei, incolumes, os companheiros. 

O mais jovem, Ilusorio, nem sobremodo 

bravo na guerra nem em seu juizo ajustado, 

longe de companheiros, sobre a casa sacra de Circe, 

555 deitou-se sob o peso do vinho, desej ando frescor. 

Ao ouvir a surda arrua 9 a de moventes companheiros, 
de chofre se ergueu e esqueceu, em seu juizo, 
de descer de volta dirigindo-se a alta escadaria, 
e direto do alto do teto caiu. Quebrou o pescogo, 

560 separado das vertebras, e a alma desceu ao Hades. 
Quando estavam por partir, disse-lhes o discurso: 
‘Acreditais, suponho, a cara terra patria 
estar indo; mas outra rota marcou-nos Circe, 
a morada de Hades e da atrozPersefone 
565 para consultar a alma do tebano Tiresias’. 

Assim falei, e o cora 9 ao rachou-se-lhes. 

Sentados Id mesmo, choravam e os cabelos arrancavam, 
mas em vao, de nada adiantou prantear. 

Mas enquanto a nau veloz na orla do oceano 
570 iamos, angustiados, vertendo copiosas lagrimas, 

Circe, j a tendo la estado, na negra nau, 
carneiro adulto prendeu e uma femea negra, 
apos passar a socapa: quern, ao deus que nao quer, 
com os olhos veria, na ida ou na volta? 



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“Apos descermos a nau e ao mar, 
primeiro a puxamos ate o divino oceano 
e dispusemos mastro e vela na negra nau; 
apos as bestas pegar e po-las a bordo, tambem nos 
subimos, angustiados, vertendo copiosas lagrimas. 

Para nos, detras da nau proa-cobalto, soprava, 

nobre companheira, benigna brisa enche-vela, que enviara 

Circe belos-cachos, fera deusa de humana voz. 

Nos cuidamos de cada cordame na nau 
e sentamos, e vento e timoneiro a dirigiam. 

O dia todo ela singrou, a vela e Stic a da. 

E o sol mergulhou, e todas as rotas escureciam; 
e ela chegou ao confim de Oceano fundas-correntes. 

La fica o povo, a cidade dos varoes cimerios, 
em brum a e nuvens encoberta; nunca a eles 
Sol, luzidio, mira de cima com os raios, 
nem quando avan?a rumo ao paramo estrelado, 
nem quando do paramo se dirige a terra, 
sempre noite letal se espraia sobre os pobres mortais. 
Chegando la, atracamos a nau e dela as bestas 
tiramos; entao, ao longo da corrente de Oceano, 
nos dirigimos a terra que Circe indicara. 

La, os animais do sacrificio, Perimedes e Euriloco 
seguraram; e eu puxei a afiada espada da coxa, 
cavei um fosso, cerca de um cubito de altura e largura, 
e em sua borda verti liba?ao a todos os mortos: 
primeiro, misto com mel, depois com vinho doce 
e a ter?a com agua; em cima aspergi branca cevada. 

Com zelo supliquei as tibias cabe^as dos mortos 
que, uma vezem Itaca, iria vaquilhona, a melhor, 
sacrificar no palacio e encher o fogo de valores; 
a Tiresias, so para ele, imolaria, a parte, ovelha 
toda negra, a que sobressaisse entre nossos rebanhos. 

Apos a eles, ao grupo de mortos, com voto e suplica 


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suplicar, peguei as bestas e cortei seu pesco?o 
na diresao do fosso, e fluia sangue escuro. Elas se reuniram, 
as almas de finados defuntos subindo do Erebo: 
mo9as, jovens solteiros, anciaos que muito penaram, 
noivas delicadas com animo recem-afligido 
e muitos feridos por lan9as de bronze, 
varoes mortos em guerra com armas ensanguentadas. 
Amaioria acorria para o fosso de todos os lados 
com grito prodigioso; e um medo amarelo atingiu-me. 

Entao aos companheiros incitei e ordenei-lhes 
que aos bichos deitados, abatidos por bronze impiedoso, 
queimassem, apos esfola-los, e rezassem aos deuses, 
ao forte Hades e a atroz Persefone; 
eu mesmo, apos puxar a espada afiada da coxa, 
sentei e nao permiti que tibias cabe9as de mortos 
se achegassem do sangue antes de ouvir Tiresias. 

Primeiro veio a alma de llusorio, o companheiro, 
ainda nao enterrado sob a terra largas-rotas; 
o corpo, na casa de Circe, deixamos para tras, 
nao chorado, nao sepulto, pois impelia-nos outra a9ao. 
Quando o vi, chorei e apiedei-me no animo, 
e, falando, dirigi-lhe palavras plumadas: 

‘llusorio, como desceste as trevas brumosas? 

Chegaste antes a pe que eu com negra nau! \ 

Assim falei, e ele bramou e respondeu-me com discurso: 
‘Divinal filho de Laerte, Odisseu muito-truque, 
perdeu-me o quinhao danoso do deus e vinho ilimitado; 
deitado na morada de Circe, nao pensei 
descer de volta dirigindo-me a alta escadaria, 
e direto do alto do teto cai, quebrei o pesco90, 
separado das vertebras, e a alma desceu ao Hades. 

Agora te suplico por aqueles la tras, ausentes, 
por tua esposa e teu pai que te criou quando pequeno, 
e por Telemaco, o unico que no palacio deixaste; 


sei que, indo daqui, da casa de Hades, 

70 dirigiras a nau engenhosa ate a ilha de Aiaie: 
la, senhor, pe?o-te entao que lembres de mim. 

Nao me deuces nao chorado e nao sepulto ao partir 
e te afastar para eu nao te trazer a colera de deuses, 
mas me queime com todas as armas que tive 
75 e ergue-me, junto a orla do mar cinzento, cenotafio 
de varao infeliz, noticia tambem aos vindouros. 
Completa-me isso e crava no tumulo o remo 
com que, vivo, remava junto de meus companheiros’. 
Assim falou, e eu, respondendo, lhe disse: 

80 ‘Isso, infeliz, te completarei e executarei’. 

Assim nos dois, trocando palavras tristes, 
ficamos, eu sobre o sangue empunhando a espada, 
e acola muito falava o espectro do companheiro. 

E achegou-se a alma de minha finada mae, 

85 a filha do energico Autolico, Anticleia, 

que, viva, deixei para tras quando fui a sacra llion. 
Quando a vi, chorei e apiedei-me no animo; 
embora bem aflito, nem assim debcei que primeiro ela 
se achegasse do sangue antes de eu ouvir Tiresias. 

90 E veio a alma do tebano Tiresias 

com um cetro dourado, reconheceu-me e disse: 
‘Divinal filho de Laerte, Odisseu muito-truque, 
por que de novo, infeliz, deixaste a luzdo sol 
e vieste para ver mortos e a regiao sem deleite? 

95 Pois arreda-te do fosso e afasta a espada afiada 
para eu beber do sangue e falar-te sem evasivas’. 
Assim falou, e eu recolhi a espada pinos-de-prata 
e enfiei-a na bainha. Apos beber o sangue escuro, 
a mim dirigiu-se com palavras o adivinho impecavel: 
100 ‘Buscas retorno doce como o mel, ilustre Odisseu; 
esse o deus tornara dificil para ti. Nao creio 
que ira te ignorar o treme-terra, com rancor no animo, 


irado, pois cegaste seu filho querido. 

Porem ainda assim, raesmo sofrendo males, chegarleis, 
105 se quiseres conter teu animo e o dos companheiros 
quando primeiro achegares a nau engenhosa 
da ilha Trinacia, apos escapar do mar violeta, 
e achardes, pastando, vacas e robustas ovelhas 
de Sol, que tudo enxerga e tudo ouve. 

110 Se as deixares ilesas e cuidares do retorno, 

tambem Itaca, mesmo sofrendo males, alcan9arieis; 
se as lesares, entao te prevejo o fim 
de barco e companheiros. Tu mesmo, se escapares, 
chegaras tarde, mal, em nau alheia, 

1 15 sem companheiro algum; encontraras desgra^as em casa, 
varoes soberbos que devoram teus recursos, 
cortejando a excelsa esposa e oferecendo dadivas. 
Contudo, vingaras a violencia deles ao chegar. 

Mas quando aos pretendentes, em teu palacio, 

120 matares, com truque ou as claras, com bronze agudo, 
entao pega um remo maneavel e marcha 
ate alcanpares varoes que nao conhecem o mar 
nem comem comida misturada a graos de sal; 
eles, claro, nao conhecem naus face-purpura 
125 nem remos maneaveis, que sao as asas das naus. 

Sinai te direi, inequivoco, e nao o iras ignorar: 
quando contigo deparar-se outro passante 
e disser que tens destroi-joio sobre o ombro ilustre, 
entao, apos na terra cravares o remo maneavel, 

130 fazeres belos sacrificios ao senhor Poseidon, 
carneiro, touro e javah domestico, reprodutor, 
retorna para casa e oferta sacras hecatombes 
aos deuses imortais, que do largo paramo dispoem, 
a todos pela ordem. Do mar vira a ti, 

135 bem suave, a morte, ela que te abatera 

debilitado por idade lustrosa; e em volta as gentes 


serao afortunadas. Isso te digo sem evasivas’. 

Assim falou, mas eu, respondendo-lhe, disse: 
‘Tiresias, isso destinaram os proprios deuses. 

140 Mas vamos, dize-me isto e conta com precisao: 
la vejo a alma de minha finada mae; 
ela, quieta, sentada perto do sangue, a seu filho 
nao ousa mirar de frente nem dirigir a palavra. 

Diga, senhor, como ela saberia que este sou eu?’. 

145 Assim falei, e ele, logo respondendo, disse-me: 
‘Simples palavra te direi e no juizo porei: 
a todo que permitires, dos mortos finados, 
achegar-se do sangue, esse vai te falar sem evasivas. 
A quern negares, esse de volta ira para tras\ 

150 Apos falar, a alma entrou na casa de Hades, 
a do senhor Tiresias, apos contar o dito divino; 
mas eu la fiquei, imovel, ate que a mae a mim 
veio e bebeu sangue escuro; de pronto me conheceu 
e, lamentando-se, dirigiu-me palavras plumadas: 

155 ‘Filho meu, como desceste as trevas brumosas 
ainda vivo? E dificil, aos mortais, ver isto aqui. 

No meio, ha grandes rios e assombrosas correntes, 
e primeiro Oceano, que nao e possivel cruzar 
a pe, se alguem nao tiver nau engenhosa. 

160 So agora de Troia chegas aqui, apos vagar 

com nau e companheiros muito tempo? Nao foste 
a Itaca nem viste, no palacio, tua mulher?’. 

Assim falou, mas eu, respondendo, lhe disse: 
‘Anecessidade, minha mae, me trouxe ate Hades 
165 para consultar a alma do tebano Tiresias; 

ainda nao me acheguei da Acaia nem a minha 
terra desci, mas sempre vago em agonia, 
desde o dia em que segui o divino Agamemnon 
ate Ilion belos-potros para troianos combater. 

170 Mas vamos, dize-me e conta com precisao: 


que sina de morte dolorosa te subjugou? 

Doen9a alongada? Artemis verte-setas, 

com suas flechas suaves, achegando-se, matou-te? 

Fala-me algo do pai e do filho que deixei para tras, 

175 se minha honraria ainda e deles, ouja um 

outro varao a tem, e afirmam que nunca retornarei. 
Fala-me da inten£ao e mente da lidima esposa, 
se fica ao lado do filho e, firme, tudo guarda, 
ou se ja a desposou quern for o melhor dos aqueus’. 

180 Assim falei, e ela logo respondeu, a senhora mae: 

‘E claro que ela aguarda, com animo resistente, 
em teu palacio; para ela sempre agonizantes 
esvaem as noites e os dias, e verte l&grimas. 

Ninguem tem tua bela honraria, mas, placido, 

185 Telemaco gere os dominios e de banquetes partilhados 
participa, dos quais convem varao sentenciador ocupar- 
todos o convidam. Teu pai fica la mesmo, 
no campo, e a urbe nao desce; nao tem, como leito, 
estrado, capas e mantas lustrosas, 

190 mas ele, no inverno, com escravos dorme na casa, 
no po perto do fogo, e vestes vis vestem sua pele; 
mas quando vem o verao e a opulenta epoca de frutas, 
em toda parte no fertil vinhedo no morro, 
amontoam-se leitos de folhas caidas no chao. 

195 La deita, aflito, e enorme angustia avulta nojuizo, 
ansiando teu retorno; e cruel velhice o alcanna. 

Assim tambem pereci e alcancei o fado: 
a mim, nem no palacio a verte-setas aguda-mirada, 
com suas flechas suaves, achegando-se, matou-me, 

200 nem ate mim veio doen9a, que, sobremodo 

com hedionda definha9ao, dos membros tira a vida; 
de mim a saudade de ti, os pianos teus, ilustre Odisseu, 
e a suavidade tua arrebataram-me a meliflua vida’. 
Assim falou, e eu quis, apos cogitar nojuizo, 


205 pegar a alma de minha finada mae. 

Tres vezes lancei-me, e pega-la o animo pedia, 
tres vezes de minhas maos, como sombra ou sonho, 
voou. No cora<;ao, minha dor fazia-se mais aguda, 
e, falando, dirigi-lhe palavras plumadas: 

210 ‘Minha mae, por que te esquivas se anseio pegar-te, 
para, no Hades abra^ando-nos com carinho, 
ambos nos deleitarmos com gemido gelado? 

Isto e um espectro que ate mim a ilustre Persefone 
instigou, para que, ainda mais aflito, eu gema?’. 

215 Assim falei, e ela logo respondeu, a senhora mae: 

‘Ai de mim, filho meu, heroi em suprema desdita, 
a ti Persefone, filha de Zeus, nao esta ludibriando, 
mas essa e a marca dos mortais quando alguem morre. 
Nao mais os tendoes seguram carnes e ossos, 

220 mas a eles o impeto superior do fogo chamej ante 
subjuga, e assim que a vida deixa os ossos brancos, 
a alma, como um sonho, esvoa?a e voa embora. 

Mas ahneja ir de pronto rumo a luz; sabe 
de tudo isso, para, no futuro, tambem falares a tua mulher’. 
225 Assim nos dois trocavamos palavras, e mulheres 
vieram, pois as instigara a ilustre Persefone, 
tantas quantas eram as esposas e filhas dos melhores. 

Elas, em torno do sangue negro, juntas se reuniram; 
e eu decidia como ilia a cada uma questionar. 

230 Este, em meu animo, mostrou-se o piano melhor: 
apos desembainhar agu9ada espada da coxa grossa, 
nao permitia que junto bebessem todas o sangue negro. 
Elas, enfileiradas, achegavam-se, e cada uma 
sua origem anunciava; e eu a todas questionava. 

235 Aprimeira que vi foi Tiro nobre-pai, 

que disse ser rebento do impecavel Salmoneu, 
e disse ser esposa de Crete u, filho de Eolo. 

Ela pelo rio se apaixonou, o divino Enipeu, 


que, de longe o mais belo dos rios, fluia pela terra, 

240 e assira visitava as belas correntes de Enipeu. 

Eis que assemelhado a ele, o terra-sustem, treme-terra, 
na fozdo rio vertiginoso, ao lado dela se deitou; 
eis que agitada onda cercou-os, igual a um monte, 
abobadada, e escondeu o deus e a mulher mortal. 

245 E soltou seu cinto virginal e sono verteu-lhe. 

Quando o deus completou os feitos amorosos, 
apertou-lhe a mao, dirigiu-se-lhe e nomeou-a: 
‘Deleita-te com o amor, mulher; tempo passando, 
geraras crian^as radiantes, pois vaos nao sao os enlaces 
250 de imortais; e tu as cria e alimenta. 

Agora vai para casa, contem-te e nao me nomeies; 
quanto a mini, ve, sou Poseidon treme-solo’. 

Apos falar assim, mergulhou no mar faz-onda. 

E ela, apos engravidar, gerou Pelias e Neleu, 

255 e tornaram-se dois fortes assistentes do grande Zeus, 
ambos: Pelias na espa?osa Iolcos 
morava, rica em ovelhas; o outro, na arenosa Pilos. 
Estes outros com Creteu gerou, augusta mulher, 

Aison, Feres e Amitaon, alegre na luta de carros. 

260 Depois dela vi Antiope, a filha de Asopo, 
que no abra?o de Zeus proclama ter deitado, 
e gerou duas crian^as, Anfion e Zeto, 
os primeiros a fundar o sitio de Tebas sete-port5es 
e mura-lo, pois, sem muros, nao eram capazes 
265 de habitar a espafosa Tebas, embora fortes os dois. 
Depois dela vi Alcmena, a esposa de Anfitrion, 
que a Heracles espirito-ousado, animo-leonino, 
gerou apos unir-se, em seu abra?o, a Zeus poderoso; 
e Megara, a filha do autoconfiante Creonte: 

270 possuia-a o filho de Anfitrion com impeto sempre rijo. 
E vi a mae de Edipo, a bela Epicasta, 
que feito inaudito fizera com mente ignorante 


ao ser desposada pelo filho: ele, apos matar o pai, 
a desposou; logo deuses expuseram-nos aos homens. 

275 Mas ele, sofrendo agonias, em Tebas muito amada, 
regia os cadmeus gramas a pianos ruinosos de deuses; 
e ela foi a casa de Hades, o poderoso porteiro, 
apos apertar um no, abrupto, da alta viga no quarto, 
tomada pela dor. Deixou-lhe afli?oes no futuro, 

280 muitas, tantas quantas as Erinias da mae completam. 

E vi Cloris bem bela, que um dia Neleu 

desposou pela beleza, pois deu miriades de dadivas, 

a filha mais nova de Anfion, filho de Iaso, 

que entao em Orcomenos, na Minia, regia com for9a. 

285 Ela regia Pilos, e gerou-lhe crian?as radiantes, 

Nestor, Crdmio e o bem honrado Periclimeno. 

Alem deles, gerou a altiva Pero, maravilha para os mortais, 
a quern todos os vizinhos cortejavam; e Neleu so 
a daria a quern lunadas vacas larga-fronte 
290 tomasse do brioso Ificles e de Filace trouxesse - 
feito dificil. So o adivinho impecavel prometeu 
traze-las; e o duro quinhao do deus o enredou, 
la^os crueis e pastores rusticos. 

Mas quando meses e dias completaram-se, 

295 e o ano fechou seu ciclo e voltaram as estasoes, 
eis que entao o brioso Ificles o soltou, 
pois falou a palavra divina: completava-se o piano de Zeus. 
E vi Leda, a consorte de Tindaro, 
ela que de Tindaro gerou duas criansas juizo-forte, 

300 Castor doma-cavalos e Polideuces bom-de-punho; 
a esses, ambos vivos, contem a terra brota-grao. 

Eles, mesmo abaixo da terra, tern a honra de Zeus, 
ora estao vivos, em dias alternados, ora, de novo, 
mortos: atribuiu-se-lhes honra como aos deuses. 

305 E depois dela, Ifimedeia, consorte de Aloeu, 
mirei, que dizia ter-se unido a Poseidon. 


Assim gerou duas crian<;as - e tiveram vida curta 
o excelso Oton e Efialtes grande-fama. 

Aeles nutriu o solo fertil para serem os mais altos 
310 e, de longe, os mais belos depois do glorioso Orion; 
com nove anos, de fato, tinham eles nove cubitos 
de largura, e de altura alcan?avam nove brafas. 

Ate contra imortais no Olimpo ameafaram 
instaurar combate de guerra encapelada. 

315 O Ossa ansiaram por sobre o Olimpo, e, sobre o Ossa, 

Pelio folhas-farfalhantes, para alcazar o paramo. 

E teriam tal feito completado, houvessem chegado a juventude 
matou-os o filho de Zeus que Leto bela-juba gerou, 
a ambos, antes que florescesse a barba sob a tempora, 

320 e vicejante penugem o queixo cobrisse. 

E Fedra e Procris eu vi, e a be la Ariadne, 
filha de Minos, sinistro, ela que um dia Teseu 
de Greta levava ao morro da Atenas 
sagrada e nao a desfrutou: antes matou-a Artemis 
325 na correntosa Dia com o testemunho de Dioniso. 

Vi Maira, Climene e a hedionda Erifila, 
que ouro valioso recebeu por seu marido. 

Atodas nao vou enunciar nem especificar, 
tantas as esposas e filhas de herois que vi; 

330 a noite imortal findaria antes. Mas e hora 

de dormir, ou indo a nau velozate os companheiros 
ou aqui; a condu9&o ocupara os deuses e vos”. 

Assim falou, e eles todos, atentos, se calavam, 
tornados por feiti<;o no umbroso salao. 

335 Entre eles, Arete alvos-bra90s tomou a palavra: 

“Feacios, como parece-vos ser esse varao 
em aparencia, altura e, dentro, no juizo equilibrado? 

Pois bem, e meu hospede, e cada um partilha da honra. 

Por isso nao as pressas o enviai de volta nem os dons 
340 restringi, ele assim carente, pois vos muitos 


haveres tendes no palacio devido aos deuses”. 

Entre eles entao falou o anciao, o heroi Donodenau, 
que dos varoes feacios era o mais velho, 

343 a em discursos, superior, com muito saber antigo: 
“Amigos, nem longe do alvo nem de nossa opiniao 
345 discursa a rainha bem-ajuizada; vamos, obedecei. 

De Alcinoo aqui presente dependent palavra e a$ao”. 
Aele, por sua vez, Alcinoo respondeu: 

“Essa palavra, portanto, assim se dara, se eu, 
vivo, reino sobre o navegador povo feacio. 

350 Embora o hospede anseie por retornar, 

pe?o aguente ficar ate amanha quando os dons 
eu completar. Acondu^ao ocupara os varoes 
todos, mormente a mim, de quern e o poder na cidade”. 
Respondendo, disse-lhe Odisseu muita-astucia: 

355 “Poderoso Alcinoo, insigne entre todos os povos, 
se ordenasses que eu ate um ano aqui ficasse, 
instigasses a condusao e desses radiantes dons, 
ate disso eu gostaria, e seria bem mais vantajoso 
com a mao mais c he ia voltar a cara patria; 

360 tambem mais respeitado e caro aos varoes eu seria, 
a todos quantos me vissem a Itaca retornar”. 

Aele, por sua vez, Alcinoo respondeu e disse: 

“Odisseu, ao te mirar, de ti nao supomos 
que sejas trapaceiro e furtivo, tal como muitos 
365 que a negra terra nutre, homens em profusao, 
que forjam mentiras cuja fonte ninguem veria. 

Tua e a formosura das palavras, tens juizo distinto, 
e contaste a historia, habil, como um cantor, 
funestas agruras dos argivos todos e de ti mesmo. 

370 Mas vamos, dize-me isto e conta com precisao, 
se viste companheiros excelsos, esses que contigo 
seguiram ate Ilion e la alcan^aram o fado. 

Bem longa e essa noite, ilimitada, e nao e hora 


de dormir no salao; tu, relata-me feitos prodigiosos. 
375 Ate a divina aurora eu resistiria, se, para mim, 
no salao aguentasses discursar essas tuas agruras”. 
Respondendo, disse-lhe Odisseu muita-astucia: 
“Poderoso Ale moo, insigne entre todos os povos, 
ha hora para muitas historias, e hora para o sono. 

380 Se ainda almejas ouvir, eu nao recusaria falar-te 
de outros fatos ainda mais pungentes que esses, 
agruras de meus companheiros que depois morreram: 
escaparam da triste batalha contra os troianos 
e no retorno pereceram devido a vil mulher. 

385 Entao dispersou, a pura Persefone, 
as almas das bem femininas mulheres 
e achegou-se a alma de Agamemnon, filho de Atreu, 
aflita; em torno, outras reunidas, as que com ele 
na casa de Egisto morreram e alcan^aram o fado. 

390 Reconheceu-me logo ao ver-me com os olhos; 
choro agudo, verteu copiosas lagrimas, 
abrindo os brafos para mim com gana de abrasar. 

Mas sua for?a nao era mais firme nem o vigor 
como no passado fora sobre os membros recurvos. 

395 Quando eu o vi, chorei e apiedei-me no animo, 
e, falando, dirigi-lhe palavras plumadas: 

‘Majestoso filho de Atreu, rei de varoes, Agamemnon, 
que sina, que morte dolorosa te subjugou? 

Estavas numa nau, e subjugou-te Poseidon, 

400 apos instigar sopro nao invej avel de ventos dificeis? 
Varoes hostis causaram-te dano em terra firme, 
ao quereres roubar bois ou belos rebanhos de ovelhas? 
Ou entao lutavas por uma cidade e mulheres?’. 

Assim falei, e ele, logo respondendo, disse-me: 

405 ‘Divinal filho de Laerte, Odisseu muito-truque, 
nao estava numa nau, nem subjugou-me Poseidon, 
apos instigar sopro nao invej avel de ventos dificeis; 


nem varoes hostis causaram-me dano em terra firme, 
mas Egisto preparou o quinhao da morte 
410 e matou-me com a nefasta esposa, apos me chamar a casa, 
depois do banquete, como quern mata boi no cocho. 

Morri de morte deploravel; ao redor, outros companheiros, 
sem cessar, foram mortos como porcos dente-branco 
na casa de rico varao que muito possui, 

415 quando de casamento, festa ou farta celebragao. 

Ja encaraste a matan?a de muitos varoes, 
mortos em luta singular e tambem em batalha audaz; 
mas isto tendo visto, lamentarias demais no animo, 
como em volta das anforas e das mesas cheias 
420 jaziamos no salao, e todo o chao fumegava com sangue. 
Pungentissima, ouvi a vozda filha de Priamo, 

Cassandra, a quern matou Clitemnestra astucia-ardilosa 
em volta de mim; eu sobre a terra ergui os bra 90 s 
e lancei-os ao morrer pela espada. Acara-de-cadela 
425 afastou-se e, mesmo eu indo ao Hades, nao ousou, 

com as maos, cerrar meus olhos e pressionar-me a boca. 
Assim, nada e mais terrlvel e canalha que a mulher, 
aquela que, em seu julzo, lan?a tais feitos: 
tal foi o feito, ultrajante, que aquela armou 
430 ao preparar a morte do marido legitimo. Eu supus 
que daria felicidade a meus filhos e escravos 
ao chegar em casa; ela, versada no funesto, 
verteu vergonha sobre si e as gerafoes futuras 
das bem femininas mulheres, ainda que uma seja honesta’. 
435 Assim falou, e eu, respondendo, lhe disse: 

‘Inc rive 1, por certo a estirpe de Atreu Zeus ampla-visao 
odiou desde o inicio usando femininas artimanhas; 
por causa de Helena, muitos de nos perecemos, 
e para ti, quando longe, Clitemnestra armou um ardil’. 

440 Assim falei, e ele, logo respondendo, me disse: 

‘Por isso agora nao sejas meigo com a esposa 


e nao lhe reveles todo o discurso que bem conheces, 
mas diga-lhe algo, e o resto mantenha oculto. 

Mas nao para ti, Odisseu, a morte vira da mulher: 

445 deveras sensata, proj etos conhece bem no j uizo 
a filha de Icario, a bem-ajuizada Penelope. 

De fato, recem-casada, nos a largamos 
ao ir para a guerra; seu filho estava no peito, 
infante, ele que agora ocupa lugar entre os vardes, 

450 afortunado; sim, a ele o caro pai vera ao voltar, 
e ele ao pai abrasara, o que e a norma. 

Minha esposa, nem que de meu filho com os olhos 
me fartasse, permitiu; antes a mim mesmo matou. 

Outra coisa te direi, e tu, em teu juizo, a guarda: 

455 em segredo, nao as claras, a tua cara terra patria 
leva a nau, pois nada e confiavel entre as mulheres. 

Mas vamos, dize-me isto e conta, com precisao, 
se ouvistes que algures ainda vive meu filho, 
ou em Orcomenos, ou na arenosa Pilos, 

460 ou junto a Menelau na ampla Esparta: 

nao esta morto, mas sobre a terra, o divino Orestes!’. 

Assim falou, e eu, respondendo, lhe disse: 

‘Filho de Atreu, por que me perguntas isso?Nada sei, 
se esta vivo ou morto; e ruim lanfar ditos ao vento’. 

465 Assim nos dois trocavamos palavras hediondas 
de pe, aflitos, vertendo copiosas lagrimas; 
e achegou-se a alma de Aquiles, filho de Peleu, 
e a de Patroclo e a do impecavel Antiloco, 
e a de Ajax, que em beleza e porte era o melhor 
470 de todos os aqueus depois do impecavel Aquiles. 

Reconheceu-me a alma do pe-ligeiro, descendente de Aiaco, 
e, lamentando-se, dirigiu-me palavras plumadas: 

‘Divinal filho de Laerte, Odisseu muito-truque, 
seu terrivel, que feito ainda maior armaras no juizo? 

475 Como ousaste descer ao Hades, onde os mortos, 


sem o juizo, moram, espectros de mortais esgotados?’. 
Assim falou, e eu, respondendo, lhe disse: 

‘Aquiles, filho de Peleu, de longe o melhor dos aqueus, 
vim por precisar de Tiresias, para que me aconselhe 
480 um piano - como chegar a escarpada Itaca; 
ainda nao me acheguei da Acaia nem a minha 
terra desci, mas sofro sempre. Aquiles, nao ha varao 
mais ditoso que tu no passado nem no futuro, 
pois antes, vivo, a ti honravamos como aos deuses, 

485 nos, argivos, e agora reges, soberano, entre os mortos 
aqui: assim, tendo morrido, nao te aflijas, Aquiles’. 
Assim falei, e ele, logo respondendo, disse-me: 

‘Nao me edulcores a morte, ilustre Odisseu. 

Preferiria, vivente, ser empregado em outro lugar, 

490 junto a homem sem gleba e com poucos viveres, 
a reger entre todos os mortos desassomados. 

Vamos, narra-me uma historia de meu filho ilustre: 
ou foi a guerra para se destacar, ou nao foi. 

E me fala do impecavel Peleu, se de algo soubeste: 
495 ou ainda mantem honraria entre os muitos mirmidoes 
ou o desonram pela Helade e por Ftia, 
pois a idade restringe seus bra?os e pernas. 

Fosse eu seu protetor sob os raios do sol, 
como um dia atuei na ampla Troia, ao matar 
500 gente excelente, defendendo os aqueus. 

Se assim, mesmo curto tempo, fosse eu a casa do pai, 
faria meu impeto e bra?os intocaveis odiados aqueles 
que o violentam e da honraria querem afasta-lo’. 

Isso falou, e eu, respondendo, lhe disse: 

505 ‘Bern, do impecavel Peleu nada soube, 
mas de teu filho, do caro Neoptolemo, 
enunciarei toda a verdade, como me pedes, 
pois eu proprio a ele, em cava nau simetrica, 
conduzi de Skyros ate os aqueus belas-grevas. 


510 Quando diante da urbe troiana pondera vam os pianos, 
sempre por primeiro falava e nao errava no discurso; 
o excelso Nestor e eu, so nos o superavamos. 

Mas ao combatermos no plaino troiano com bronze, 
nunca na multidao ficava nem na tropa de varoes, 

515 mas bem a frente corria com Impeto sem rival; 
muitos varoes matou na refrega terrivel. 

Todos eu nao vou anunciar nem nomear, 
quanta gente matou, defendendo os argivos, 
so como matou o filho de Telefo com bronze, 

520 o heroi Euripilo, e muitos companheiros com ele, 
ceteus, pereceram por causa de dons femininos. 

Ele foi o mais belo que vi apos o divino Mem non. 

Mas quando subimos no cavalo que laborara Epeu, 
os melhores argivos, e tudo foi ordenado por mim, 

525 quando abrir a arguta tocaia e quando fecha-la, 
nisso os outros lideres e dirigentes danaos 
la grim as enxugavam, e seus membros tremiam embaixo. 
Ele nunca, de modo algum, eu vi com meus olhos 
nem empalidecer na bonita pele nem da face 
530 lagrimas enxugar. Ele amiude me suplicava 
para sail' do cavalo, e agarrava o cabo da espada 
e a pesada lan<;a de bronze, males desejando a troianos. 
Porem, apos saquear a escarpada urbe de Priamo, 
com distinto quinhao e honraria, embarcou na nau, 

535 ileso, nem atingido por bronze agudo, 

nem ferido em com bate mano a mano, o que 
sucede na guerra: Ares enlouquece as cegas’. 

Assim falei, e a alma do pe-ligeiro, descendente de Aiaco, 
partiu a passos largos pelo prado de asfodelos 
540 com j ubilo, pois seu filho eu disse ser insigne. 

E as outras almas de defuntos finados, 

de pe, aflitas, inquiriam, cada uma, suas agruras. 

Sozinha, a alma de Ajax, filho de Telamon, 


postou-se distante, enraivecida pela vitoria 
545 quando eu o venci, ao pleitear, j unto as naus, 
as armas de Aquiles; fixou-as a senliora sua mae, 
e filhos de troianos e Palas Atena julgaram. 

Tomara nao tivesse eu vencido essa disputa: 
por causa delas, a terra se apossou de notavel pessoa, 
550 Ajax, que na aparencia e nos feitos sobrepuj ou 
os outros danaos logo atras do impecavel Aquiles. 

E a ele me dirigi com palavras amaveis: 

‘Ajax, filho do impecavel Telamon, nao irias, 
nem morto, esquecer a raiva contra mim pelas armas 
555 nefastas? Deuses tornaram-nas desgra 9 a aos argivos. 
Como torre para eles, pereceste; os aqueus por ti, 
igual a cabe?a de Aquiles, filho de Peleu, 
afligiram-se sem parar ao faleceres. Nenhum outro 
6 responsavel, mas Zeus a tropa de lanceiros danaos 
560 odiou de forma terrivel e para ti fixou o destino. 

Mas vem aqui, senhor, para escutares palavras 
nossas: subjuga o impeto e o animo orgulhoso’. 

Assim falei, ele nada retrucou e foi atras de outras 
almas rumo ao Erebo de defuntos finados. 

565 Podia, porem, ter falado, mesmo com raiva, e eu a ele 
mas meu animo quis, no caro peito, 
enxergar as almas dos outros mortos. 

Vi Minos, o filho radiante de Zeus, 
com cetro dourado aplicando as normas aos mortos, 
570 sentado; cercando-o, pediam do senhor as senten^as, 
sentados e de pe, pela casa de Hades com largo portao. 
Depois dele, percebi o portentoso Orion 
agrupando feras pelo prado de asfodelos, 
as que ele mesmo matou em montanhas solitarias, 

575 com estaca toda bronzea nas maos, inquebravel. 

E Titio enxerguei, o filho da majestosa Terra, 
jazendo no solo, sobre nove medidas de campo arado, 


e dois abutres, sentados de cada lado, rasgavam seu figado, 
furando o peritonio; ele nao se defendia com as maos. 

580 Tentou violentar Leto, a majestosa consorte de Zeus, 
indo ela a Pito apos cruzar o Panopeu belas-arenas. 

E, sim, vi Tantalo com seu duro sofrimento, 
de pe na lagoa; a agua batia em seu queixo. 

Na posi 9 ao do sedento, para beber nao a alcanfava: 

585 quando o anciao se curvava, com gana de beber, 
nisso a agua sumia, engolida, e em volta dos pes 
surgia a negra terra, e a divindade deixava-a seca. 

Arvores copa-elevada deitavam frutos do topo, 
pereiras, romazeiras, macieiras fruto-radiante, 

590 figueiras doces e oliveiras verdej antes; 

quando o anciao se esticava para as pegar com as maos, 
o vento as arrojava rumo a nuvem umbrosa. 

E, sim, vi Sisifo com seu duro sofrimento, 
carregando pedra portentosa com as duas maos. 

595 Ele, apoiando-se nas maos e nos pes, 

empurrava a pedra morro acima; mas quando ia 
lan<;a-la por sobre o cume, Crataiis a revolvia; 
entao de volta ao solo, rolava a rocha aviltante. 

Mas ele de novo a empurrava, retesando-se, suor 
600 escorria dos membros, e poeira lan<;ava-se da cabe 9 a. 
Depois dele, percebi a for 9 a de Heracles, 
o espectro, pois ele mesmo, entre deuses imortais, 
deleitava-se em festas com Juventude linda-canela, 
filha do grande Zeus e de Hera sandalia-dourada. 

605 A volta dele, estridulo de mortos, como se de aves, 
terrorizados para todo lado; feito noite liigubre, 
trazia seu arco nu e, na corda, a flecha, 
esquadrinhando, fero, sempre como se fosse atirar; 
aterrorizante, no peito, em diagonal, talabarte, 

610 cinturao dourado com obras maravilhosas, 
ursos, porcos agrestes, leoes de olhar cob^oso, 


batalhas, combates, matan?as e carnificinas. 

Que o artesao nao tenha artefatado outro assim, 
esse que tal cinturao colocou sob a sua arte! 

615 Presto me reconheceu, ao ver-me com os olhos, 
e, lamentando-se, dirigiu-me palavras plumadas: 

‘Divinal filho de Laerte, Odisseu muito-truque, 
coitado, tambem arrastas um danoso quinhao, 
o que eu mesmo suportava sob os raios do sol. 

620 Eu era o filho de Zeus, filho de Crono, mas sofria 
ilimitada agonia: muito tempo fui subordinado 
a heroi bem mais fraco, que me impos duras provas. 

Uma vez tambem ca me enviou para levar o cao: nenhuma 
outra prova, pensou, me seria mais brutal. 

625 Ao cao eu venci e conduzi para fora do Hades; 

Hermes me guiou, e tambem Atena olhos-de-coruja’. 

Apos falar, a alma entrou de volta na casa de Hades, 
mas eu la fiquei, imovel, caso algum ainda viesse 
dos varoes herois que no passado morreram. 

630 Teria ainda visto os varoes de antanho que desejava, 

Teseu e Peiritoo, filhos bem majestosos de deuses; 
mas grupos de mortos, milhares, perto juntaram-se 
com ruido prodigioso: um medo amarelo atingiu-me, 
que a cabe?a de Gorgo, portento assombroso, 

635 da casa de Hades me enviaria a ilustre Persefone. 

Entao de pronto fui a nau e pedi aos companheiros 
que embarcassem e os cabos soltassem. 

Eles logo embarcaram e sentaram-se junto aos cal<;os; 

638 a alinhados, golpeavam o mar cinzento com remos. 

A nau ao longo do rio Oceano a corrente conduzia, 

640 primeiro com remadas, e depois, bela brisa. 



5 

10 

15 

20 

25 

30 


“Depois de deixar a corrente do rio oceano, 
a nau alcanfou a onda do mar larga-passagem 
e a ilha de Aiaie, onde de Aurora nasce-cedo 
ficam arenas e morada, e os levantes de Sol; 
dirigimo-nos para la, atracamos na praia 
e desembarcamos na rebenta?ao do mar. 

La adormecemos e aguardamos a divina Aurora. 

Quando surgiu a nasce-cedo, Aurora dedos-roseos, 
entao enviei companheiros a casa de Circe 
para buscar o cadaver, o morto Ilusorio. 

Cortamos os troncos, onde a praia e mais saliente, 
e o enterramos, angustiados, vertendo copiosas lagrimas. 
Apos queimar o morto e as armas do morto, 
erguemos um cenotafio; sobre ele arrastamos 
uma lapide, e no topo cravamos o remo maneavel. 

Tudo realizamos em sequencia; eis que Circe 
nao ignorou nossa volta do Hades e ligeiro 
veio, apos arrumar-se: com ela, criadas traziam 
pao, muita carne e fulgente vinho tinto. 

Ela, postada no centro, falou, a deusa divina: 

‘Terriveis, vos que vivos descestes a casa de Hades, 
homens bimortos, quando os demais so uma vezmorrem. 
Mas vamos, consumi a comida e bebei o vinho 
aqui mesmo o dia todo: despontando a aurora, 
navegareis. E eu irei a rota indicar e tudo 
sinalizar, para que, vitima de tramoia pungente, 
no mar ou em terra, nao padeceis sofrendo miseria’. 
Assim falou, e obedeceu nosso animo orgulhoso. 

Entao, o dia inteiro ate o por do sol, assim 
ficamos, compartilhando carne sem-fim e doce vinho. 
Quando o sol mergulhou e vieram as trevas, 
eles deitaram-se ao longo da popa da nau; 
ela tomou-me a mao, longe dos caros companheiros 
me acomodou, deitou-se ao lado e interrogou-me; 


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e eu tudo a ela, ponto por ponto, contei. 

Entao a mim dirigiu-se com palavras a senhora Circe: 
Tudo isso foi assim completado; agora ouve 
como te digo, e o proprio deus te lembrara. 

Primeiro alcan9aras as Sirenas, elas que a todos 
os homens enfeiti^am, todo que as alcan?ar. 

Aquele que se achegar na ignorancia e escutar o som 
das Sirenas, para ele mulher e crian?as pequenas nao mais 
aparecerao nem rejubilarao com seu retorno a casa, 
pois as Sirenas com canto agudo o enfeiti^am, 
sentadas no prado, tendo ao redor monte de putrefatos 
ossos de varoes e suas peles ressequidas. 

Passa ao largo e tampa os ouvidos dos companheiros 
com amolecida cera melosa, para que nenhum 
outro as 0119a; mas tu mesmo, se quiseres, ouve 
apos te prenderem as maos e os pes na nau veloz, 
reto no m astro, e nele se amarrarem os cabos, 
para que te deleites com a vozdas duas Sirenas. 

Se suplicares aos companheiros que te soltem, 
que eles com ainda mais la90s te prendam. 

Apos os companheiros te guiarem ao largo delas, 
dessa vez, nao mais te direi com detalhes 
qual das rotas sera a tua, mas tu mesmo, 
no animo, considera; vou te falar das duas didoes. 
Apartir dai ha roc has salientes, e, contra elas, 
ressoa grande vaga de Anfitrite olho-cobalto; 

Planctas, ve, denominam-nas os deuses ditosos. 

Por la nenhum alado consegue passar, nem pombos 
timidos, os que levam ambrosia a Zeus pai; 
a um deles a rocha lisa sempre agarra, 
mas outro o pai envia para completar o numero. 

Por la nunca escapou nau de varoes, uma que fosse: 
tabuas de naus mescladas a corpos de herois, 
ondas do mar e rajadas de fogo maligno as levam. 


So navegou por ai aquela nau cruza-mar, 

70 Argo, por todos conhecida, navegando desde Aietes; 
presto a teriam lan9ado contra as grandes rochas, 
mas Hera a guiou, pois que Jasao the era caro. 
Encontraras dois penedos: um alcanna o largo paramo 
e tern o pico agudo envolvido por nuvem 
75 cobalto; esta nunca fenece, e nunca o ceu 

cobre seu pico, nem no verao nem na epoca de frutas. 
Nao o subiria um varao mortal nem percorreria, 
nem se vinte bra90s e pernas tivesse: 
a pedra e lisa, semelhante a uma bem-polida. 

80 No meio do penedo ha uma gruta penumbrosa, 
voltada para oeste, rumo ao Erebo, e vos junto dela 
dirigire is a cava nau, ilustre Odisseu. 

Da concava nau nem um varao animoso, 
com arco flechando, alcan9aria a cava gruta. 

85 E ai que mora Cila de latido assombroso. 

Sua voz ao ladrar de um filhote de cao 
equivale, mas ela mesma e portento vil; ninguem 
se jubilaria ao ve-la, nem mesmo um deus. 

Ela tem doze pes, todos sem panturrilha, 

90 e seis sao os pesco90s bem longos, e, em cada um, 
uma aterrorizante cabe9a com dentes em tres fileiras, 
cerrados e multiplos, cheios de negra morte. 

Ate a metade na cava gruta esta embrenhada, 
e mantem as cabe9as fora da furna assombrosa; 

95 la mesmo pesca, em volta do penedo, buscando 
delfins, focas e, se acaso pega, maior 
portento, dos que, milhares, cria Anfitrite alto-gem ido. 
Nunca se ouviram nautas, incolumes, proclamar 
ter escapado com a nau; leva, em cada cabe9a, 

100 um heroi, apos arranca-lo da nau proa-cobalto. 

O outro penedo veras que e mais raso, Odisseu, 
os dois proximos entte si, a distancia de uma flecha. 


Nele ha uma grande figueira, abundante em folhas; 
abaixo dela, a divina Caribdis sorve negra agua. 

105 Tres vezes esguicha ao dia, tres vezes sorve, 

assombrosa: que la nao te encontres durante o sorvo; 
do mal nao te protegeria nem mesmo o treme-solo. 

Rapido, do penedo de Cila bem achegando 
a nau, passa ao largo, pois e muito melhor 
110 lastimar da nau seis companheiros que todos j untos’. 

Assim falou, mas eu a ela, terrorizado, disse: 

‘Vamos, deusa, diga-me sem evasivas 
se acaso poderia esquivar-me da nefasta Caribdis 
e resistir a outra quando ela tentar lesar meus companheiros’. 
1 15 Assim falei, e ela logo respondeu, deusa divina: 

‘Terrivel! Nao e que os feitos marciais te ocupam tanto, 
o labor, que nao te submetes a deuses imortais? 

Ela nao e mortal, ve, mas um mal imortal, 
assombrosa, aflitiva, selvagem e indomavel; 

120 nao e caso de bravura: o melhor e dela fugir. 

Se te demoras, armado, junto a pedra, 

temo que, de novo atacando, a ti alcance, 

as cabe9as todas, e agarre numero igual de herois. 

Mas passa com todo impeto, grita por Crataiis, 

125 a mae de Cila, que a gerou como desgra?a aos mortais. 

Ela entao a impedira de atacar uma segunda vez. 

E a ilha de Trinacia chegaras; la muitas 
vacas de Sol e ovelhas robustas pastam. 

Sete rebanhos de vacas h&, e tantos de be las ovelhas, 

130 cada um com cinquenta. Elas nao tern descendentes 
e nunca sogobram. Divinas sao as pastoras, 
ninfas belas-tran9as, Luzidia e Brilhosa, 
essas que a divina Neaira gerou para Sol Hiperion, 
e a elas, apos nutrir e gerar, a senhora mae 
135 transladou a ilha de Trinacia para longe morarem 
e vigiarem as ovelhas paternas e as vacas lunadas. 


Se as deixares intactas e cuidares do retorno, 
tambem Itaca, mesmo sofrendo males, alcan9arieis; 
se as lesares, entao prevejo-te o fim - 
140 de barco e companheiros. Tu mesmo, se escapares, 
chegaras tarde, mal, apos perder todo companheiro’. 

Assim falou, e logo veio Aurora trono-dourado. 

Ela, entao, para dentro da ilha partiu, divina deusa; 
mas eu fui de volta a nau e pedi aos companheiros 
145 que entrassem e os cabos soltassem. 

Eles logo embarcaram e sentaram-se junto aos cal^os 
e, alinhados, golpeavam o mar cinzento com remos. 

Para nos, detras da nau proa-cobalto, soprava, 
nobre companheira, benigna brisa enche-vela, que enviara 
150 Circe belos-cachos, fera deusa de humana voz. 

De pronto, apos cuidar de cada cordame na nau, 
sentamos, e vento e timoneiro a dirigiam. 

Entao aos companheiros disse, aflito no corafao: 

153 a ‘Ouvi meu discurso, companheiros, mesmo sofrendo. 
Amigos, nao carece que so um ou dois conhe9am 
155 os ditos divinos que Circe me anunciou, deusa divina. 

Assim eu falarei, para que, cientes, ou morramos 
ou, evitando a perdifao da morte, escapemos. 

Das Sirenas prodigiosas, primeiro, mandou 
que evitemos sua voze o prado florido. 

160 Mandou ainda que so eu a voz ouvisse; pois a mim, 

com no apertado prendei, para, imovel, eu ai mesmo quedar, 
reto no mastro, e nele fiquem amarrados os cabos. 

Se eu vos suplicar e solicitar que me soltem, 
que entao vos com mais la90s me amarreis’. 

165 Tudo isso relatei e expus aos companheiros; 
nisso a nau engenhosa, celere, alcan90u 
a ilha das Sirenas; uma brisa favoravel a impelia. 

Logo depois o vento parou, uma calmaria 
surgiu sem ventos, e a divindade amainou as ondas. 


170 De pe, companheiros enrolaram a vela da nau. 

Puseram-na na cava nau e eles, junto aos remos 
sentados, branquearam a agua com os pinhos polidos. 

E eu a um grande naco de cera, com bronze afiado, 
fragmentei e apertava com maos robustas. 

175 Logo a cera amoleceu, pois impeliu-a a grande pressao 
e o raio de Sol, o senhor Hiperion; 
tampei os ouvidos de cada um dos companheiros. 

Na nau, prenderam-me maos e pes, por igual, 
re to no m astro, e nele amarraram os cabos; 

180 sentados, golpeavam o mar cinzento com remos. 

Mas quando est£vamos a distancia de um grito, 
rapido viajando, elas nao ignoraram a nau saltadora 
surgir proxima, e deram vazao a canto agudo: 

‘Vem ca, Odisseu muita-historia, grande gloria dos aqueus, 
185 ancora tua nau para ouvires nossa voz. 

Nunca ninguem passou por aqui, em negra nau, 
sem antes ouvir a meliflua vozque vem de nossa boca; 
mas ele se deleita e parte com mais saber. 

De fato, sabemos tudo que, na extensa Troia, 

190 aguentaram argivos e troianos por obra dos deuses. 

Sabemos tudo que ocorre sobre a terra nutre-muitos’. 

Assim falaram, lan9ando belissima voz: Meu cora9ao 
quis ouvir, e num movimento das celhas 
solicitei aos companlieiros que me soltassem; eles remavam. 
195 De pronto, ergueram-se Perimedes e Euriloco, 
e com mais la90s prenderam-me e apertaram bem. 

Depois que por elas passamos, entao nem mais 
ouvimos o tom das Sirenas nem seu canto, 
e presto meus leais companheiros retiraram a cera 
200 que tarn para seus ouvidos, e soltaram-me dos la90S. 

Quando deixamos essa ilha, logo depois 
vi fuma9a e grande onda, e escutei um rugido. 

Eles se assustaram, voaram os remos das maos 


e todos atroaram na corrente; parou la mesmo 
205 a nau, e bra?os nao raais raoviam os remos propulsores. 
Eu, cruzando a nau, instigava os companheiros 
com fala amavel, achegando-me a cada homem: 
‘Amigos, por certo nao somos inexpertos em males. 

Este mal, vede, nao e maior que quando o ciclope 
210 prendeu-nos na cava gruta com violencia brutal; 

mas tambem la, com minha excelencia, piano e mente, 
escapamos, e creio que disso lembraremos. 

Mas vamos, o que eu falar, obede9amos todos. 

Com os cabos, golpeai a profunda rebentafao do mar, 

2 1 5 sentados j unto as correias, esperando Zeus 

conceder que evadamos e escapemos desse fim; 
e para ti, timoneiro, isto imponho, e no animo 
langa-o, pois controlas o leme da cava nau: 
a nau, afasta para longe daquela fuma?a e da onda, 

220 busca o penedo, e que a nau de ti nao escape, 
mudando de rumo, e nos lances no mal’. 

Assim falei, e presto obedeceram minhas palavras. 

De Cila nao mais falei, flagelo invencivel, 
para que, temerosos, os companheiros nao abdicassem 
225 da remada e se abrigassem a si mesmos. 

E entao a ordem pungente de Circe 
negligenciei, pois pedira que nao me armasse; 
eu entrei na armadura gloriosa e duas lan9as 
grandes peguei nas maos e subi na plataforma da nau, 
230 na proa: ai esperei que primeiro surgisse 

Cila rochosa, que trazia desgra9a aos companheiros. 
Nenhures pude vislum bra-la, e meus olhos cansaram, 
esquadrinhando em toda dire9ao a rocha embaciada. 

E nos, entre lamenta9oes, navegavamos o estreito: 

235 de um lado, Cila, de outro, a divina Caribdis, 
terrivel, sorvia agua salina do mar. 

Quando regurgitava, como caldeirao em fogo alto, 


efervescia toda, agitada, e, para o alto, a espuma 
tombava sobre os picos dos dois penedos. 

240 Mas quando engolia agua salina do mar, 

para dentro aparecia inteira, agitada, e ao redor as rochas 
fremiam, terriveis, e embaixo surgia a terra 
cobalto com areia; e um medo amarelo atingiu-os. 

Nos a miramos, temendo o fim; 

245 entao Cila, da concava nau, tomou-me 

seis companheiros, nos bra?os e for9a os melhores. 
Quando fitei a nau veloze tambem os companheiros, 
ja vislumbrei seus pes e bragos acima, 
al^ados ao alto; e gritavam, chamando-me 
250 pelo nome, a ultima vez, aflitos no cora^ao. 

Como quando, de um cabo, pescador com longa vara 
langa petiscos como isca a peixes miudos, 
ao mar arremessa um chifre de boi campestre, 
fisga um peixe, puxa-o para fora e ele se convulsiona - 
255 assim eles, convulsionando-se, eram al9ados a rocha. 

La na entrada devorou-os enquanto guinchavam, 
e estendiam os bra90s a mim em terrivel refrega. 

Foi a mais deploravel cena que vi com meus olhos, 
de tudo que aguentei, cruzando as rotas do mar. 

260 Mas apos dos rochedos escaparmos, da fera Caribdis 
e de Cila, logo depois a impecavel ilha do deus 
chegamos; la estavam as belas vacas larga-fronte 
e muitas ovelhas robustas de Sol Hiperion. 

Entao, quando eu ainda estava no mar, da negra nau 
265 ouvi o mugido de vacas sendo encurraladas 

e o balido das ovelhas; e em meu animo caiu a palavra 
do adivinho cego, o tebano Tiresias, 
e de Circe de Aiaie, que, com insistencia, me ordenou 
evitar a ilha de Sol deleita-mortal. 

270 Entao aos companheiros disse, aflito no cora9ao: 

‘Ouvi meu discurso, companheiros, mesmo sofrendo, 


pois vos direi os ditos profeticos de Tiresias 
e de Circe de Aiaie, que com insistencia me ordenou 
evitar a ilha de Sol deleita-mortal: 

275 dizia la estar o mais terrivel mal para nos. 

Vamos, ao largo dessa ilha guiai a negra nau\ 

Assim falei, e de cada um o cora^ao se rachou. 

Logo Euriloco respondeu com hediondo discurso: 

‘Es terrivel, Odisseu; teu impeto sobeja, teus membros 
280 nunca cansam; e de supor seres todo de ferro, 

tu que a companheiros extenuados por sono e fadiga 
nao permites desembarcar em terra, onde de novo, 
na ilha correntosa, fariamos saborosa refeifao, 
mas pedes que erremos em vao na noite veloz, 

285 vagando para longe da ilha no mar embafado. 

A noite, duros ventos, destro?adores de naus, 
ocorrem; para onde alguem fugiria do abrupto fim, 
se acaso de chofre viesse rajada de vento, 
de Noto ou do revolto Zefiro, os que mais 
290 despedafam naus, a revelia dos senhores deuses? 

Mas agora por certo obede9amos a negra noite 
e preparemos o jantar, aguardando junto a nau veloz; 
na aurora embarcando, nos a lan9aremos ao amplo mar’. 
Isso falou Euriloco, e aprovaram os demais companheiros. 
295 Entao percebi que a divindade armava males 
e, falando, dirigi-lhe palavras plumadas: 

‘Euriloco, deveras for9ai-me, eu sendo um so. 

Vamos, agora jurai-me todos vigoroso juramento: 
se um rebanho de vacas ou grande tropa de ovelhas 
300 acharmos, que ninguem, com iniquidade vil, 
mate uma vac a ou ovelha; tranquilos, 
comei o alimento que deu Circe imortaF. 

Assim falei, e eles logo juraram como eu pedi. 

E apos j urar por complete esse j uramento, 

305 ancoramos em porto cavo a nau engenhosa, 


perto de agua doce, e os companheiros desceram 
da nau, e depois prepararam o jantar com destreza. 

E apos apaziguar o desejo por bebida e comida, 
choravam ao lembrar-se dos caros companheiros, 

310 os que Cila comeu, pegando-os da cava nau; 
enquanto choravam, veio-lhes sono prazeroso. 

No ter 90 final da noite, findo o periplo dos astros, 

Zeus junta-nuvens instigou vento bravio 
com prodigiosa tempestade e, com nuvens, encobriu 
315 terra e mar por igual; e a noite desceu do ceu. 

Quando surgiu a nasce-cedo, Aurora dedos-roseos, 
puxamos o barco e o levamos a cava gruta; 
la ha via be las arenas e assentos de ninfas. 

Entao eu, realizando assembleia, disse entre eles: 

320 ‘Amigos, como na nau velozha comida e bebida, 
fiquemos longe daquelas vacas para nao sofrermos; 
essas vacas e robustas ovelhas sao de fero deus, 
de Sol, que tudo enxerga e tudo ouve 
Assim falei, e de todos convenci o animo orgulhoso. 
325 Mes inteiro, incessante, Noto soprou, e nenhum outro 
vento surgiu depois, exceto Euro e Noto. 

Enquanto tinham pao e vinho tinto, 
distanciaram-se das vacas, almejando seu sustento. 
Mas quando toda a comida da nau esgotou-se, 

330 e, errantes, por necessidade acossavam presas, 
peixes e aves, o que lhes chegasse as maos, 
com anzois recurvos, e a fome torturava o estomago, 
nisso parti para dentro da ilha, para aos deuses 
rogar, esperando que um me mostrasse a rota de volta. 
335 Quando, dentro da ilha, escapei dos companheiros, 
apos lavar as maos onde ha via prote^ao contra o vento, 
rezei a todos os deuses que do Olimpo dispoem; 
e eles vertiam doce sono sobre minhas palpebras. 

E Euriloco, entre os companheiros, iniciou piano vil: 


340 ‘Ouvi meu discurso, companheiros, mesmo sofrendo. 

Ha muitas raortes hediondas para os pobres mortais, 
e o mais deploravel e morrer, achar o fado, de fome. 

Mas vamos, toquemos as melhores vacas de Sol 
e sacrifiquemos aos deuses, que do largo paramo dispoem. 
345 E se chegarmos a Itaca, a terra patria, 
de imediato a Sol Hiperion ergueremos 
templo rico, onde poremos oferendas, muitas e valiosas. 

E se, enraivecido pelas vacas chifre-reto, 
ele quiser destruir a nau, e o apoiarem os demais deuses, 
350 prefiro de uma vez, boca aberta na onda, perder a vida 
a fenecer longo tempo numa ilha deserta’. 

Isso falou Euriloco, e aprovaram os demais companheiros. 
De imediato, tocaram as melhores vacas de Sol 
das cercanias, pois nao longe da nau proa-cobalto 
355 pastavam as lunadas, belas vacas larga-fronte; 
a essas cercaram e oraram aos deuses, 
apos colher delicadas folhas de carvalho alta-copa, 
pois nao tinham branca cevada na nau bom-conves. 

E depois de orar, degolar e esfolar, 

360 deceparam as coxas e com gordura as encobriram, 
camada dupla, e sobre elas puseram pe?as cruas. 

Sem vinho para aspergir no chamejante sacrificio, 
libavam com agua e assavam todas as visceras. 

Mas apos queimarem coxas e comerem visceras, 

365 trincharam o restante e transpassaram em espetos. 

Nisso o sono prazeroso abandonou minhas palpebras, 
e me encaminhei a nau veloze a orla do oceano. 

Quando estava perto da nau ambicurva, 
circundou-me o doce odor de gordura. 

370 Com um clamor, entre os deuses imortais fiz-me ouvir: 
‘Zeus pai e outros ditosos deuses sempre-vivos, 
deveras para a ruina me adormecestes em sono impiedoso, 
e os companheiros, a espera, armaram grande feito’. 


Rapido ate Sol Hiperion foi o mensageiro, 

375 Brilhosa peplo-bom-talhe, pois matamos as vacas dele. 
Logo aos imortais falou, irado no cora9ao: 

‘Zeus pai e outros ditosos deuses sempre-vivos, 
puni os companheiros de Odisseu, filho de Laerte, 
que, brutais, mataram-me as vacas, elas que a mim 
380 dao alegria quando vou ao paramo estrelado 
e quando me dirijo do ceu de volta a terra. 

Se nao me pagarem compensa9ao devida, 
descerei ao Hades e brilharei entre os mortos’. 

Em resposta, disse-lhe Zeus junta-nuvens: 

385 ‘Sol, quanto a ti, brilha para os imortais 
e humanos mortais sobre o solo fertil; 
ja eu, rapido, posso lan9ar um raio cintilante 
na nau veloz, e estilha9a-la no meio do mar vinoso’. 
Pois isso eu ouvi de Calipso belas-tran9as; 

390 e ela disse ter ouvido do condutor Hermes. 

Quando desci ate a nau e o mar, pus-me a ralhar 
com cada um, mas remedio algum 
conseguimos achar: as vacas ji estavam mortas. 

Logo os deuses exibiram-lhes um prodigio: 

395 as peles caminhavam, as carnes nos espetos mugiam, 
cozidas ou cruas; e o som era como o das vacas. 

Por seis dias entao meus leais companheiros 
banquetearam-se, tocando as melhores vacas de Sol; 
quando o setimo dia fixou Zeus, filho de Crono, 

400 entao o vento parou de correr com a tempestade, 
e nos logo embarcamos e lan9amo-la ao amplo mar, 
apos erguer o mastro e as brancas velas i9ar. 

Mas quando deixamos a ilha, nenhuma outra 
terra apareceu, exceto o paramo e o mar, 

405 e entao nuvem cobalto pos o filho de Crono 

sobre a cava nau, e o mar escureceu abaixo dela. 

Ela nao correu muito mais tempo; rapido veio, 


guinchando, Zefiro, correndo com grande tempestade. 
Arajada de vento rasgou os estais do m astro, 

410 ambos, o mastro caiu para tras e todo cordame 
tombou no porao; eis que ele, na popa da nau, 
golpeou a cabe 9 a do timoneiro e despedapou os ossos 
todos da cabe?a: semelhante a urn mergulhador, 
caiu da plataforma, e o animo orgulhoso deixou os ossos. 

415 Zeus trovej ou e j unto lan<pou um raio sobre a nau; 
ela inteira sacolejou, golpeada pelo raio de Zeus, 
e de enxofre se encheu: e os companheiros cairam da nau. 
Aeles, quais corvos-marinhos, em volta da negra nau 
as ondas levavam, e o deus negou-lhes o retorno. 

420 Ja eu perambulava pela nau, ate que uma onda 
soltou as tabuas da quilha; essa, nua, a vaga levava. 

E uma onda arrancou o mastro e arremessou-o contra a quilha 
mas nele pendurava-se o patarras, feito de pele bovina. 

Com ele, ambos juntei, quilha e mastro, 

425 e, sentado sobre eles, fui levado por ventos ruinosos. 

Nisso Zefiro parou de correr com a tempestade, 
e rapido veio Noto, trazendo afl^des ao meu animo: 
para que ainda medisse a destrutiva Caribdis. 

Por toda a noite fui levado, e ao nascer do sol 
430 cheguei ao penedo de Cila e a fera Caribdis. 

Essa sorvia agua salina do mar; 

mas eu, na grande figueira alfado ao alto, 

nela preso, segurei-me como morcego. Impossivel 

apoiar-me com os pes firmemente ou subir: 

435 as raizes estavam bem longe, os galhos, bem no alto, 
longos e grandes, sombreavam Caribdis. 

Firme me segurei ate ela de volta regurgitar 
mastro e quilha; para mim, ansioso, vieram 
por fim. Na hora em que sai da agora para jantar o varao, 

440 o que j ulga muita contenda de animosos pleiteadores, 
nessa hora de Caribdis surgiram os destro 90 s. 


Deixei que bra9c>s e pernas do alto despencassem, 
e, no meio, ribombei, ao lado da madeira comprida; 
sentado sobre ela, remei com minhas maos. 

445 O pai de varoes e deuses nao mais permitiu que Cila 
eu encarasse, pois nao escaparia de abrupto fim. 

De la, nove dias fui levado, e a mim, na decun a noite, 
da ilha de Oglgia achegaram os deuses, onde Calipso 
mora, a belas-transas, fera deusa com vozhumana, 

450 que me acolhia e zelava. Por que isso te reconto? 

Pois j a ontem te narrei na casa, 
para ti e a altiva esposa; detesto 
de novo recontar o falado por completo”. 



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Assim falou, e todos, atentos, se calaram, 
tornados por feiti^o pelos umbrosos saloes. 

Aele, por sua vez, Alclnoo respondeu e disse: 

“Odisseu, como vieste a minha casa chao-bronzeo, 
grandiosa, por isso creio que, nao vagando de novo, 
de volta retornaras, ainda que muito sofreste. 

Acada um de vos, varoes, dou essa ordem, 
a todos que no meu pal&cio o vinho fulgente 
dos conselheiros sempre bebeis e prestais aten^ao ao cantor: 
roupas para o hospede ja no bau bem-polido 
estao, ouro muito artificioso e todos os outros 
dons que os comandantes feacios ca trouxeram; 
vamos, ofere9amo-lhe grande tripode e caldeirao, 
cada varao; a nos depois, amealhando junto ao povo, 
se retribuira: e duro um so ser generoso de gra?a”. 

Assim falou Alcinoo, e agradou-lhes o discurso; 
eles, para se deitar, voltaram a suas casas. 

Quando surgiu a nasce-cedo, Aurora dedos-roseos, 
a nau apressaram-se e levaram fortificante bronze. 

O sacro impeto de Alcinoo acomodou os objetos 
sob os bancos, ao percorrer a nau; que aos companheiros 
nao estorvassem, ao impulsiona-la com sua remada; 
e foram a casa de Alcinoo e ocuparam-se do banquete. 
Sacrificou-lhes um boi o sacro impeto de Alcinoo 
a Zeus nuvem-negra, o filho de Crono, que a todos rege. 
Queimadas as coxas, partilharam com deleite 
majestoso banquete; e entre eles cantava divino cantor, 
Demodoco, honrado pelo povo. Mas Odisseu 
amiiide dirigia a cabe9a ao sol resplandecente, 
ansioso que se pusesse; sim, tinha gana de retornar. 

Como quando almeja comer o varao cujos bois vinosos, 
o dia todo, pousio acima, tracionam arado articulado; 
ele se alegra ao se por a luzdo sol, 
e hora de jantar, e os joelhos fraquejam quando vai: 


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assim para Odisseu - alegria! - se pos a luzdo sol. 

De pronto entre os feacios navegadores falou 
e, sobretudo a Alcinoo, fezum discurso revelador: 
“Poderoso Alcinoo, insigne entre todos os povos, 
conduzi-me, incolume, apos libarem, e alegrai-vos. 

Pois j a se completou o que meu caro animo queria, 
condugao e caros dons: que esses os deuses celestes 
me tornem afortunados; em casa, a impecavel consorte, 
apos retornar, eu encontre com os meus, ilesos. 

Vos, aqui ficando, regozij ai-vos com as esposas 
lidimas e os filhos; que deuses concedam sucesso 
vario, e que mal algum ocorra na cidade”. 

Assim falou, e todos aprovavam e o incitavam 
a conduzir o hospede, pois falara com adequagao. 

E ao arauto falou o impeto de Alcinoo: 

“Mentenomar, mistura na anfora e distribui o vinho 
a todos no salao, para que, apos rezar a Zeus pai, 
conduzamos o hospede a sua terra patria”. 

Isso dito, Mentenomar misturou vinho adoga-j uizo 
e distribuiu-o a todos, achegando-se; e aos deuses 
ditosos libaram, os que do largo paramo dispoem, 
a partir de seus assentos. E ergueu-se o divino Odisseu, 
nas maos de Arete pos o calice dupla-alga 
e, falando, dirigiu-lhe palavras plumadas: 

“Se feliz, rainha, sem cessar, ate a velhice 
e a morte chegarem: essas aos homens sobrevem. 

Eu estou retornando; tu, nesta casa, te deleita 
com os filhos, o povo e o rei Alcinoo”. 

Isso disse, e sob o umbral marchou o divino Odisseu. 

O impeto de Alcinoo enviou com ele um arauto 
para guia-lo a nau veloze a orla do oceano. 

Eis que Arete enviava escravas mulheres com ele: 
uma, com o manto bem-lavado nas maos e a tunica, 
a outra, com o compacto bau carregado; 


a terceira levava pao e vinho tinto. 

70 E apos descerem ate a nau e o mar, 

logo tudo, toda comida e bebida, depuseram 
os ilustres condutores, apos receber, na cava nau; 
e acomodaram, para Odisseu, manta e linho 
na plataforma da cava nau, para dormir profundo 
75 na popa. Ele mesmo embarcou e deitou-se 

em silencio; eles sentaram-se junto aos calfos, a par, 
em ordem, e o cabo soltaram da pedra furada. 

Quando se reclinaram e com o remo jogaram agua, 
um sono prazeroso cala-lhe sobre as palpebras, 

80 profundo, dulclssimo, de perto semelhante a morte. 

A nau, como um quarteto de cavalos machos no plaino, 
todos juntos instigados por golpes de chicote, 
para cima pulando, efetuam rapido o trajeto - 
assim a sua popa pulava, e onda atr&s, 

85 agitada, grande, aviava-se do mar ressoante. 

Ela, muito segura, corria firme; nem gaviao 
a acompanharia, a mais ligeira das aves. 

Assim ela, rapido correndo, cortou as ondas do mar, 
levando o varao com projetos similares aos dos deuses, 
90 que antes muitas afli?6es sofreu em seu animo, 
cruzando guerras de homens e ondas pungentes; 
agora, sereno, dormia, esquecido do que sofrera. 
Quando o astro ia alto, o mais luzente, que mormente 
vem anunciar a luzde Aurora nasce-cedo, 

95 da ilha achegou-se a nau cruza-mar. 

Ha um porto de Forcis, o anciao do mar, 
na cidade de Itaca. Ai mesmo ha dois salientes 
cabos abruptos, a partir do porto agachando-se. 

Eles rebatem grande onda que ventos bravos 
100 trazem de fora; dentro, sem lasos permanecem 

naus bom-conves, ao atingirem o meio, a ancoragem. 
Ha na cabefa do porto uma oliveira folha-longa, 


e, perto dela, a agradavel caverna brumosa 
consagrada a ninfas chamadas Naiades. 

105 Nela ha anforas e vasos dupla-al^a 

de pedra; la, entao, abelhas fazem colmeias. 

Nela ha teares de pedra bem longos, onde ninfas 
tramam mantos purpura, assombro a visao; 
nela ha aguas permanentes. E tern duas entradas: 

110 uma, do lado de Boreas, os homens podem usar; 
a outra, do lado de Noto, e dos deuses: nunca por ai 
entram os homens, e via dos imortais. 

Nesse porto entraram, conhecendo-o de antemao. Depois, 
a nau aportou em terra firme, mais ou menos ate a metade, 
1 15 ligeiro, pois impelida pela mao de tais remadores. 

Eles da nau firme-banco desembarcaram em terra 
e primeiro ergueram Odisseu da cava nau 
junto com o linho e as mantas lustrosas, 
e puseram-no sobre a areia, dominado pelo sono; 

120 e ergueram os bens, que a ele feacios ilustres 
deram, gra 9 as a animosa Atena, pois ia para casa. 

Assim agruparam tudo ao pe da oliveira, 

fora do caminho, para que homem viajante algum, 

antes de Odisseu acordar, passando, o lesasse; 

125 e eles retornaram para casa. Mas treme-solo 

nao esqueceu as amea 9 as com que ao excelso Odisseu 
antes amea 9 ara, e indagou o designio de Zeus: 

“Zeus pai, eu nunca mais, entre deuses imortais, 
serei honrado, quando a mim mortais nao honram - 
130 justo os feacios, que sao de minha estirpe. 

De fato, pensei que Odisseu muito mal sofreria 
antes de chegar em casa - do retorno nunca o privei 
de todo, desde que tu, primeiro, jura ste e sinalizaste; 
eles o levaram, em nau velozpelo mar, dormindo, 

135 depuseram-no em Itaca e deram-lhe dons incontaveis, 
bronze, ouro a granel, veste tecida, 


muito, o que nem de Troia teria recebido Odisseu, 

ainda que incolume tivesse chegado com sua parte do butim”. 

Respondendo, disse-lhe Zeus junta-nuvens: 

140 “Incrivel, treme-terra amplo-poder, como falaste. 

Por certo nao te desonram os deuses; diflcil seria 
golpear com desonras o mais respeitavel e nobre. 

Ainda que a ti um varao, cedendo a for9a e ao vigor, 
nao honrasse, depois sempre tens a vinganfa. 

145 Fa9a como quiseres e te for caro ao animo”. 

E a ele respondeu Poseidon treme-solo: 

“De imediato eu faria, nuvem-negra, como dizes; 
mas sempre respeito e evito teu animo. 

Agora, porem, quero a bem be la nau dos feacios, 

150 voltando da condu9ao sobre o mar emba9ado, 

golpear, para que cessem afinal e abdiquem da condu9&o 
de homens, e com grande morro encobrir sua urbe”. 
Respondendo, disse-lhe Zeus junta-nuvens: 

“Querido, isto ao meu animo parece ser o melhor: 

155 quando a ela, prestes a atracar, j a mirar todo o povo 
a partir da cidade, torne-a pedra perto da terra, 
semelhante a nau veloz, para se espantarem todos 
os homens, e que morro nao encubra sua urbe”. 

Apos isso escutar, Poseidon treme-solo 
160 pos-se rumo a Esqueria, onde vivem os feacios. 

La aguardou; e ela bem perto chegou, a nau cruza-mar, 
facilmente impelida. Para perto dela foi treme-solo 
e tornou-a pedra e enraizou nas profundas, 
apos golpea-la com a mao para baixo; e ele partiu. 

165 Eles, entre si, falavam palavras plumadas, 

os feacios navegadores, varoes famosos pelas naus. 

E assim falavam, fitando quern estava ao lado: 

“Ai de mim, pois quern prendeu a nau veloz no mar, 
prestes a atracar? Ja estava toda visivel!”. 

170 Assim falavam, e nao sabiam o que fora arranjado. 


E entre eles, Alcinoo tomou a palavra e disse: 

“ Inc rive 1, de fato alcansou-me um velho dito divino 
de meu pai: dizia que Poseidon se irritaria 
conosco, pois somos seguros condutores de todos. 

175 Disse que, um dia, bem bela nau de varoes feacios, 
voltando da condu^ao sobre o mar embagado, 
seria destrofada e um grande morro encobriria nossa urbe. 
Assim falava o anciao; e tudo isso agora se completa. 

Mas vamos, o que eu disser, obede^amos todos. 

180 Cessai a condugao de mortais quando um deles 
chegar a nossa cidade; e, a Poseidon, touros, 
doze escolhidos, sacrifiquemos, esperando que se apiede, 
e que um grande morro nao encubra nossa urbe”. 

Assim falou, e eles temeram e prepararam os touros. 

185 E assim eles rezavam ao senhor Poseidon, 
dirigentes e capitaes do povo dos fe&cios, 
de pe em volta do altar. E acordou o divino Odisseu 
do sono na terra patria e nao a conheceu, 
ja ha muito afastado, pois um deus vertia brum a em torno, 
190 Palas Atena, filha de Zeus, para que a ele mesmo 
tornasse irreconhecivel e a ele tudo explicasse, 
e que nao o conhecessem esposa, conterraneos e os seus, 
antes de os pretendentes expiarem toda a transgressao. 
Assim tudo parecia mudar de forma para o senhor, 

195 as sendas continuas e os portos seguros, 
rochedos alcantilados e arvores verdej antes. 

De pe, tendo-se erguido, observou a terra patria 
e entao bramou, bateu em suas duas coxas 
com a palma das maos e, lamuriando-se, disse: 

200 “Ai de mim, dessa vez atinjo a terra de que mortais? 

Serao eles desmedidos, selvagens e nao civilizados, 
ou hospitaleiros, com mente que teme o deus? 

Aonde devo levar esses muitos bens? Por onde eu 
vago?Que eu tivesse ficado junto aos feacios 


205 la mesmo; eu ate a outro rei poderoso 

teria ido, e ele, depois de me acolher, me faria retornar. 
Agora nao sei onde os guardar, mas aqui nao 
os deixarei; que nao se tornem butim para outros. 

Inc rive 1, nao em tudo ponderados e civilizados 
210 foram os llderes e capitaes dos feacios, 

eles que me trouxeram a outra terra; falaram que a mim 
conduziriam a Itaca bem-avistada e nao cumpriram. 
Zeus dos- suplic antes os puna, que tambem a outros 
homens observa e pune quem comete urn a falta. 

215 Mas chega, que eu observe e conte as riquezas; 
temo que partiram, na cava nau, levando-me algo”. 
Apos falar assim, as trlpodes bem belas e bacias 
contava, o ouro e as belas vestes tecidas. 

De nada sentiu falta. Lamentava a terra patria, 

220 arrastando-se ao longo da praia do mar bem ressoante, 
lamuriando-se muito. E das cercanias veio-lhe Atena, 
semelhante, no corpo, a jovem varao, pastor de ovelhas, 
todo delicado, tal como sao os filhos de senhores, 
com manto engenhoso, dupla dobra nos ombros; 

225 nos pes reluzentes trazia sandalias e, nas maos, a lan^a. 
Vendo-a, Odisseu jubilou, foi ate ela, 
e, falando, dirigiu-lhe palavras plumadas: 

“Meu caro, como es o primeiro que topo nessa terra, 
saudo-te, e nao vem ate mim com mente vil, 

230 mas protege isto e protege a mim: a ti eu mesmo 
rezo como ao deus e de teus joelhos me achego. 

E dize-me isto, a verdade, para eu bem saber: 
que terra, que povo, que varoes vivem aqui? 

Acaso uma ilha bem-avistada, ou uma ponta 
235 de terra grandes-glebasjazinclinada rumo ao mar?”. 

E a ele dirigiu-se a deusa, Atena olhos-de-coruja: 

“Es tolo, estranho, ou chegaste de longe, 
se indagas acerca desta terra. Nao e de todo 


assim sem nome; muitos conhecem-na bem, 

240 os que habitam na dire^ao da aurora e do sol 
e os que, mais atras, rumo a treva brumosa. 

Ela e escarpada, nao e boa para cavalgar, 
e nao e muito pobre, mas larga nao e. 

Nela, de fato, o cereal e ilimitado, e nela vinho 
245 ha; sempre a tomam a chuva e o farto orvalho. 

E boa para criarem-se cabras e bois; ha bosques 
de todo o tipo, e bebedouros perenes nela ha. 

Assim, o nome de Itaca, estranho, chegou a Troia, 
que dizem ficar longe da terra aqueia”. 

250 Isso falou, e jubilou o muita-tenencia, divino Odisseu, 
alegre com sua terra patria, como lhe disse 
Palas Atena, filha de Zeus porta-egide; 
e, falando, dirigiu-lhe palavras plumadas - 
a ela nao disse a verdade; refreou o discurso, 

255 a mente muita-argucia a calcular no peito: 

“Ouvi falar de Itaca tambem na ampla Creta, 
longe no mar, e agora eu mesmo chego 
com estas riquezas; tantas ainda deixei a meus filhos 
e me exilei, pois matei o caro filho de Idomeneu, 

260 Tocaioso, nos pes veloz, que na ampla Creta 
vencia com os pes ligeiros varoes diligentes, 
porque quis se apropriar de todo o meu butim 
troiano, pelo qual sofri afl^des no animo, 
cruzando guerras de homens e ondas pungentes, 

265 porque a seu pai eu nao servi nem agradei 

na terra troiana, mas liderei outros companheiros. 

Com langa bronze a o atingi - ele que voltava 
do campo -, de tocaia perto da trilha, eu e um companheiro; 
uma noite muito escura tomava o paramo, e a nos homem 
270 nenhum percebeu, e, sem ser notado, tirei sua vida. 

Mas depois de mata-lo com o bronze afiado, 
de pronto fui a uma nau, a ilustres fenicios 


supliquei e parte do butim, para seu gaudio, lhes dei; 
pedi-lhes que me admitissem e levassem a Pilos 
275 ou a divina Elida, onde dominam os epeus. 

Mas entao a for9a do vento os afastou de la, 

muito contra sua vontade, e nao quiseram enganar-me; 

de la, vagando, chegamos aqui a noite. 

Com esfor^o remamos a bala, e nenhum de nos 
280 se lembrou de comer, mesmo muito carentes, 

mas assim, apos desembarcar da nau, deitamos todos. 

La, de mim, exausto, o doce sono se achegou, 
e eles, tendo recolhido minhas riquezas da cava nau, 
puseram-nas onde eu mesmo repousava na areia. 

285 Embarcaram rumo a Sidonia bem-habitada, 
mas eu fui deixado, angustiado no corafao”. 

Assim falou, e sorriu a deusa, Atena olhos-de-coruja, 
e acariciou-o com a mao, ja no corpo como uma mulher 
bela, grande e conhecedora de radiantes trabalhos; 

290 e, falando, dirigiu-lhe palavras plumadas: 

“Ladino e furtivo aquele que te ultrapassasse 
em todos os ardis, mesmo se um deus te topasse. 

Terrivel, variegada-astucia, insaciavel de ardis! Nao ias, 
nem mesmo estando em tua terra, cessar os engodos 
295 e discursos furtivos, que do fundo te sao caros. 

Vamos, nao falemos mais disso, ambos conhecemos 
maneios, pois es, de longe, o melhor de todos os mortais 
em pianos e discursos, e eu, entre todos os deuses, 
na astucia famosa e nos maneios; e nao reconheceste 
300 Palas Atena, filha de Zeus, que sempre, 

em todas as tarefas, esta junto a ti e te protege, 
e caro a todos os feacios tambem te tornou. 

Agora, porem, aqui vim para contigo tramar um truque 
e esconder toda a riqueza que a ti os ilustres feacios 
305 deram, gra?as a meu piano e mente para te trazer a casa 
e vim dizer quantas agruras, em tua casa construida, 


deveras suportar: resiste, mesmo sob pressao. 

Nao declares para nenhum homem ou mulher, 
ninguem, que chegaste apos vagar, mas, em silencio, 
310 sofre muitas afli^oes, submisso a violencia dos varoes”. 
Respondendo, disse-lhe Odisseu muita-astucia: 

“E dificil, deusa, a um mortal, frente a ti, reconhecer-te, 
mesmo bem destro, pois te tornas semelhante a tudo. 

Isto eu sei bem, que, no passado, eras minha amiga 
315 enquanto em Troia peleavamos, os filhos de aqueus. 
Porem, apos saquear a escarpada urbe de Prlamo, 
partimos nas naus e um deus dispersou os aqueus, 
e depois nao mais te vi, filha de Zeus, nem percebi 
entrares em minha nau para de mim afastares afli9ao. 
320 Mas, sempre com corafao dividido em meu peito, 
vaguei, ate que deuses me livraram da desgra?a. 

Por fim, na gorda cidade dos feacios, 
encorajando-me com palavras, a urbe me guiaste. 
Agora, pelo pai, me atiro a teus joelhos: nao creio 
325 ter chegado a bem-avistada Itaca, mas por outra 
terra erro, e creio que tu, melindrando-me, 
falaste isso para iludires meu juizo; 
dize-me se deveras a cara patria cheguei”. 

E a ele respondeu a deusa, Atena olhos-de-coruja: 

330 “Sempre ha, em teu peito, uma tal ideia, 

por isso nao consigo te deixar quando estas mal, 
porque es decente, sagaze prudente. 

Outro varao que chegasse apos vagar, feliz 
iria ate seu palacio para ver filhos e esposa; 

335 a ti nao e caro saber nem te informar 
antes de testar tua esposa, que esta sentada 
no palacio, e para ela sempre agonizantes 
se esvaem as noites e os dias, a verter lagrimas. 

Eu, porem, disto nunca duvidei, mas no animo 
340 sabia que retornarias apos perder todo companheiro; 


mas eu nao quis, ve, lutar contra Poseidon, 
irmao de meu pai, com rancor contra ti no animo, 
irado, pois cegaste seu filho querido. 

Mas vamos, Itaca te mostrarei para te convenceres: 
345 aquela e a baia de Fore is, o anciao do mar, 

e aquela, na cabe?a do porto, a oliveira folha-longa 
[e, perto dela, a agradavel caverna brumosa, 
consagrada a ninfas chamadas Naiades;] 
aquela e a ampla gruta, arqueada, onde tu amiude 
350 sacrificaste hecatombes completas as ninfas; 

e aquele e o Nerito, monte revestido com um bosque”. 
Adeusa disse isso, dissipou a brum a e surgiu a regiao; 
e entao jubilou o muita-tenencia, divino Odisseu, 
alegre com sua terra, e beijou o solo fertil. 

355 De pronto rezou as ninfas, apos erguer as maos: 
“Ninfas Naiades, filhas de Zeus, eu nunca 
pensei que vos fosse ver. Agora com preces suaves 
alegrai-vos; tambem daremos dadivas como antes, 
se me permitir a solicita filha de Zeus, a traz-butim, 
360 eu mesmo viver e ela deixar meu caro filho crescer”. 
E a ele dirigiu-se a deusa, Atena olhos-de-coruja: 
“Coragem, que isso nao te ocupe o juizo; 
os bens no recesso da caverna prodigiosa 
ponhamos logo, para ficarem protegidos; 

365 e cogitaremos como se dara, de longe, o melhor”. 
Apos dizer isso, a deusa penetrou na gruta brumosa, 
tateando atras de buracos pelas paredes; j a Odisseu, 
presto, tudo trazia, ouro, rigido bronze 
e vestes bem-feitas, coisas que os feacios lhe deram. 
370 Isso bem condicionou, e uma pedra depos na entrada 
Palas Atena, a filha de Zeus porta-egide. 

E os dois, sentados ao pe da sacra oliveira, 
planejavam o fun dos pretendentes soberbos. 

Entao tomou a palavra a deusa, Atena olhos-de-coruja 


375 “Divinal filho de Laerte, Odisseu muito-truque, 

planeja como descer o bra 90 nos aviltantes pretendentes, 
que, ja tres anos em teu salao, arrogam-se senhores, 
cortejando a excelsa esposa e oferecendo dadivas; 
ela, sempre chorando teu retorno no animo, 

380 a todos da esperanfa e fazpromessas a cada varao, 
enviando recados; e sua mente concebe outra coisa”. 
Respondendo, disse-lhe Odisseu muita-astucia: 

“Incrivel, a sorte ruim de Agamemnon, filho de Atreu, 
por certo seria a minha, perecer no palacio, 

385 se nao me tivesses, deusa, tudo dito ponto por ponto. 

Mas vamos, trama o piano de como me vingarei deles; 
fica tu junto a mim, lansando impeto muita-coragem, 
como quando arrancamos as reluzente fakas de Troia. 
Se ficares assim zelosa junto a mim, olhos-de-coruja, 
390 ate mesmo contra trezentos varoes eu lutaria 

contigo, senhora deusa, se me socorresses, solicita”. 

E a ele respondeu a deusa, Atena olhos-de-coruja: 

“Por certo, junto a ti: nao te perderei de vista 
quando te ocupares disso; creio que muitos 
395 respingarao o chao sem-fim com sangue e miolos, 
os varoes pretendentes que devoram teus recursos. 
Vamos, te farei irreconhecivel para todos os homens: 
enrugarei a bela pele sobre os membros recurvos, 
destruirei as madeixas loiras da cabefa, com trapos 
400 te vestirei, visao que torna odioso quern os usa; 
opacos ficarao teus olhos antes tao belos, 
para que pare?as repulsivo a todos os pretendentes, 
a tua mulher e ao filho, ele que no palacio dekaste. 

Tu mesmo primeiro te dirijas ao porqueiro, 

405 o guardiao de teus porcos, contigo tambem gentil, 
que quer bem a teu filho e a prudente Penelope. 

Vais encontra-lo junto as porcas; elas pastam 
junto a pedra Corvo sobre a fonte Aretusa, 


bebendo agua escura e comendo bolotas deliciosas, 

410 que engordam o rico toicinho dos porcos. 

La permanece e, junto a ele, tudo pergunta 
enquanto eu for ate Esparta belas-mulheres 
chamar Telemaco, teu caro filho, Odisseu, 
que a espa^osa Lacedemonia, ate Menelau, 

415 partiu para se informal' de tua fama, se ainda vivias”. 
Respondendo, disse-lhe Odisseu muita-astucia: 

“E por que nao lhe disseste, sabendo tudo no juizo? 

Para que ele tambem, vagando por ai, sofresse agonias 
no mar ruidoso, e os outros comessem seus recursos?’. 
420 E a ele respondeu a deusa, Atena olhos-de-coruja: 
“Que ele nao te cause tanta inquieta?ao. 

Eu mesma o conduzi, para conquistar distinta fama 
ao ir para la; ele nao esta se esfalfando, mas, tranquilo, 
esta na casa do filho de Atreu, junto a riqueza indizivel. 
425 E certo que j ovens o tocaiam com negra nau, 
ansiando mata-lo antes que atinja a terra patria; 
mas nisso nao creio: antes ainda a terra cobrira alguns 
varoes pretendentes que devoram teus recursos”. 

Apos falar assim, com a vara tocou-o Atena. 

430 Enrugou a be la pele sobre os membros recurvos, 
destruiu as madeixas loiras da cabefa, com a pele 
de um velho anciao envolveu todos os membros 
e deixou opacos os olhos antes tao belos. 

Envolveu-o com outro trapo vil e uma tunica, 

435 rasgados, sujos, desfigurados por vil fuma?a; 
e enrolou-o na grande pele de um cervo veloz, 
gasta. Deu-lhe bastao e repulsivo alforje, 
todo rasgado, e nele uma corda havia, sua a\$a. 

Os dois ponderaram assim e separaram-se. Ela entao 
440 foi a divina Lacedemonia atras do filho de Odisseu. 



5 

10 

15 

20 

25 

30 


Mas ele, da bala, marchou pela trilha escarpada, 
mato acima pelos cumes, para onde a ele Atena 
indicou, o divino porcariso, que de seus recursos mais 
cuidava, ele dentre os servos do divino Odisseu. 

Eis que no vestibulo o encontrou sentado, onde muro 
alto, em local todo protegido, fora erguido, 
belo e grande, todo em volta; o muro, o porqueiro 
mesmo erguera para os porcos, ausente o senhor, 
distante da senhora e do anciao Laerte, 
com blocos arrastados e um arbusto espinhoso coroando. 
Puxou, por fora, estacas, continuas nas duas dire^des, 
cerradas e numerosas, apos fender o negror do carvalho. 
No interior do cercado, fez doze chiqueiros, 
perto um do outro, leitos de porcos; em cada, 
cinquenta porcos que deitam no solo estavam presos, 
femeas reprodutoras. Machos passavam a noite fora, 
bem menos numerosos: escasseavam, pois comiam-nos 
os excelsos pretendentes, j a que o porqueiro enviava 
sempre o melhor de todos os bem-nutridos cevados; 
desses havia trezentos e sessenta. 

Com eles, caes quais feras sempre passavam a noite, 
quatro, que criara o porqueiro, lider de varoes. 

O homem ajustava sandalias em torno dos pes, 
cortando bovina pele bem-tratada; os outrosja 
se haviam ido, um para cada lado, com os porcos reunidos, 
os tres; obrigado, o quarto enviara para a cidade, 
levando porco aos soberbos pretendentes 
para o abaterem e com came saciar o animo. 

De chofre, avistaram Odisseu os caes ladradores. 

Eles, ruidosos, correram; mas Odisseu 
sentou-se, astucioso, e o bastao caiu de sua mao. 

La, ao lado de sua quinta, teria sofrido dor ultrajante; 
mas o porqueiro, rapido, pes ligeiros, foi atras, 
langando-se ao portico, e o couro caiu de sua mao. 


35 

40 

45 

50 

55 

60 

65 


Aos brados dispersou os caes, um para cada Iado, 
com pedras sucessivas, e dirigiu-se ao senhor: 

“Anciao, quase meus caes te despeda^avam 
num instante, e entornarias ignominia sobre mim. 

Ja me deram os deuses outras aflifoes e gemidos: 
angustiado, lamentando-me pelo excelso senhor, 
fico sentado, e crio, para outros, porcos cevados 
como alimento; mas ele, desejoso por comida, 
vaga por povo e cidade de varoes outra-lingua, 
se em algum lugar ainda vive e ve a luz do sol. 

Vem, a cabana sigamos, anciao, para que tambem tu, 
apos com comida e bebida saciar-te no animo, 
fales donde es e quantas agruras suportaste”. 

Dito isso, a cabana conduziu-o o divino porcarifo 
e fe-Io sentar-se; galhos espessos jogou 
e sobre eles estendeu pele de felpudo bode selvagem, 
na qual dormia, grande e espessa. Odisseu alegrou-se 
por assim ser recebido, dirigiu-se-lhe e nomeou-o: 

“Que Zeus te de, anfitriao, e os outros deuses imortais, 
o que mais desejas, pois, solicito, me recebeste”. 

Respondendo, disseste-lhe, porqueiro Eumeu: 

“Estranho, nao e minha norma desonrar um estranho, 
nem se pior que tu chegasse; de fato, sob Zeus estao todos 
os estranhos e mendigos. Pequeno e querido e o nosso dom, 
pois esse e o habito dos escravos, sempre temerosos 
quando tern o poder senhoresj ovens. 

Por certo os deuses estancaram seu retorno, 
ele que iria me acolher com aten<;ao e ofertar bens, 
tanto quanto da a seu servo um bondoso senhor, 
casa, gleba e mulher muito-pretendente, 
se, para ele, muito labuta, e o deus propicia a lida 
como tambem propiciou essa lida onde fico. 

De muito me teria valido o senhor, se aqui tivesse envelhecido; 
mas morreu. Como devia a linhagem de Helena morrer 


ajoelhada, pois soltou os joelhos de muito varao; 

70 aquele tambem foi, pela honra de Agamemnon, 
ate Ilion belos-potros para combater troianos”. 

Dito isso, com o cinto rapido prendeu a tunica 
e foi aos chiqueiros onde confinava grupos de leitoes. 

De la pegou dois, levou-os e a ambos abateu; 

75 queimou as cerdas, cortou-os e transpassou nos espetos. 
Apos tudo assar, levou e pos diante de Odisseu, 
quente, espetos e tudo, e aspergiu branca cevada. 

Entao na cumbuca misturou vinho doce como mel, 
e ele mesmo defronte sentou-se e, incitando-o, disse: 

80 “Come agora, hospede, o que cabe aos escravos, 
leitoes; porcos cevados comem os pretendentes, 
sem atentar, no juizo, ao olhar divino ou a compunfao. 
Pois os deuses ditosos nao gostam de a?oes terriveis, 
mas honram a tradi^ao, as a^oes moderadas dos homens. 
85 Pois inimigos hostis, esses que sobre terra 
estrangeira marcham, e Zeus lhes da butim, 
enchem as naus e embarcam para retornar a casa, 
e em seu juizo cai o forte medo do olhar divino; 
mas aqueles sabem, ouviram a vozde um deus, 

90 do fim funesto dele, se nao querem tradicionalmente 
cortejar nem retornar aos seus, mas, tranquilos, 
os bens abocanham, brutos, sem restrifao. 

Tantas quantas sao as noites e os dias de Zeus, 
nunca sacrificam so uma vitima ou duas; 

95 brutos, devastam o vinho, exaurindo-o. 

Sim, suas provisoes eram incontaveis; tais nenhum 
varao heroi possui, nem no escuro continente 
nem na propria Itaca. Nem de vinte herois 
e tamanha a riqueza; e eu para ti contarei: 

100 doze rebanhos bovinos no continente; tantos, de ovelhas, 
tantos, de porcos machos, tantos, dispersos, de cabras 
apascentam estrangeiros e varoes pastores dele mesmo. 


Aqui, rebanhos de cabras dispersos, onze no total, 
nos confins se apascentam, e distintos varoes vigiam. 

105 Sempre um deles, a cada dia, leva-lhes uma cabega, 
das bem-nutridas cabras a que parecer a melhor. 

Mas eu guardo e protejo essas porcas aqui 
e o melhor dos porcos seleciono e envio-lhes”. 

Isso disse; o outro, com gosto, carne comia e vinho bebia, 
110 voraz, quieto, e engendrava males aos pretendentes. 
Apos jantar e fortificar o animo com a comida, 
tambem deu-lhe, apos enche-la, a caneca da qual bebia, 
cheia de vinho. Ele a aceitou, alegrou-se no animo 
e, falando, dirigiu-lhe palavras plumadas: 

1 15 “Amigo, quern e que te comprou usando seus bens, 
assim tao rico e poderoso como dizes? 

Falavas que pereceu devido a honra de Agamemnon. 
Dize-me, talvezo conhega de alhures, tal homem. 

Zeus talvezsaiba, e os demais deuses imortais, 

120 se eu poderia te-lo visto e anunciar, pois longe vaguei”. 

E a ele respondeu o porqueiro, lider de varoes: 

“Anciao, nenhum varao, chegando apos vagar, aquele 
anunciando, convenceria a mulher e o caro filho, 
pois, carentes de cuidados, varoes vagantes 
125 mentem e nao querem o que e verdade enunciar. 

Aquele que, vagando, a cidade de Itaca alcanga, 
vai ate minha senhora com palavreado embusteiro; 
ela o recebe bem, acolhe e tudo apura, 
e, lamentando-se, tombam-lhe lagrimas das palpebras, 
130 norma para a mulher se o marido alhures perece. 
Ligeiro tambem tu, anciao, fabricarias um conto, 
se alguem capa e tunica, vestes, te desse. 

Dele, j a devem os caes e as aves velozes 
a pele dos ossos estar puxando, e a vida o deixou; 

135 ou no mar comeram-no os peixes, e seus ossos 
jazem na costa, cobertos por muita areia. 


Assim la pereceu, e agruras ulteriores aos amigos, 
todos, sobretudo a mim, se puseram; nunca outro 
senhor assim amigavel terei, em lugar algum, 

140 nem se a casa do pai e da mae novamente 
chegar, onde primeiro nasci e fui criado. 

Nem por eles ainda choro tanto, embora ansiando 
com os olhos ve-los, estando na terra patria; 
mas a saudade do ausente Odisseu me domina. 

145 Eu a ele, hospede, embora nao esteja aqui, me acanho 
para nomear: demais me estimava e zelava no animo; 
nao, denomino-o irmao, ate estando longe”. 

E a ele dirigiu-se o muita-tenencia, divino Odisseu: 

“Amigo, j a que de todo o negaras, dizes que nunca 
150 aquele voltara, e teu animo e sempre incredulo - 
pois eu nao enunciarei assim, mas jurando, 
que Odisseu est& retornando. Bom anuncio seja o meu 
de pronto, quando aquele vier e sua casa alcan<;ar: 
me vestiras com belas vestes, capa e tunica; 

155 antes, embora bem necessitado, nada receberia. 

Pois odioso igual aos portoes de Hades a mim aquele 
se torna, quern, cedendo a pobreza, usa palavreado embusteiro. 
Saiba agora Zeus, antes dos deuses, a hospitaleira mesa 
e o fogo-lar do impecavel Odisseu, ao qual cheguei: 

160 por certo tudo isso completa-se como afirmo. 

Neste mesmo periodo interlunar chegara aqui Odisseu, 
a lua minguando e depois crescendo; 
a casa ira retornar e vingar-se de todo aquele 
que aqui desonra sua esposa e o filho ilustre”. 

165 Respondendo, disseste-lhe, porqueiro Eumeu: 

“Anciao, eis que nem eu essa recompensa pagarei 
nem Odisseu vira mais para casa; mas tranquilo 
bebe, e lembremos, adiante, outras coisas, e disso nao 
me faze lembrar: sun, o animo, em meu peito, 

170 aflige-se quando sou lembrado do devotado senhor. 


O juramento, pois, abandonemos, e Odisseu 
venha como a ele queremos eu, Penelope, 
o anciao Laerte e o deiforme Telemaco. 

Agora ha inconsolavel dor pelo filho que gerou Odisseu, 
175 Telemaco. Apos os deuses o nutrirem feito broto, 
pensava que ele tambem, entre varoes, nao seria pior 
que seu caro pai, admiravel em porte e beleza, 
mas um imortal golpeou-o no juizo equilibrado - 
ou um homem: partiu atr&s de novas do pai 
180 rumo a mui sacra Pilos. A ele os ilustres pretendentes, 
na volta para casa, tocaiam, para a linhagem desaparecer 
de itaca, sem o nome ficar, o do excelso Arquesio. 

Pois a ele deixemos de lado: ou sera pego 
ou escapara, sobreposta a mao do filho de Crono. 

185 Mas vamos, anciao, tuas proprias agruras relata-me 
e dize-me a verdade, para eu bem conhece-la: 
quern es? De que cidade vens? Quais teus ancestrais? 
Chegaste em que nau? Como a ti os nautas 
conduziram ate Itaca? Quern proclamaram ser? 

190 De modo algum creio que a pe aqui chegaste”. 
Respondendo, disse-lhe Odisseu muita-astucia: 

“Portanto a ti, com muita precisao, isso direi. 
Houvesse-nos agora, por bom tempo, comida 
e doce vinho, e nos dentro da cabana fic&ssemos 
195 para calmo banquete, e os outros seguissem obrando; 
facil, entao, ate durante um ano inteiro 
nao cessaria de contar as agruras que trago no animo, 
todo o conjunto que, pelo poder dos deuses, aguentei. 
Proclamo ser de uma linhagem da ampla Creta, 

200 o filho de abastado varao. Muitos outros 
filhos na casa nasceram e cresceram, 
legitimos, da esposa. Gerou-me comprada mae, 
concubina, mas a mim, igual aos naturais, honrava 
Castor, filho de Latidor, de cuja linhagem proclamo ser, 


205 ele que urn dia como deus honrou-se na terra cretense 
por conta da fortuna, riqueza e filhos majestosos. 

Mas a ele veio a sina da morte e levou-o 
a casa de Hades; e eles os recursos dividiram, 
os filhos magnanimos, e jogaram a sorte, 

210 e bem pouco me deram, uma casa atribuiram. 

Foi-me dada mulher de familia abastada 
gramas a minha excelencia, pois eu nao era enganoso 
nem fugia da guerra. Agora tudo ja ficou para tras; 
mas, de forma geral, os vestigios, se miras, creio 
215 reconheceres, ainda que me tome abundante miseria. 

Por certo audacia me deram Ares e Atena, 
e forfa rompe-batalhao. Quando escolhia para tocaia 
varoes excelentes, engendrando males a inimigos, 
nunca o animo orgulhoso pressentia minha morte, 

220 ao contrario: apos bem na frente saltar, com lan?a matava 
quern, dentre os varoes inimigos, recuasse com os pes. 

Esse eu era na guerra; mas o trabalho nao me era caro, 
tampouco o senso domestico que cria radiantes crian9as; 
sempre me foram caras naus com remos, 

225 guerras, dardos bem-polidos e flechas - 

coisas funestas, que para os outros horripilantes sao. 

Mas isso era-me caro, o que o deus pos no juizo; 
cada varao se deleita em trabalhos distintos. 

Pois antes de pisarem em Troia os Filhos de aqueus, 

230 nove vezes comandei varoes em naus velozes 

contra varoes estrangeiros, e cabia-me muita coisa. 

Disso escolhia bens encantadores, e muito 
era-me atribuido; logo minha casa enricou, e entao 
fiz-me assombroso e respeitavel entre os cretenses. 

235 Mas quando esta rota hedionda Zeus ampla-visao 
planejou, a que soltou joelhos de muitos varoes, 
nisso insistiam que eu e o esplendido Idomeneu 
liderassemos naus ate Ilion; e nao havia meio 


de recusar: atava-nos a dura fala do povo. 

240 Nove anos la combatemos, os filhos de aqueus, 
e no decimo a urbe de Priamo pilhamos e partimos 
para casa nas naus, e um deus dispersou os aqueus. 

E para mim, coitado, armou males Zeus astucioso: 
so um mes aguardei, deleitado com os filhos, 

245 a lldima esposa e os bens; mas entao 
ao Egito o animo ordenou-me navegar, 
e preparei naus, com excelsos companheiros. 

Nove naus preparei e rapido a tropa foi reunida. 

Por seis dias entao meus leais companheiros 
250 banquetearam-se, e eu providenciava muita vitima 
para sacrificar aos deuses e aqueles dar um banquete. 

No setimo embarcamos e da ampla Creta 
navegamos com Boreas, belo vento sopra-do-alto, 
facil, como se descendo um caudal; e nenhuma 
255 nau me foi danificada, mas ilesos e saudaveis 
ficamos, e vento e timoneiros as dirigiam. 

No quinto dia, atingimos o caudaloso Egito, 
e ancorei no rio Egito as naus ambicurvas. 

Entao pedi aos leais companheiros 
260 que la ficassem junto as naus e as guardassem, 
e instiguei batedores a buscar atalaias. 

Aqueles cederam a desmedida, seguindo seu impeto, 
e ligeiro os bem belos campos de vardes egipcios 
destruiam, levavam mulheres e crian?as pequenas 
265 e matavam os outros. Logo a cidade chegou a gritaria. 
Tendo ouvido a algaravia, quando a aurora surgiu 
vieram; o plaino todo encheu-se de soldados, carros 
e relampejo bronzeo. La Zeus prazer-no-raio 
Ian<;ou fuga vil em meus companheiros, e ninguem suportou 
270 o enfrentamento, pois por todos os lados males havia. 

La mataram a muitos dos nossos com bronze afiado 
e a outros, vivos, levaram como escravos. 


Mas para mim o proprio Zeus no juizo esta ideia 
criou - eu devia era ter morrido, achado o destino 
275 la mesmo no Egito, pois ainda uma desgra?a me coube: 
rapido tirei da cabe?a o elmo bem-construido, 
o escudo, dos ombros, e a lan9a soltei da mao. 

Dirigi-me para diante dos cavalos do rei, 
tomei-lhe os joelhos e beijei. Ele acolheu-me e apiedou-se, 
280 a mim, que chorava, pos no carro e levou para casa. 

De fato, contra mim muitos arremeteram com chu?os, 
ansiando matar-me: sim, sobremodo enraivecidos. 

Mas ele os continha, e considerava a colera de Zeus 
dos-hospedes, que mais se indigna com vis a9oes. 

285 Entao sete anos la mesmo fiquei, e acumulei muitos 
bens junto aos varoes egipcios: todos me regala vam. 

Mas quando sobreveio, em seu curso, o oitavo ano, 
nisso chegou um varao fenicio, mestre de engodos, 
velhaco, que ja fizera muitos males aos homens; 

290 com seu juizo persuadiu-me a com ele ir 
a Fenicia, onde ficavam sua casa e posses. 

Entao junto a ele fiquei no ciclo de um ano. 

Mas quando dias e meses completaram-se, 
e o ano fechou seu ciclo, e passaram as esta9oes, 

295 rumo a Libia colocou-me em nau cruza-mar, 

planejando mentiras, para eu levar carga com ele, 
de sorte a la me vender, e obteria pre90 indizivel. 

Obrigado, segui-lhe na nau, embora intuindo. 

Ela corria com Boreas, belo vento sopra-do-alto, 

300 no meio, para la de Creta; e Zeus armava-lhes o fim. 

Mas quando deixamos Creta, nenhuma outra 
terra apareceu, exceto o paramo e o mar, 
e entao nuvem cobalto pos o filho de Crono 
sobre a cava nau, e o mar escureceu abaixo dela. 

305 E Zeus trovej ou e j unto lan90u raio sobre a nau; 
ela inteira sacolejou, golpeada pelo raio de Zeus, 


e encheu-se de enxofre; e da nau cairam todos. 

Aeles, quais corvos-marinhos, em volta da negra nau 
levavam as ondas, e o deus negou-lhes o retorno. 

310 Mas o proprio Zeus para mim, aflito no animo, 
o m astro indomito da nau proa-negra 
pos nas maos, para poder escapar da desgra9a. 

Nele enroscado, fui levado por ventos ruinosos. 

Nove dias fui levado; no decimo, da terra dos tesprotios, 
315 achegou-me, rolando, uma grande onda na noite negra. 
La de mim cuidou o rei dos tesprotios, Salvador, 
um heroi, sem cobrar; de fato, seu caro filho chegou 
e levou-me, dobrado por friagem e exaustao, para casa, 
apos pelo bra?o me erguer, ate chegar a morada do pai. 
320 Vestiu-me com uma capa e uma tunica. 

Entao de Odisseu fui informado: aquele dizia 
te-lo hospedado e acolhido quando ia a terra patria, 
e mostrou-me as riquezas que Odisseu amealhara, 
bronze, ouro e ferro muito trabalhado. 

325 Agora, ate a decima gera9ao, um por um alimentariam; 
tantos haveres do senhor havia em seu palacio. 

Dele, disse-me que fora a Dodona, para do divino 
carvalho alta-copa escutar a vontade de Zeus, 
como voltaria para a gorda cidade de Itaca, 

330 ja ha muito afastado, ou as claras ou as ocultas; 
jurou para mim mesmo, entre liba9oes, 
que puxara uma nau e preparara companheiros 
que o conduziriam a cara terra patria. 

Mas antes enviou a mim; calhou ir uma nau 
335 de homens tesprotios a Duliquion muito- trigo. 

Pediu, gentilmente, que para la me levassem, 
ate o rei Acasto. E agradou-lhes, no juizo, piano vil 
contra mim, para eu entrar de todo na miseria da desdita. 
Quando longe da terra singrava a nau cruza-mar, 

340 logo contra mim engenhavam o dia da escravidao: 


despiram-me as vestes, capa e tunica, 
e cobriram-me com outro trapo, vil, e uma tunica, 
trapagem que podes ver diante dos olhos. 

A noite chegamos aos campos de Itaca bem-avistada. 

345 Entao amarraram-me na nau bom-conves, 

com corda bem-ttan?ada, firme, desembarcaram 
e com avidez, junto a praia do mar, fizeram o jantar. 

Mas meu Ia^o afrouxaram os proprios deuses 
facil; com trapo encobrindo a cabe 9 a, 

350 desci pela prancha de carga e aproximei do mar 
o peito, e entao, com ambos os brafos, por ai remei, 
nadando, e bem rapido estava fora, longe deles. 

La subi numa area com capao bem florido, 
e deitei-me, agachado; eles, gemendo alto, 

355 zanzavam. Porem nao lhes pareceu vantajoso 
investigar alhures, e de volta de novo embarcavam 
na cava nau. Esconderam-me os proprios deuses 
facil, e a mim, guiando, aproximaram da quinta 
de habilidoso varao: ainda e meu destino viver”. 

360 Respondendo, disseste-lhe, porqueiro Eumeu: 

“Pobre hospede, sim, meu animo muito agitaste 
falando disso tudo que ja sofreste e de quanto vagaste. 

Mas nao foi elegante, penso, nem disso me convenceras: 
a men?ao a Odisseu. Por que tu, sendo tal, careces 
365 levianamente mentir? Eu mesmo bem conhefo 
o retorno de meu senhor, odiado por todos os deuses 
de todo, muito, pois nao o subjugaram entre troianos 
ou nos bra 90 s dos seus, apos arrematar a guerra. 

Morto em guerra, todos os aqueus lhe teriam erigido um tumulo, 
370 e seu filho teria granj eado grande fama para o futuro. 

Aele, porem, as Harpias agarraram sem registro. 

Mas eu, junto aos porcos, apartado, nem a cidade 
vou, salvo se, para algo, Penelope bem-ajuizada 
reclamar que eu va quando acaso chega noticia. 


375 Mas aqueles, la sentados, indagam cada detalhe, 
uns, aflitos por causa do senhor ha tempo ausente, 
outros, alegres, a comida a devorar de gra$a. 

Mas nao me e caro indagar nem perguntar, 
desde que certo varao etolio me enganou com um discurso; 
380 ele, apos matar um varao e pela terra muito vaguear, 
chegou a minha morada, e eu o aninhei. 

Disse que em Creta, junto a Idomeneu, viu-o 
reparando naus que rajadas despedafaram; 
e disse que chegaria no verao ou na epoca das frutas, 

385 muitos bens trazendo, com excelsos companheiros. 

Tambem tu, velho aflito, como um deus te trouxe a mim, 
nao tentes me comprazer nem enfeitigar com mentiras; 
nao por causa disso eu te respeitarei e acolherei, 
mas por temer a Zeus dos-hospedes e de ti me apiedar”. 
390 Respondendo, disse-lhe Odisseu muita-astucia: 

“Deveras, esse teu animo no peito e incredulo, 
tanto que, mesmo jurando, nao te induzi nem convenci. 

Mas agora vamos, um acordo fagamos; depois, 
testemunhas de ambos serao os deuses, que tern o Olimpo. 
395 Se retornar teu senhor para essa morada, 

veste-me com vestes, capa e tunica, e me envia 
ate Duliquion, onde no animo foi-me caro estar. 

Se teu senhor nao chegar como estou dizendo, 
instiga os escravos a langar-me da grande rocha 
400 para que outro mendigo evite te iludir”. 

Respondendo, disse-lhe o divino porqueiro: 

“Hospede, assim eu de boa fama e prestigio 
gozaria entre os homens, de imediato e no futuro, 
se eu, que te levei a cabana e te dei regalos, 

405 depois te matasse e privasse do caro animo; 
com fervor ofenderia Zeus, filho de Crono. 

Agora e hora de comer; que logo meus companheiros ca 
estivessem para na cabana prepararmos saboroso jantar”. 


Enquanto assim falavam entre si, 

410 para perto porcos e varoes porcari?os vieram. 

As femeas confinaram nos espa?os para dormir, 
e estridulo indizivel partiu das porcas encerradas. 

Ele a seus companheiros isto ordenou, o divino porcari9o: 
“Trazei o melhor porco para eu sacrificar ao hospede 
415 longinquo; nos mesmos nos beneficiaremos, em agonia 
ha tempo vivendo, sofrendo por porcos dente-branco: 
outros nossa fadiga, incompensada, devoram”. 

Isso dito, rachou lenha com bronze impiedoso; 
e eles trouxeram um porco bem gordo de cinco anos. 

420 Entao o puseram na lareira. O porqueiro nao 
esqueceu os imortais, pois tinha um juizo bom; 
ele, como primicias, no fogo lanfou cerdas da cabe9a 
do porco dente-branco e rezou a todos os deuses 
pelo retorno de Odisseu muito-juizo a sua casa. 

425 De pe, golpeou-o com toco de carvalho, inteiri9o; 

e a vida o abandonou. Eles o degolaram, queimaram cerdas 
e logo o desmembraram; o porqueiro dispos pe9as cruas, 
primicias de todos os membros, na gorda banha. 

Isso no fogo lan90u, apos aspergir graos de cevada; 

430 cortaram o restante, transpassaram em espetos, 
assaram com todo o cuidado, tudo retiraram, 
e o conjunto lan9aram a mesa. O porqueiro 
ergueu-se para trinchar: no juizo bem sabia o correto. 

E tudo em sete partes separou, dividindo; 

435 uma unica as ninfas e a Hermes, o filho de Maia, 
dispos, apos rezar, e as restantes ofereceu a cada um. 

A Odisseu honrou com nacos extensos de lorn bo 
do porco dente-branco, e enalteceu o animo do senhor. 

A ele, falando, dirigiu-se Odisseu muita-astucia: 

440 “Tomara, Eumeu, te tomes tao caro a Zeus pai 
como a mim, que com tantas benesses me honras”. 
Respondendo, disseste-lhe, porqueiro Eumeu: 


“Come, insano hospede, e deleita-te com isto 
que temos; o deus uma coisa dar&, outra negara, 

445 como em seu animo quiser, pois pode tudo”. 

Falou e sacrificou o consagrado a deuses sempiternos; 
apos libar fulgente vinho a Odisseu arrasa-urbe, 
o pos em suas maos, e esse sentou-se junto a sua parte. 
Pao distribuia-lhes Dopatio, a quem o proprio 
450 porqueiro adquirira sozinho, ausente o senhor, 

sem o conhecimento da senhora e do anciao Laerte: 
junto aos tafios comprou-o usando seus bens. 

E eles esticavam as maos sobre os alimentos servidos. 
Mas apos apaziguar o desejo por bebida e comida, 

455 Dopatio retirou o pao, e eles, apos de pao e carne 
fartar-se, para o repouso apressaram-se. 

E a noite chegou, sinistra, lua escura; Zeus choveu 
toda a noite, e soprou o grande Zefiro sempre chuvoso. 
E entre eles falou Odisseu, para testar o porqueiro, 

460 a ver se, despindo-se, ele lhe daria a capa ou a outro 
companheiro incitaria, pois que dele cuidava bastante: 
“Escuta agora, Eumeu, e todos os outros companheiros; 
gabando-me, contarei uma historia: o vinho impoe, 
doido, e te insta, embora muito-juizo, a cantar 
465 e rir levianamente, impulsiona-te a dan£ar 
e enunciar uma historia que e melhor silenciar. 

Mas como j a soltei a lingua, nao me esquivarei. 

Tomara eu fosse jovem, e minha forfa, segura, 
como quando, sob Troia, sofremos ordenada tocaia. 

470 Comandavam Odisseu e Menelau, filho de Atreu, 
e com eles o terceiro a liderar era eu, pois mandaram. 
Quando chegamos a urbe e sua muralha escarpada, 
nos, em torno da cidade, por entre cerrados arbustos, 
em meio a j uncos do pantano, tombados sob as armas, 
475 jaziamos, e a noite chegou, sinistra - junto Boreas -, 
gelada, e de cima vinha neve como geada, 


fria, e gelo se acumulava em volta dos escudos. 

La todos os outros dispunham de capas e tunicas 
e dormiam tranquilos, os escudos a cobrir-lhe os ombros; 

480 mas eu, a capa, ao partir, com companheiros debcei, 
insensato, por nao pensar que faria frio, 
e segui so com escudo e cinturao resplandecente. 

No ter 90 final da noite, concluido o periplo das estrelas, 
entao me dirigi a Odisseu, que estava proximo; 

485 com o cotovelo o cutuquei e ele sem demora entendeu: 
‘Divinal filho de Laerte, Odisseu muito-truque, 
nao mais entre os vivos ficarei, ja que a mim a friagem 
extenua, pois capa nao tenho. Induziu-me a divindade 
a vir so com tunica; agora nao ha mais como fugir’. 

490 Assim falei, e entao ele teve esta ideia no animo, 
distinto como ele era para planejar e combater; 
e pos-se a falar em vozbaixa e dirigiu-me o discurso: 

‘Quieto agora, que nenhum outro aqueu te escute’. 

Falou e, sobre o cotovelo, ergueu a cabega e enunciou: 

495 ‘Ouvi, amigos; veio ate mim, no sono, divino sonho. 

Bern distantes das naus estamos, tomara alguem pudesse 
dizer ao filho de Atreu, Agamemnon, pastor de tropa, 
que ordenasse mais homens viessem das naus’. 

Assim falou, e lan^ou-se Toas, o filho de Andraimon, 

500 celere; deixando para tras a capa marrom, 

pos-se a correr rumo as naus. Eu, sob suas roupas, 
deitei-me, feliz, e brilhou Aurora trono-dourado. 

Fosse eu agora assim jovem, e minha for?a, segura; 
um porqueiro me daria, na quinta, uma capa 
505 por duas razoes, amizade e respeito por bom heroi. 

E agora me desonram, eu com roupas vis sobre a pele”. 
Respondendo, disseste-lhe, porqueiro Eumeu: 

“Anciao, tua historia e impecavel, a que contaste, 
nenhuma palavra desvantajosa e sem adequafao pronunciaste 
510 assim nao disporas de veste nem de outra coisa 


que convem a um suplicante calejado diante de nos 
agora; mas de manha sacudiras teus trapos. 

Pois nao ha muitas capas e tunicas sobressalentes 
aqui para vestir, uma somente para cada homem. 

5 1 5 Mas quando voltar o caro filho de Odisseu, 
ele te dara vestimentas, capa e tunica, 
e te enviara para onde teu cora^ao e animo impelem”. 
Assim falou, ergueu-se e pos-lhe, perto do fogo, 
o leito, e nele lan?ou peles de ovelhas e cabras. 

520 Ai Odisseu deitou-se. E uma capa sobre ele langou, 
compacta e grande, que, sobressalente, tinha pronta 
para vestir quando fizesse mau tempo assustador. 

Assim Odisseu ai repousou, e ao lado dele 
os varoes repousaram, j ovens. Ao porqueiro 
525 desagradava o repouso la, dormir longe dos porcos, 
entao preparava-se para sair; Odisseu alegrou-se, 
pois que cuidava de seus recursos, mesmo ele distante. 
Primeiro espada afiada lan?ou em torno do ombro robusto, 
em volta vestiu a capa protetora, bem compacta, 

530 agarrou o couro de grande cabra bem-nutrida 

e pegou afiada lan?a, prote?ao contra caes e varoes. 

E foi descansar onde os porcos dente-branco, 
sob roc ha concava, dormiam, ao abrigo de Boreas. 



5 

10 

15 

20 

25 

30 


E ate a espa^osa Lacedemonia Palas Atena 
foi, ao ilustre filho do animoso Odisseu 
lembrar do retorno e incita-lo a retornar. 

Encontrou Telemaco e o radiante filho de Nestor 
deitados no vestibulo do majestoso Menelau; 
o filho de Nestor era dominado por sono macio, 
e a Telemaco doce sono nao dominava, mas, no animo, 
na noite imortal, inquieta^oes com o pai o acordavam. 
Parada perto, disse-lhe Atena olhos-de-coruja: 
“Telemaco, nao mais e belo, longe de casa, vagares; 
deixaste bens para tras e, em tna casa, varoes 
tao soberbos: que nao te devorem tudo, 
teus bens dividindo, e tu o trajeto fagas em vao. 

Mas rapido instiga Menelau bom-no-grito 

a enviar-te para ainda topares em casa a mae impecavel. 

Pois seu pai e irmaos ja a incentivam 

a ser desposada por Eurimaco: ele supera todos 

os pretendentes com dons e aumenta as dadivas do pai; 

que, contra tua vontade, nao se levem bens da casa. 

Pois tu sabes, e tal o animo no peito da mulher: 
quer expandir a casa daquele que a desposa, 
e dos filhos anteriores e do caro esposo 
nao mais se lembra, quando morto, nem indaga. 

Deverias tu mesmo, voltando, tudo entregar 
a escrava que te parecer ser a mais nobre, 
ate deuses te revelarem majestosa consorte. 

Outra palavra te direi, e tu compreende-a no animo: 
os melhores pretendentes de libera da mente te tocaiam 
no canal entre Itaca e a escarpada Samos, 
ansiando matar-te antes que atinjas a terra patria. 

Nao creio nisso, porem: antes mesmo a terra cobrira 
os varoes pretendentes, que devoram teus recursos. 

Mas para longe das ilhas afasta a nau engenhosa, 
e tambem a noite navega: chegara a ti uma brisa 


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que te envia um dos imortais que te guarda e protege. 

E quando chegares a primeira praia de Itaca, 
expede a cidade a nau e todos os companheiros, 
e tu mesmo primeiro ao porqueiro te dirijas, 
o guardiao de teus porcos, contigo tambem gentil. 

La descansa a noite e expede-o a cidade 
para anunciar a Penelope bem-ajuizada 
que estas sao e salvo e de Pilos retornaste”. 

Ela, apos falar assim, partiu ao elevado Olimpo, 
e ele ao filho de Nestor despertou do doce sono, 
chutando-o com o pe, e lhe dirigiu o discurso: 

“Acorda, Pisistrato, filho de Nestor; os cavalos monocasco 
traze e j unge ao carro para percorrermos a rota”. 

A ele, entao, Pisistrato, filho de Nestor, retrucou: 
“Telemaco, nao ha como, mesmo com pressa, partir 
pela noite escura a guia-los: logo vira a aurora. 

Espera, ate que traga presentes e no carro os ponha 
o heroi, filho de Atreu, Menelau famoso-na-lan?a, 
e te anime com palavras suaves e de volta te envie. 

Desse o hospede se lembra todos os dias, 
do varao hospitaleiro que demonstrar amizade”. 

Assim falou, e logo veio Aurora trono-dourado. 

E achegou-se deles Menelau bom-no-grito 

apos erguer-se do leito, de junto de Helena belas-madeixas. 

A ele entao vislumbrou o caro filho de Odisseu: 

apressado, a tunica lustrosa em torno da pele 

vestiu, lan90u grande manto nos ombros robustos 

o heroi, foi para fora, e, parado ao lado, disse-lhe 

Telemaco, o caro filho do divino Odisseu: 

“Filho de Atreu, Menelau criado-por-Zeus, lider de tropa, 
ja agora me envia de volta a cara terra patria. 

Ja deseja meu animo, ve, partir para casa”. 

E a ele entao respondeu Menelau bom-no-grito: 

“Telemaco, nao por muito tempo aqui te deterei, 


se anseias pelo retorno; indigno-me contra todo 
70 varao hospitaleiro que com excesso acolhe 

ou com excesso odeia: tndo que e medido e melhor. 

Igual mal incitar o hospede que nao quer partir 
a faze-lo, e reter o que esta apressado. 

Carece acolher o hospede presente, e despedir-se do que quer 
75 Mas fica ate que eu traga presentes belos e os ponha no carro. 
tu com os olhos os vej a, e eu diga as mulheres que no salao 
preparem o aim 090 com o que ha em profusao. 

Ambos ha, majestade e esplendor, e tambem auxilio, 
se, apos comer, se percorre a extensa terra sem-fim. 

80 Se queres perambular na Helade ate o meio de Argos, 
para eu mesmo contigo seguir, jungirei cavalos 
e as urbes dos homens te guiarei; ninguem a nos 
enviara de volta assim, mas nos oferecerao 
ou alguma tripode de fino bronze ou uma bacia, 

85 ou duas mulas ou uma ta9a de ouro”. 

Aele, entao, o inteligente Telemaco retrucou: 

“Filho de Atreu, Menelau criado-por-Zeus, llder de tropa, 
quero ja retornar ate os meus, pois atr&s nao 
deixei, ao vir, um guardiao de minhas posses; 

90 que, procurando o excelso pai, eu mesmo nao pere9a 
ou que algum bem valioso do palacio se perca”. 

Ao ouvir isso, Menelau bom-no-grito 
logo a sua esposa e as escravas ordenou 
preparar aim 090 com o que havia em profusao. 

95 E achegou-se Veridico, filho de Auxiliador, 

apos erguer-se do leito, pois nao morava muito longer 
mandou-o acender o fogo Menelau bom-no-grito 
e came assar; e ele ouviu e obedeceu. 

Menelau desceu ao aposento oloroso, 

100 nao sozinho; com ele iam Helena e Grandafl^ao. 

Mas quando chegaram onde estavam seus bens, 
o filho de Atreu tomou de um calice dupla-al9a 


e ao filho, Grandaflifao, pediu que separasse uma anfora 
de prata. Helena postou-se j unto as areas 
105 onde havia peplos bem ornados que ela mesma lavrara. 
Pegou um unico deles e levou, divina mulher, 
o que era o mais belo, com ornamentos, e o maior, 
e como um astro refulgia; estava embaixo de todos. 

E deslocaram-se de volta pela casa ate alcan?ar 
110 Telemaco; e a ele disse o loiro Menelau: 

“Telemaco, o retorno, como em teu julzo concebes, 
que isso te cumpra Zeus, o ressoante marido de Hera. 
Dos dons, de quantos bens ha em minha casa, 
eu te darei o mais belo e mais valioso. 

1 15 Uma anfora bem-feita te darei: de prata 

ela e toda, e sua borda tern acabamento em ouro, 
obra de Hefesto. Deu-ma o heroi Luzio, 
rei dos sidonios, quando em sua casa albergou-me 
ao la passar no retorno: com ela te quero presentear”. 

120 Falou assim e nas maos colocou o calice dupla-al?a, 
o heroi, filho de Atreu. Eis que a anfora luzidia 
trazia o forte Grandaflifao e pos diante dele, 
de prata. Ao lado postou-se Helena bela-face; 
com o peplo nas maos, dirigiu-se-lhe e nomeou-o: 

125 “Dom tambem eu, filho querido, este te dou, 

lembran<;a das maos de Helena para as bodas desejadas; 
que tua esposa o use: entrementes, junto a cara mae, 
deposita no palacio. Que tu, alegre, voltes 
a casa bem-construida e a tua terra patria”. 

130 Falou assim e nas maos o pos, e ele, alegre, recebeu. 
Esses dons acomodou na cesta o heroi Pisistrato, 
apos recebe-los, e tudo admirou em seu animo. 

E levou-os para a casa Menelau de loiro cabelo. 

Entao os fezsentar em cadeiras e poltronas. 

135 Uma criada despejou agua - trazida em jarra 
bela, dourada - sobre bacia prateada 


para que se lavassem; ao lado estendeu polida mesa. 
Governanta respeitavel trouxe pao e pos na frente, 
e, junto, muitos petiscos, oferecendo o que havia. 

140 Junto, o filho de Auxiliador partia carne e a distribuia; 
e o filho do majestoso Menelau escan?ava vinho. 

E eles esticavam as maos sobre os alimentos servidos. 
Mas apos apaziguar o desejo por bebida e comida, 
entao Telemaco e o radiante filho de Nestor 
145 jungiram os cavalos, subiram no variegado carro 
e partiram do portico, da colunata ressoante. 

E atras deles ia o filho de Atreu, o loiro Menelau, 
com vinho ado^a-juizo na mao direita 
em cilice dourado, para os dois libarem e partir. 

150 Parado diante dos cavalos, saudando-os disse: 

“Sede felizes, j ovens, e a Nestor, pastor de tropa, 
falai, pois, para mim, era como um pai amigavel 
enquanto em Troia peleavamos, os filhos de aqueus”. 
Aele, entao, o inteligente Telemaco retrucou: 

155 “Deveras, a ele, 6 criado por Zeus, como dizes, 
tudo, ao chegarmos, contaremos. Tomara eu assim, 
apos retornar a Itaca, encontrando Odisseu em casa, 
pudesse falar que, tendo de ti obtido toda a amizade, 
parti, e levei bens em profusao e distintos”. 

160 Depois de ter falado, em sua direfao voou a direita 
uma aguia com cintilante gansa domestica do patio 
nas garras, um prodigio; seguiam-na, berrando, 
varoes e mulheres. Ela deles se aproximou 
e, a direita, adejou diante dos cavalos. Aqueles, vendo-a 
165 alegraram-se, e no peito de todos o animo esquentou. 
Entre eles, Pisistrato, filho de Nestor, tomou a palavra: 
“Analisa, Menelau criado-por-Zeus, lider de tropa, 
se o deus mostrou o pressagio a nos dois, ou a ti”. 

Assim falou, e cogitou Menelau caro-a-Ares 
170 como, apos pensar, com adequa^o lhe responderia. 


Antes dele, Helena peplo-bom-talhe falou o discurso: 
“Ouvi-me; eu adivinharei corao em meu animo 
lan^am os imortais, e creio que assim se completara. 

Como aquela pegou a gansa, criada na propriedade, 

175 ao vir da montanha, onde familia e filhote estao, 

assim Odisseu, apos muitos males softer e muito vagar, 
a casa ira retornar e vingar-se; ou tambem j a 
em casa esta, e a todos os pretendentes engendra um mal”. 
Aela, entao, o inteligente Telemaco retrucou: 

180 “Que agora assim fixe Zeus, ressoante marido de Hera; 
entao a ti, tambem la, rezarei como a um deus”. 

Falou, e sobre os cavalos lan<;ou o chicote; eles bem rapido 
saltaram, atraves da cidade, sofregos pela planicie. 
Agitaram o dia todo o jugo que levavam nos dois lados. 

185 E o sol mergulhou, e todas as rotas escureciam. 

E chegaram a Feras, rumo a casa de Diodes, 
o filho de Tocaioso, que Alfeio gerou como filho. 

La descansaram a noite, e ele lhes regalou. 

Quando surgiu a nasce-cedo, Aurora dedos-roseos, 

190 jungiram os cavalos e subiram no variegado carro; 
e partiram do portico, da colunata ressoante. 

Chicoteou para puxarem, e eles de bom grado voaram. 

Eis que rapido chegaram a escarpada cidade de Pilos; 
entao Telemaco interpelou o filho de Nestor: 

195 “Filho de Nestor, como aceitarias e cumpririas 

meu discurso? Aliados, para sempre, proclamamos ser 
por causa da amizade dos pais, mas somos coetaneos. 

Este caminho levara ainda mais a concordia. 

Nao me afastes da nau, criado-por-Zeus: deixa-me aqui; 
200 que o anciao, sem eu querer, nao me retenha em casa, 
ansiando acolher-me: carece que eu chegue bem rapido”. 
Assim falou, e o filho de Nestor planejou em seu animo 
como aceitaria e cumpriria com adequa^o. 

Pareceu-lhe, ao refletir, ser mais vantajoso assim: 


205 dirigiu os cavalos a nau veloz e a orla do mar, 
na popa da nau desembarcou os belos dons, 
vestes e ouro, que Menelau ao outro dera; 
e a ele, incitando, dirigiu palavras plumadas: 

“Com zelo agora embarca e incita todo companheiro 
210 antes que eu em casa chegue e informe o anciao. 

Tudo isto conhe?o bem no juizo e no animo: 
como o animo dele e brutal, nao te deixara ir, 
mas ele mesmo ca vira te chamar, e nao creio que ele 
voltara sem nada, pois estara enraivecido de todo”. 

215 Falou assim, chicoteou os cavalos bela-pelagem 
de volta a urbe dos pilios e r&pido em casa chegou. 

E Telemaco, instigando os companheiros, ordenou: 
“Organizai o equipamento, companheiros, na negra nau, 
e nos mesmos embarquemos para realizar a rota”. 

220 Assim falou, e eles o ouviram direito e obedeceram, 
e logo embarcaram e sentaram j unto aos ca^os. 

Ele isto preparava e rezava, e libava a Atena 
junto a popa da nau; e das cercanias veio-lhe um varao 
de terra distante, fugindo de Argos pois a um varao matara, 
225 e era adivinho. Quanto a familia, descendia de Melampo, 
que antes morava em Pilos, mae de ovelhas e cabras, 
rico entre os pilios, notavel habitante. 

Entao partiu a cidade de outros, fugindo da patria 
e do animoso Neleu, o mais ilustre dos vivos, 

230 que dele muita riqueza, no ciclo de um ano, 
reteve a for 9 a. Entao ele, no palacio de Filaco, 
preso com la 90 dificil, sofria fortes agonias 
por causa da filha de Neleu e do desvario profundo, 
que lhe pos no juizo a deusa, Erinia visitante-da-casa. 

235 Mas ele escapou da morte: tangeu bois muito-mugido 
de Filace ate Pilos, vingou-se do feito ultrajante 
contra o excelso Neleu e, como esposa para o irmao, 
conduziu-a a casa deste. E ele chegou a cidade de outros, 


a Argos nutre-potros, pois ai era-lhe destinado 
240 habitar, sendo o rei de muitos argivos. 

La desposou sua mulher, fezcasa grandiosa 
e gerou Antifates e Adivinhoso, filhos poderosos. 

Antifates gerou o animoso Oicleio, 
e Oicleio, Anfiarau move-exercito, 

245 ao qual demais amaram Zeus porta-egide e Apolo 
com todo amor; e nao atingiu o umbral da velhice, 
mas pereceu em Tebas por causa de dons femininos. 

Dele os filhos foram Alcmaion e Anfiloco. 

Adivinhoso, por sua vez, gerou Polifeides e Ilustre. 

250 Mas a I lustre raptou Aurora trono-dourado 
por sua beleza, para que ficasse entre imortais; 
e um adivinho, do autoconfiante Polifeides, Apolo 
fez, de longe o melhor dos mortais apos morrer Anfiarau. 
Ele para Hiperesia mudou-se, com raiva do pai, 

255 onde, morando, adivinhava para todo mortal. 

Eis que o filho desse chegou, de nome Teoclimeno, 
que entao perto de Telemaco se pos; alcan?ou-o, 
libando e rezando junto a negra nau veloz, 
e, falando, dirigiu-lhe palavras plumadas: 

260 “Meu caro, ja que te alcanpo sacrificando nesta terra, 
suplico pelos sacrificios e pela divindade e depois 
por ti proprio e pelos companheiros que te seguem. 

Diga a mim, que inquiro, o que e veraze nao ocultes: 
quern es? De que cidade vens? Quais teus ancestrais?’. 
265 A ele, entao, o inteligente Telemaco retrucou: 

“Pois eu te falarei, estranho, com muita precisao. 

Sou de uma familia de Itaca, e meu pai e Odisseu, 
se um dia existiu; agora j a pereceu em funesto fim. 

Por isso agora, apos obter companheiros e negra nau, 

270 parti e busquei noticia do pai ha tempo ausente”. 

E a ele dirigiu-se o deiforme Teoclimeno: 

“Assim tambem eu da patria sai apos matar varao 


de meu povo. Muitos irmaos e parentes tinha, 
por Argos nutre-potros, com grande poder sobre aqueus; 
275 para evitar a negra perdifao da morte que deles vem, 
exilei-me, pois cumpre-me vagar entre os homens. 

Mas admite-me na nau; exilado, suplico-te; 

que eles nao me matem, pois creio ser perseguido”. 

Aele, entao, o inteligente Telemaco retrucou: 

280 “Claro, como queres, nao te afastarei da nau simetrica, 
mas vem; la seras acolhido com o que temos”. 

Apos falar assim, tomou-lhe a lan9a bronzea; 
estendeu-a na plataforma da nau ambicurva, 
e ele mesmo embarcou na nau cruza-mar. 

285 Sentou-se na popa da nau, e j unto dele 

fez sentar Teoclimeno; e os outros soltaram os cabos. 
Telemaco, instigando os companheiros, pediu-lhes 
pegar no cordame; e eles, com avidez, obedeceram. 

O m astro de abeto, dentro da concava enora 
290 ergueram, fixaram e prenderam com estais; 

e ifaram branca vela com tiras de couro bem-tran^adas. 
Aeles brisa bem-vinda enviou Atena olhos-de-coruja, 
ventando, agitada, pelo ceu para que, bem rapido, 
a nau efetuasse a corrida pela agua salina do mar. 

295 Passou ao largo de Cruno e Calcis belas-correntes. 

E o sol mergulhou, e todas as rotas escureciam; 
e ela alcan?ou Feas, impulsionada pela brisa de Zeus, 
e passou pela diva Elida, onde dominam os epeus. 

La, entao, direcionou-a rumo as ilhas Ligeiras, 

300 revolvendo se escaparia da morte ou seria pego. 

Nisso os dois na cabana, Odisseu e o divino porcari90 
jantavam; e junto deles jantavam os outros varoes. 

Mas apos apaziguar o desejo por bebida e comida, 
entre eles falou Odisseu, testando o porqueiro: 

305 ou ainda o acolheria com aten9ao e diria para ficar 
la mesmo na quinta ou o expediria a cidade: 


“Escuta agora, Eumeu, e todos os outros companheiros: 
de manha almejo retornar a cidade 
para mendigar; que a ti e aos companheiros eu nao esgote. 
310 Mas aconselha-me bem e oferta um nobre guia 

que me leve ate la; pela urbe eu mesmo, por necessidade, 
vagarei, esperando me estendam caneca e paozinho. 

E, tendo ido a casa do divino Odisseu, 
um anuncio faria a bem-ajuizada Penelope 
315 e me j untaria aos pretendentes soberbos, 

esperando me darem refei?ao, pois tem comida a granel. 
Logo poderia bem servi-los no que quisessem. 

Pois eu falarei, e tu compreende e me escuta: 
por meio de Hermes condutor, que, aos feitos 
320 de todos os homens, gra?a e majestade confere, 
nenhum mortal disputaria comigo em servi^os: 
montar bem o fogo, rachar madeira combustivel, 
trinchar e assar e escan9ar, 
servigos que aos bons prestam os inferiores”. 

325 Bem perturbado, a ele dirigiu-se o porqueiro Eumeu: 

“Ai de mim, hospede, por que ao teu juizo essa ideia 
veio? Tu deveras almejas la perecer, 
se, de fato, queres penetrar na hoste de pretendentes, 
cuja desmedida e violencia atinge o ceu ferroso. 

330 Saiba que nao sao dessa especie ai os seus servi9ais, 
mas jovens, bem-vestidos com capas e tunicas, 
sempre reluzentes suas cabe9as e be las faces, 
esses que aqueles servem; bem-polidas mesas 
estao sempre cheias de pao, carnes e vinho. 

335 Nao, fica; ninguem se irrita com tua presen9a, 

nem eu nem nenhum companheiro que comigo esta. 

Mas quando voltar o caro filho de Odisseu, 
ele com vestes te vestira, capa e tunica, 
e te enviara aonde cora9§o e animo te impelem”. 

340 E a ele respondeu o muita-tenencia, divino Odisseu: 


“Tomara, Eumeu, te tornes tao caro a Zeus pai 
como a mim, pois cessaste minha errancia, agonia terrivel. 
Perambula9ao, nada pior existe entre os mortais; 
mas devido ao funesto estomago tem vis agruras 
345 o varao a quem atingem errancia, miseria e afli9ao. 
Agora, como me retens e ordenas que o aguarde, 
vamos, fala-me da mae do divino Odisseu 
e do pai, que ele, ao partir, deixou no umbral da velhice, 
se ainda estao entre os vivos sob os raios do sol 
350 ou ja estao mortos na morada de Hades”. 

E a ele dirigiu-se o porqueiro, lider de varoes: 

“Portanto a ti, hospede, com muita precisao, direi. 

Laerte ainda vive e para Zeus reza sempre 
que a vida desapare9a de seus membros na casa; 

355 assustador como chora pelo filho ausente 

e pela lidima esposa, atilada, que a ele demais 
afligiu ao perecer e tornou-o um velho prematuro. 

Ela pereceu de afli9ao pelo filho majestoso 
em morte deploravel; assim nao morra quem, 

360 dos que nesta terra moram, me e caro e benfeitor. 

De fato, enquanto ela vivia, embora muito aflita, 
entao era-me caro algo indagar e perguntar, 
pois ela mesma criou a mim e Ctimena peplo-bom-talhe, 
a filha altiva, a mais nova das crian9as que gerou; 

365 com ela fui criado, e honrava-me bem pouco menos. 
Quando ambos atingimos a juventude muito amada, 
casaram-na em Same e adquiriram muitos dons; 
a mim com vestes, capa e tunica, aquela 
cobriu, bem belas, para os pes deu alpercatas 
370 e ao campo me enviou: ainda mais me amava. 

Agora sinto falta disso; mas para mim mesmo 
os deuses ditosos propiciam a lida onde fico: 
disso comi e bebi, e dei aos que se deve respeito. 

Da senhora nao e possivel ouvir algo amavel, 


375 nem palavra nem a$ao, desde que oraal caiu na casa, 
os varoes soberbos. E escravos demais almejam, 
diante da senhora, conversar e de tudo se informar, 
comer e beber, e entao tambem algo levar para si, 
ao campo, do que sempre esquenta o animo dos servos”. 
380 Respondendo, disse-lhe Odisseu muita-astucia: 

“Incrivel, quando eras tao pequeno, porqueiro Eumeu, 
muito vagaste para longe de tua patria e dos pais. 

Mas vamos, dize-me isto e conta com precisao: 
ou foi devastada a cidade de vardes, com amplas ruas, 

385 na qual habitavam teu pai e a senhora mae, 
ou a ti, iso la do junto a ovelhas ou junto a bois, 
varoes inimigos, com naus, pegaram e venderam 
para a casa desse varao, que pagou pre90 digno”. 

E a ele dirigiu-se o porqueiro, lider de varoes: 

390 “Hospede, ]k que isso me perguntas e investigas, 
em silencio presta aten9ao, deleita-te e bebe vinho, 
sentado. Essas noites sao infindaveis: e possivel dormir; 
e possivel deleitar-se em ouvir. Nao carece que tu, 
antes da hora, te deites; muito sono tambem irrita. 

395 Quanto aos outros, a quem o animo do cora9ao impele, 
retirem-se e durmam; despontando a aurora, 
com am e sigam com os porcos do senhor. 

Nos dois na cabana, bebendo e banqueteando, 
com as agruras um do outro, deploraveis, nos deleitemos, 
400 lembrando: mais tarde, ate com afli9oes deleita-se o varao, 
todo que muitos males sofreu e muito vagou. 

Mas isto eu te direi, o que me inquires e questionas. 

Ha uma ilha chamada Siria, se ja escutaste, 
para cima da ilha Codorna, onde os raios do sol voltam 
405 nao populosa por demais, mas, de fato, boa: 

bom gado, boas ovelhas, rica em vinho, muito trigo. 

Afome nunca atinge a comunidade, e nenhuma outra 
doen9a hedionda sobrevem aos pobres mortais: 


mas quando as tribos de homens envelhecem na urbe, 

410 vem Apolo arco-de-prata com Artemis 
e, com suas flechas suaves, chega e mata. 

Ha duas cidades, e para elas tudo em dois e dividido; 
sobre essas duas meu pai regia, 

Ricoso, filho de A^odado, semelhante aos imortais. 

415 La chegaram varoes fenicios, famosos pelas naus, 
velhacos, trazendo milhares de adornos na negra nau. 
Havia, na casa de meu pai, mulher fenicia, 
bela e grande, conhecedora de radiantes trabalhos. 

Eis que iludiram-na os muito experientes fenicios. 

420 Primeiro, na lava de roupa, um deles, junto a cava nau, 
uniu-se a ela em enlace amoroso, isso que ilude o juizo 
de bem femininas mulheres, ainda que honestas sejam. 
Indagou depois quern seria e de onde teria vindo. 

Ela de pronto indicou a grandiosa casa de meu pai: 

425 ‘De Sidon muito-bronze proclamo ser, 

e sou filha de Aribas, cujas riquezas abundam; 
mas os tafios, varoes piratas, me raptaram, 
ao voltar do mercado, ca me trouxeram e venderam, 
para a casa desse varao, que pagou pre?o digno’. 

430 E dirigiu-se-lhe o varao que a ela se unira em segredo: 
‘Portanto agora voltarias conosco para casa, 
para veres a grandiosa casa do pai e da mae 
e a eles?Por certo ainda vivem e sao ditos ricos’. 

E a ele dirigiu-se a mulher e reagiu com o discurso: 

435 ‘Isso seria possivel se pelo menos quisesseis, nautas, 
com jura garantir que para casa me levarao a salvo’. 
Assim falou, e eles todos logo juraram como pediu. 

E apos j urar por complete esse j uramento, 
entre eles de novo falou a mulher e reagiu com o discurso 
440 ‘Silencio agora; nenhum se dirija a mim com palavras, 
um de vossos companheiros, encontrando-se ou na rua 
ou junto a fonte, para ninguem ir a casa ao anciao 


informar, o qual, apos refletir, me prendera 
com la^o dificil e concebera vosso fim. 

445 Mantende no j uizo o discurso e apressai os negocios. 
Mas quando a nauja estiver plena de recursos, 
enviai a casa rapido uma mensagem: 
trarei inclusive ouro, todo o que estiver a mao. 

Tambem gostaria de dar outra paga pela viagem: 

450 o filho do bom varao no palacio eu crio; 
ele e tao ladino, tambem corre porta afora. 

Eu o traria a nau, e para vos pre?o altissimo 
renderia onde o vendesseis entre homens outra -lingua’. 

E ela, apos falar assim, partiu a bela morada; 

455 eles, la permanecendo junto a nos um ano todo, 
na concava nau negociaram muitos recursos. 

Mas quando a cava nau carregada estava para o retorno, 
enviaram um mensageiro para avisar a mulher. 

Chegou um varao multiperspicaza casa de meu pai, 

460 com corrente de ouro entrela^ado com ambar. 

Nela, no salao, as escravas e a senhora mae 
puseram as maos em volta e com os olhos miravam, 
pre^o oferecendo; e ele aquela acenou em silencio. 
Entao, apos acenar, partiu rumo a concava nau, 

465 e ela pegou-me pela mao e saiu de casa porta afora. 
Encontrou, no vestibulo, calices e mesas 
de varoes convivas, que assessoravam meu pai. 

Tinham ido a uma sessao para a fala do povo, 
e ela, rapido, tres ta?as ocultou sob o colo 
470 e levou-as; eu a segui por conta de cego j uizo. 

E o sol mergulhou, e todas as rotas escureciam; 
e nos fomos ao porto famoso, apressando-nos, 
onde estava a nau saltadora dos varoes fenicios. 

Eles entao embarcaram e cruzavam fluentes caminhos, 
475 apos embarcarem a nos dois; e Zeus langava a brisa. 
Seis dias navegamos sem parar, de noite e de dia; 


mas quando o setimo dia fixou Zeus, filho de Crono, 
entao atingiu aquela mulher Artemis verte-setas, 
e no porao ribombou, apos cair como andorinha-do-mar. 

480 Para tornar-se butim de focas e peixes, 

jogaram-na; e eu fui deixado angustiado no cora?ao. 

E de Itaca achegaram-se, levando-os vento e agua, 
onde Laerte comprou-me usando seus bens. 

Assim esta terra eu vi com meus olhos”. 

485 E o divinal Odisseu respondeu-lhe com o discurso: 

“Eumeu, sim, muito agitaste meu animo no peito, 
falando dessas tantas afli?oes que j a sofreste no animo. 

Mas para ti, junto ao mal, pos tambem algo bom 
Zeus, pois chegaste, apos muito penar, a casa de varao 
490 amigavel, que agora te fornece alimentos e bebida, 
gentil, e vives com bons recursos; mas eu, 
apos vagar por muitas urbes de mortais, chego aqui”. 

Assim eles disso falavam entre si, 
e nao dormiram um tempo longo, mas curto; 

495 logo veio Aurora belo-trono. Aproximando-se da praia, 

os companheiros de Telemaco soltaram vela, abaixaram mastro, 
rapido, e a ancoragem a nau impulsionaram com remos. 
Lanfaram a ancora e prenderam os cabos da popa; 
eles mesmos desembarcaram na rebentafao do mar, 

500 prepararam refei9§o e misturaram fulgente vinho. 

Mas apos apaziguar o desejo por bebida e comida, 
entre eles o inteligente Telemaco tomou a palavra: 

“Vos agora a cidade guiai a negra nau, 
mas eu irei as terras cultivadas e aos pastores; 

505 descerei a noite a cidade, apos ver meus campos. 

De manha vos ofertarei uma recompensa, 
belo banquete com carnes e vinho suave”. 

E a ele dirigiu-se o deiforme Teoclimeno: 

“Aonde eu, filho querido, devo ir? Devo chegar a casa 
510 de que varao dos que regem pela rochosa Itaca? 


Ou devo ir direto a casa de tua mae e tua?’. 

Aele, entao, o inteligente Telemaco retrucou: 

“Em outras condifoes eu te mandaria ate nos: 
nao carecem regalos; mas para ti mesmo 
515 sera pior, pois eu estarei longe, e a ti a mae nao 

vera, pois com frequencia aos pretendentes, na casa, 
nao se mostra, mas longe, em cima, tece a trama. 

Mas outro varao te indico, a quern poderas te dirigir, 
Eurimaco, o filho radiante do atilado Polibo, 

520 a quern agora como a um deus os itacenses miram; 
tambem e o mais nobre varao que espera 
desposar minha mae e possuir a honraria de Odisseu. 

Mas disto sabe Zeus Olimpio, morando no ceu, 

se, para eles, antes das bodas, cumprira o dia danoso”. 

525 Assim para ele, apos falar, voou a direita uma ave, 
gaviao, o rapido mensageiro de Apolo; nos pes 
depenava um pombo e deixava cair penas no chao, 
entre a nau e o proprio Telemaco. 

Teoclimeno, afastando-o dos companheiros, 

530 deu-lhe forte aperto de mao e dirigiu-lhe a palavra: 
“Telemaco, nao sem o concurso do deus voou o passaro 
a direita; reconhe 90 nele, olhando de frente, um pressagio. 
Nao ha outra linhagem mais regia que a tua 
na cidade de Itaca, vos sois mais potentes sempre”. 

535 Aele, entao, o inteligente Telemaco retrucou: 

“Ah! Se essa palavra, hospede, se cumprisse; 
entao rapido conhecerias a amizade e muitos dons 
meus, tantos que, se alguem te visse, te diria ditoso”. 

Falou e interpelou Peiraio, confiavel companheiro: 

540 “Peiraio, filho de Clitio, tu, em tudo, e quern mais me atende 
entre os companheiros que a Pilos foram comigo; 
tambem agora o estranho conduza e em tua casa, 
gentil, o acolhe e honra ate eu chegar”. 

Aele, entao, retrucou Peiraio famoso-na-lan?a: 


545 “Telemaco, mesmo se ficares muito tempo aqui, 

eu o hospedarei, e a ele regalos nao serao necessarios”. 
Apos falar assim, foi ate a nau e pediu aos companheiros 
que tambem eles embarcassem e soltassem os cabos. 
Eles logo embarcaram e sentaram-se junto aos cal^os. 

550 E Telemaco atou aos pes belas sandalias 

e tomou a brava lan9a, afiada com ponta de bronze, 
da plataforma da nau; e eles soltaram os cabos. 

Apos afasta-la, navegavam a cidade, como pedira 
Telemaco, o caro filho do divino Odisseu; 

555 rapido avan9ando, os pes levaram-no ate o patio, 

onde havia miriades de porcas, com as quais o porqueiro 
distinto dormia, versado no que agrada aos senhores. 



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15 

20 

25 

30 


Nisso os dois na cabana, Odisseu e o divino porcari?o, 
preparavam o desjejum de manha, apos acender o fogo, 
e enviaram os pastores com o conjunto de porcos. 

E para Telemaco abanaram o rabo os caes ladradores 
e nao ladraram com sua chegada. Viu o divino Odisseu 
os caes abanando o rabo, e o som de pes o envolveu. 

Eis que logo a Eumeu dirigiu palavras plumadas: 

“Eumeu, por certo ca chegara urn companheiro 
ou outro conhecido, pois os caes nao ladram, 
mas abanam o rabo; e escuto o ruido de pes”. 

Nao havia terminado a fala quando seu caro filho 
parou no portico. Estuporado, ergueu-se o porqueiro, 
e de suas maos cairam as vasilhas com que se ocupava, 
misturando fulgente vinho. Ele apresentou-se ao senhor, 
beijou-o na cabe?a, nos dois belos olhos 
e em ambas as maos; e dele tombou espessa Iagrima. 
Como um pai com afeto sauda o caro filho 
que chega de terra distante no decimo ano, 
unico e muito amado, por quern sofreu agonia demais - 
assim ao deiforme Telemaco o porcarigo divino 
beijou e abra^ou-o todo, como a quern da morte escapou. 
Chorando, dirigiu-lhe palavras plumadas: 

“Chegaste, Telemaco, doce luz; nao mais euati 
pensava ver depois que partiste com a nau a Pilos. 

Mas vamos, entra, caro filho, para que no animo 
me deleite, vendo-te, ha pouco de volta, aqui dentro. 

Por certo nao vens amiude ao campo nem aos pastores, 
mas ficas na urbe, pois assim deve agradar-te no animo 
observar a reuniao infernal de varoes pretendentes”. 

A ele, entao, o inteligente Telemaco retrucou: 

“Sera assim, papa; por tua causa vim para ca, 
para que te veja com os olhos e escute palavra, 
se minha mae ainda se mantem no palacio, ou ja um 
outro varao a desposou, e qui?a na cam a de Odisseu, 


35 carente de ocupantes, ha vis teias de aranha”. 

E a ele dirigiu-se o porqueiro, lider de vardes: 

“E claro que ela aguarda, com animo resistente, 
em teu palacio; para ela sempre agonizantes 
esvaem as noites e os dias, e verte l&grimas”. 

40 Apos falar assim, tomou-lhe a lan9a bronzea; 
e ele foi para dentro, cruzou o umbral de pedra. 

Quando achegou-se, cedeu-lhe assento o pai Odisseu; 
Telemaco, do outro lado, conteve-o e disse: 

“Senta, estranho; nos tambem temos assento alhures 
45 em nossa quinta; ha um varao aqui que o arranjara”. 
Isso disse, e ele de novo sentou. Para o outro o porqueiro 
jogou galhos verdes e um velo sobre eles; 
la entao sentou-se o caro filho de Odisseu. 

Para eles o porqueiro dispos gamelas com carnes 
50 cozidas, que na vespera deixaram ao comer; 
pao amontoava, com zelo, em cestas, 
e eis que na cumbuca misturou vinho doce como mel; 
ele proprio sentou-se diante do divino Odisseu. 

E eles esticavam as maos sobre os alimentos servidos. 

55 Mas apos apaziguar o desejo por comida e bebida, 
nisso Telemaco interpelou o divino porcari9o: 

“Papa, de onde veio esse estranho? Como nautas 
trouxeram-no ate Itaca? Quern proclamaram ser? 

De modo algum creio que a pe aqui chegou”. 

60 Respondendo, disseste-lhe, porqueiro Eumeu: 

“Portanto eu te falarei, filho, toda a verdade. 

Proclama ser de uma familia da ampla Creta, 
e dizter perambulado por muitas urbes, 
vagando: isso destinou-lhe a divindade. 

65 Agora, porem, fugiu da nau de varoes tesprotios 
e chegou a minha quinta, e eu o porei em tuas maos. 
Fa9a como quiseres; teu suplicante proclama ser”. 

A ele, entao, o inteligente Telemaco retrucou: 


“Eumeu, deveras aflitiva essa fala que falaste. 

70 Como e que ao estranho eu acolherei em casa? 

Eu proprio sou jovem e nos brafos nao confio 
para afastar um varao quando, primeiro, endurece. 

No peito de minha mae, o animo cogita dividido: 
ou ficar aqui junto a mim e dirigir a casa, 

75 respeitando a cama do marido e a fala do povo, 
ou ja seguir quem for, dos aqueus, o melhor 
varao que a corteja no palacio e que mais oferta. 

Mas ao estranho, pois alcan 90 u tua casa, 
vou vesti-lo com capa e tunica, belas vestes, 

80 darei uma espada duas-laminas e sandalias para os pes 
e enviarei aonde corafao e animo o impelem. 

Se queres, cuida dele tu e retem-no na quinta; 
vestes para ca enviarei, e tambem comida, 
para que a ti e aos companheiros nao esgote. 

85 Para la, entre os pretendentes, eu nao o permitiria 
ir, pois se entregam a desmedida assaziniqua; 
que nao o provoquem: minha afli^ao seria terrivel. 

Mesmo a um varao altivo e dificil fazer algo 
em meio aos outros, em numero tao superior”. 

90 E a ele dirigiu-se o muita-tenencia, divino Odisseu: 

“Amigo, como e norma que eu tambem responda, 
ao ouvir-te dilacera-se meu caro corafao, 
tais as iniquidades que, falastes, pretendentes engenham 
no palacio em opos^ao a ti, sendo quem 6s. 

95 Dize-me, es oprimido de bom grado ou a ti o povo 
odeia na regiao, seguindo a sugestao de um deus? 

Ou em algo censura irmaos, justo em quem um varao, 
na peleja, confia, mesmo se ocorre grande contenda? 

Tomara fosse eu tao jovem como jovem e meu animo, 

100 ou o filho do impecavel Odisseu eu fora, ou mesmo o proprio, 
que chegasse, vagando: resta ainda uma parte de esperampa; 
logo depois poderia cortar minha cabe$a um heroi hostil 


caso eu nao me tornasse um mal para todos eles, 
achegando ao salao de Odisseu, filho de Laerte. 

105 Se eles, mais numerosos, me subj ugassem, 
preferiria, assassinado em meu palacio, 
estar morto a sempre afrontar estes ultrajes, 
eles a maltratar estranhos e arrastar escravas 
de forma ultrajante na be la morada, 

110 emborcando vinho e comendo pao 

assim a toa, sem fim, para um feito sem remate”. 

Aele, entao, o inteligente Telemaco retrucou: 

“Portanto a ti, hospede, com muita precisao, direi. 

Nem todo o povo, com odio, contra mim endurece, 

1 15 nem censuro irmaos, j usto em quern um varao, 

na peleja, confia, mesmo se ocorre grande contenda. 

Em nossa linhagem o filho de Crono so da um unico: 
o unico filho que Arquesio gerou foi Laerte; 
o unico, entao, Odisseu, a quern, como pai, gerou; Odisseu, 
120 o unico, a mim, no palacio, gerou e deixou, sem desfrutar. 
Por isso, agora, miriades de inimigos na casa ha. 

Com efeito, quantos nobres tern poder sobre as ilhas, 
Duliquion, Same e a matosa Zacintos, 
e quantos regem pela rochosa Itaca, 

125 tantos cortejam minha mae e esgotam a casa. 

Ela, nem recusar as hediondas bodas nem as completar, 
disso nao e capaz; eles, porem, devastam, comendo, 
minha casa. Logo despeda 9 arao tambem a mim. 

Nao, isso repousa nos joelhos dos deuses. 

130 Papa, vai bem rapido e a prudente Penelope 
diga que estou sao e salvo e de Pilos cheguei. 

Eu ficarei aqui mesmo, e tu, para ca, retorna 
apos so a ela anunciares; que nenhum outro aqueu 
seja informado: muitos, contra mim, engenham males”. 
135 Respondendo, disseste-lhe, porqueiro Eumeu: 

“Compreendo, reflito; pedes para quern isso entende. 


Mas vamos, dize-me isto e conta, com precisao, 
se tambem pela mesma via levo o anuncio a Laerte, 
desventurado, que ha tempo, tao aflito por Odisseu, 

140 observa os cultivos e com os escravos na casa 
bebe e come quando o animo no peito ordena; 
e agora, desde que tu com nau partiste a Pilos, 
dizem que ele nao come nem bebe como sempre, 
nem os cultivos olha, mas, com gemido e lamento, 

145 senta chorando, e so 9 obra a pele em volta dos ossos”. 

A ele, entao, o inteligente Telemaco retrucou: 

“Tanto pior. Ainda assim o deixemos, embora angustiados. 
Se para os mortais tudo dependesse da vontade, 
primeiro escolheriamos o dia do retorno de meu pai. 

150 Mas vai, da o recado e volta, e nao perambules 
pelos campos atras dele; e instrua a mae 
a mandar criada governanta o mais rapido possivel, 
as ocultas: ela podera dar o recado ao anciao”. 

Falou, e o porqueiro com as maos pegou sandalias, 

155 atou-as aos pes e a cidade rumou. E Atena nao 
ignorou o porcari^o Eumeu saindo da quinta 
e se achegou: o corpo como de uma mulher 
bela, grande e conhecedora de radiantes trabalhos. 

Parou no vestibulo da cabana, aparecendo a Odisseu; 

160 Telemaco nao a viu diretamente nem observou - 
nem sempre os deuses a todos aparecem vividos -, 
mas Odisseu e os caes a viram, e nao latiram, 
e com ganidos fugiram ao outro lado da quinta. 

Ela com as celhas sinalizou; notou-a o divino Odisseu, 

165 saiu do salao, para alem do grande muro do patio 
e parou diante dela. E a ele disse Atena: 

“Divinal filho de Laerte, Odisseu muito-truque, 
diga ja agora a teu filho uma palavra e nao ocultes, 
para, apos talhar a perd^ao da morte aos pretendentes, 
170 irdes a cidade bem famosa, os dois; eu propria, nao 


estarei muito tempo longe de vos, sofrega por guerrear”. 

Falou, e com a dourada vara golpeou-o Atena. 

Primeiro, para ele, manto bem-lavado e tunica 

pos em torno do peito, e ampliou seu porte e juventude. 

175 Logo tornou-se pele- bronze ada, o maxilar esticou-se, 
e preta ficou a barba em volta do queixo. 

Ela, apos agir assim, partiu de volta; e Odisseu 
foi a cabana. O caro filho assombrou-se com ele, 
receou ser um deus, lanfou os olhos ao outro lado 
180 e, falando, dirigiu-lhe palavras plumadas: 

“Diferente de antes, estranho, surgiste agora mesmo, 
tens outras vestes e tua pele nao e a mesma. 

Por certo es um deus, eles que do largo paramo dispoem. 

Se propicio para te darmos sacrificios comprazedores 
185 e dons de ouro, bem-feitos; e poupa os nossos”. 

A ele respondeu o muita-tenencia, divino Odisseu: 

“Nao sou um deus; por que me comparas a imortais? 

Porem sou teu pai, aquele por quern gemes 
e sofres muita agonia, submetido a violencia de varoes”. 

190 Apos falar assim, beij ou o filho, e, da face, 

escorreram Iagrimas ao chao; antes as contivera. 

Nao convencido de que era seu pai, Telemaco 
de novo a ele dirigiu palavras em resposta e disse: 

“Tu nao es Odisseu, o meu pai, mas divindade que a mim 
195 enfeiti<:a, para que, chorando ainda mais, eu gema. 

Por certo um varao mortal nao engendraria isso 
com sua propria mente, exceto se o deus, ele mesmo, 
viesse e, querendo, facil tornasse-o jovem ou velho. 

Com efeito, ha pouco eras velho e vestias andrajos; 

200 agora te assemelhas a deuses, que do largo paramo dispoem”. 
Respondendo, disse-lhe Odisseu muita-astucia: 

“Telemaco, nao convem, com o caro pai aqui dentro, 
ficares aturdido em excesso nem te admirares. 

Ve, nenlium outro Odisseu ainda vira para ca, 


205 mas eu aqui, tal e qual, apos muito sofrer, muito vagar, 
cheguei no vigesimo ano a terra patria. 

Mas sabe que este feito foi de Atena traz-butim, 
a qual me torna assim como quer, pois e capaz, 
ora semelhante a um mendigo, ora, de novo, 

210 a um jovem varao com belas vestes no corpo. 

E facil para os deuses, que do largo paramo dispoem, 
ou glorificar um homem mortal ou rebaixa-lo”. 

Apos falar assim, sentou-se, e Telemaco 
abra$ou o nobre pai e gemeu, vertendo la grim as. 

215 E nesses dois foi instigado desejo por lamento; 

choravam alto, com mais veemencia que passaros, 
brita-ossos ou abutres garra-adunca, cujo filhotes 
camponeses sequestram antes de tornarem-se alados- 
assim eles, sob as celhas, vertiam lagrimas lamentaveis. 

220 Enquanto choravam, teria se posto a luz do sol, 
se Telemaco nao tivesse logo interpelado o pai: 

“Pois a ti, em que nau agora, caro pai, nautas te 
conduziram ate Itaca? Quern proclamaram ser? 

De modo algum creio que a pe aqui chegaste”. 

225 E a ele dirigiu-se o muita-tenencia, divino Odisseu: 

“Portanto eu a ti, filho, contarei a verdade. 

Fe&cios trouxeram-me, famosos pelas naus; tambem a outros 
homens conduzem, aqueles que os alcan9arem; 
a mim trouxeram, em nau velozpelo mar, dormindo, 

230 depuseram-me em Itaca e deram-me dons incontaveis, 
bronze, ouro a granel, veste tecida. 

Isso, gra?as aos deuses, encontra-se numa gruta; 
agora, aqui vim por instruqmes de Atena, 
para planejarmos a matanfa dos inimigos. 

235 Mas vamos, diz-me o numero de pretendentes, 
para que eu saiba quantos e que varoes sao; 
apos ter cogitado em meu animo impecavel, 
ponderarei: ou so nos dois poderemos resistir. 


os unicos, ou deveremos a outros buscar”. 

240 Aele, entao, o inteligente Telemaco retrucou: 

“Pai, sempre ouvi de tua grande fama, 

lanceiro nos bravos e refletido nos pianos; 

mas falaste grande demais, espanto-me: nao teria como 

dois varoes combaterem contra muitos e altivos. 

245 De pretendentes nao ha uma dezena ou so duas, 
mas muito mais; logo saberas aqui o numero. 

De Dullquion, cinquenta e dois 
j ovens seletos, e seis servos os seguem; 
de Same, sao vinte e quatro herois; 

250 de Zacintos, vinte sao os j ovens aqueus; 
e da propria Itaca, doze, os melhores todos, 
e com eles estao o arauto Medon, um divino cantor, 
e dois assistentes, versados trinchadores. 

Se a eles todos encararmos quando dentro estiverem, 

255 que nao te seja amarga e cruel a vingan<;a pela violencia. 
Mas tu, se puderes cogitar algum protetor, 
pondera, um que nos protegesse com animo solicito”. 

E a ele dirigiu-se o muita-tenencia, divino Odisseu: 
“Portanto eu falarei, e tu compreende e me escuta, 

260 e observa se, para nos, Atena com o pai Zeus 
bastara ou se devo cogitar algum outro protetor”. 

Aele, entao, o inteligente Telemaco retrucou: 

“Distintos, sim, esses dois protetores de quern falas, 
embora no alto, nas nuvens sentados; eles a outros 
265 varoes tambem regem, e a deuses imortais”. 

E a ele dirigiu-se o muita-tenencia, divino Odisseu: 

“Sabe que os dois, muito tempo, nao ficarao longe 
do com bate violento quando entre os pretendentes e nos, 
em meu palacio, o impeto de Ares se decidir. 

270 Mas agora, quando a aurora aparecer, parte 
para casa e re une -te aos pretendentes soberbos; 
o porcar^o me levara mais tarde a cidade. 


eu assemelhado a um mendigo debil e velho. 

Se me desonrarem pela casa, que teu caro coragao 
275 resista no peito, mesmo que eu sofra de forma vil, 
ainda que, na casa, pelos pes me puxem porta afora 
ou com petardos me atinjam: tu, ao vires, te contem. 

Claro, mande-os interromper tal loucura, 
com palavras amaveis convencendo-os; a ti eles nao 
280 obedecerao, pois perto deles ji chega o dia fatal. 

Outra coisa te direi, e tu, em teu juizo, a lan<;a: 
quando a muito-plano puser em meu juizo, Atena, 
a ti farei um sinal com a cabe?a, e presta aten^ao: 
tantas armas de guerra quantas ha no palacio, 

285 guarda-as no fundo do quarto de alto pe-direito, 
todas; e aos pretendentes, com palavras macias, 
ludibria ao te arguirem sentindo falta delas: 

‘Tirei-as da fumaga, pois nao pareciam mais com aquelas 
que Odisseu deixou para tras ao ir a Troia, 

290 mas se desfiguraram, tao atingidas foram pelo bafo do fogo. 
Ademais, o filho de Crono pos algo maior no meu juizo, 
que, bebados, apos comegar briga entre vos, 
nao vos ferissem uns aos outros e estragassem o banquete 
e a corte: o ferro, por si, puxa o homem’. 

295 So para nos, duas espadas e duas lanfas 

deixa, e duas adargas para pegar com as maos, 
de sorte a nos lan^ar sobre elas e as agarrar; e a eles 
Palas Atena enfeitifara e tambem o astucioso Zeus. 

Outra coisa te direi, e tu em teu juizo a lan$a: 

300 se de verdade es meu e de nosso sangue, 
que ninguem saiba que Odisseu esta dentro; 
que Laerte disso nao saiba, nem o porqueiro, 
nenhum servo nem a propria Penelope, 
mas so tu e eu conheceremos a intenfao das mulheres. 

305 Ainda poderiamos testar os escravos varoes, 
quern acaso nos honra e teme no animo. 


e quem e malcriado e te desonra, sendo quem es”. 
Respondendo, disse-lhe o filho ilustre: 

“Pai, meu animo tambem depois, penso, 

310 conhecer&s: nao me dominam ideias frouxas. 

Mas isso eu nao penso que sera uma vantagem 
para nos dois, e pe?o-te que ponderes. 

Muito tempo ficaras em vao testando cada um, 
campos percorrendo; e eles, no palacio, tranquilos, 

315 os bens abocanham, brutos, sem restri^ao. 

Mas eu pe^o que examines as mulheres, 
as que te desonram e as que sao inocentes; 
aos varoes eu nao quereria, pela quinta, 
que os testassemos, isso faremos depois, 

320 se de verdade sabes de prodigio de Zeus porta-egide”. 
Assim eles disso falavam entre si, 
e eis que a Itaca foi guiada a nau engenhosa 
que trouxe Telemaco e todos os companheiros de Pilos. 
Quando eles entraram no porto bem profundo, 

325 puxaram a negra nau para a terra firme, 

as arm as lhes carregaram assistentes autoconfiantes 
e logo ate Clitio levaram os presentes bem belos. 

Mas um arauto enviaram a casa de Odisseu 
para fazer o anuncio a bem-ajuizada Penelope: 

330 que Telemaco estava no campo e mandara a nau 
a cidade singrar, para que, temerosa no animo, 
a altiva senhora nao vertesse lagrima suave. 

E os dois toparam-se, arauto e divino porqueiro, 
por causa do mesmo anuncio a ser dado a mulher. 

335 Mas quando atingiram a casa do divino senhor, 
o arauto, junto as servas, no meio delas, falou: 

“Ve, rainha, teu caro filho j A voltou”. 

E para Penelope falou o porcari^o, parado perto, 
tudo que o caro filho pedira que lhe enunciasse. 

340 Mas depois que transmitiu o anuncio inteiro, 


foi em direpao aos porcos e deixou casa e salao. 

E os pretendentes, perturbados e abatidos no animo, 
sairam do palacio, para a 16m do grande muro do patio, 
e 16 mesmo, diante dos portoes, sentaram-se. 

345 Entre eles Eurimaco, filho de Polibo, come^ou a falar: 
“Amigos, feito inaudito, com soberba, foi cumprido 
por Telemaco, esse trajeto! Cremos que nao o cumpriria. 
Vamos, negra nau puxemos, a que for a melhor, 
e reunamos marinheiros remadores que, de pronto, 

350 aqueles anunciarao que rapido a casa retornem”. 

Nao havia sido dito tudo quando Anfinomo viu a nau, 
apos afastar-se de seu lugar, no porto bem profundo, 
eles recolhendo a vela e segurando os remos nas maos. 
Gargalhou com prazer e dirigiu-se aos companheiros: 

355 “Nao enviemos mais o anuncio; ei-los ai dentro. 

Ou um deus lhes disse isso, ou viram eles mesmos 
a nau passando, e nao conseguiram alcan?a-la”. 

Assim falou, ergueram-se e foram a orla do mar. 

Rapido puxaram a negra nau para a terra firme, 

360 e assistentes autoconfiantes lhes levaram as armas. 

Eles a agora foram em grupo e a ninguem mais 
permitiam, nem jovem nem velho, com eles sentar. 

Entre eles falou Antinoo, filho de Persuasivo: 

“Incrivel como os deuses livraram da desgra^a esse varao. 
365 De dia, vigias sentavam-se pelos picos ventosos, 
sempre se revezando; quando o sol se punha, 
nunca em terra descansavamos a noite, mas no mar, 
com nau veloznavegando, esperdvamos a diva Aurora, 
tocaiando Telemaco, para pega-lo e mata-lo; 

370 nisso, eis que um deus o levou para casa. 

Nos, aqui, para ele planejemos funesto fim, 

para Telemaco: que de nos nao escape, pois nao creio, 

estando ele vivo, que esses feitos serao realizados. 

Ele proprio e habil na mente, 


375 e o povo nao nos traz mais apoio. 

Mexei-vos, antes que ele convoque os aqueus 
para a agora: nao creio que relaxara, 
mas se entregara a ira, e, de pe entre todos, contard 
que lhe costuramos morte abrupta mas nao o alcan^amos; 
380 e eles nao aprovarao ao ouvir os feitos danosos: 
que nao nos inflij am dano e nos expulsem 
de nossa terra, obrigando-nos a partir para outras regides. 
Que o matemos apos pega-lo no campo, longe da urbe, 
ou na senda: retenhamos seus recursos e posses, 

385 apos tudo dividir entre nos com adequaipao, e a propriedade 
a daremos a sua mae e a quern a desposar. 

Se a vos esse discurso desagrada e antes preferis 
que ele viva e mantenha todos os bens paternos, 
entao nao devoremos aos montes as posses fascinantes 
390 aqui reunidas, mas cada um, da sua morada, 
que a corteje, tentando com dadivas; ela entao 
casara com quern mais ofertar e a ela for destinado”. 

Assim falou, e eles todos, atentos, se calaram. 

E entre eles Anfinomo tomou a palavra e disse - 
395 o ilustre filho de Niso, o senhor filho de Are to, 
ele que da herbosa, fertil Duliquion 
conduzia pretendentes e quern a Penelope mais 
agradava pelos discursos, pois tinha juizo valoroso. 
Refletindo bem, entre eles tomou a palavra e disse: 

400 “Amigos, eu nao gostaria que Telemaco 

fosse assassinado: e terrivel a linhagem divina 
matar; primeiro indaguemos os pianos dos deuses. 

Se permitirem as normas do grande Zeus, 
eu mesmo o matarei e exortarei todos os outros; 

405 se os deuses desencoraj arem, pe 90 que desistam”. 

Assim falou Anfinomo, e agradou-lhes o discurso. 

Presto, apos se eguerem, foram a casa de Odisseu, 
chegaram e sentaram-se nas poltronas polidas. 


E ela outra coisa pensou, Penelope bem-ajuizada: 

410 aparecer aos pretendentes, donos de brutal desmedida. 
Soubera, no palacio, do planejado fim de seu filho; 
falara-lhe o arauto Medon, que dos pianos se inteirara. 

E pos-se rumo ao salao com suas criadas mulheres. 
Quando alcan 90 u os pretendentes, divina mulher, 

415 parou ao lado do pilar do teto, solida construfao, 
apos puxar, para diante da face, o veu reluzente, 
e a Antinoo reprovou, dirigiu-se-lhe e nomeou-o: 
“Antinoo, desmedido, artifice de males; e dizem de ti, 
na terra de Itaca, que entre os camaradas es o melhor 
420 em pianos e discursos; mas estas longe de se-lo. 

Louco, por que tu, para Telemaco, o quinhao da morte 
costuras e desconsideras os suplicantes, dos quais e Zeus 
testemunha?Nao e pio costurar males um para o outro. 
Nao sabes de quando aqui chegou teu pai, em fuga, 

425 temendo o povo? Sim, estavam muito enraivecidos, 
porque, tendo-se ligado aos piratas tafios, 
ele lesara os tesprotios, que eram nossos aliados. 

Aele quiseram destruir, arrancar seu cora^ao 
e devorar o rico e delicioso sustento; 

430 mas Odisseu a eles, ansiosos, segurou e conteve. 

Agora comes em sua casa de gra?a, cortejas a esposa, 
o filho tentas matar eamim me enche de afl^oes. 

Para e exorta os outros a tambem parar”. 

A ela Eurimaco, filho de Polibo, retrucou: 

435 “Filha de Icario, Penelope bem-ajuizada, 
coragem: que isso nao te ocupe ojuizo. 

Nao existe o varao, nem existira nem nascera, 
que contra Telemaco, teu filho, descera o bra 90 
enquanto eu viver e sobre a terra vigiar. 

440 Pois assim eu falarei, e de fato isto se completara: 
de pronto seu negro sangue j orrara em volta da lan 9 a 
nossa, pois tambem a mim Odisseu arrasa-urbe 


amiude em seus joelhos me sentava, came assada 
punha-me nas maos e servia-me o vinho tinto. 

445 Por isso Telemaco me e, de longe, o mais caro de todos 
os varoes e por certo pe 90 -lhe nao temer morte 
advinda de pretendentes; a dos deuses nao se evita”. 

Assim falou, encorajador, e ele mesmo preparava seu fim. 
Ela, apos subir aos aposentos lustrosos, 

450 chorou por Odisseu, caro esposo, ate para ela o sono 
doce sobre as palpebras lan?ar Atena olhos-de-coruja. 

A noite, o divino porqueiro com Odisseu e o filho 
veio ter; eles, diligentes, preparavam o jantar, 
apos abater um porco de um ano. E Atena, 

455 postando-se perto, a Odisseu, filho de Laerte, 
com golpes da vara de novo fez dele um anciao 
e vestiu-lhe vestes ordinarias no corpo, para o porcari?o, 
ao ve-lo, nao o reconhecer e a prudente Penelope 
corner a anunciar, incapazde segurar no juizo. 

460 A ele Telemaco, por primeiro, o discurso enunciou: 

“Ja chegaste, divino Eumeu?Que relato corre a cidade? 
Acaso os arrogantes pretendentes j a voltaram 
da tocaia, ou ainda la me esperam a caminho de casa?’. 
Respondendo, disseste-lhe, porqueiro Eumeu: 

465 “Isso nao me interessou apurar e indagar, 

quando a cidade desci; o animo pediu-me bem rapido, 
apos o anuncio fazer, que para ca retornasse. 

Topou-me o veloz mensageiro dos companheiros, 
o arauto, que por primeiro falou palavra a tua mae. 

470 Outra coisa sei, pois vi com os olhos: 

ja acima da cidade, onde fica a colina de Hermes, 
ia andando, quando vi uma nau veloz dir igir-se 
a nosso porto: muitos varoes sobre ela ha via, 
cheia de escudos e lan 5 as duas-curvas; 

475 pensei que esses fossem eles, mas nao sei”. 

Assim falou, e sorriu a sacra forfa de Telemaco, 


olhando para o pai e evitando os olhos do porcari^o. 
Eles, apos concluir a tarefa e terem aprontado o jantar, 
jantaram, e ao animo porq:ao alguma faltou. 

480 Mas apos apaziguar o desejo por comida e bebida, 
lembraram-se do repouso e aceitaram o dom do sono. 



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Quando surgiu a nasce-cedo, Aurora dedos-roseos, 
depois de atar aos pes be las sand&lias, 

Telemaco, o caro filho do divino Odisseu, 
tomou a brava lan<;a, que a sua palma se adequava, 
e ansiando ir a urbe falou a seu porcarigo: 

“Sim, papa, eu irei a cidade, para que a mim 
minha mae me veja; nao creio que ela interrompa 
o hediondo pranto e o lamento lacrimoso, 
antes de ver-me em pessoa. E a ti pe<?o isto: 
esse infelizestranho leva a cidade, para que la 
refei9ao mendigue. Quern quiser lhe dara, 
caneca e paozinho; eu nao posso a todos 
os homens sustentar: tenho afli9oes no animo. 

Se o estranho ficar muito irado, pior para ele 
sera; ve, e-me caro a verdade enunciar”. 

Respondendo, disse-lhe Odisseu muita-astucia: 

“Amigo, nem eu mesmo desejo aqui permanecer. 

Para o mendigo e melhor na cidade que no campo 
mendigar refei9ao; quern quiser me dara. 

Nao estou mais na idade de ficar na quinta 
para submeter-me em tudo ao senhor que ordena. 

Mas va; que me leve esse varao, a quern tu pedes, 
logo apos eu me aquecer com o fogo, e o calor despontar. 
Ruins ao extremo essas roupas: que nao me dobre 
a geada matutina; dizeis que a cidade e distante”. 

Assim falou, e Telemaco marchou ao longo do patio, 
veloznos pes, e engendrava males aos pretendentes. 

Mas quando atingiu a casa boa para morar, 
a lan9a postou, levando-a ate enorme pilar; 
ele foi para dentro, cruzando o umbral de pedra. 
Aprimeira a ve-lo foi a nutrizEuricleia, 
a estender velos sobre artificiosas poltronas; 
aos prantos, logo acorreu a ele; as outras 
escravasde Odisseu juizo-paciente reuniam-se 


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em volta dele e beijavam-lhe, com afeto, cabe?a e ombros. 
E ela saiu do quarto, Penelope bem-ajuizada, 
semelhante a Artemis ou dourada Afrodite; 
em torno do caro filho lan?ou os bra? os, aos prantos, 
beijou-o na cabe?a e nos dois belos olhos 
e, lamentando-se, dirigiu-lhe palavras plumadas: 

“Chegaste, Telemaco, doce luz; nao mais pensava 
ver-te apos teres partido com a nau para Pilos, 
de surpresa, a minha revelia, atras de novas do caro pai. 
Vamos, conta-me com que visao te deparaste”. 

A ela, entao, o inteligente Telemaco retrucou: 

“Minha mae, favor nao chorar nem meu cora?ao 
no peito agitar, pois escapei de abrupto fim; 
mas, apos te lavar, vestir roupas limpas no corpo 
e subir aos aposentos com tuas criadas mulheres, 
reza a todos os deuses que sacrifices completos 
faras, se acaso Zeus completar a vingan?a. 

Quanto a mim, rumarei a agora para chamar 
o estranho que de la trouxe quando voltei. 

Enviei-o na frente com os excelsos companheiros, 

e pedi a Peiraio que o levasse a sua casa, 

que gentil o acolhesse e honrasse ate minha chegada”. 

Assim ele falou, e para ela o discurso foi plumado. 

Ela, apos se lavar e vestir roupas limpas no corpo, 
rezou a todos os deuses que sacrifices completos 
faria, se acaso Zeus completasse a vingan?a. 

Telemaco entao cruzou o salao e saiu com a lan?a; 
dois lepidos caes seguiam com ele. 

Eis que prodigiosa gra?a sobre ele vertia Atena; 
todo o povo contemplava-o em sua chegada. 

E os arrogantes pretendentes reuniram-se em torno dele, 
falando como nobres e no juizo ruminando males. 

Mas ele evitou a grande aglomera?ao, 
e onde Mentor sentou-se, e Antifo e Haliterses, 


todos, desde o inicio, companheiros de seu pai, 

70 para la se dirigiu e sentou; e inqueriam-no de tudo. 

E deles aproximou-se Peiraio famoso-na-lan?a, 
levando o estranho a agora pela urbe; muito tempo 
Telemaco nao ficou longe do estranho, logo achegou-se. 
E a ele Peiraio, por primeiro, o discurso enunciou: 

75 “Telemaco, manda logo mulheres a minha casa 
para buscar as dadivas que te deu Menelau”. 

Aele, entao, o inteligente Telemaco retrucou: 

“Peiraio, nao sabemos como se darao as coisas. 

Se a mim os orgulhosos pretendentes no palacio 
80 de surpresa matarem e dividirem todos os bens paternos, 
prefiro que tu, nao um deles, as possuas e aproveites; 
e se eu lograr contra eles matanga e perdi9ao, e, 
entao para mim, alegre, leva-as a casa com alegria”. 
Assim falou e guiou o calejado estranho a morada. 

85 E quando atingiram a casa boa para morar, 
depuseram as capas nas cadeiras e poltronas, 
foram ate a banheira bem-polida e se banharam. 

Apos as escravas banha-los, unta-los com oleo 
e em torno lan9ar espessas capas e tunicas, 

90 sairam da banheira e sentaram nas cadeiras. 

Uma criada despejou agua - trazida em jarra 
bela, dourada - sobre bacia prateada 
para que se lavassem; ao lado estendeu polida mesa. 
Governanta respeitavel trouxe pao e pos na frente, 

95 e, j unto, muitos petiscos, oferecendo o que havia. 

Amae sentou-se defronte, junto ao pilar do salao, 
reclinada na cadeira, volteando os finos fios. 

E eles esticavam as maos sobre os alimentos servidos. 
Mas apos apaziguar o desejo por comida e bebida, 

100 entre eles come90u a falar Penelope bem-ajuizada: 
“Telemaco, subirei aos aposentos 
e deitarei na cama, que me e rica em gemidos. 


sempre umida com minhas lagrimas, desde que Odisseu 
partiu com os filhos de Atreu a Ilion; e nao pudeste, 

105 antes de os orgulhosos pretendentes chegarem a essa casa, 
do retorno de teu pai falar-me as claras, se algo ouviste”. 
Aela, entao, o inteligente Telemaco retrucou: 

“Portanto eu a ti, mae, contarei a verdade. 

Partimos rumo a Pilos e Nestor, pastor de tropa. 

110 Apos me receber em sua alta casa, 

acolheu-me, gentil, como o pai a seu filho 

que ha pouco voltou depois de tempo: assim ele de mim 

cuidou, gentil, com os filhos majestosos. 

Acerca de Odisseu juizo-paciente, disse que nunca 
1 15 ouviu de mortal se estava vivo ou morto, 

e a mim ao filho de Atreu, Menelau famoso-na-lan^a, 
enviou com cavalos e carro bem-ajustado. 

La vi a argiva Helena, gra 9 as a qual muito 
aguentaram argivos e troianos por obra dos deuses. 

120 Entao perguntou-me logo Menelau bom-no-grito 
de que eu carecia para ir a divina Lacedemonia; 
e eu contei-lhe toda a verdade. 

Entao a mim, com palavras respondendo, disse: 

‘Inc rive 1, deveras no leito de varao juizo-forte 
125 cob^aram deitar-se, eles proprios sendo covardes. 

Como quando a cerva, na toca de um leao, 
bota os recem-nascidos lactentes para dormir, 
e investiga encostas e vales herbosos, a pastar, 
e entao a fera se achega a seu leito 
130 e sobre aqueles dois lan 9 a fado ultraj ante: 

assim Odisseu sobre eles lan 9 ara fado ultraj ante. 

Tomara, 6 Zeus pai, Atena e Apolo, 
com o porte que, entao, em Lesbos bem-construida, 
na disputa com Filomeleides, se ergueu, lutou 
135 e o derrubou com for 9 a, e se alegraram todos os aqueus: 
assim aos pretendentes encontrasse Odisseu; 


todos seriam destino-veloz e bodas-amargas. 

Quanto ao que me indagas e suplicas, eu nao 
tergiversarei pelas bordas nem te enganarei, 

140 mas do que me falou o veraz anciao maritimo, 
disso nada esconderei de ti nem palavra ocultarei. 

Disse que numa ilha o viu, sofrendo fortes agonias, 
no palacio da ninfa Calipso, que a ele, a for^a, 
retem: nao consegue atingir sua terra patria. 

145 Nao tern naus com remos nem companheiros 
que o levariam sobre as amplas costas do mar’. 

Assim falou o filho de Atreu, Menelau famoso-na-lan^a. 
Apos isso completar, retornei; deram-me uma brisa 
os imortais, que rapido me conduziram a terra patria”. 

150 Assim falou, e agitou o animo dela no peito. 

Tambem entre eles falou o deiforme Teoclimeno: 
“Respeitavel esposa de Odisseu, filho de Laerte, 
ele nao sabe ao claro, ja minha fala entende: 
com precisao para ti adivinharei e nao esconderei. 

155 Saiba agora Zeus, antes dos deuses, e a hospitaleira mesa 
e o fogo-lar do impecavel Odisseu, ao qual cheguei, 
que Odisseu j a esta na terra patria, 
sentado ou circulando; informado dessas vis agoes, 
a todos os pretendentes engendra um mal: 

160 tal o pressagio que eu, na nau bom-conves, 
sentado, observei e bradei a Telemaco”. 

E a ele dirigiu-se Penelope bem-ajuizada: 

“Ah! Se essa palavra, hospede, se cumprisse; 
entao rapido conhecerias a amizade e muitos dons 
165 meus, tantos que, se alguem te visse, te diria ditoso”. 
Assim eles disso falavam entre si, 
e os pretendentes, diante do salao de Odisseu, 
deleitavam-se com discos e arremesso de lan9as 
em solo nivelado, desmedidos como no passado. 

1 70 Mas na hora do j antar, quando vieram os rebanhos 


do campo, de todo o lado, e os que sempre os guiavam, 
entao lhes disse Medon - era ele o que mais 
agradava, dos arautos, e no banquete junta va-se a eles: 

“Jovens, agora que vos haveis deleitado no peito com as provas, 
175 dirigi-vos a casa para prepararmos o banquete; 
nao e ruim fazer a refeifao na hora certa”. 

Isso disse, ergueram-se e, persuadidos pelo discurso, foram. 

E quando atingiram a casa boa para morar, 
capas depuseram nas cadeiras e poltronas, 

180 e grandes ovelhas e gordas cabras abateram, 
e abateram porcos cevados e um boi do rebanho, 
preparativos para o banquete. E aqueles do campo a cidade 
se puseram em marcha, Odisseu e o divino porcari<;o. 

Entre eles comefou a falar o porqueiro, lider de varoes: 

185 “Assim sej a, hospede, j a que tens gana de ir a cidade 
hoje, como meu senhor impos; por certo, eu preferiria 
que aqui ficasses como protetor da quinta. 

Mas eu o respeito e temo que, contra mim, no futuro 
ralhe: sao duras as censuras dos senhores. 

190 Agora vamos; ve, j a passou a maior parte 
do dia, e logo, a noitinha, te sera mais frio”. 

Respondendo, disse-lhe Odisseu muita-astucia: 

“Compreendo, reflito; pedes para quern isso entende. 

Pois vamos, e tu, entao, segue sempre na frente. 

195 De-me o cajado, se acaso tens um cortado, 

para apoio, pois dissestes ser a via bem acidentada”. 

Falou e sobre os ombros lan?ou o repulsivo alforje, 
todo rasgado, e nele a al?a era uma corda; 
e Eumeu deu-lhe um bastao perfeito. 

200 Os dois partiram, e caes e varoes pastores na quinta 
ficaram, protegendo-a. Ele a cidade guiou o senhor 
com aparencia de mendigo, debil e velho, 
apoiado no bastao; vestes ordinarias vestia no corpo. 

Mas quando, descendo pela via escarpada. 


205 estavam perto da cidade e a fonte chegaram - 

trabalhada, belo-fluxo, onde os citadinos pegavam agua, 
construida por Itaco, Nerito e Polictor: 
em volta havia bosque de alamos nutridos por agua, 
todo em circulo, e para baixo fluia agua fria 
210 do alto de urn rochedo; sobre ele fora erguido um altar 
as ninfas, onde todos os viandantes sacrificavam - 
la alcanfou-os Preto, filho de Finorio, 
tocando cabras, distintas entre todos os caprinos, 
refei^ao para os pretendentes; seguiam-no dois pastores. 

215 Vendo-os, dirigiu-se-lhes e nomeou-os com ralho 
terrlvel e ultrajante, e o cora9ao de Odisseu agitou-se: 
“Agora, de fato, o vil ao vil com razao conduz, 
como o deus sempre leva o igual ao igual. 

Desgra9ado porqueiro, para onde levas esse glutao, 

220 mendigo encrenqueiro, comedor de sobras de j antar? 
Encostado em muito umbral, ro9ara os ombros, 
mendigando nacos, nao espadas nem bacias. 

Se tu mo desses para tornar-se protetor da quinta, 
limpar currais e levar folhagem aos cabritos, 

225 poderia, bebendo soro, ate engrossar a coxa. 

Mas sim, como aprendeu serv^os vis, nao querera 
fazer o servi90, mas, curvando-se pelos arredores, 
prefere, mendigando, engordar seu estomago insaciavel. 

Mas eu te falarei, e isto se completara: 

230 se ele se dirigir a casa do divino Odisseu, 

a muitas banquetas lan9adas pelas maos dos varoes 
suas costelas extenuarao, ao ser atingido na casa”. 

Isso disse, avan90u e com o pe saltou, insensato, 
contra a coxa; o golpe nao o pos para fora da trilha, 

235 mas firme permaneceu. Ele, Odisseu, cogitou 
se, indo atras, com o cajado tiraria sua vida 
ou, contra o solo, lan9aria a cabe9a, apos ergue-lo pelo meio; 
mas aguentou, conteve-se no juizo. Com aquele o porqueiro 


ralhou, encarando-o, e, alto, orou, maos para cima: 

240 “Ninfas da fonte, filhas de Zeus, se um dia Odisseu 
coxas queimou-vos, encobertas com gorda gordura, 
de ovelhas e cabritos, para mim cumpri este desejo: 
que volte esse varao, e o guie a divindade. 

Entao espantaria toda tua radiancia, 

245 que, agora, desmedido, carregas, sempre vagando 
pela urbe; e as cabras, pastores ruins as aniquilam”. 

Aele, entao, Preto replicou, o pastor de cabras: 

“Incrlvel, como falou o cao perito em maleflcios! 

Aele, um dia, eu mesmo, sobre negra nau bom-conves, 

250 guiarei para longe de Itaca, para onde me renda boa quantia. 
Ah! Se a Telemaco atingisse Apolo arco-de-prata 
hoje no palacio, ou pelos pretendentes fosse subjugado, 
assim como Odisseu, longe, perdeu o dia do retorno”. 

Isso disse e deixou-os la, e eles, tranquilos, se foram; 

255 ele marchou e bem rapido chegou a casa do senhor. 

Logo foi para dentro e entre os pretendentes sentou-se, 
diante de Eurimaco, de quern mais gostava. 

Aseu lado naco das carnes puseram os que serviam, 
e governanta respeitdvel trouxe pao e pos na frente, 

260 para comer. Para perto Odisseu e o divino porcarifo 
vieram e pararam, e envolveu-os a cadencia 
da concava lira: Femio entoava-lhes um preludio. 

E Odisseu, pegando o porqueiro pelo bra 90 , falou: 

“Sim, Eumeu, essa, de fato, e a bela casa de Odisseu; 

265 e facil de reconhecer, mesmo se vista entre muitas. 

Comodos em sucessao, seu patio se completa 
com muro e cornijas e os portoes sao engenhosos, 
duplos; nenhum homem os equiparia melhor. 

Percebo que nela se banqueteiam muitos 
270 varoes, pois se espraia odor de gordura, e dentro a lira 
soa, a que os deuses fizeram companheira do banquete”. 
Respondendo, disseste-lhe, porqueiro Eumeu: 


“Reconheceste facil, pois de resto nao es imponderado. 
Mas vamos, ponderemos corao serao estas a 9 oes: 

275 ou tu por primeiro entra na casa boa para morar 
e te junta aos pretendentes, e eu ficarei aqui; 
ou, se quiseres, aguarda, e eu irei antes. 

Mas nao te demores; que ninguem, percebendo-te fora, 
te atinja ou golpeie: pe 90 que ponderes”. 

280 E a ele respondeu o muita-tenencia, divino Odisseu: 
“Compreendo, reflito; pedes para quem isso entende. 
Pronto, vai antes, e eu aqui ficarei, 
pois nao sou inexperto em socos e arremessos. 

Meu animo aguenta, ja sofri muitos males 
285 em ondas e guerra; que depois disto, aquilo ocorra. 

Nao e possivel escamotear o sofrego estomago, 
funesto, que confere muitos males aos homens; 
por causa dele, equipam-se naus firme-bancos 
e pelo mar ruidoso levam males aos inimigos”. 

290 Assim eles disso falavam entre si. 

E um cao, deitado, ergueu cabe 9 a e orelhas, 

Argo, de Odisseu juizo-paciente, ao qual ele mesmo 
criou, mas dele nao desfrutou; antes a sacra Ilion 
partiu. No passado levavam-no os j ovens varoes 
295 atras de cabras selvagens, coelhos e cervos; 
no presente, desprezado, j azia, ausente o senhor, 
sobre muito esterco de bois e mulas, que, 
diante dos portdes, acumulava-se, ate que o levassem 
os escravos de Odisseu para estercar o grande terreno. 
300 La j azia o cao, Argo, cheio de carrapato. 

E entao, quando percebeu Odisseu proximo, 
ele abanou o rabo, deixou cair as duas orelhas 
e depois nao conseguiu mais perto de seu mestre 
chegar. E ele, olhando para longe, secou as lagrimas, 
305 evitando facil Eumeu, e rapido perguntou-lhe: 

“Eumeu, e bem espantoso que jaza esse cao no esterco. 


E belo no porte, e isto nao sei ao claro, 
se alem da bela estampa era rapido na corrida, 
ou somente como os caes de mesa dos varoes 
310 sao: por causa da radiancia, tratam-nos os senhores”. 
Respondendo, disseste-lhe, porqueiro Eumeu: 

“De fato, esse cao, do varao que longe morreu, 
se no porte e nos feitos fosse tal como 
quando, ao ir a Troia, deixou-o para tr&s Odisseu, 

315 logo, mirando-o, admirarias rapideze bravura. 

Nao escapava, no amago da mata profunda, 
o animal que perseguisse; era tambem perito em pegadas. 
Agora passa mal, pois seu senhor, distante da patria, 
finou, e dele as mulheres negligentes nao tratam. 

320 Escravos, quando os senhores nao mais comandam, 
entao nao querem mais fazer o apropriado: 
de metade da excelencia priva Zeus ampla-visao 
ao varao que o dia escravizador agarra”. 

Isso dito, entrou na casa boa para morar 
325 e foi direto ao salao atras dos ilustres pretendentes. 

Quanto a Argo, apanhou-o o destino da negra morte 
assim que viu Odisseu no vigesimo ano. 

Ao porqueiro, o primeiro a ve-lo entrar no salao 
foi o deiforme Telemaco, que rapido o chamou 
330 ate si, acenando. Ele observou e pegou uma banqueta 
- nela o trinchador sentava, muita carne 
trinchando aos pretendentes que na casa se banqueteavam 
levou-a a mesa de Telemaco e postou-a 
diante dele, onde entao sentou-se. Para ele o arauto 
335 uma porsao pegou, serviu-a e tirou pao do cesto. 

Logo atras dele entrou na casa Odisseu, 
com a aparencia de mendigo debil e velho, 
apoiado no bastao; vestes ordinarias no corpo vestia. 
Sentou-se no umbral de freixo das portas, 

340 apoiado no batente de cipreste, que um dia carpinteiro 


aplanou, habil, e com o prumo endireitou. 

Telemaco chamou o porqueiro ate si e dirigiu-se a ele, 
apos tomar um pao inteiro do cesto bem belo 
e came, tanta quanta em suas maos cabia: 

345 “Leva isso, da ao estranho e pefa-lhe 

que mendigue, achegando-se, a todos os pretendentes; 
pudor nao e boa companhia para um varao necessitado". 
Isso dito, em seguida partiu o porcarifo, 
que entao dirigiu-lhe palavras plumadas: 

350 “Hospede, Telemaco te da isso e pede 

que mendigues, achegando-te, a todos os pretendentes; 
pudor nao e bom, diz, para um varao pedinte”. 
Respondendo, disse-lhe Odisseu muita-astucia: 

“Senhor Zeus, seja Telemaco fortunado entre os varoes, 

355 e lhe ocorra tudo que deseja em seu juizo”. 

Falou, e com as duas maos recebeu e acomodou 
a comida la mesmo, diante dos pes, sobre o ultrajante alforj 
e comia enquanto o cantor no palacio cantava. 

Quando tinha j antado, e o divino cantor calara, 

360 os pretendentes iniciaram arruasa no palacio. E Atena, 
postando-se perto de Odisseu, filho de Laerte, 
instigou-o a recolher migalhas entre os pretendentes 
e a reconhecer quern era correto, e quern, desregrado; 
mas nem assim protegeria algum do mal. 

365 Pos-se a pedir a cada um, da esquerda para a direita; 
estendia a mao como seja mendigasse ha muito. 

Eles, apiedados, lhe davam e, pasmados, 

inquiriam um ao outro quern seria e de onde teria vindo. 

Entre eles falou Preto, o pastor de cabras: 

370 “Ouvi-me, pretendentes da esplendida rainha, 
acerca desse estranho, pois, sim, ja antes o vi. 

De fato ate aqui o porqueiro conduziu-o, 
e dele nao sei ao claro de que linhagem proclama ser”. 

Isso dito, Antinoo, com palavras, provocou o porqueiro: 


375 “Notorio porqueiro, por que a cidade tu a ele 
guiaste?Nao temos vagamundos sufic ientes, 
mendigos encrenqueiros, comedores de sobras do jantar? 
Ou nao te basta que devorem o sustento de teu senhor 
os aqui reunidos, e tu tambem o chamaste para dentro?’. 
380 Respondendo, disseste-lhe, porqueiro Eumeu: 

“Antinoo, embora sejas distinto, bem nao falaste: 
quern chama um estrangeiro quando est& de visita 
a um terceiro, exceto no caso de um destes profissionais, 
adivinho, medico de males, carpinteiro 
385 ou tambem cantor inspirado, que deleita, cantando? 

Sao esses os mortais chamados pela terra sem-fim; 
a um mendigo, que o iria dilapidar, ninguem chamaria. 
Mas sempre es duro, mais que todos os pretendentes, 
com os escravos de Odisseu, em especial comigo; eu 
390 nao me importo, enquanto a prudente Penelope 
e o deiforme Telemaco viverem no palacio”. 

A ele, entao, o inteligente Telemaco retrucou: 

“Quieto, a ele nao respondas demais com palavras; 
Antinoo costuma provocar de forma vil, sempre 
395 com duros discursos, e instiga tambem os demais”. 

Falou e a Antinoo dirigiu palavras plumadas: 

“Antinoo, cuidas bem de mim como, do filho, o pai, 
ao pedires que ao estranho se escorrace do salao 
com discurso coativo: que isso o deus nao complete. 

400 Vai, da-lhe algo; nao me recuses, pois pe 90 -o eu. 

Nisso nao te envergonhes de minha mae ou de outro 
escravo dos que vivem na casa do divino Odisseu. 

Mas nao ha, em teu peito, uma tal ideia; 
preferes bem mais comer a obsequiar alguem”. 

405 E a ele Antinoo, respondendo, disse: 

“Telemaco fala-altiva, de impeto incontido, que falaste! 
Se todos os pretendentes tanto lhe entregassem, 
por tres meses a propriedade o manteria longe”. 


Assim falou e de debaixo da mesa puxou 
410 a banqueta onde apoiava os pes luzidios ao festar. 

Os outros todos colaboraram, e pejaram o alforje 
de pao e carne. Pois ligeiro teria Odisseu 
voltado a soleira e provado a dadiva dos aqueus; 
postou-se, porem, junto a Antinoo e disse-lhe: 

415 “Da, amigo; o pior dos aqueus nao me pareces 
ser, mas o melhor, pois te assemelhas a um rei. 

Por isso e preciso que da comida des ainda mais 
que os outros; e eu te glorificarei pela terra sem-fim. 
Tambem eu, um dia, entre os homens, morei em casa 
420 rica, afortunado, e amiude obsequiava um errante, 
fosse como ele fosse e do que precisasse ao chegar; 
tinha miriades de escravos e muita outra coisa 
com que se vive bem esee tido como rico. 

Mas Zeus, filho de Crono, destruiu; quis de algum modo - 
425 ele que a mim, com piratas muito errantes, incitou-me 
ir ao Egito, um longo trajeto, para que me arruinasse. 

E ancorei no rio Egito as naus ambicurvas. 

Entao pedi aos leais companheiros 

que la ficassem junto as naus e as guardassem, 

430 e instiguei batedores a buscar atalaias. 

Aqueles cederam a desmedida, seguindo seu impeto, 
e bem r&pido os bem belos campos de varoes egipcios 
destruiam, levavam mulheres e crian?as pequenas, 
e a outros matavam. Logo a gritaria chegou a cidade. 

435 Tendo ouvido a algaravia quando a aurora surgiu, 
vieram; o plaino todo pejou-se de soldados e carros 
e relampejo bronzeo. La Zeus prazer-no-raio lansou 
vil pavor em meus companheiros; nenhum suportou 
ficar imovel, a encarar, pois por todos os lados males ha via. 
440 La a muitos dos nossos mataram com bronze afiado 
e a outros, vivos, levaram para trabalhos forsados. 

A mim, rumo a Chipre, deram-me a aliado que chegara, 


Dominador, filho de Iaso, que regia Chipre com vigor. 

Assim, de la cheguei aqui, sofrendo miserias”. 

445 Aele, por sua vez, Antinoo respondeu e disse: 

“Que divindade trouxe essa miseria, flagelo do jantar? 
Posta-te assim no centro, afastado de minha mesa, 
para que rapido nao vejas amargos Egito e Chipre: 
que audacioso e aviltante pedinte es tu. 

450 Em sequencia, pedes a cada um; e eles dao, 
levianos, pois nao existe conten<;ao nem remorso 
no ofertar bens alheios, pois ha muito para cada um”. 
Recuando, disse-lhe Odisseu muita-astucia: 

“Incrivel, tanto te falta em juizo quanto te sobra em estampa. 

455 A quern alcan 9 asse tua casa, nem grao de sal darias, 
tu que, agora sentado na mesa alheia, nada me pudeste 
do pao pegar e ofertar; e ha muito disponivel”. 

Assim falou, e Antinoo enraiveceu-se mais no corai^ao, 
olhou-o de cima e dirigiu-lhe palavras plumadas: 

460 “Agora, creio, nao sera bonito como, salao afora, 
recuaras, pois falas ate insultos”. 

Isso dito, tomou a banqueta e acertou o ombro direito 
de Odisseu, bem no alto. Ele postou-se como uma pedra, 
firme, e o projetil de Antinoo nao o desequilibrou; 

465 quieto, meneou a cabe?a, ruminando males. 

Retornando a soleira, sentou-se; no chao o alforje 
bem-fornido depos e entre os pretendentes falou: 

“Ouvi-me, pretendentes da esplendida rainha, 
vou falar o que o animo me ordena no peito. 

470 Por certo nao ha angustia nem afli 9 ao no j uizo 
quando um homem, combatendo por seus bens, 
e atingido - sej a pelos bois ou brancas ovelhas; 
mas Antinoo me atingiu por causa do reles estomago 
funesto, que confere muitos males aos homens. 

475 Mas se acaso para mendigos ha deuses e Erinias, 

que antes das bodas a morte certeira alcance Antinoo”. 


E a ele dirigiu-se Antinoo, filho de Persuasivo: 

“Come tranquilo, estranho, sentado, ou vai a outro lugar; 
que os j ovens pela casa nao te puxem, ao falares assim, 
480 ou pelo pe ou pelo bra90, rasgando-te inteiro”. 

Assim falou, e eles todos se indignaram por demais; 
e desse modo falavam os j ovens arrogantes: 

“Antinoo, nao foi bonito atingir o miseravel errante. 
Maldito, se acaso for algum deus celeste! 

485 Deuses, assemelhados a estranhos de outras terras, 
tomando todas as formas, percorrem as cidades, 
a observar a desmedida dos homens e a boa norma”. 

Isso diziam os pretendentes, e ele desprezou os discursos. 
Telemaco foi tornado de angustia enorme no cora^ao, 
490 mas lagrima ao solo nao verteu das palpebras; 
quieto, meneou a cabe^a, ruminando males. 

Como Penelope bem-ajuizada escutou quando 
ele foi atingido no salao, entre as escravas disse: 

“Tomara desse modo te atinja Apolo arco-famoso”. 

495 E a ela a governanta Eurinome dirigiu o discurso: 

“Que a nossos votos se una a realiza<;ao; 
nenhum desses ai alcan<;aria a Aurora belo-trono”. 

E a ela dirigiu-se Penelope bem-ajuizada: 

“Maezinha, odiosos sao todos, pois engenham males; 

500 e Antinoo e quern mais se assemelha a negra morte. 

Um hospede miseravel erra pela casa, 
aos homens mendigando, pois a necessidade impoe; 
entao todos os outros o abarrotaram e obsequiaram, 
e ele com a banqueta atingiu-o abaixo do ombro direito”. 
505 Ela assim falava entre as escravas mulheres, 

sentada no aposento; e ele jantava, o divino Odisseu. 

E ela chamou o divino porqueiro ate si e dirigiu-se-lhe: 
“Anda, divino Eumeu, vai ate o estranho e lhe diga 
que venlia, para que o saude e interrogue, 

510 se acaso de Odisseu juizo-paciente tern informa9ao 


ou o viu com os olhos; parece alguem que muito vagou”. 
Respondendo, disseste-lhe, porqueiro Eumeu: 

“Se para ti, rainha, se calassem os aqueus; 
o que ele discursa enfeitiparia teu caro corapao. 

515 Por tres noites o tive, e por tres dias segurei-o 

na cabana: fui o primeiro que alcanpou, apos fugir da nau; 
mas nao concluiu a narrapao de sua desgrapa. 

Como um varao observa o cantor, que dos deuses 
aprendeu e canta palavras desejaveis aos mortals 
520 que tern ganas de ouvi-lo sem cessar quando canta - 
assim ele me enfeitipou, sentado no meu salao. 

Afirma ter lapos ancestrais de hospitalidade com Odisseu, 
quando morava em Creta, onde esta a linhagem de Minos. 
Assim, de la chegou aqui, sofrendo miserias, 

525 rolo-rolando. Reivindica ter ouvido, acerca de Odisseu, 
que perto estd, na fertil terra dos varoes tesprotios, 
vivo; e bens em profusao trazpara sua morada”. 

E a ele replicou Penelope bem-ajuizada: 

“Vai, chama-o aqui, para ele o expor diante de mim. 

530 Que aqueles se divirtam sentados na frente das portas 
ou aqui pela casa, pois seu animo e gaudioso. 

Claro, suas posses intactas estao na propriedade, 
pao e doce vinho; isso comem seus servos, 
e eles, frequentando nossa casa todos os dias, 

535 abatendo bois, ovelhas e gordas cabras, 
festejam e bebem fulgente vinho, 
levianos. Isso se desperdipa a larga. Nao ha varao, 
tal como era Odisseu, para afastar o dano da casa. 

Se Odisseu voltasse e alcanpasse sua terra patria, 

540 logo, com seu filho, iria vingar-se da violencia dos varoes”. 
Assim falou, e Telemaco alto espirrou, e em volta a casa, 
ameapadora, ecoou. Riu Penelope, 
e eis que logo a Eumeu dirigiu palavras plumadas: 

“Vai, chama o estranho para encontrar-me aqui. 


545 Nao viste que meu filho espirrou para todas as palavras? 
Assim nao ficaria incompleta a morte dos pretendentes, 
de todos, e nenhum escaparia da perdi?ao da morte. 

Outra coisa te direi, e tu, em teu juizo, a lan?a: 
se eu reconhecer que ele, sem evasivas, tudo expoe, 

550 vou vesti-lo com capa e tunica, belas vestes”. 

Isso disse, e partiu o porcariipo apos ouvir o discurso 
e, parado perto, dirigiu-lhe palavras plumadas: 

“Pai estrangeiro, chama-te Penelope bem-ajuizada, 
a mae de Telemaco; o animo lhe pede 
555 inquirir do esposo, embora agruras tenha sofrido. 

Se reconhecer que tu, sem evasivas, tudo expoes, 
vai vestir-te com capa e tunica, das quais careces 
por demais; a mendigar pao pela comunidade, 
o estomago encheras: dar-te-a quern quiser”. 

560 E a ele replicou o muita-tenencia, divino Odisseu: 
“Eumeu, eu logo, sem evasivas, tudo exporia 
a filha de Icario, Penelope bem-ajuizada: 
conhe 90 isso bem, pois aguentamos igual agonia. 

Mas temo a reuniao dos crueis pretendentes, 

565 cuja desmedida e violencia atingem o ceu ferroso. 

Pois agora, quando esse varao ai - eu andava pela casa 

e nada de ruim fizera - atingiu-me e feriu, 

disso nem Telemaco me protegeu nem algum outro. 

Por isso agora pe?a a Penelope que, no palacio, 

570 espere, embora avida, ate o sol se por; 

que entao me indague acerca do marido, o dia de retorno, 
sentando-me mais perto junto ao fogo. Ve, roupas 
tenho ordinarias; bem sabes, pois supliquei a ti primeiro”. 
Assim falou, e saiu o porqueiro apos ouvir o discurso. 

575 A ele, ao passar pela soleira, dirigiu-se Penelope: 

“Tu nao o trazes, Eumeu? O que pensou o errante? 

Acaso teme alguem em excesso ou por outra razao 
mostra pudor pela casa? E ruim um errante pudico”. 


Respondendo, disseste-lhe, porqueiro Eumeu: 

580 “Discursa com adequa^ao o que outro tambem pensaria, 
tentando evitar a desmedida dos varoes arrogantes. 

Mas pede que tu esperes ate o sol se por. 

Tambem para ti mesma ser& bem melhor, rainha, 
sozinha, quando ao estranho falar uma palavra e ouvir”. 
585 E a ele replicou Penelope bem-ajuizada: 

“Insensato nao e, o estranho; pensa nas consequencias. 

Pois tais nao ha por al, entre homens mortals, 

tao desmedidos varoes que engenham inlquas a9oes”. 

Ela assim falou, e foi o porcari90 divino 
590 ate o grupo de pretendentes apos tudo expor. 

De pronto a Telemaco dirigiu palavras plumadas, 
perto pondo a cabe^a, para nao os ouvirem os outros: 
“Meu caro, partirei para cuidar dos porcos e disto, 
de teu e meu sustento; que aqui tudo seja tua atribui^ao. 
595 Primeiro, zela por ti, e pondera no animo 

para que nada sofras; muitos aqueus atentam vilezas: 
que Zeus os destrua antes que se tornem nossa desgra^a”. 
A ele entao o inteligente Telemaco retrucou: 

“Sera assim, papa; parte apos petiscares: 

600 de manha, vem e traga belos animais para o sacrificio. 

E eu e os imortais nos ocuparemos daquilo tudo”. 

Isso dito, aquele de novo sentou-se na cadeira bem-polida. 
Tendo-se saciado, no animo, de comida e bebida, 
foi em dire^ao aos porcos e deixou os muros e o salao 
605 cheio de convivas. Eles com a dan9a e o canto 

deleitavam-se, pois j a se aproximara o fim da tarde. 



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E chegou o mendigo das redondezas, que, pela urbe 
de Itaca, mendigava, e sobressala, com estomago louco, 
por comer e beber sem cessar; nao tinha forfa 
nem vigor, mas na aparencia era bem grande de se ver. 
Seu nome era Borregoso: pusera-o sua augusta mae 
ao nascer; os j ovens, todos, chamavam-no Iro, 
pois levava mensagens sempre que pedissem. 

Ao chegar, tentou expulsar Odisseu de sua casa, 
e, provocativo, dirigiu-lhe palavras plumadas: 

“Sai do portico, velho, que nao te puxem logo o pe. 

Nao percebes que todos piscam para mim 
e pedem que te puxe? Eu, porem, tenho pudor. 

Vamos, senao presto brigamos tambem a socos”. 
Olhando de banco, disse-lhe Odisseu muita-astucia: 
“Insano, nao fa?o nem falo nada ruim contra ti, 
nem invejo que alguem ate muito separe e te de. 

Essa soleira abarcara os dois, e nao carece que 
invejes o que e de outro; a mim pareces urn errante 
como eu, e os deuses vao oferecer fortuna. 

A socos, nao me desafies demais, nao me enraive9as; 
que eu, embora velho, nao te manche, peito e labios, 
de sangue: ainda mais tranquilidade haveria para mim 
amanha, pois nao creio que tu te voltarias 
uma segunda vezao salao de Odisseu, filho de Laerte”. 
Enraivecido, disse-lhe o errante Iro: 

“ Inc rive 1, nao e que o glutao fala de forma loquaz, 
como velha no forno? Contra ele armarei vilezas, 
vou golpea-lo com as duas maos e, no chao, cada dente 
dos maxilares quebrarei, como de porco destroi-colheita. 
Agora cinta-te, para que todos nos assistam 
lutando: como combaterias varao mais jovem?’. 

Assim eles, diante das portas altas, 
na soleira polida, animosos discutiam. 

Aambos escutou o impeto sagrado de Antinoo, 


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que gargalhou com prazer e disse aos pretendentes: 
“Amigos, por certo antes nao ocorreu algo semelhante, 
nunca tal deleite o deus conduziu a esta casa: 
o estrange iro e Iro estao brigando entre si, 
vao combater a socos; rapido, vamos incita-los”. 

Assim falou, e todos eles pularam, rindo, 
e reuniram-se em torno dos mendigos maltrapilhos. 

E entre eles falou Antinoo, filho de Persuasivo: 

“Ouvi-me, pretendentes orgulhosos, vou falar. 

Buchos de cabra, ai no fogo, para o jantar 
dispusemos, apos enche-los de banha e sangue. 

Aquele que veneer e for o mais forte, 
que avance, e da iguaria, o que quiser, escolha ele mesmo; 
sempre aqui, entre nos, comera, e nenhum outro 
mendigo pedinte permitiremos que se misture”. 

Assim falou Antinoo, e agradou-lhes o discurso. 

Com mente ardilosa, disse-lhes Odisseu muita-astucia: 
“Amigos, e impossivel com varao mais jovem lutar 
um velho varao, combalido pela carencia; mas impele-me 
o estomago, este vilao, a me subjugar a golpes. 

Vamos, agora jurai-me todos vigorosa jura: 
que ninguem, apoiando Iro, com bra90 pesado a mim 
golpeie e seja iniquo, e a for?a submeta-me a ele”. 

Assim falou, e todos eles juraram como pediu. 

Porem, apos jurarem por completo essa jura, 
entre eles falou a for9a sacra de Telemaco: 

“Hospede, se o orgulhoso animo do cora9ao te impele 

a repeli-lo, a nenhum dos outros aqueus 

temas, pois quem te acertar combatera mais homens. 

Sou eu que te hospedo, e dois re is aprovaram, 

Eurimaco e Antinoo, ambos inteligentes”. 

Assim falou, e todos aprovaram. E Odisseu 
cintou-se com trapos na genitalia, mostrou as coxas, 
belas e grandes, e apareceram seus ombros largos, 


o peito e os brat; os robustos; e Atena, 

70 achegando-se, inchou os membros do pastor de homens. 

Os pretendentes, todos, irritaram-se com soberba; 
e assim falavam, fitando quem estava ao lado: 

“Logo Iro - ex-Iro - obtera um mal autoinfligido, 
tal e a coxa que, de sob os trapos, o velho mostra”. 

75 Assim falavam, e Iro sentiu-se mal no animo. 

Mesmo assim, apos cinta-lo a for 9 a, servos levaram-no, 
medroso; e as carnes tremiam em torno dos membros. 
Antinoo reprovou-o, dirigiu-se-lhe e nomeou-o: 

“Agora, exibidao, nao deverias existir nem ter nascido, 

80 se, de fato, para ele tremes e te apavoras assim, 

para velho varao combalido pela carencia que o atingiu. 

Mas o que te direi, isto tambem se cumprira: 

se ele te veneer e for o mais forte, 

te enviarei ao continente, apos te lan?ar em negra nau, 

85 rumo ao rei Apresador, flagelo de todos os mortais, 

que deve te cortar o narize as orelhas com impiedoso bronze, 
arrancar os genitais e dar crua refei^ao aos caes”. 

Assim falou, e mais tremeram seus membros embaixo. 
Levaram-no ao centro; e os dois estenderam os bra?os. 

90 Entao cogitou o muita-tenencia, divino Odisseu, 

se o golpearia de sorte que a alma 1& o deixasse, caido, 
ou se o golpearia de leve e o deixaria estendido no chao. 
Pareceu-lhe, ao refletir, ser mais vantajoso assim: 
ele o golpearia de leve, para os aqueus nao perceberem. 

95 Entao, maos para cima, Iro golpeou seu ombro direito, 

e Odisseu golpeou-lhe o pesco 90 sob a orelha e o osso adentro 
esmagou: de pronto a boca subiu sangue vermelho, 
e ele tombou no po, gritando, e mordeu os dentes, 
chutando a terra; e os pretendentes ilustres, 

100 erguendo as maos, morreram de rir. E Odisseu 
arrastou-o do portico pelo pe, para alcazar o patio 
e os portoes da colunata; contra o muro do patio 


encostou-o e fe-lo sentar-se, na mao pos-lhe o bastao 
e, falando, dirigiu-lhe palavras plumadas: 

105 “Agora senta, afugentando caes e porcos; 
nao sej as tu o chefe de estranhos e mendigos, 
sendo reles, para que nao proves mal ainda maior”. 

Falou e sobre os ombros lan$ou o repulsivo alforje, 
todo rasgado, e nele, como alfa, havia uma corda. 

110 Retornando a soleira, sentou-se; e eles entraram, 
rindo com prazer, e saudaram-no com palavras: 

“Que Zeus te de, estranho, e os outros deuses imortais, 
o que mais desejas e caro for a teu animo, 
tu que fizeste aquele insaciavel parar de errar 
1 15 pelas redondezas; logo o levaremos ao continente 
rumo ao rei Apresador, flagelo de todo mortar. 

Isso dito, alegrou-se o divino Odisseu. 

Eis que Antlnoo pos-lhe ao lado um grande bucho, 
cheio de gordura e sangue; e Anfinomo 
120 tirou dois paes da cesta e pos ao lado; 

com calice dourado, cum prim entou-o e disse: 

“Se feliz, pai estrangeiro: tenhas, ainda que no futuro, 
fortuna; agora, de fato, estas preso a muitos males”. 
Respondendo, disse Odisseu muita-astucia: 

125 “Anfinomo, deveras me pareces ser inteligente. 

Tens um pai de valor, de Niso de Duliquion ouvi 

a nobre fama, que e bom e rico; 

dele dizem que nasceste, e pareces varao decente. 

Por isso te direi, e que me compreenda e me escute: 

130 nada mais debil que o homem a terra nutre 
entre tudo que sobre a terra respira e circula. 

Nunca alguem pensa que no futuro um mal sofrera 
enquanto deuses ofertam sucesso, e os joelhos se mexem; 
mas quando deuses venturosos completam o funesto, 

135 tambem isso, sem o querer, suporta com animo resistente. 
E tal a mente dos homens sobre-a-terra 


como o dia que conduz o pai de varoes e deuses. 

Tambem eu, urn dia, seria fortunado entre os varoes, 
mas fizmuita coisa iniqua, cedendo a for?a e ao vigor, 

140 confiante em meu pai e em meus irmaos. 

Por isso jamais um varao ignore as regras, 

mas, quieto, suporte os dons de deuses, o que derem. 

Que iniquidades vejo os pretendentes maquinar! 

Devastam as posses e desonram a esposa 
145 do varao que, penso, nao mais dos seus e do solo patrio 
longe ficara por longo tempo: esta bem perto. Mas que 
um deus a casa te acompanhe; que nao te depares com ele 
quando retornar para sua terra patria: 
creio que, nao sem sangue, os pretendentes e ele 
150 se distinguirao, apos entrar sob seu teto.” 

Isso disse e, apos libar, bebeu o vinho doce como mel, 
e de volta pos o calice nas maos do ordenador de tropa. 

E esse cruzou o salao, agastado em seu cora?ao, 
curvando a cabe 9 a, pois ja via o mal no animo. 

155 Nem assim fugiu da morte; tambem o prendeu Atena 

para as maos e a lan?a de Telemaco o subjugarem a for 9 a. 
De volta logo sentou-se na poltrona de onde se erguera. 

E no juizo dela pos a deusa, Atena olhos-de-coruja, 
no da filha de Icario, Penelope bem-ajuizada, 

160 aos pretendentes aparecer, para sobremodo alargar 
o animo dos pretendentes e tornar-se honrada 
diante do marido e do filho mais que no passado. 

Deu risada inutil, dirigiu a palavra e nomeou: 

“Eurinome, meu animo deseja - nao como antes - 
165 aparecer aos pretendentes, embora de todo odiados; 
ao filho diria uma palavra, que isto seria mais vantajoso, 
nao concordar em tudo com os pretendentes soberbos, 
que falam bem, mas, por tras, pensam vilezas”. 

E a ela a governanta Eurinome dirigiu o discurso: 

170 “Por certo isso tudo, crian 9 a, falaste com adequa 9 ao. 


Vamos - e a teu filho diga uma palavra e nao esconda 
apos lavar a pele e ungir o rosto; 
com o rosto manchado por lagrimas, assim nao 
vas, pois e pior sempre se afligir sem cessar. 

175 Com efeito, ja esta na idade teu filho, quern tu muito 
rogaste aos deuses veres com barba”. 

E a ela replicou Penelope bem-ajuizada: 

“Eurinome, embora preocupada, nao me induzas 
lavar a pele e ungir-me com oleo; 

180 minha radiancia os deuses, que tern o Olimpo, 
destruiram desde que aquele partiu em cavas naus. 

Mas pega, para mim, que Autonoe e Hipodameia 
venham para, junto a mim, se postarem nos saloes. 
Sozinha nao irei ate os varoes, pois tenlio pudor 
184 a de unir-me, obrigada, aos pretendentes soberbos”. 
185 Assim falou, e a ancia saiu cruzando o salao, 
anunciando as mulheres e instigando-as a ir. 

Entao teve outra ideia a deusa, Atena olhos-de-coruja: 
na filha de Icario vertia doce sono; 
adormecia reclinada e fraquejaram todas suas juntas 
190 ai mesmo, na cadeira. Nisso a deusa divina 

dava-lhe dons imortais para os aqueus contempla-la. 
Primeiro sua bela pele limpou com cosmetico 
imortal, com o qual Citereia bela-coroa 
se unge quando vai a desejavel danga das Gragas. 

195 Fe-la maior e mais encorpada a quern a visse 
e mais alva a fez que marfim talhado. 

Ela, apos assim agir, partiu, a deusa divina. 

E vieram as servas alvos-bragos do salao, 
com ruido achegando-se. Doce sono deixou-a, 

200 ela esfregou o rosto com as maos e disse: 

“Sim, a mim, em terrivel afligao, sono macio encobriu. 
Tomara morte assim macia me desse a pura Artemis 
agora logo, para nao mais, lamentando-me no animo, 


desgastar a vitalidade, saudosa do caro esposo, 

205 de sua excelencia multipla, pois superava os aqueus”. 

Assim falou e desceu dos aposentos lustrosos, 
nao sozinha, mas com ela seguiam duas criadas. 

Quando alcan90u os pretendentes, divina mulher, 
parou ao lado do pilar do teto, solida constru9ao, 

210 apos puxar, para diante da face, o veu reluzente; 
e criada devotada, uma de cada lado, se postou. 

La fraquejaram os joelhos deles, o desejo enfeiti90u-lhes o animo 
e todos rezaram para deitar-se a seu lado no leito. 

E ela falou a Telemaco, seu caro filho: 

215 “Telemaco, nao mais teu juizo e seguro nem tua ideia; 
quando criada, ate mais, no juizo aplicavas tua esperteza. 

Agora que es grande e alcanas a medida da juventude, 
alguem de fora diria que de varao afortunado 
6s rebento, ao mirar-te o tamanho e a beleza; 

220 nao mais teu j uizo e apropriado nem tua ideia; 
ve esse feito que, no palacio, ocorreu: 
tu permitiste que o estranho fosse assim ultrajado. 

E agora, se algo o estranho, em nosso palacio 
sentado, sofresse, gra9as a pungente mau-trato? 

225 Para ti haveria vergonlia, e, entre os homens, vexame”. 

A ela, entao, o inteligente Telemaco retrucou: 

“Minha mae, nao fico indignado que disso tens raiva; 
mas no animo penso e conhe90 cada coisa, 
as nobres e as piores; no passado ainda era tolo. 

230 Mas ve, nao posso pensar tudo de modo inteligente; 
sentados junto a mim, um ali, outro la, confundem-me, 
esses ai, refletindo vilezas, e nao ha quern me ajude. 

Ve, a luta do estranho e de Iro nao ocorreu 

como queriam os pretendentes, e na for9a aquele foi melhor. 

235 Tomara, 6 Zeus pai, Atena e Apolo, 

que agora em nosso palacio os pretendentes 
deixassem pender as cabe9as, subjugados, uns no patio. 


outros na casa, os membros a fraquejar como agora 
os de Iro, que la nos portoes do patio esta sentado, 

240 a cabe?a curva, igual a um ebrio, 

incapazde endireitar-se de pe ou de voltar 
a casa, ou aonde for seu retorno, pois os membros fraquejam”. 
Assim eles disso falavam entre si. 

E Eurimaco com palavras dirigiu-se a Penelope: 

245 “Filha de Icario, Penelope bem-ajuizada: 
se te vissem todos os aqueus na j onia Argos, 
mais pretendentes em vosso palacio, 
de manha, se banqueteariam, pois ultrapassas as mulheres 
em aparencia, altura e, por dentro, juizo equilibrado”. 

250 E a ele entao respondeu Penelope bem-ajuizada: 

“Eurimaco, minha excelencia, aparencia e porte, 
os imortais destruiram quando a Ilion embarcavam 
os argivos, e ia com eles meu marido Odisseu. 

Se ele viesse e de minha vida cuidasse, 

255 maior seria minha fama, e mais bela, a situa^ao. 

Agora me angustio, tantos os males que o deus me enviou. 

Sim, quando foi e deixou a terra patria, 
tomou-me a mao direita pelo pulso e me disse: 

‘Mulher, nao creio que os aqueus belas-grevas, 

260 de Troia voltarao bem, todos incolumes; 

pois dizem que os troianos sao varoes guerreiros, 
tanto lanceiros quanto arqueadores de flechas 
e montadores de cavalos casco- veloz, que bem rapido 
decidem grande justa em guerra niveladora. 

265 Assim nao sei se o deus me trara de volta ou serei pego 
la mesmo em Troia; que aqui tudo seja tua atribui?ao. 
Lembra-te do pai e da mae no palacio 
como agora ou ainda mais, estando eu longe; 
mas quando vires barba no menino, 

270 se desposada por quern quiseres, apos tua casa deixar’. 

Assim aquele falou; tudo isso agora se completa. 


Noite havera em que a hedionda boda se achegara 
de mim, maldita, de quern Zeus tirou a fortuna. 

Mas esta angustia terrivel atinge o animo do cora9ao: 

275 nao e essa a tradi9ao dos pretendentes de antanho, 
esses que valorosa mulher e filha de homem rico 
querem cortejar e com outros disputam. 

Eles mesmos trazem bois e robustas ovelhas, 
banquete a familia da jovem, e dao radiantes dons; 

280 mas nao a comida de outrem devoram de gra9a”. 

Isso dito, alegrou-se o muita-tenencia, divino Odisseu, 
porque ela arrancava dons, enfeiti9ava o animo 
com palavras am&veis, mas sua mente concebia outra coisa. 
E a ela replicou Antinoo, filho de Persuasivo: 

285 “Filha de Icario, Penelope bem-ajuizada, 

presentes dos aqueus que para ca quiserem traze-los, 
recebe-os: nao e belo recusar um dom. 

E nos nao iremos antes aos campos nem alhures 
ate que sejas desposada pelo aqueu que for o melhor”. 

290 Assim falou Antinoo, e agradou-lhes o discurso. 

Para trazer os dons cada um despachou seu arauto. 

Para Antinoo trouxe grande peplo bem belo, 
variegado: nele havia fivelas, doze no total, 
douradas, ajustadas com fechos bem-torcidos. 

295 Colar para Eurimaco, bem artificioso, presto trouxe, 
de ouro, entrela9ado com ambar, como o sol. 

Brincos para Euridamas dois assistentes trouxeram, 
tres olhos tal uma amora, e, bem graciosos, reluziam. 

Do senhor Pisandro, filho de Polictor, 

300 gargantilha trouxe o assistente, adorno bem belo. 

Cada um dos aqueus trouxe um belo dom. 

Ela entao subiu aos aposentos, a divina mulher, 
e com ela servas levavam os bem belos dons; 
e aqueles para a dan9a e o desejavel canto 
305 volveram-se e deleitaram-se, e ficaram ate a noite. 


Enquanto se deleitavam, veio-lhes a negra noite. 

De pronto tres braseiros postaram-se no palacio 
para alumiar; neles, em volta, lenha se pos 
sem seiva, ha muito seca, recem-rachada com bronze, 
310 e junto misturaram-se gravetos: em turnos, iluminavam 
as escravas de Odisseu juizo-paciente. Mas a essas ele 
proprio, o divinal, falou, Odisseu muita-astucia: 

“Escravas de Odisseu, senhor ha tempo ausente, 
dirigi-vos a morada onde esta a respeitavel senhora: 

315 junto a ela na roca fiai e deleitai-a, 

sentadas no salao, ou cardai a la com as maos; 
eu providenciarei luzpara todos esses ai. 

Caso eles queiram aguardar Aurora belo-trono, 
nao me vencerao: sou deveras muita-resistencia”. 

320 Assim falou, e elas riram, olhando-se entre si. 
Reprovou-o, com uma afronta, Preta bela-face; 
a essa Finorio gerou, e dela Penelope cuidou, 
criou-a como filha e brinquedos lhe deu para o animo. 
Mas nem assim afligia-se no juizo por Penelope: 

325 a Eurimaco unia-se e o amava. 

Ela a Odisseu reprovou com palavras insultuosas: 
“Estranho insolente, tu es alguem alucinado no juizo, 
e nao queres ir dormir na casa do artifice de bronze 
ou num galpao; ficas aqui falando muito, 

330 com audacia entre muitos homens, e, no animo, nao 
temes: por certo vinho domina teu juizo, ou sempre 
tens uma mente tal, porque falas em vao, 
ou estas fora de ti pois a Iro venceste, aquele errante. 

Que logo outro melhor que Iro contra ti nao se erga, 

335 um que te golpeie em volta da cabe9a com bra?o robusto 
e para fora da casa te leve, sujo com muito sangue”. 
Olhando de banco, disse-lhe Odisseu muita-astucia: 

“Bern rapido direi a Telemaco, cade la, como falas, 
eu indo ate ele, para que la te corte em pedafos”. 


340 Assim falando, com palavras amedrontou as mulheres. 
Cruzaram o salao, e fraquejaram seus membros 
de temor, pois pensaram que ele enunciara a verdade. 

E ele, alumiando, junto aos braseiros chamej antes 
ficou, a todos mirando; o corafao revolvia em seu animo 
345 outra coisa, que nao ficaria incompleta. 

Atena de modo algum deixou os arrogantes pretendentes 
reprimirem-se no oprobrio aflitivo, para, ainda mais, 
a angustia entrar no cora9ao de Odisseu, filho de Laerte. 
Entre eles Eurlmaco, filho de Polibo, come?ou a falar, 
350 provocando Odisseu; e riso nos companheiros gerou: 
“Ouvi-me, pretendentes da esplendida senhora, 
vou falar o que o animo me ordena no peito. 

Nao sem um deus chegou este homem a casa de Odisseu; 
parece-me, de todo, que a fulgencia das tochas e dele, 

355 da sua cabe9a, pois nela nao ha cabelo, nem pouco”. 
Falou e nisso dirigiu-se a Odisseu arrasa-urbe: 

“Estranho, gostarias de empregar-te, se eu te escolhesse, 
no limite das lavouras - a paga te sera sufic iente -, 
recolhendo espinheiros e plantando grandes arvores? 

360 La forneceria eu mesmo alimento constante, 

com vestes te vestiria e para os pes daria alpercatas. 

Mas sim, como aprendeste serv^os vis, nao quereras 
fazer o servi90, mas curvar-se pelas redondezas 
preferes, para poder engordar teu estomago insaciavel”. 
365 Respondendo, disse-lhe Odisseu muita-astucia: 

“Tomara, Eurimaco, rivalizassemos ambos no campo 
durante a primavera, quando os dias sao longos, 
no pasto: foice eu teria, boa-curva, 
e tu tambem isso terias para no campo nos testarmos, 

370 jejuando ate a escuridao total, e pasto haveria! 

Se bois tambem houvesse para conduzir, os melhores, 
ardentes, enormes, ambos saciados de pasto, 
mesma idade, tra9ao igual, boa for9a, 


seriam quatro medidas, e o torrao cederia sob o arado: 

375 assim me verias, se os sulcos, de uma so vez, nao cortaria. 
Se guerra tambem, de um lado, o filho de Crono instigasse 
hoje, e para mim houvesse um escudo, duas langas 
e um elmo todo de bronze ajustado nas temporas, 
assim me verias unindo-me aos primeiros na vanguarda, 
380 e nao falarias insultos contra esse meu estomago. 

Mas es muito desmedido e tua mente e intratavel; 
e acreditas ser alguem grande e poderoso 
porque te reunes com poucos e nao valorosos. 

Se Odisseu voltasse e alcangasse sua terra patria, 

385 logo para ti essas portas, embora muito largas, 
seriam estreitas ao tentares fugir portico afora”. 

Assim falou, e Eurimaco enraiveceu-se mais no coragao, 
olhou de banco e dirigiu-lhe palavras plumadas: 

“Canalha, rapido te aprontarei um mal, do jeito que falas 
390 com audacia entre muitos homens e no animo nao 
temes: por certo o vinho domina teu juizo, ou sempre 
tens uma mente tal, porque falas em vao, 
ou estas fora de ti pois a Iro venceste, o errante?”. 

Assim falou e pegou uma banqueta; e Odisseu, 

395 junto aos joelhos de Anfinomo de Duliquion, sentou, 
temendo Eurimaco, que acabou por atingir do escangao 
o brago direito; a j arra, ao cair no chao, atroou, 
e o varao gritou de dor e caiu de costas na poeira. 

E os pretendentes iniciaram arruaga no umbroso palacio, 
400 e assim falavam, fitando quern estava ao lado: 

“O estranho, vagando alhures, deveria ter morrido 
antes de chegar; assim nao liberaria tal tumulto. 

Agora brigamos por causa de mendigos, e com o banquete 
fino nao havera prazer, pois vence o mais infame”. 

405 E entre eles falou a forga sacra de Telemaco: 

“Insanos, enlouqueceis e nao mais ocultais no animo 
a comida e a bebida; um dos deuses vos instiga. 


Mas, apos o banquete, vade dormir de volta a casa 
quando o animo pedir; mas eu nao persigo ninguem”. 

410 Assim falou, e todos, os dentes mordendo os labios, 
admiraram-se de Telemaco, pois falou com audacia. 

E, entre eles, Anflnomo tomou a palavra e disse, 
o ilustre filho de Niso, o senhor filho de Areto: 

“Amigos, ninguem, por ocasiao de fala civilizada, 

415 abordando com palavras confrontantes, endureceria; 
nem maltrateis o estranho nem, de resto, um 
dos escravos que vivem na casa do divino Odisseu. 

Vamos, que o escan?ao verta as primicias nos calices, 
para, tendo libado, irmos dormir de volta a casa; 

420 que com o estranho deixemos, no palacio de Odisseu, 

que se preocupe Telemaco, pois sua casa amiga alcan?ou”. 
Isso disse, e falou um discurso que agradou a todos. 

Para eles, na anfora, fez a mistura o heroi Caminheiro, 
o arauto de Duh'quion; era o assistente de Anfinomo. 

425 E a todos serviu, achegando-se; eles aos deuses 

ditosos libaram e beberam do vinho doce como mel. 

Mas depois de libar e beber quanto o animo quis, 
partiram para descansar, cada um rumo a sua casa. 



Mas ele no salao ficou, o divino Odisseu, 
a matan?a dos pretendentes cogitando com Atena. 

De pronto a Telemaco dirigiu palavras plumadas: 
“Telemaco, carece dentro guardar as armas de guerra, 
5 todas, e aos pretendentes, com palavras macias, 
persuadir quando te arguirem, sentindo sua falta: 
‘Tirei-as da fumaga, pois nao parecem mais com estas, 
as que Odisseu, ao ir a Troia, deixou para tras, 
mas se desfiguraram, tanto atingiu-as o bafo do fogo. 

10 Alem disso, o deus soprou algo mais grave no juizo: 
que, bebados, nao instaurasseis briga entre vos, 
ferissei-vos uns aos outros e estragasseis o banquete 
e a corte: o ferro, ele mesmo, puxa o homem”’. 

Assim falou, Telemaco obedeceu ao caro pai 
15 e, apos chama-la para si, disse a ama Euricleia: 
“Maezinha, vamos, segura as mulheres no salao 
ate que eu guarde no quarto as be las armas do pai; 
na casa a fuma$a delas se apossa, descuidadas, 
ja que ausente o pai; eu era tolo, mas agora 
20 quero po-las onde o bafo do fogo nao chega”. 

E a ele replicou a querida ama Euricleia: 

“Que agora, filho, te aposses da reflexao 
para ocupar-te da casa e vigiar todos os bens. 

Vamos, quern entao ira contigo e levara a luz; 

25 ja que nao deixas sair as escravas que alumiariam?’. 
Aela, entao, o inteligente Telemaco retrucou: 

“O estranho ai: nao deixarei inativo quern de meu 
cereal pegue, mesmo de longe tendo chegado”. 

Assim ele falou, e para ela o discurso foi plumado; 

30 e trancou as portas do palacio bom para morar. 

Eis que os dois se levantaram, Odisseu e o filho ilustre, 
e carregavam elmos, escudos umbigados 
e lan9as afiadas; na frente, Palas Atena, 
munida de lampada dourada, produzia bem bela luz. 


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Nisso, de subito, falou Telemaco ao pai: 

“Pai, grande assombro, sim, vejo com os olhos; 
tudo, as paredes do palacio, as be las traves, 
as vigas de abeto, os pilares que se sobre-erguem, 
parece-me, aos olhos, como se de fogo chamejante. 
Aqui ha um deus, dos que do largo paramo dispoem”. 
Respondendo, disse-lhe Odisseu muita-astucia: 

“Quieto, contem tua mente e nada perguntes; 
essa e a tradifao dos deuses que do Olimpo dispoem. 
Mas vai te deitar e eu ficarei aqui, 
para ainda as escravas e a tua mae provocar; 
ela, lamentando-se, indagard acerca de tudo”. 

Assim falou, e Telemaco cruzou o salao, 
sob toe has luzentes, indo descansar no quarto, 
onde sempre deita quando doce sono o alcana; 
nisso la tambem dormiu e aguardava a divina Aurora. 
Mas ele no salao ficou, o divino Odisseu, 
a matan?a dos pretendentes cogitando com Atena. 

E ela saiu do quarto, Penelope bem-ajuizada, 
semelhante a Artemis ou a dourada Afrodite. 

Junto ao fogo postaram-lhe a cadeira onde sentava-se, 
bem-acabada com marfim e ouro, que um dia fez 
Icmalio, o artesao, e embaixo pos banqueta para os pes; 
em cima dela jogaram grande velo. 

La sentou-se, entao, Penelope bem-ajuizada. 

E do salao vieram as escravas alvos-bragos. 

Elas retiraram o excesso de comida, as mesas 
e os calices, de onde beberam os poderosos varoes; 
o fogo dos braseiros langaram no chao, e neles novas 
achas, muitas, queimaram para alumiar e aquecer. 
Preta a Odisseu reprovou, uma segunda vez: 

“Estranho, tambem agora importunaras aqui, a noite 
circulando pela casa, e espiaras as mulheres? 

Nao! Aproveita o banquete, insolente, e sai pela porta; 


ou, rapido, atingido por brasa, porta afora te iras”. 

70 Olhando de baixo, disse-lhe Odisseu muita-astucia: 

“Insana, por que me coages assim, com animo rancoroso? 
Por eu estar sujo, vestir ordinarias vestes sobre a pele 
e mendigar pelos arredores? Anecessidade me compele. 
Assim sao os varoes mendigos e vagamundos. 

75 Tambem eu, um dia, afortunado, entre os homens 
morei em casa rica, e amiude obsequiava um errante, 
fosse como ele fosse e do que precisasse ao chegar; 
tinha miriades de escravos e muita outra coisa 
com que se vive bem esee tido como rico. 

80 Mas Zeus, filho de Crono, destruiu; quis de algum modo. 
Por isso, agora, tambem tu, mulher, nao percas toda 
a radiancia com que, agora, entre escravas, es superior; 
que a senhora, rancorosa, nao endurepa contra ti, 
ou volte Odisseu: ainda resta parte de esperanpa. 

85 Mesmo que tenha morrido e assim nao mais retorne, 
o filho, porem, ja tern o valor do pai, gramas a Apolo - 
Telemaco, no salao das mulheres, ele a nenhuma 
iniqua ignora, pois nao tern mais idade”. 

Assim falou, escutou-lhe Penelope bem-ajuizada, 

90 e a serva reprovou, dirigiu-se-lhe e nomeou-a: 

“De modo algum, atrevida, cadela petulante, ignorei 
teu inaudito feito, com que besuntaras tua cabepa. 

Sabias tudo direito, pois de mim mesma ouviste 
que a este estranho eu iria, no palacio, 

95 indagar acerca do esposo, pois sofro copiosa angustia”. 
Falou e a governanta Eurinome disse o discurso: 
“Eurinome, traze banqueta e velo sobre ela, 
para que, sentado, o estranho fale sua fala 
e escute de mim, pois quero interroga-lo”. 

100 Assim falou, e ela de pronto trouxe e postou 
banqueta bem-polida e jogou sobre ela um velo; 
la sentou-se entao o muita-tenencia, divino Odisseu. 


Entre eles congou a falar Penelope bem-ajuizada: 

“Estranho, eu mesma, primeiro, te porei esta questao: 

105 quem es? De que cidade vens? Quais teus ancestrais?’. 
Respondendo, disse-lhe Odisseu muita-astucia: 

“Mulher, a ti nenhum mortal pela terra sem-fim 
censuraria: tna fama chega ao largo paramo, 
como a de um rei impecavel, que, temente ao deus, 

110 regendo sobre muitos e altivos varoes, 

sustenta as boas tradi<;6es; e a negra terra produz 

trigo e cevada, as arvores carregam de fruto, 

as ovelhas se reproduzem sem vacilar, o mar fornece peixes, 

e o povo, gra9as a boa lideran9a, excele. 

1 15 Por isso agora apura demim o restante em tua casa; 
so nao me indagues linhagem e terra patria, 
para nao encheres, ainda mais, meu animo com dores, 
ao me fazeres lembrar: sou muito-gemido demais. Nao carece 
que eu, na casa de outrem, com lamento e pranto, 

120 me sente, pois e pior sempre sem tregua se afligir. 

Que nenhuma escrava se indigne comigo, nem mesmo tu, 
e diga que navego em choro, o julzo nocauteado por vinho”. 

E a ele respondeu Penelope bem-ajuizada: 

“Estranho, minha excelencia, aparencia e porte 
125 os imortais destruiram quando a Ilion embarcavam 
os argivos, e ia com eles meu marido Odisseu. 

Se ele viesse e de minha vida cuidasse, 
maior seria minha fama, e mais be la a situa9ao. 

Agora me angustio: tantos males o deus me enviou! 

130 Com efeito, quantos nobres tern poder sobre as ilhas, 
Duliquion, Same e a matosa Zacintos, 
e quantos habitam ao longo de Itaca bem-avistada; 
esses cortejam-me, sem que eu queira, e esgotam a casa. 

Por isso nem a estranhos atento, nem a suplicantes 
135 ou a algum dos arautos, esses profissionais; 

mas, saudosa de Odisseu, derreto-me no caro cora9ao. 


Eles aplicam-se as bodas, e eu arremato truques. 

Primeiro o deus soprou, em meu juizo, um manto, 
apos grande urdidura armar no palacio, tramar - 
140 fina e bem longa. De imediato lhes disse: 

‘M 090 S, meus pretendentes, morto o divino Odisseu, 
esperai, mesmo avidos por desposar-me, ate o manto 
eu completar - que meus fios, em vao, nao se percam 
mortalha para o heroi Laerte, para quando a ele 
145 o quinhao funesto agarrar, o da morte dolorosa; 
que, contra mim, no povo, aqueia alguma se indigne 
se ele sem pano jazer depois que muito granjeou’. 

Assim falei, e foi persuadido o animo orgulhoso. 

E entao de dia eu tramava a enorme urdidura, 

150 e nas noites desenredava-a a luz de tochas. 

Tres anos nao fui notada, e persuadi os aqueus; 

mas ao chegar o quarto ano e a primavera se aproximar, 

as luas finando e muitos dias passando, 

entao a mim, por meio de servas, cadelas insolentes, 

155 eles me pegaram, e com palavras me repreenderam. 

E assim completei a mortalha a contragosto, obrigada. 
Agora nao consigo escapar das bodas nem outro 
piano mais intento; muito me instigam os pais 
a casar, e o filho irrita-se com quern devora o sustento, 

160 e disso ele sabe, pois j a e varao sobremodo capaz 
de ocupar-se da casa, a quem Zeus fortuna oferta. 

Mas mesmo assim me fala tua linhagem, donde es: 
de carvalho nao es, nem de rocha, como no velho dito”. 
Respondendo, disse-lhe Odisseu muita-astucia: 

165 “Respeitavel esposa de Odisseu, filho de Laerte, 
nao cessaras de indagar acerca de minha origem? 

Pois eu te direi. Por certo me entregaras a angustia 
maior que a que suporto: e o que ocorre quando esta longe 
de sua patria o varao por tanto tempo quanto eu agora, 

170 tendo vagado por muita urbe de mortais, sofrendo agonias. 


Mas tambem assim falarei do que me perguntas e apuras. 

Ha uma terra, Creta, no meio do mar vinoso, 
bela e fertil, banhada por correntes; nela ha muitos 
homens, sem-fim, e noventa cidades. 

175 Todas falam outras linguas, mescladas; numa, aqueus, 
noutra, vero-cretenses energicos, noutra, cidonios, 
dorios triplo-tronco e pelasgos divinos. 

Entre elas ha Cnossos, grande cidade, onde 

por nove anos reinava Minos, ultimo do grande Zeus, 

180 pai de meu pai, o animoso Deucalion. 

Deucalion a mim gerou e ao senlior Idomeneu. 

Mas este, em naus recurvas, rumo a Ilion, 

partiu com os filhos de Atreu. Meu nome famoso e Abrasador, 

o mais jovem na familia; e ele e o mais velho e aguerrido. 

185 La eu vi Odisseu e dei-lhe dons de hospede. 

Tambem a ele, a Creta levou-o a for^a do vento; 
ansiava ir a Troia, apos vagar para longe de Maleia. 

Ancorou em Amniso, onde fica a caverna de Eileitiia, 
em angra dificil, e com esforfo escapou das rajadas. 

190 Logo perguntou de Idomeneu ao subir a cidade; 
disse ser seu aliado, caro e respeitavel. 

Ja era a decima ou undecima aurora para ele, 
que ia com suas naus recurvas rumo a Ilion. 

Levei-o para casa e bem hospedei, 

195 acolhendo-o, gentil, com o muito que na casa havia; 
e a ele e aos outros companheiros que o seguiam, 
dei cevada da comunidade, juntei fulgente vinho 
e bois para sacrificar, de sorte a saciar seu animo. 

La fica ram, doze dias, os divinos aqueus; 

200 detinha-os o grande vento Boreas, que sobre a terra nao 
deixava ficar-se de pe, e dura divindade instigava-o; 
no decimo terceiro, o vento caiu, e eles partiram”. 

Falava, contando muito fato enganoso como genuino. 

Penelope, ao ouvir, chorava, a pele derretia. 


205 Como derrete a neve para baixo nos cumes dos montes, 
essa que Euro derrete quando Zefiro o deixa cair, 
e, ao derreter, os rios correm cheios - 
assim derretia sua bela face, vertendo lagrimas, 
pranteando o marido a seu lado sentado. E Odisseu, 

210 lamentando no animo, apiedava-se da esposa, 

e os olhos, como se cornos ou ferro, firmes estavam, 
serenos nas palpebras; com truque, conteve as lagrimas. 

Ela, apos deleitar-se com o lamento muita-lagrima, 
de novo, com palavras respondendo, lhe disse: 

215 “Pois agora a ti, estranho, creio que testarei, 
se de verdade la, com excelsos companheiros, 
hospedaste meu marido no pal&cio como dizes. 

Fala-me, que vestes no corpo vestia, 

como ele mesmo estava, bem como seus companheiros”. 

220 Respondendo, disse-lhe Odisseu muita-astucia: 

“6 mulher, e dificil de alguem, ha tanto tempo longe, 
falar, pois este ja lhe e o vigesimo ano 
desde que de la saiu e partiu de minha patria; 
mas te direi como ele aparece em meu ultimo. 

225 Capa purpura de la tinha o divino Odisseu, 
uma dupla: nela ha via uma five la de ouro 
com duplo entalhe, e, na frente, um artefato: 
com as patas dianteiras, um cao segurava um veado variegado, 
mirando-o convulsionar-se; todos isto admiravam, 

230 o cao mirava o cor?o, os dois de ouro, sufocando-o, 
e o outro, ansiando escapar, convulsionava-se nas patas. 

E a tunica observe i, lustrosa no corpo, 
tal como a casca de uma cebola seca; 
era assim macia, e fulgida como o sol. 

235 De fato, muitas mulheres o contemplavam. 

Outra coisa te direi, e tu, em teu juizo, a lan<;a: 

nao sei, ou isso vestia no corpo Odisseu de casa, 

ou um companheiro presenteou-o ao sair em nau veloz, 


ou alhures algum aliado, pois de muitos Odisseu 
240 era amigo: poucos aqueus a ele assemelhavam-se. 

Tambem eu lhe dei bronzea espada e uma dupla 

tunica, bela, purpura, com franjas, 

e, com respeito, enviei-o a nau bom-conves. 

E um arauto, pouco mais velho que ele, 

245 seguia-o; tambem dele te falarei, como era: 

ombros arqueados, pele escura, cabeleira lanosa, 

Passolargo de nome; mais que a seus outros companheiros 
honrava-o Odisseu, pois, no juizo, adequava-se a ele”. 

Assim falou, e nela instigou mais desejo por choro, 

250 reconhecendo os sinais seguros que lhe enunciou Odisseu. 
Ela, apos deleitar-se com o lamento muita-lagrima, 
entao, respondendo com um discurso, lhe disse: 

“Pois agora, hospede, se antes j a mereceras piedade, 
agora em meu palacio teras estima e respeito, 

255 pois eu mesma lhe dei essas roupas das quais falaste, 
trouxe-as do quarto, dobradas, e a elas juntei luzidia fivela 
para adorna-lo. Mas a ele jamais saudarei de novo 
ao voltar para casa, sua cara terra patria. 

Por isso, com ma sorte, sobre cava nau, Odisseu 
260 partiu para vivenciar a inominavel Ruinosa-Ilion”. 
Respondendo, disse-lhe Odisseu muita-astucia: 

“Respeitavel esposa de Odisseu, filho de Laerte, 
nao mais a bela pele arruines agora nem o animo 
derretas, chorando o esposo. Nao me indigno de modo algum 
265 mulheres tambem lamentam outros - ao perder um varao 
consorte, para quern filhos gerou apos unir-se em amor - 
que nao apenas Odisseu, que dizem ser feito deus. 

Mas cessa o choro e apreende minha fala: 
sem evasivas para ti discursarei e nao esconderei 
270 que acerca do retorno de Odisseu eu ja ouvi: 
esta perto, no fertil povoado dos varoes tesprotios, 
vivo; e trazbens em profusao e distintos, 


pedindo pela regiao. Mas os leais companheiros 
perdeu, e a concava nau, no mar vinoso, 

275 ao sair da ilha de Trinacia: tinham odio por ele 

Zeus e Sol, pois as suas vacas mataram os companheiros. 
Todos eles pereceram no mar encapelado; 
mas a ele, sobre a quilha da nau, uma onda jogou na terra, 
a terra dos feacios, na origem proximos dos deuses: 

280 eles, de cora9ao, honraram-no como a um deus, 

deram-lhe muitos dons e quiseram eles mesmos leva-lo 
para casa, incolume. Ha tempo, aqui, Odisseu 
estaria; mas, ve, isto pareceu-lhe mais vantajoso no animo, 
bens j untar, percorrendo a extensa terra: 

285 mais que os homens mortais, muita vantagem 
conhece Odisseu, e mortal algum seria seu rival. 

Assim me contou o rei dos tesprotios, Salvador; 
jurou para mim mesmo, entre libagoes, 
que puxara uma nau e preparara companheiros 
290 que o conduziriam a cara terra patria. 

Mas antes enviou a mim; calhou ir uma nau 
de homens tesprotios a Duliquion muito-trigo. 

Mostrou-me as riquezas que amealhara Odisseu: 
agora, ate a decima geragao, um por um alimentariam, 
295 tantos haveres do senhor havia em seu palacio. 

Dele, disse-me que foi a Dodona, para do divino 
carvalho alta-copa escutar a vontade de Zeus: 
como voltaria para a cara terra patria, 
ja ha muito afastado, se as claras ou as ocultas. 

300 Assim ele, desse modo, esta seguro e ja chegara, 
bem perto, e longe dos seus e do solo patrio 
flcara por pouco tempo. De tudo vou te dar um juramento: 
saiba agora Zeus primeiro, supremo deus e o melhor, 
e o fogo-lar do impecavel Odisseu, ao qual cheguei; 

305 por certo tudo isso completa-se como aflrmo. 

Neste mesmo periodo interlunar chegara aqui Odisseu, 


a lua minguando e depois crescendo”. 

E a ele replicou Penelope bem-ajuizada: 

“Ah! Se essa palavra, hospede, se cumprisse, 

310 entao rapido conhecerias a amizade e muitos dons 
meus, tantos que, se alguem te visse, te diria ditoso. 

Mas como no animo me ocorre, assim mesmo sera: 
nem Odisseu vira mais para casa, nem tu condu9§o 
obterds, pois senhores nao hd mais na casa, 

315 tal como Odisseu entre os varoes - se um dia viveu! 
para receber e acompanhar hospedes respeitaveis. 

Mas criadas, lavai-o, armai um leito, 

estrado, lenQois e mantas lustrosas 

para, aquecendo-se bem, alcan$ar Aurora belo-trono. 

320 Amanha bem cedo, banhai-o e ungi-o 
e que almoce ao lado de Telemaco, 
sentado no salao. Entre aqueles, pior para quern, 
destroi-animo, molesta-lo: desta casa nada 
mais obtera, mesmo enraivecido ao extremo. 

325 Pois, hospede, como saberas se outra 

mulher sobrepujo na mente e astucia refletida, 
se sujo, vestido com andrajos, no palacio 
comeres? Os homens chegam ao fim em pouco tempo. 
Quern for, ele mesmo, intratavel e versado no intratavel, 
330 contra ele todos os mortais invocam males futuros 
enquanto viver, e dele, morto, todos debocham; 
quern for, ele mesmo, impecavel e versado no impecavel, 
sua extensa fama espalham os aliados 
entre todos os homens, e muitos dizem que e nobre”. 

335 Respondendo, disse-lhe Odisseu muita- astucia: 
“Respeitavel esposa de Odisseu, filho de Laerte, 
quanto aos len9ois e mantas lustrosas, sao-me 
odiosos desde que me afastei dos montes nevados 
de Creta, viajando sobre nau longo-remo; 

340 deito-me como sempre passei as noites insones. 


Muitas noites, de fato, em abrigo noturno ultrajante, 
passei e aguardei a divina Aurora belo-trono. 

Nem a meu animo lavarem-me os pes 
agrada; nao tocard meu pe alguma mulher 
345 daquelas que te fazem o trabalho da casa, 

salvo se houver vetusta ancia, sempre devotada, 

uma que sofreu no juizo tanto quanto eu: 

nao me incomodaria se uma tal meus pes lavasse”. 

E a ele replicou Penelope bem-ajuizada: 

350 “Caro hospede, nunca varao tao inteligente, 

mais caro, hospede de longe, alcan?ou minha casa, 
tao inteligente e sensato e tudo o que falas. 

Sim, tenho uma ancia com ideias argutas no juizo, 
ela que bem nutriu e criou aquele infeliz, 

355 e recebeu-o nos brasos quando primeiro gerou-o a mae: 
essa lavard teus pes, embora sendo bem fraca. 

Vamos, agora: apos levantares, bem-ajuizada Euricleia, 
lava o coetaneo de teu senhor; talvezde Odisseu 
os pes e as maos ja sejam assim, como os dele. 

360 Na desgra?a os mortais envelhecem rapido”. 

Assim falou, e a ancia cobriu a face com as maos, 
la grim as quentes verteu e falou uma fala chorosa: 

“Ai de mim, filho, nada posso fazer por ti, a quern, 
embora temente ao deus, Zeus abominou entre os homens. 

365 Nunca mortal algum a Zeus prazer-no-raio queimou 
tantas coxas gordas ou hecatombes seletas 
quantas tu a ele; com preces ofereceste para atingires 
idade reluzente e criares o filho ilustre; 
e agora so de ti tirou de todo o dia do retorno. 

370 Assim tambem dele debocharam mulheres 

de estranhos longinquos, ao atingir uma casa famosa, 

como de ti essas cadelas aqui debocharam, todas: 

lan? am oprobrio e tanta vergonha que agora as evitas 

ao nao permitires que os pes te lavem; a mim, sem eu nao querer, 


375 pediu a filha de Icario, Penelope bem-ajuizada. 

Teus dois pes lavarei, por ti e pela propria Penelope, 
ja que dentro de mim o animo foi instigado 
por agruras. Vamos, agora atenta a fala que vou falar: 
ja muitos estranhos calejados aqui chegaram, 

380 mas afirmo nunca ter visto alguem tao parecido, 
em corpo, voze pes, com Odisseu, como pareces tu”. 
Respondendo, disse-lhe Odisseu muita-astucia: 

“Ancia, assim falam todos que viram com os olhos 
a nos dois, que ambos muito nos assemelhamos 
385 um ao outro, como tu mesma, refletindo, dizes”. 

Assim falou, e a ancia pegou resplandecente bacia, 
na qual pes limpava, e muita agua derramou nela, 
fria, e depois, quente, misturou. E Odisseu 
sentou-se longe da lareira e dirigiu-se logo a penumbra: 
390 de pronto em seu animo temeu que ela, ao toca-lo, 
a cicatrizpercebesse, e suas a^oes se esclarecessem. 
Proxima, lavava seu senhor; de pronto reconheceu 
a cicatriz, a de quando javali com branco dente o feriu 
ao ir ao Parnasso atras de Autolico e seus filhos - 
395 o distinto pai de sua mae, superior aos homens 

no roubo e no juramento: o proprio deus o presenteou, 
Hermes; a esse queimava comprazedoras coxas 
de ovelhas e cabritos, e ele, solicito, o acompanhava. 

E Autolico foi a gorda comunidade de Itaca 
400 e encontrou a crian9a recem-nascida de sua filha. 
Euricleia a pos nos caros joelhos dele 
no fim do jantar, dirigiu-se-lhe e nomeou-o: 

“Autolico, agora tu mesmo acha o nome, o que daras 
a crian^a de tua cara crianga: para ti, muito-rogado ele 
405 A ela, por sua vez, Autolico respondeu e disse: 

“Meu genro e filha, colocai o nome que vou falar: 
com o odio de muitos eu mesmo cheguei aqui, 
de varoes e mulheres pela terra nutre- muitos; 


que seu nome eponimo seja Odisseu. Quanto a mim, 
410 quando, ao tornar-se j ovem, a grande casa materna 
fores, ao Parnasso, onde estao meus bens, 
deles eu lhe darei e a ele, agradado, de volta enviarei”. 
Por isso foi Odisseu, para receber presentes radiantes. 
Eis que a ele Autolico e os filhos de Autolico 
415 saudaram com as maos e palavras amaveis; 
a mae da mae, Muidivina, abrafou Odisseu 
e beijou-o na cabe?a e nos dois belos olhos. 

E Autolico ordenou que os filhos majestosos 
o aim 050 preparassem; e o ouviram. 

420 Rapido trouxeram boi macho de cinco anos; 
esfolaram e desmembraram-no por inteiro, 
cortaram com destreza, transpassaram em espetos, 
assaram com todo o cuidado e dividiram as por?oes. 
Entao assim, o dia inteiro at 6 o por do sol, 

425 jantaram, e o animo nao careceu de banquete parelho; 
e quando o sol mergulhou e vieram as trevas, 
entao repousaram e aceitaram o dom do sono. 

Quando surgiu a nasce-cedo, Aurora dedos-roseos, 
foram para a ca?a, tanto os caes quanto os proprios 
430 filhos de Autolico; com eles, ia o divino Odisseu. 
Rumaram a escarpada montanha, coberta de mata, 
o Parnasso, e rapido atingiram as fendas ventosas. 
Entao o Sol comegou a alcazar as glebas, 
vindo do corre-macio, Oceano suave-corrente, 

435 e eles o vale atingiram, os ca?adores: a frente, 
a procura de pegadas, iam os caes, e atr&s, 
os filhos de Autolico; com eles, o divino Odisseu 
seguia perto dos caes, brandindo lan? a sombra-longa. 

E la, na toca com pacta, espreitava grande javah. 

440 Nao a cortava o impeto de ventos que sopram umidos, 
nunca o sol luzidio com seus raios a atingia, 
nem chuva a cruzava por completo: tao compacta 


era, e havia um monte de folhas, grande abundancia. 

Envolveu-o o som dos pes de varoes e caes 
445 ao chegarem, ca$ando; ele de frente, moita afora, 
a crina bem eri 9 ada, mirando com fogo nos olhos, 
pos-se perto deles. Eis que Odisseu foi o primeiro 
a lan?ar-se, erguendo a longa langa na mao encorpada, 
ansioso por feri-lo; e o javali antecipou-se e feriu-o 
450 sobre o joelho, e muita came extraiu com o dente, 

Ian<;ando-se de lado, mas nao atingiu o osso do heroi. 

E Odisseu golpeou-o, acertando sua espadua direita, 
e certeira atravessou a ponta da lan?a luzidia; 
tombou no po, berrando, e sua vida voou para longe. 

455 Daquele, entao, os caros filhos de Autolico cuidaram, 
e o ferimento do impecavel, excelso Odisseu, 
destros, ataram, com um encanto o negro sangue 
contiveram e rapido rumaram a morada do caro pai. 

Eis que a ele Autolico e os filhos de Autolico 
460 curaram direito e lhe deram dadivas radiantes; 
alegre, com alegria amigavel enviaram-o logo 
a Itaca. Por ele o pai e a senhora mae 
alegraram-se ao retornar, e inqueriram-no de tudo, 
a cicatriz, de como a obteve; e ele contou-lhes bem, 

465 como, ao ca?ar, machucou-o javali com branco dente 
ao ir ao Parnasso com os filhos de Autolico. 

Entao a ancia, com as maos para baixo, pegou, 
reconheceu a cicatriz ao nela encostar e empurrou o pe para longe: 
a panturrilha caiu na bacia, o bronze estrepitou 
470 e para o outro lado inclinou-se; agua entornou pelo chao. 

Alegria e afli^ao tomaram seu juizo, seus dois olhos 
de lagrimas se encheram e a vozabundante conteve-se. 

Tocando-o no queixo, dirigiu-se a Odisseu: 

“De fato es Odisseu, querida crian?a; mas antes 
475 nao te reconheci, antes de tocar todo o meu senhor”. 

Falou e fitou Penelope com os olhos, 


querendo indicar que o caro esposo la dentro estava. 

Ela nao foi capazde mirar dire to ou perceber, 
pois Atena desviou sua mente. E Odisseu, 

480 com a mao direita, alcantpou-a, pegou-a pelo pescofo, 
com a outra, puxou-a mais perto de si e falou: 

“Maezinha, por que queres destruir-me? Tu me nutriste 
nesse teu peito; agora, apos padecer muita agonia, 
cheguei no vigesimo ano a terra patria. 

485 Mas como ponderaste e o deus lan?ou em teu animo, 
quieta, que nenhum outro no palacio te escute. 

Pois assim eu falarei, e isto se cumprira: 
se o deus fizer eu subjugar os ilustres pretendentes, 
nem a ti, embora minha ama, pouparei, quando as outras 
490 escravas mulheres, em meu palacio, eu matar”. 

E a ele replicou a bem-ajuizada Euricleia: 

“Meu filho, que palavra te escapou da cerca de dentes! 
Pois sabes, este e meu impeto, firme e inflexivel; 
aguentarei como se eu fosse de pedra dura ou ferro. 

495 Outra coisa te direi, e tu, em teu juizo, a lanca: 
se o deus te fizer subjugar os ilustres pretendentes, 
entao te enumerarei as mulheres no palacio, 
as que te desonram e as que sao inocentes”. 

Respondendo, disse-lhe Odisseu muita-astucia: 

500 “Maezinha, por que falas delas? Disso nao careces. 

Eu mesmo irei bem ponderar e observar cada uma. 

Mas silencia o discurso e entrega aos deuses”. 

Assim falou, e a ancia saiu, cruzando o salao 
para buscar agua, que derramara toda. 

505 Entao, apos o lavar e ungir a larga com oleo, 

de novo para perto do fogo Odisseu puxou a banqueta, 
para se aquecer e encobriu a cicatrizsob os trapos. 

E entre eles come<;ou a falar Penelope bem-ajuizada: 

“Eu mesma, hospede, ainda te porei esta pequena questao: 
510 sun, logo sera a hora do prazeroso repouso, 


a quem quer que o doce sono agarrar, ainda que inquieto. 
Mas a divindade deu-me afli?ao desmesurada: 
de dia deleito-me com lamentos, gemendo 
e olhando para minhas obras e as das servas na casa; 

515 mas, quando a noite vem, e o repouso agarra todos, 

deito no leito, e, em volta de meu cora?ao pulsante, copiosas 
afli?6es agudas me perturbam, a lamentadora. 

Como quando a filha de Pandareu, a filomela do verde, 
com gra?a canta ao postar-se, recente, a primavera, 

520 sentada entre as folhas copiosas das arvores, 

ela que, amiude modulando, verte som bem ecoante, 
deplorando o filho, o caro Itilo, que um dia, com bronze, 
matou por engano, o filho do rei Zeto - 
assim tambem meu animo acirra-se em duas direcoes, 

525 a ver se fico ao lado do filho e, firme, tudo guardo, 
meus bens, escravos e a enorme e alta casa, 
respeitando a cama do marido e a fala do povo, 
ou se ja sigo quem for o melhor dos aqueus 
que me corteja no salao, oferecendo dadivas sem-fim. 

530 Enquanto meu filho ainda era tolo e j uizo-frouxo, 

ele nao me permitia casar e deixar a morada do esposo; 
agora que e grande e alcampa a medida da juventude, 
ja me roga que retorne, para fora do palacio, 
impaciente com as posses que os aqueus lhe devoram. 

535 Mas vamos, escuta e responde a este meu sonho. 

Meus vinte gansos, pela casa, comem o trigo 
da agua, e, ao ve-los, rejubilo-me. 

Vinda de um monte, grande aguia com bico curvo 
o pesco^o de todos quebra e os mata; deixa-os empilhados, 
540 juntos, na casa, e ascende rumo ao ceu divino. 

Mas eu pranteava e ululava no sonho, 
e a minha volta reuniram-se aqueias belas-tran 5 as, 
eu, triste, chorando, pois a aguia matara-me os gansos. 
Voltando, pousou numa proje?ao da cumeeira 


545 e, com vozhumana, quis me conter e disse: 

‘Coragem, filha de Icario grande-fama; 

nao e sonho, mas otima realidade a se cumprir para ti. 

Os gansos sao os pretendentes, e eu, uma ave aguia 
era antes, e agora, como teu marido, voltei, 

550 e contra todos os pretendentes lanfarei ultraj ante destino’. 
Assim falou, e o doce sono deixou-me; 
esquadrinhei em torno e percebi os gansos na casa, 
debicando trigo junto a gamela onde costumam”. 
Respondendo, disse-lhe Odisseu muita-astucia: 

555 “Mulher, nao e possivel responder ao sonho, 

dobrando-o para outro lado, pois a ti o proprio Odisseu 
informou como cumprira: a ruina surge aos pretendentes, 
a todos, e nenhum escapara da perdisao da morte”. 

E a ele replicou Penelope bem-ajuizada: 

560 “Bern, estranho, insoluveis, intrincados sonhos 
ocorrem, e nem tudo se cumpre para os homens. 

Pois de dois tipos sao os portoes dos tibios sonhos: 
um e feito com chifres, o outro e de marfim. 

Dos sonhos, os que passam pelo marfim talhado, 

565 esses emaranham-se, levando palavras irrealizaveis; 
os que passam pela porta de cornos polidos, 
esses realizam o que e real quando um mortal os ve. 

Mas para mim nao creio que dai o terrivel sonho 
veio; por certo a mim e ao filho daria felicidade! 

570 Mas outra coisa te direi, e tu, em teu juizo, a langa: 
esta aurora ai ja vira, vil de se nomear, que da casa 
de Odisseu me afastara: agora estabelecerei prova 
com os machados, esses que ele, em seu palacio, 
em ordem fixava, como escoras de quilha, doze no total; 
575 posicionado bem longe, ele disparava a flecha atraves. 
Agora incumbirei aos pretendentes esta prova: 
quern mais facil armar o arco com o punho 
e flechar por meio de todos os doze machados, 


a esse eu seguirei, apartando-me desta casa 
580 marital, muito bela, plena de vitualhas 

de que um dia, creio, lembrarei, mesmo que em sonho”. 
Respondendo, disse-lhe Odisseu muita-astucia: 
“Respeitavel esposa de Odisseu, filho de Laerte, 
agora nao mais postergues essa prova no palacio: 

585 antes, para ti, o muita-astucia voltara para ca, Odisseu, 
antes que esses ai, esse arco bem-polido manuseando, 
retesarem a corda e flecharem atraves do ferro”. 

E a ele replicou Penelope bem-ajuizada: 

“Se quisesses a mim, estranlio, sentado no palacio, 

590 deleitar, doce sono nao cairia sobre minhas palpebras. 
Mas nao e possivel que fiquem sempre sem sono 
os homens: a cada coisa atribuiram um quinhao 
os imortais para os mortais sobre o solo fertil. 

Mas, quanto a mim, apos subir aos aposentos, 

595 repousarei na cam a que me foi feita rica em gemidos, 
sempre umida com minhas lagrimas, desde que Odisseu 
partiu para vivenciar a inominavel Ruinosa-Ilion. 

La eu descansarei; e, tu, descansa aqui na casa, 
ou no chao estendendo-te, ou que te armem a cama”. 
600 Isso disse e subiu aos aposentos lustrosos, 
nao sozinha, mas com ela iam outras criadas. 

Apos subir aos aposentos com as servas mulheres, 
chorou por Odisseu, caro esposo, ate, para ela, sono 
doce sobre as palpebras lan9ar Atena olhos-de-coruja. 



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Assim, no vestlbulo deitou-se o divino Odisseu: 
embaixo estendeu pele de boi nao curtida e, sobre ela, 
muitos velos de ovelhas, que os aqueus imolavam; 
Eurlnome lan90u uma capa por cima dele, deitado. 

La Odisseu, cogitando no animo males aos pretendentes, 
jazia, desperto; e as mulheres salao afora 
correram, elas que aos pretendentes se uniam ha tempo, 
uma para a outra exibindo risada e gaudio. 

E o animo dele agitou-se no caro peito; 
muito cogitou no juizo e no animo, 
se, indo atras, arranjaria a morte de cada uma 
ou deixaria se unirem aos pretendentes soberbos, 
a ultima e derradeira vez; seu cora^ao, dentro, latia. 

Como a cade la, envolvendo os frageis filhotes 
ao estranhar um varao, late, sofrega por brigar, 
assim, em seu intimo, latia, irritado com as vis a9des. 

Apos golpear o peito, reprovou o cora9&o com o discurso: 
“Suporta, cora9ao: suportaste outro feito mais canalha 
no dia em que o ciclope, de potencia incontida, comeu 
os altivos companheiros; tu resististe ate a astucia a ti 
conduzir para fora do antro, pensando que morrerias”. 
Assim falou, abordando o caro cora9ao no peito; 
e seu cora9ao, obediente de todo, aguentou e resistiu 
sem cessar; ele proprio revirava-se para la e para ca. 
Como quando o varao, forte fogo ardendo, a um bucho 
cheio de sangue e gordura, para la e para ca 
gira, almejando que bem rapido fique assado, 
assim ele, para la e para ca, revirava-se, cogitando 
como desceria os bra90s nos aviltantes pretendentes, 
ele, um so, contra muitos. E das cercanias veio-lhe Atena: 
desceu do paramo, de corpo semelhante a uma mulher, 
parou acima de sua cabe9a e dirigiu-lhe o discurso: 
“Como de novo acordaste, heroi em maxima desdita? 

Essa e tua casa, essa e tua mulher na casa 


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e o menino, assim como se deseja ser um filho”. 

Aela respondendo, disse-lhe Odisseu muita-astucia: 

“Por certo isso tudo, deusa, falaste ponto por ponto, 
mas algo meu animo aqui, no Intimo, cogita: 
como, nos aviltantes pretendentes, descerei os bragos, 
um unico sendo; eles estao sempre juntos la dentro. 
Alem disso, algo maior no juizo cogito: 
mesmo que eu matasse, gramas a Zeus e a ti, 
como eu me safaria? Pe?o que tu isso ponderes”. 

Aele, entao, replicou a deusa, Atena olhos-de-coruja: 
“Que tinhoso! Alguem ja ouve o companheiro inferior, 
que e mortal e nao conhece tantos pianos; 
e eu sou uma deusa, que te guarda para sempre 
em todos os labores. Vou te falar de forma explicita: 
se uma emboscada de cinquenta homens mortais 
nos cercasse, sofregos, em Ares, por matar-nos aos dois, 
tambem deles tangerias vacas e robustas ovelhas. 

Pois que tambem o sono te pegue; e irritante vigiar 
toda a noite desperto, e j a te esquivaras dos males”. 
Assim falou e sono vertia sobre suas palpebras, 
e ela de pronto foi ao Olimpo, divina deusa. 

Quando prendeu-o o sono, soltando tribula?6es do animo, 
solta-membros, a esposa acordou, a sempre devotada, 
e chorava sentada sobre o leito macio. 

Mas apos se fartar de chorar em seu animo, 
a Artemis, por primeiro, rezou a divina mulher: 
“Artemis, senhora deusa, filha de Zeus, que, para mim, 
flecha no peito agora lances e me tomes a vida 
nesse momento, ou entao me agarre uma rajada, 
leve-me embora pelos caminhos brumosos 
e me lance na fozde Oceano flui-de-volta. 

Como quando rajadas tomaram as filhas de Pandareu: 
os deuses destruiram seus pais, e elas restaram, 
orfas, no palacio, e delas cuidou a divina Afrodite 


com queijo, doce mel e prazeroso vinho; 

70 Hera deu-lhes, mais que a todas as mulheres, 

formosura e sensatez; altura entregou a pura Artemis; 
e a tecnica de trabalhos esplendidos ensinou Atena. 

Quando a divina Afrodite subiu ao grande Olimpo 
para pedir a meta das bodas vicej antes para as j ovens 
75 a Zeus prazer-no-raio, pois ele sabe bem de tudo, 
o que e e nao e do destino dos homens mortais, 
nisso as Harpias agarraram as j ovens 
e deram-nas as hediondas Erinias para servi-las - 
comigo desaparecessem os que tem casas olimpias, 

80 ou me atingisse Artemis belas-tranfas, para que Odisseu 
eu fitasse quando eu descesse para debaixo da terra hedionda 
e aqui nao enchesse de gaudio a mente de um varao inferior. 
Mas isso tambem e um mal suportavel, quando alguem 
de dia chora, o cora?ao atormenta-se a larga 
85 e sono domina-o a noite: ele faz esquecer de tudo, 
de bens e males, depois que as palpebras encobre. 

Mas para mim ate sonhos ruins enviou o deus. 

Identico a ele, dormiu comigo de novo essa noite, 
tal como era quando foi com o exercito; meu cora9ao 
90 alegrou-se, pois pensei nao ser sonho, mas realidade”. 

Assim falou, e logo veio Aurora trono-dourado. 

Avozda esposa em prantos ouviu o divino Odisseu; 
entao cogitou e pareceu-lhe, em seu animo, 
que ela ja o reconhecia, de pe, junto a sua cabega. 

95 Pois apos j untar manto e velo, nos quais dormira, 
po-los no salao sobre uma poltrona, e o couro de boi 
levar para fora, a Zeus orou, maos para cun a: 

“Zeus pai, se a mim, com intenfao, a firme e umida 
terra, a minha, trouxestes, apos me lesardes demais, 

100 pre nuncio pronuncie um dos homens que desperta 
dentro, e, fora, prodigio de Zeus, ademais, apare^a”. 

Assim falou, rezando, e ouviu-o Zeus astucioso, 


e logo trovejou do Olimpo fulgurante, 
do alto das nuvens; e j ubilou o divino Odisseu. 

105 Prenuncio, vindo da casa, mulher emitiu, moleira, 
perto, j unto a seus moinhos, os do pastor de tropa, 
nos quais labutavam doze mulheres ao todo, 
preparando cevada e flocos de trigo, tutano de varoes. 

As outras dormiam, apos o trigo terem moido, 

110 e so ela ainda nao parara, e era a mais fraca. 

Ela deteve o moinho e disse a frase, um sinal para Odisseu: 
“Zeus pai, que aos deuses e homens reges, 
com vigor trovejaste do paramo estrelado, 
onde nuvem nao ha; e prodigio que mostras a alguem. 

1 15 Efetua agora tambem para mim, infeliz, a frase que direi: 
seja esta a ultima e derradeira vezque os pretendentes 
partilham do amavel banquete no palacio de Odisseu; 
eles afrouxaram meus joelhos, a preparar-lhes cevada, 
uma fadiga aflitiva: agora ocorra seu ultimo banquete”. 

120 Assim falou, e alegraram o divino Odisseu a soada 

e o trovao de Zeus: pensou que se puniriam os infratores. 
As outras escravas, ao longo da be la casa de Odisseu, 
reuniram -se, e na lareira ati?avam o fogo incansavel. 

E Telemaco da cama se ergueu, heroi igual ao deus, 

125 vestiu suas vestes, pendurou a espada afiada no ombro, 
atou aos pes reluzentes be las sandalias 
e tomou a brava lan?a, afiada com ponta de bronze. 

Eis que se postou na soleira e se dirigiu a Euricleia: 
“Querida maezinha, como honraste o estranho na casa? 

130 Com cama e comida, ou jaz assim, descuidado? 

Pois desse jeito e minha mae, embora sensata: 
e confuso como honra quern e, entre os homens mortais, 
o pior, e o mais valoroso desonra e envia de volta”. 

E a ele replicou a bem-ajuizada Euricleia: 

135 “A ela, inocente, nao culpes agora, filho. 

Vinho bebeu, sentado, enquanto quis. 


De pao, disse nao mais ter fome, pois ela perguntou-lhe 
Mas quando se lembrou do repouso e do sono, 
ela pediu as escravas que aprontassem o estrado. 

140 Ele, como alguem de todo lastimoso e desventurado, 
nao quis repousar em leitos e mantas, 
mas em pele de boi nao curtida e velo de ovelhas 
dormiu no vestlbulo; e nos o cobrim os com uma capa”. 
Assim falou, e Telemaco cruzou o salao com a lanfa; 
145 e dois lepidos caes seguiam com ele. 

Foi a agora para junto dos aqueus belas-grevas. 

Ela, a seu turno, ordenou as escravas, divina mulher, 
Euricleia, filha de Voz, filho de Persuadidor: 
“Mexei-vos, vos al, maos a obra, varrei a casa 
150 e borrifai, e nas poltronas bem-feitas cobertas 
lan$ai, purpura; e vos ai, esfregai com esponjas 
todas as mesas, por inteiro, limpai as anforas 
e os calices dupla-alfa; vos al, atras de agua, 
ide a fonte e trazei, voltando bem rapido. 

155 Pouco tempo os pretendentes se ausentarao do salao, 
mas bem cedo voltarao, pois, para todos, e a festa”. 
Assim falou, e elas a ouviram direito e obedeceram. 
Vinte delas foram a fonte com agua escura, 
e as outras, la mesmo na casa, labutavam com destreza 
160 E entraram os servos orgulhosos; eles, entao, 

bem e com destreza, lenha racharam, e as mulheres 
voltaram da fonte. Depois deles veio o porcarigo 
conduzindo tres cevados, os melhores entre todos. 

A esses deixou pastando no belo patio, 

165 e ele proprio a Odisseu, com agrados, dirigiu-se: 

“Hospede, acaso os aqueus te olham com mais atenfao 
ou te desonram no palacio como antes?’. 

Respondendo, disse-lhe Odisseu muita-astucia: 
“Tomara, Eumeu, os deuses punissem a infamia 
170 que eles, com violencia ultrajante, engenham 


na casa de outrem, e nao compartilham de respeito”. 
Assim eles disso falavara entre si. 

E Preto aproximou-se deles, o pastor de cabras, 
e com ele dois pastores; tocavam cabras, 

175 caprinos seletos, refei9ao dos pretendentes. 

Aessas prenderam sob a colunata ressoante, 
e ele proprio dirigiu-se a Odisseu com provoca9oes: 
“Estranho, tambem agora importunaras aqui na casa, 
mendigando aos homens, e nao sairas pela porta? 

180 De modo algum creio que nos separaremos 
antes de provar os bra?os, pois tu, sem elegancia, 
mendigas: tambem alhures ha banquetes de aqueus”. 
Assim falou, e nao se lhe dirigiu Odisseu muita-astucia, 
mas, quieto, meneou a cabe?a, ruminando males. 

185 Como terceiro, juntou-se-lhes Filoitio, lider de varoes, 
guiando vaquilhona aos pretendentes e gordas cabras. 
Transportaram-nos balseiros, eles que tambem a outros 
homens conduzem, quern quer que a eles chegue. 
Prendeu-as bem sob a colunata ressoante, 

190 e ele proprio questionou o porqueiro, parado perto: 
“Quern e esse estranho, porqueiro, recem-chegado 
a nossa morada?Proclama ser de quais 
varoes? Qual e sua linhagem e o solo patrio? 
Desventurado, no porte parece um senhor real. 

195 Mas os deuses atormentam os homens muito errantes, 
sempre que - ate para reis - destinam agonia”. 

Falou, saudou-o com a mao direita, de pe ao lado, 
e, falando, dirigiu-lhe palavras plumadas: 

“Se feliz, pai estrangeiro: tenhas, mesmo no futuro, 

200 fortuna; agora, de fato, estas preso a muitos males. 
Zeus pai, deus algum e mais destrutivo que tu; 
nao te compunge que varoes, apos gera-los tu, 
se unam a miseria e afli9oes deploraveis. 

Suei quando te percebi, e meus olhos lacrimejaram 


205 ao lembrar-me de Odisseu, ja que penso que aquele, 
com trapos tais, entre os homens vaga, 
se em algum lugar ainda vive e ve a luz do sol. 

Se ja esta morto, na morada de Hades, 
ai de mim pelo impecavel Odisseu, que me alocou 
210 para vacas, ainda pequeno, na terra dos cefalenios. 

Agora elas tornaram-se ilimitadas, e melhor nao 
vingaria, para um varao, a cepa de vacas larga-fronte. 
Outros me pedem que as conduza para eles mesmos 
come-las, e o filho, no palacio, desconsideram 
215 e, com o olhar dos deuses, nao tremem: ja anseiam 
os bens dividir, o senhor ha tempo ausente. 

Mas meu animo, no caro peito, por isso 
revira-se demais: e um grande mal, havendo o filho, 
buscar a terra de outros, partindo com vacas e tudo 
220 ate varoes estranhos; mas o que me arrepia e ficar aqui, 
sentado junto a vacas de terceiros, a sofrer agonias. 

Ha tempo j a teria a outro rei poderoso 
alcan9ado em fuga, pois aqui nao e mais suportavel; 
mais ainda creio que o miseravel, caso volte um dia, 

225 faria esses pretendentes pela casa dispersar”. 
Respondendo, disse-lhe Odisseu muita-astucia: 

“Vaqueiro, como nem vil nem insensato heroi pareces, 
e reconhefo tambem eu que sensatezatinge teu juizo, 
por isso te direi e ainda grande j ura j urarei: 

230 saiba agora Zeus primeiro, supremo deus e o melhor, 
e o fogo-lar do impecavel Odisseu, ao qual cheguei; 
por certo, estando tu aqui, chegara em casa Odisseu, 
e com teus olhos enxergaras, se quiseres, 
os pretendentes mortos, que aqui se arrogam senhores”. 

235 E a ele replicou o varao vaqueiro de bois: 

“Ah! Se essa palavra, estranho, cumprisse o filho de Crono; 
saberias que for?a e a minha, como agem os brass’’. 

Do mesmo modo, Eumeu rezou a todos os deuses 


pelo retorno de Odisseu muito-juizo a sua casa. 

240 Assim eles disso falavam entre si. 

Os pretendentes, para Telemaco, o quinhao da morte 
arranjavam; e veio-lhes, do lado esquerdo, uma ave, 
aguia voa-alto, e levava um timido pom bo. 

Entre eles, Anfinomo tomou a palavra e disse: 

245 “Meus caros, este piano nao nos sera bem-sucedido, 
a morte de Telemaco; vamos, lembremos do banquete”. 
Assim falou Anfinomo, e agradou-lhes o discurso. 
Entrando na casa do divino Odisseu, 
mantos depuseram nas cadeiras e poltronas, 

250 abateram grandes ovelhas e gordas cabras, 

e abateram porcos cevados e uma vaca do rebanho. 
Apos assar as visceras, distribuiam-nas, e vinho 
nas anforas misturavam; as ta?as repartia o porqueiro. 

E distribuia-lhes pao Filoitio, lider de varoes, 

255 em belas cestas, e Preto escan^ava. 

E eles esticavam as maos sobre os alimentos servidos. 

E Telemaco alocou Odisseu, aplicando sua esperteza, 
dentro do bem-erigido salao, j unto ao umbral de pedra, 
apos la postar banqueta ultrajante e pequena mesa. 

260 Ao lado pos peda^os das visceras, verteu vinho 
em c&lice dourado e dirigiu-lhe o discurso: 

“Ali agora senta e com os varoes bebe vinho; 
eu proprio afastarei de ti provoca^des e bravos 
de todos os pretendentes, pois nao e comunitaria 
265 esta casa, mas de Odisseu, e para mim a adquiriu. 

Vos, pretendentes, afastai o animo da reprova?ao 
e dos bra 50 s, para que disputa e briga nao comecem”. 
Assim falou, e todos, os dentes mordendo os labios, 
admiraram-se de Telemaco, pois falou com audacia. 
270 E entre eles falou Antinoo, filho de Persuasivo: 

“Em bora seja duro, aceitemos, aqueus, o discurso 
de Telemaco; enunciou grandes ameafas contra nos. 


Sim, Zeus nao permitiu, o filho de Crono, caso contrario 
ja o teriamos interrompido no salao, embora orador potente”. 
275 Assim falou Antinoo e desprezou o discurso. 

Arautos, pela cidade, a sacra hecatombe aos deuses 
levavam; e eles reuniram -se, os aqueus longas-madeixas, 
sob o bosque umbroso de Apolo alveja-de-longe. 

Aqueles, apos assar a carne de fora e a tirar dos espetos, 

280 repartiram-na e partilharam majestoso banquete. 

Junto a Odisseu, um peda90 puseram os que serviam, 
igual ao que receberam os outros, pois isso ordenou 
Telemaco, o caro filho do divino Odisseu. 

De modo algum Atena permitiu que os arrogantes pretendentes 
285 se reprimissem no tratamento vexatorio, para ainda mais 
angustia entrar no corafao de Odisseu, filho de Laerte. 

Entre os pretendentes, havia um varao que ignorava regras, 
tinha o nome de Ctesipo e morava em Same. 

Ele agora, confiante nos bens de seu pai, 

290 cortejava a esposa de Odisseu ha muito ausente. 

Ele entao, entre os soberbos pretendentes, falou: 

“Ouvi-me, pretendentes orgulhosos, vou falar. 

Como convem, ha tempo o hospede ja tern uma por9ao 
igual, pois nao e belo nem civilizado frustrar 
295 os hospedes de Telemaco, todo que vier a esta casa. 

Que tambem eu lhe de um dom, para ele proprio 
oferecer uma honraria a serva do banlio ou a um outro 
dos escravos que vivem na casa do divino Odisseu”. 

Isso dito, jogou um pe de vaca com a mao encorpada, 

300 tirando-o da cesta. Odisseu evitou-o, 

ligeiro inclinando a cabe9a, e sorriu no animo, 
deveras sardonico; e atingiu a bem-feita parede. 

ACtesipo, Telemaco reprovou com o discurso: 

“Ctesipo, por certo isto foi vantajoso para tua vida: 

305 nao acertaste o hospede; o proprio evitou o proj etil. 

Na certa eu te acertaria ao meio com lan9a afiada, 


e, ao inves das bodas, teu pai se ocuparia do enterro. 
Assim, que era minha casa ninguem afrontas demonstre, 
mas em meu animo penso e conhe 90 cada coisa, 

310 as nobres e as piores; no passado ainda era tolo. 

Mas embora ate suportemos observar isso tudo, 
o abate de ovelhas, o consumo de vinho, 
e comida: e duro para urn so muitos conter. 

Mas chega, nao mais me infligi males como inimigos. 
315 Se ja tendesgana de matar-me com bronze, 
ate disso eu gostaria, e seria bem mais vantajoso 
estar morto que sempre afrontar estes ultrajes, 
estranhos maltratados e escravas mulheres 
seduzidas de forma ultrajante na be la morada”. 

320 Assim falou, e eles todos, atentos, se calavam. 

Bem depois, Agelau, filho de Domador, falou entre eles: 
“Amigos, ninguem, por ocasiao de fala civilizada, 
endureceria replicando com palavras hostis; 
nao maltrateis o estranho nem, de resto, algum 
325 dos escravos que vivem na casa do divino Odisseu. 

Para Telemaco e a mae eu mesmo diria uma fala 
amig&vel, se agradasse ao corafao de ambos. 

Enquanto o vosso animo, no peito, esperava 
pelo retorno de Odisseu muito-juizo a sua casa, 

330 nao cabia indigna^ao por aguardar e conter 

os pretendentes na casa, pois isto era mais vantajoso, 
o retorno de Odisseu, ele chegar de volta em casa; 
agora isto j a e evidente, ele nao mais retornara. 

Vamos, sentado ao lado da mae, enumere-lhe isto: 

335 despose quem for o melhor varao e mais ofertar, 

para que tu, satisfeito, administres todos os bens paternos, 
comendo e bebendo, e ela dirija a casa de outrem”. 

A ele, entao, o inteligente Telemaco retrucou: 

“Por Zeus, nao, Agelau, e pelas afli?6es de meu pai, 

340 que alhures, longe de Itaca, morreu ou esta vagando, 


nao atraso as bodas de minha mae, mas pe90 
que despose quem quiser, e dou-lhe dadivas indiziveis. 
Envergonho-me de escorra^a-la da casa, obrigada, 
com um discurso impositivo: que isso o deus nao realize” 
345 Isso disse Telemaco; entre os pretendentes, Palas Atena 
provocou riso inextinguivel e desnorteou suas ideias. 

Eles entao riam, mas com alheios maxilares, 
e eis que comiam carne sangrenta, seus olhos 
enchiam-se de lagrimas, e o animo pensava em lamento 
350 Tambem entre eles falou o deiforme Teoclimeno: 
“Miseraveis, que mal e este de que sofreis? Anoite 
recobre vossas cabefas, faces e, embaixo, os joelhos, 
o gemido e uma tocha, nas faces, o choro, 
e de sangue estao borrifadas paredes e belas traves; 

355 cheio de espectros esta o vestibulo, cheio, o patio, 
ansiando ir ao Erebo rumo as trevas; o sol 
sumiu do paramo, e nevoa danosa espalhou-se”. 

Assim falou, e eles todos riram dele com prazer. 

Entre eles Eurimaco, filho de Polibo, come?ou a falar: 
360 “Esta louco o estranho recem-chegado de alhures. 

Mas a ele, j ovens, rapido conduzi porta afora 
para chegar a agora, j a que isso assemelha-se a noite”. 
Aele, por sua vez, falou o deiforme Teoclimeno: 
“Eurimaco, nao te pe?o que me ofere9as condutores. 

365 Tenho olhos, ouvidos, ambos os pes 

e mente perfeita no peito, em nada ultrajante; 
com eles sairei pela porta, pois percebo vir contra vos 
um mal, do qual nao fugira nem escapara nenhum 
de vos, pretendentes, que pela casa do excelso Odisseu, 
370 violentos com varoes, engenham a9oes iniquas”. 

Isso dito, saiu da casa boa para morar 
e rumou a de Peiraio, que, solicito, o recebeu. 

E todos os pretendentes, olhando-se uns aos outros, 
provocavam Telemaco, rindo dos estrangeiros. 


375 E desse modo falavam os j ovens arrogantes: 

“Telemaco, ninguem tem piores hospedes que tu. 

Tens esse ai, um errante impertinente, 
carente de comida e vinho, em trabalho algum 
experiente nem na for?a, mas so um peso para a terra; 
380 quanto ao outro, aqui postou-se para adivinhar. 

Mas se eu te convencesse, digo que seria mais vantajoso, 
apos lan?ar os estranhos em nau de muitos cal? os, 
a Sicilia os enviar, que te renderiam certo valor”. 

Isso diziam os pretendentes; e ele desprezou os discursos, 
385 mas, quieto, observou o pai, sempre aguardando 

quando, nos aviltantes pretendentes, desceria os bra?os. 

E ela defronte colocou uma banqueta bem bela, 
a filha de Icario, Penelope bem-ajuizada, 
e ouviu o discurso de cada um dos varoes no salao. 

390 Eles, entao, rindo, prepararam a refei?ao, 

agradavel e deliciosa, pois muitos animais imolaram; 
nada seria mais desprazeroso que um jantar 
como esse que logo iriam a deusa e o poderoso varao 
instaurar: aqueles, por primeiro, engenharam ultrajes. 



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E no juizo dela pos a deusa, Atena olhos-de-coruja, 
no da filha de Icario, Penelope bem-ajuizada, 
apresentar aos pretendentes o arco e o ferro cinza 
no palacio de Odisseu, apetrechos e inlcio da matanfa. 

Subiu a elevada escadaria de sua morada 
e com a mao encorpada pegou a chave boa-curva, 
bela e dourada; e tinha um cabo de marfim. 

Pos-se rumo ao quarto com as servas mulheres, 
o bem no fundo; Id estavam os haveres do senhor, 
bronze, ouro e ferro muito trabalhado. 

E la estavam o arco estica-e-volta e a aljava 
porta-flecha, e nela havia muitas setas desoladoras, 
dons que lhe deu o aliado, ao topa-lo na Lacedemonia, 

Ifito, filho de Eurito, semelhante aos imortais. 

Os dois, na Messenia, encontraram-se um ao outro 
na casa do atilado Tocaioso; quanto a Odisseu, 
viera atras de uma divida que todo o povo lhe devia: 
ovelhas e cabras, de Itaca, os varoes messenios levaram, 
trezentas, em naus muito-cal?o, e pastores. 

Por isso fora Odisseu em missao pela longa rota, 
ainda menino: enviaram-no o pai e os outros anciaos. 

Ja Ifito buscava as eguas que perdera, 
doze femeas com lactentes mulas robustas. 

Essas entao tambem se tornaram destino de matan?a para ele 
quando encontrou o filho animo-potente de Zeus, 
o heroi Heracles, experto em grandes feitos. 

Matou a Ifito, que hospedava em sua propria casa, 

Heracles, terrivel, desrespeitando os deuses e a mesa 
que a seu lado pusera; ainda assim, ate o matou, 
e ele mesmo manteve as eguas forte-casco no palacio. 
Perguntando por elas, Ifito encontrou Odisseu e deu-lhe o arco 
que, no passado, carregava o grande Eurito, e esse ao filho 
deixara, ao morrer na casa de alto pe-direito. 

A ele Odisseu deu espada afiada e brava lansa, 


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o inicio de confiavel alianpa. Nao junto a mesa 
conheceram-se um ao outro. Antes o filho de Zeus matou 
Ifito, filho de Eurito, semelhante aos imortais, 
que lhe dera o arco. Aeste nunca o divino Odisseu, 
quando ia para a guerra sobre as negras naus, 
escolhia, mas ai mesmo, lembran?a do caro aliado, 
guardava, no palacio, e carregava-o em sua propria terra. 
Quando ela chegou aquele quarto, a divina mulher, 
e pisou no umbral de madeira, que um dia artesao 
aplanou, habil, endireitou com o prumo 
e nele ajustou batentes e pos portas brilhantes 
de pronto ela soltou a correia da masaneta, 
enfiou a chave e, mirando em frente, empurrou 
os ferrolhos das portas. Essas rangeram como um touro 
pastando no prado; assim rangeram as be las portas, 
golpeadas pela chave, e presto se lhe escancararam. 

Ela entao dirigiu-se ao estrado elevado; la baus 
havia, e neles encontravam-se roupas perfumadas. 
Esticando-se, do prego desenganchou o arco, 
acorn odado num estojo que o envolvia, brilhante. 

Sentada la mesmo, descansando-o nos caros joelhos, 
chorou, bem alto, e tomou o arco do senlior. 

Apos deleitar-se com o lamento muita-lagrima, 
rumou ao salao atras dos ilustres pretendentes, 
tendo na mao o arco estica-e-volta e a aljava 
porta-flecha, e nela havia muitas setas desoladoras. 

Com ela, servas levavam uma caixa onde havia 
muito ferro, e bronze, apetrechos do senhor. 

Quando alcan^ou os pretendentes, divina mulher, 
parou ao lado do pilar do teto, solida constru?ao, 
apos puxar, para diante da face, o veu reluzente; 
e criada devotada, uma de cada lado, se postou. 

Presto, entre os pretendentes, tomou a palavra e disse: 
“Ouvi-me, pretendentes orgulhosos, vos que esta casa 


atacai para comer e beber sempre, sem parar, 

70 o varao hi muito ausente; e nenhuma outra 
evasiva que fosse conseguistes arrumar, 
mas que ansiais desposar-me e tornar sua mulher. 

Bern, pretendentes, agi, eis o premio: 
a prova sera o manuseio do grande arco do divino Odisseu; 
75 quern mais facil armar o arco com o punho 
e flechar atraves de todos os doze machados, 
a esse eu seguirei, apartando-me desta casa 
marital, muito bela, plena de vitualhas, 
de que um dia, creio, lembrarei, ainda que em sonho”. 

80 Assim falou e pediu a Eumeu, divino porcar^o, 

que apresentasse o arco e o ferro cinza aos pretendentes. 
Com lagrimas, Eumeu recebeu-o e depos no chao; 
o vaqueiro tambem chorava, pois viu o arco do senhor. 

E Antinoo falou, dirigiu-se-lhes e nomeou-os: 

85 “Rusticos tolos, atentos somente ao efemero, 

dois coitados, por que lagrimas derramai e a mulher, 
o animo em seu peito agitais? E natural que seu 
animo revolva em afligao, pois perdeu o caro consorte. 
Porem, em silencio, comei sentados ou, porta afora, 

90 aos prantos, sai, deixando o arco aqui mesmo 
aos pretendentes, prova inocua, pois nao creio 
que facilmente esse arco bem polido sera armado. 

Nao ha varao entre todos estes aqui 
tal como era Odisseu; eu proprio o vi - 
95 tenho na memoria - e era ainda crian?a tola”. 

Assim falou, e o animo dele, no peito, esperava 
retesar a corda e flechar atraves do ferro. 

A uma flecha, ele seria o primeiro a prova -la 
das maos do impecavel Odisseu, a quern desonrava, 

100 sentado nos saloes, a instigar os pretendentes. 

E entre eles falou a sacra for9a de Telemaco: 

“ Inc rive 1, de fato, Zeus, filho de Crono, fez-me tolo. 


Minha cara mae me disse, embora sendo sensata, 
que seguiria um outro, apartando-se desta casa; 

105 e eu estou rindo, deleito-me no animo estupido. 

Bern, pretendentes, agi, pois eis que se revela o premio: 
tal mulher no presente nao ha em terra aqueia, 
nem na sacra Pilos, em Argos ou Micenas, 
nem na propria Itaca nem no escuro continente. 

110 Vos mesmos disso sabeis: por que louvar minha mae? 
Pois bem, nao remancheis com desculpas nem vos 
desvieis da fixa^ao do arco por muito tempo. Vamos ver. 
Tambem eu proprio poderia testar-me no arco: 
se eu vergar e flechar atraves do ferro, 

1 15 nao me angustiaria se a senhora mae esta casa 

deixasse, indo com outro, quando eu para tras ficaria, 
capazde apossar-me dos belos apetrechos do pai”. 

Falou e, apos levantar-se, dos ombros tirou 
a capa purpura, bem como a espada afiada puxou. 

120 Primeiro cravou os machados, tendo cavado um sulco 
para todos, unico, longo; com o prumo endireitou-os 
e socou a terra ao redor. Todos se espantaram, ao ver 
com que adequapao os cravou: e nunca antes os vira. 

Eis que se postou na soleira e experimentava o arco. 

125 Tres vezes abalou-o com gana de verga-lo, 

tres vezes relaxou, embora esperasse isto no animo: 
retesar a corda e flechar atraves do ferro. 

Entao teria, com for?a, vergado, puxando uma quarta vez, 
mas Odisseu, acenando a cabe?a, conteve-o em sua ansia. 
130 E entre eles falou a for<;a sacra de Telemaco: 

“ Inc rive 1, por certo no futuro serei vil e fracote, 
ou sou muito jovem e nos bra?os ainda nao confio 
para afastar um varao quando, mais velho, endurece. 

Mas ide, vos que na for9a sois melhores que eu, 

135 o arco experimental e finalizemos a prova”. 

Isso dito, postou o arco no chao, longe de si, 


apoiando-o contra as portas bem-polidas, justas, 
apoiou o projetil velozna be la extremidade do arco 
e sentou-se de volta na poltrona de onde se erguera. 

140 E entre eles falou Antinoo, filho de Persuasivo: 

“Todos os pretendentes, postai-vos em ordem, 

pela direita, a partir do lugar de onde se serve o vinho”. 

Assim falou Antinoo, e agradou-lhes o discurso. 

E Leodes ergueu-se primeiro, o filho de Olhovineo; 

145 ele era o &ugure deles e junto da bela anfora 

sentava-se, sempre bem no fundo: so a ele a iniquidade 
era odiosa, e indignava-se contra todos os pretendentes. 
Ele foi o primeiro a pegar o arco e o proj etil veloz. 

Eis que se postou na soleira, experimentava o arco, 

150 e nao o vergou; antes cansou, relaxando as maos 
indolentes, delicadas. E entre os pretendentes falou: 
“Amigos, eu nao o vergo; que outro o pegue. 

Este arco, de fato, privara muitos nobres 
de seu animo e vida, pois e muito melhor 
155 estar morto que, vivo, errar o alvo pelo qual sempre 
nos reunimos aqui, todos os dias, a espera. 

Ainda agora no juizo cada um espera e deseja 
desposar Penelope, a consorte de Odisseu; 
mas quando testar o arco e der-se conta, 

160 entao que cortej e outra das aqueias belo-peplo, 
tentando-a com dadivas. Quanto a Penelope, entao 
desposara aquele que mais ofertar e for o destinado”. 
Assim falou e postou o arco longe de si, 
apoiando-o contra as portas bem-polidas, justas, 

165 apoiou o projetil velozna bela extremidade do arco 
e sentou-se de volta na poltrona de onde se erguera. 

E Antinoo reprovou-o, dirigiu-se-lhe e nomeou-o: 
“Leodes, que palavra te escapou da cerca de dentes, 
assombrosa e aflitiva, e indigno-me ao ouvir. 

170 Sim, se este arco aqui privar os nobres 


de seu animo e vida, e porque nao lograste tu verga-lo. 

Pois a ti a senhora mae nao gerou tao valoroso 

a ponto de ser arqueador de arco e flechas; 

mas outros vergarao ligeiro, os pretendentes ilustres”. 

175 Assim falou, e chamou Preto, o pastor de cabras: 

“Vamos la, Preto, acende o fogo nos saloes, 

poe ao lado uma grande banqueta e, sobre ela, um velo, 

e traze, de dentro, grande naco de sebo 

para que, j ovens, esquentando, untando com oleo, 

180 o arco experimentemos e finalizemos a prova”. 

Assim falou, e Preto logo acendeu o fogo incansavel, 
trouxe a banqueta, pos ao lado e, sobre ela, um velo. 

E trouxe, de dentro, grande naco de sebo. 

Com ele, j ovens, esquentando, tentaram; e nao conseguiam 
185 vergar, pois eram carentes, e muito, de for?a. 

Antinoo ainda aguardava e o deiforme Eurimaco, 
chefes dos pretendentes, de longe os melhores em excelenc 
E am bos sairam da casa ao mesmo tempo, juntos, 
o vaqueiro e o porcari?o do divino Odisseu; 

190 e ele proprio saiu atras deles, o divino Odisseu. 

Mas quando longe das portas e fora do patio estavam, 
pos-se a falar e, a eles, com palavras amaveis, dirigiu-se: 
“Vaqueiro e tambem tu, porcar^o, eu poderia algo dizer 
ou devo esconder? Mas meu animo pede que revele. 

195 Como vos serieis na defesa de Odisseu, se acaso chegasse 
bem assim, de chofre, e um deus o trouxesse? 

Defenderieis os pretendentes ou Odisseu? 

Falai como a vos cora^ao e animo impelem”. 

E a ele replicou o varao vaqueiro de bois: 

200 “Tomara, pai Zeus, completes esse desej o! 

Que voltasse aquele varao, e o guiasse a divindade: 
saberias que for<;a e a minha, como agem os brafos”. 

Do mesmo modo Eumeu rezou a todos os deuses 
pelo retorno de Odisseu muito-juizo a sua casa. 


205 E apos reconhecer, desses, a mente veraz, 

de novo a eles, com palavras respondendo, disse: 

“Sim, em casa - sou eu mesmo aqui: aguentei muitos males 
e cheguei no vigesimo ano a terra patria. 

Reconhefo que, dentre os servos, so vi a vos dois 
210 desejosos da minha presen9a; nao ouvi nenhum outro 
rezando para eu a casa retornar. 

Para os dois, como se dara, contarei a verdade: 

se um deus me permitir subjugar os ilustres pretendentes, 

farei conduzir esposas para ambos e oferecerei bens, 

215 e casas bem-feitas perto de mim; depois, para mim, 
sereis companheiros e irmaos de Telemaco. 

Pois bem, que um sinal inequivoco, outro, eu mostre, 
para me reconhecerem e se assegurarem no animo: 
a cicatrizque me deixou um dia javali com branco dente 
220 quando fui ao Parnasso com os filhos de Autolico”. 

Isso dito, afastou os trapos da grande cicatriz. 

Os dois, ao verem bem e observarem tudo, 

choravam, lan$aram os bragos em volta do atilado Odisseu 

e beijavam, com afeto, cabe9a e ombros dele; 

225 do mesmo modo, Odisseu beijou cabe9as e maos. 

E choraram tanto que o sol se teria posto, 

se o proprio Odisseu nao os tivesse contido e dito: 

“Cessai o pranto e o lamento, que ninguem, 
ao sair do salao, veja, e va falar la dentro. 

230 Entrai um por um , nao todos j untos, 

primeiro eu, depois vos. E que este seja o sinal: 
os restantes, todos os pretendentes ilustres, 
nao deixarao que me sejam dados o arco e a aljava; 
mas tu, divino Eumeu, levando o arco pela casa, 

235 nas minhas maos o poe, e dizas mulheres 

que cerrem as portas do salao, compactas, justas. 

Se alguma, dentro, ouvir gemido ou ruido 
de varoes no nosso cercado, que pelas portas 


nao saiam, mas fiquem la mesmo atentas na lida. 

240 Ati, divino Filoitio, encarrego de trancares as portas do patio 
com o ferrolho e, celere, em cima finalizar com um no”. 
Isso dito, entrou na casa boa para morar; 
e entao sentou-se na banqueta de onde se erguera. 

Tambem entraram os dois escravos do divino Odisseu. 

245 Eurimaco j a o arco brandia nas maos, 

esquentando-o aqui e ali na fulgencia do fogo: nem assim 
foi capazde arma-lo, e forte gemeu no glorioso cora9ao; 
perturbado, dirigiu-se-lhes e nomeou-os: 

“ Inc rive 1, minha afli9ao e por mim mesmo e por todos. 

250 Nao lamento tanto pelas bodas, embora isso me atormente - 
ha muitas outras aqueias, umas na propria 
ftaca cercada-de-mar, outras, nas cidades restantes -, 
mas que de tal modo carentes somos da for9a 
do excelso Odisseu, que nao conseguimos vergar 
255 o arco: ignominia, a se noticiar tambem aos vindouros”. 
Aele, entao, dirigiu-se Antinoo, filho de Persuasivo: 
“Eurimaco, nao sera assim. Tambem tu percebes. 

Sim, agora ha, na comunidade, a festa do deus, 
sagrada: quem estiraria o arco? Nao, tranquilos, 

260 deponhamo-no. E os machados todos, podemos deixa-los 
de pe: nao creio que alguem os pegara 
apos entrar no salao de Odisseu, filho de Laerte. 

Vamos, que o escan9ao verta as primicias nos calices 
para, tendo libado, guardarmos o arco recurvado. 

265 Pela manha, ordenai a Preto, o pastor de cabras, 

cabras trazer, notaveis entre todos os rebanhos caprinos, 
para, tendo coxas disposto a Apolo arco-famoso, 
o arco experimentarmos e finalizar a prova”. 

Assim falou Antinoo, e agradou-lhes o discurso. 

270 Para eles os arautos vertiam agua nas maos, 
e mo90s preencheram anforas com bebida 
e a todos distribuiam apos verter primicias nos calices. 


Mas depois de libar e beber tudo que quis o animo, 
com mente ardilosa disse-lhes Odisseu muita-astucia: 

275 “Ouvi-me, pretendentes da esplendida senhora, 

[vou falar o que o animo me ordena no peito.] 

Sobremodo a Eurimaco e ao deiforme Antinoo 
eu suplico, pois esta palavra falou com adequafao: 
cessar agora com o arco e entregar aos deuses; 

280 pela manha o deus dara supremacia a quern quiser. 

Mas vamos, dai-me o arco bem-polido, para entre vos 
eu testar-me nos bra90s e na for?a: ou ainda tenho 
vigor sobre os membros recurvos, tal como no passado, 
ou ja foi perdido por meu desleixo e errancia”. 

285 Assim falou, e eles todos se indignaram por demais, 
com medo de que armasse o arco bem-polido. 

Antinoo reprovou-o, dirigiu-se-lhe e nomeou-o: 

“Pobre estrangeiro, nao tens juizo, nem um pouco. 

Nao te contentas em, tranquilo, entre nos, soberbos, 

290 jantar, nao ser privado de tua por9&o e ouvir 
nossas conversas e falas?Nenhum outro 
estranho e mendigo ouve as nossas falas. 

O vinho doce como mel te perturba, o que tambem a outros 
lesa, quern o toma vorazmente e sem medida bebe. 

295 O vinho tambem ao centauro, o esplendido Eurition, 
cegou, no salao do animoso Peiritoo, 
quando foi ate os lapitas; ele cegou o juizo com vinho 
e, louco, aprontou vilezas na morada de Peiritoo. 

Aafl^ao tomou conta dos herois e, portico afora, 

300 arrastaram-no de chofre, com impiedoso bronze, orelha 
e nariztendo ceifado; ele, cego em seu juizo, 
partiu, suportando sua ruina com animo juizo-cego. 

Dai para centauros e varoes se deu a contenda, 
e mal para si mesmo aquele, primeiro, trouxe, bebado. 

305 Assim, tambem para ti, grande desgra9a anuncio se o arco 
armares; de fato, nao toparas com a bondade de alguem 


em nossa vizinhan^a, e a ti, para longe, em negra nau, 
rumo ao rei Apresador, flagelo de todos os mortais, 
te enviaremos; e de la nao te salvaras. Vamos, bebe 
310 tranquilo e nao disputes contra varoes maisj ovens”. 

E a ele replicou Penelope bem-ajuizada: 

“Antlnoo, nao e belo nem civilizado frustrar 
os hospedes de Telemaco, todo que vier a esta casa. 
Esperas, se esse estranho o grande arco de Odisseu 
315 armar, confiante em seus bra 90 s e for 9 a, 
que para casa me conduza e torne sua esposa? 

Nem ele mesmo, no peito, isso espera; 
nenhum de vos, por causa disso, aflito no animo 
jante aqui, pois nao convem de modo algum”. 

320 E a ela Eurimaco, o filho de Polibo, retrucou: 

“Filha de Icario, Penelope bem-ajuizada, 
nao pensamos que ele te conduzira, nem convem, 
mas envergonha-nos o dizer de varoes e mulheres; 
que nunca diga algum outro aqueu mais vil: 

325 ‘Sim, vardes bem piores que o impecavel varao cortej am 
a esposa, e de modo algum armam o arco bem-polido. 
Mas um outro, varao mendigo, que chegou apos vagar, 
facil vergou o arco e lan 90 u atraves do ferro’. 

Assim dirao, e contra nos haveria essas criticas”. 

330 E a ele replicou Penelope bem-ajuizada: 

“Eurimaco, nao e possivel, nos arredores, boa fama 
terem esses que, desonrando, comem a propriedade 
de nobre varao: por que justo isso propondes como critica? 
Esse estranho e bem grande e robusto, 

335 e proclama, na linhagem, ser filho de pai valoroso. 

Pois bem, dai-lhe o arco bem-polido para verm os. 

Pois assim eu falarei, e isto se cumprira: 
se ele o armar, e Apolo lhe conferir o triunfo, 
vesti-lo-ei com capa e manto, belas vestes, 

340 e darei afiada lan 9 a, proteQao contra caes e varoes, 


e espada duas-laminas; darei sandalias para os pes 
e o enviarei para onde cora9&o e animo o impelem”. 
Aela entao o inteligente Telemaco retrucou: 

“Minha mae, mais do que eu, nenhum aqueu tern 
345 o direito de dar ou negar o arco a quern eu quiser, 
nem dentre todos que regem pela rochosa Itaca, 
nem de todos os das ilhas rumo a Elis nutre-potros; 
ninguem podera me impedir, se eu quiser, de 
ao estranho dar, de uma vez, esse arco para o levar. 

350 Mas entra na casa e cuida de teus proprios afa2eres, 
do tear e da roca, e as criadas ordena 
que o trabalho executem; o arco ocupara os varoes, 
todos, mormente a mim, de quern e o poder na casa”. 
Ela ficou pasma e foi de volta a casa, 

355 pois o inteligente discurso do filho pos no animo. 

Tendo subido aos aposentos com as servas mulheres, 
chorou por Odisseu, caro esposo, ate para ela sono 
doce langar sobre as palpebras Atena olhos-de-coruja. 

E pegou o arco curvo e levava-o o divino porcari90. 

360 Eis que todos os pretendentes gritaram no pal&cio; 
e desse modo falavam os j ovens arrogantes: 

“Para onde levas o curvo arco, porqueiro desgra?ado, 
inepto? Logo, sobre porcos, caes ligeiros te comerao, 
so, longe dos homens, os que criaste, se Apolo 
365 e os outros deuses imortais nos forem propicios”. 

Assim falavam, e ele pos o que levava no mesmo lugar, 
com medo, pois muitos, no pal&cio, gritaram. 

E Telemaco, amea9ando do outro lado, bradou: 

“Papa, leva o arco; nao podes a todos acatar; 

370 senao eu, embora mais jovem, te persigo no campo, 
lan9ando pedras: na for9a sou superior. 

Tomara desse modo, a todos esses que estao pela casa, 
os pretendentes, eu fosse superior nos bra90s e na for9a; 
entao rapido, de forma medonha, a uns enviaria de volta 


375 para fora de minha casa, pois engenham males”. 
Assim falou, e eles todos riram dele com prazer, 
os pretendentes, e deixaram de lado a dura raiva 
por Telemaco; e, levando o arco pela casa, o porcarifo 
o pos nas maos do atilado Odisseu, parado ao lado. 

380 E apos c ham a- la para si, disse a ama Euricleia: 
“Telemaco te pede, bem-ajuizada Euricleia, 
que cerres as portas do salao, compactas, justas; 
se alguma criada, dentro, ouvir gemido ou ruido 
de varoes no nosso cercado, que pelas portas 
385 nao saia, mas fique la mesmo atenta na lida”. 

Assim ele falou, e para ela o discurso foi plumado, 
e trancou as portas do palacio bom para morar. 

Em silencio, da casa saltou Filoitio porta afora, 
e trancou entao as portas do patio bem-murado. 

390 Jazia, sob a colunata, um cabo de nau ambicurva, 
de papiro, com o qual prendeu as portas e entrou. 

Entao sentou-se na banqueta de onde se erguera, 
olhando para Odisseu. Esse j a brandia o arco, 
virando-o para todo lado, testando aqui e ali 
395 se vermes teriam comido os chifres, ausente o senhor. 
E assim falavam, fitando quern estava ao lado: 

“Por certo era algum conhecedor de arcos; 
talvezalhures ele tenha um assim em casa 
ou intencione fazer um, do modo como, nas maos, 

400 aciona-o aqui e ali, vagabundo calejado em vilania”. 
Por sua vez, dizia outro dos j ovens arrogantes: 

“Tomara um dia tope com o sucesso num grau 
tal quanto for sua capacidade de armar o arco”. 

Isso diziam os pretendentes; e Odisseu muita-astucia, 
405 logo apos manusear o grande arco e olha-lo inteiro, 
como quando um varao, habil na lira e no canto, 
facil retesa em torno do novo pino a corda, 
e prende nos dois lados a bem-tran 9 ada tripa de ovelha 


assim, sem esfor?o, ao grande arco vergou Odisseu. 

410 Tendo-a pegado com a mao direita, testou a corda; 

em sua mao, cantou belamente, igual a andorinha no canto. 
Grande angustia se apossou dos pretendentes, e sua cor 
mudou. E Zeus ribombou forte, revelando sinais. 

Entao alegrou-se o muita-tenencia, divino Odisseu, 

415 pois prodigio enviou-lhe o filho de Crono curva-astucia. 
Pegou uma flecha rapida, que ao seu lado estava na mesa, 
nua; no interior da cava aljava estavam as outras, 
das quais logo iriam os aqueus experimentar. 

Pondo-a contra o bra?o do arco, puxou corda e fendas 
420 de la mesmo, da banqueta, sentado, e lanfou a flecha, 
mirando em frente, e acertou o topo do cabo 
de todos os machados: cruzou toda a extensao porta afora 
a flecha pesada de bronze. E a Telemaco disse: 

“Telemaco, esse hospede sentado em teu palacio 
425 nao te denigre, e nao errei o alvo nem me cansei 
vergando o arco; meu impeto ainda e firme, 
nao aquele que, com desonra, depreciaram os pretendentes. 
Chegou a hora de tambem preparar o jantar dos aqueus, 
a luzdo dia, e depois, alem disso, divertir-se 
430 com musica e lira, essas, o suplemento do banquete”. 

Falou e com as celhas sinalizou; e embainhou aguda espada 
Telemaco, o caro filho do divino Odisseu, 
em torno da lan?a pos a cara mao e, perto do outro, 
junto a poltrona, se pos, armado com bronze fulgente. 



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15 

20 

25 

30 


E ele se despiu dos trapos, Odisseu muita-astucia, 
saltou na grande soleira com o arco e a aljava 
cheia de flechas, despejou as rapidas setas 
al mesmo, diante dos pes, e aos pretendentes falou: 

“Essa disputa inocua ja foi completada; 
agora outro alvo, que nunca um varao atingiu, 
conhecerei, se acerta-lo e Apolo me der o triunfo”. 

Falou e contra Antlnoo direcionou a flecha afiada. 

Quanto a este, ia levar a boca bela ta9a, 

dourada, dupla-al<;a, e ja a brandia nas maos 

para vinho beber; no animo nao se ocupava 

de sua morte. Quern pensaria, entre varoes em banquete, 

que um unico entre muitos, ainda que fosse bem forte, 

lhe prepararia a morte vil, negra perdi?ao? 

A ele Odisseu, mirando a goela, com seta atingiu, 
e, certeira, o delicado pescot^o a ponta atravessou. 
Tombou para o outro lado, ao ser atingido 
o calice caiu-lhe da mao, e logo das narinas jorrou 
espesso sangue; rapido, para longe de si, a mesa 
empurrou com o golpe do pe, e jogou os comes no chao: 
pao e came assada mancharam-se. E os pretendentes 
iniciaram arrua?a pela casa; ao verem caido o varao, 
ergueram-se das poltronas, chocados, e puseram-se 
a esquadrinhar todo o lugar ate a bem-feita parede; 
nenhures escudo havia nem brava lan?a para pegar. 

E ralharam contra Odisseu com raivosas palavras: 

“E grave, estranho, flechares varoes; nunca mais 
outras provas toparas; agora e certa tua abrupta ruina. 
Mataste o heroi que, de longe, era o melhor 
dos j ovens em Itaca; por isso abutres te comerao aqui”. 
Falavam assim, todos eles, pois pensavam que 
Odisseu matara o varao sem querer; tolos, nao percebiam 
que tarn bem a todos eles o no da morte j a se amarrara. 
Olhando de cima, disse-lhes Odisseu muita-astucia: 


35 

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“Caes, crieis que eu nao mais chegaria de volta a casa 
da terra dos troianos, pois assolaveis minha morada, 
vos deitaveis com as servas mulheres a forfa, 
cortejaveis, eu proprio ainda vivo, minha esposa, 
nem temendo os deuses, que do largo paramo dispoem, 
nem que algum homem se indignasse no futuro: 
agora a vos todos o no da morte esta amarrado”. 

Assim falou, e medo amarelo atingiu-os todos; 
e cada um esquadrinhou por onde escaparia 
43 a do abrupto fim. La todos, atentos, se calavam; 
so Eurimaco, respondendo, lhe disse: 

“Se deveras como o itacense Odisseu voltaste, 
isto falaste com correfao: os aqueus fizeram 
muita coisa iniqua no palacio, muita no campo. 

Mas ele jazai, aquele que de tudo e culpado, 

Antinoo, pois ele planejava esses feitos todos, 

por certo nao tao carente ou desejoso das bodas, 

mas com ideias que nao lhe completou o filho de Crono: 

ser rei na cidade de Itaca bem-construida, 

ele proprio, e matar teu filho numa emboscada. 

Agora ele esta morto, e e justo, e, tu, poupa o povo 
teu. N6s, no futuro, apos j untar indenizafao na cidade 
por tudo que foi bebido e comido no palacio, 
cada um por si levando reparafao, valendo vinte bois, 
em bronze e ouro, te compensaremos ate teu cora 9 ao 
rejubilar; antes disso, e compreensivel tua raiva”. 

Olhando de baixo, disse-lhe Odisseu muita-astucia: 
“Eurimaco, nem se me compensasseis com toda a heran 9 a 
paterna que agora e vossa e se somasseis mais de alhures, 
nem assim ainda repousariam meus bra 90 S da matan 9 a, 
antes de os pretendentes expiarem toda a transgressao. 
Agora encontra-se diante de vos lutar ou tentar fugir, 
caso alguem da perdi 9 &o da morte logre se safar; 
penso, porem, que ninguem escapara do abrupto fim”. 


Assim falou, e fraquejaram os joelhos e o cora^ao deles. 

Entre eles falou Eurlmaco de novo, a segunda vez: 

70 “Amigos, esse varao nao contera os bra<;os intocaveis, 
mas, agora que pegou o bem-polido arco e a aljava, 
a partir da soleira polida flechara ate nos matar 
a todos. Pois lembremo-nos do prazer da luta: 
espadas desembainhai e contraponde mesas 
75 as setas sina-rapida; que todos contra ele j untos 

avancemos, procurando afasta-lo da soleira e da porta; 
subamos a cidade e um grito de alerta rapido ocorra. 

Assim, logo o varao ai flecharia uma ultima vez”. 

Tendo dito isso, puxou a espada afiada, 

80 bronzea, nas duas pontas aguda, e saltou contra ele 

com rugido horrifico; ao mesmo tempo o divino Odisseu 
a seta disparava e atingiu-lhe o peito junto aos mamilos, 
e o projetil velozperfurou seu figado. Eis que da mao 
soltou a espada no chao e, abra<;ando uma mesa, 

85 tombou, contorcendo-se, e jogou comida no chao 
e ta?a dupla-al9a; bateu a fronte no chao, 
aflito no animo, e, com ambos os pes a poltrona 
chutando, fe-la oscilar: pelos olhos vertia-se escuridao. 

E Anfinomo irrompeu contra o majestoso Odisseu, 

90 saltando na sua frente, e puxou a afiada espada, 

a ver se talvezo fizesse da porta recuar. Mas eis que antes 
Telemaco o atingiu de tras com lan^a ponta-de- bronze 
no meio dos ombros, e impeliu-a atraves do peito; 
com estrondo o varao caiu, e sua fronte inteira golpeou a terra. 
95 Telemaco apressou-se, deixando a lan<;a sombra-longa 
ai mesmo em Anfinomo; temia que um aqueu, 
ao puxar a lanfa sombra-longa, ou o golpeasse, 
investindo com a espada, ou o acertasse, ele inclinado. 

Pos-se a correr, bem ligeiro alcanfou o caro pai 
100 e, parado perto, dirigiu-lhe palavras plumadas: 

“Pai, ja te trarei escudo e duas lan?as, 


e elmo todo de bronze, nas temporas ajustado, 
e eu mesmo vou e me revestirei, e darei ao porcari?o 
e ao vaqueiro outras armas: e melhor estar armado”. 

105 Respondendo, disse-lhe Odisseu muita-astucia: 

“Traze correndo, enquanto ha setas para me defender; 
temo que me empurrem para longe da porta, estando so”. 

Assim falou, e Telemaco obedeceu ao caro pai 
e rumou ao quarto onde jaziam suas armas gloriosas. 

110 De la quatro escudos tirou, oito lan9as 

e quatro elmos ponta-bronzea com espessa crina. 

Foi e levou-os, e bem ligeiro alcan?ou o caro pai. 

Primeiro ele mesmo vestiu o bronze no corpo; 
tambem os dois escravos vestiram bela armadura 
1 15 e circundaram Odisseu, o atilado variegada-astucia. 

Ele, enquanto havia flechas para se defender, 
os pretendentes, um por um, em sua casa, 
atingia, mirando-os; e eles caiam uns sobre os outros. 

Mas quando as setas abandonaram o senhor que flechava, 

120 contra o batente do bem-construido salao apoiou o arco, 
em repouso contra a parede resplandecente; 
em volta dos ombros pos o escudo quatro-camadas, 
e sobre a altiva cabe^a colocou o elmo bem-feito 
com crina, e a terrivel crista movia-se para banco; 

125 e escolheu duas bravas lan£as armadas com bronze. 

Uma porta traseira havia na bem-feita parede, 
e, junto a extremidade da soleira do bem-construido salao, 
uma passagem, selada por portas bem justas, levava a um corredor; 
Odisseu pediu ao divino porcarifo que se postasse 
130 perto dela: era o unico ponto de assalto. 

E entre aqueles falou Agelau, anunciando palavra a todos: 

“Amigos, alguem nao subiria pela porta traseira 
e falaria ao povo, e um grito de alerta rapido ocorreria? 

Assim, agora logo, o varao ai flecharia uma ultima vez”. 

135 A ele, entao, replicou Preto, o pastor de cabras: 


“Impossivel, Agelau criado-por-Zeus: perigosa e a proximidade, 
entre as be las portas e o patio; dificil cruzar a boca do corredor. 
Ate um so varao a todos conteria, um que fosse bravo. 

Pois bem, trarei do quarto armamento 
140 para vos armardes, pois la dentro, penso, e nao alhures 
depuseram as armas Odisseu e o filho ilustre”. 

Dito isso, subiu Preto, o pastor de cabras, 

para os quartos de Odisseu pelas aberturas do salao. 

De la pegou doze escudos, numero igual de lan?as 
145 e tantos elmos ponta-de- bronze com espessa crina; 
voltou e, bem rapido levando-as, deu aos pretendentes. 

Entao osjoelhos e o coragao de Odisseu fraquejaram, 
ao ve-los vestir as armas e com as maos as lan9as 
compridas manejar; a tarefa pareceu-lhe grande. 

150 De pronto a Telemaco dirigiu palavras plumadas: 

“Telemaco, por certo, no palacio, uma das mulheres 
conspira um com bate ruim para nos - ou Preto”. 

Aele entao falou o inteligente Telemaco: 

“Pai, nisto eu proprio errei, e nenhum outro 
155 e responsavel: a porta com pacta, justa, 

aberta deixei; isso detectou o espiao muito bom. 

Pois vai, divino Eumeu, fecha a porta do quarto 
e observa se e alguma das mulheres que realiza isso 
ou o filho de Finorio, Preto, no que acredito”. 

160 Assim eles disso falavam entre si. 

E de volta ao quarto foi Preto, o pastor de cabras, 
buscar be las armas; o divino porcari^o viu 
e logo disse a Odisseu, que estava proximo: 

“Divinal filho de Laerte, Odisseu muito-truque, 

165 la de novo vai para o quarto o varao infernal, 

aquele que pensamos fosse; tu, diz-me sem evasivas: 
devo eu mata-lo, caso seja mais forte, 
ou trago-o aqui, para que ele expie as transgressoes 
muitas, tantas quantas armou em tua casa?\ 


170 Respondendo, disse-lhe Odisseu muita-astucia: 

“Aos pretendentes ilustres, Telemaco e eu 
deteremos no palacio, ainda que venham com impeto; 
vos, os dois, prendei seus bravos e pernas juntos por tras, 
jogai-o no quarto e o prendei nas tabuas por tras. 

175 Apos amarrar uma corda tran?ada em torno dele, 
puxai para o alto do pilar e aproximai das vigas 
para, ainda vivo por muito tempo, sofrer dores crueis”. 
Assim falou, e eles o ouviram direito e obedeceram; 
rumaram ao quarto, e ele, la dentro, ignorou-os. 

180 Preto, no fundo do quarto, procurava por armas, 
e os dois, cada um ao lado de um umbral, esperaram. 
Quando cruzava a soleira, Preto, o pastor de cabras, 
levava em uma mao um belo ebno de quatro camadas, 
na outra, largo escudo antigo, salpicado de ferrugem, 

185 do heroi Laerte, que, quando jovem, o porta va - 
mas entao largado, e soltas as correias nas costuras -, 
os dois, num salto, agarraram-no e puxaram-no para dentro 
pelo topete, ao solo jogaram-no, aflito no cora^ao, 
e prenderam seus pes e maos com la£o apertado, 

190 puxando muito bem as pontas, como ordenara 
o filho de Laerte, divino Odisseu muita-tenencia; 
apos amarrar corda tranfada em torno dele, 
al^aram-no para o alto do pilar e o aproximaram das vigas. 
Provocando, a ele te dirigiste, porqueiro Eumeu: 

195 “Agora, Preto, vigiaras a vera por toda a noite, 
em cama macia deitado como te convem; 
das correntes de Oceano, a dedos-roseos tu nao 
ignoraras em sua vinda, a trono-dourado, quando trazes 
cabras para os pretendentes prepararem banquete na casa”. 
200 Assim ele foi deixado, estendido com la<;o nefasto; 

e os dois vestiram suas armas, fecharam a porta brilhante 
e foram ate Odisseu, o atilado variegada-astucia. 

La, respirando impeto, enfrentavam-se: na soleira os quatro. 


poucos, e os outros dentro da casa, muitos e nobres. 

205 E para perto deles achegou-se a filha de Zeus, Atena, 
semelhante a Mentor no corpo e na vozhumana. 

Vendo-a, Odisseu alegrou-se e lhe disse: 

“Mentor, afasta a desgra?a e lembra do caro companheiro, 
pois muito fizpara ti; e tens a mesma idade que eu”. 

210 Assim falou, pensando ser Atena move-exercito. 

E do outro lado os pretendentes gritaram no palacio; 
primeiro reprovou-a Agelau, filho de Domador: 

“Mentor, que Odisseu nao te persuada com palavras 
a combater os pretendentes e defende-lo. 

215 Creio que nossa ideia se realizara assim: 
quando os matarmos, ao pai e ao filho, 
entao tu tambem estaras morto pelo que pretendes 
fazer no palacio; pagaras com a propria cabe9a. 

Apos eliminarmos vossa violencia com bronze, 

220 tantos bens quantos tens, os de dentro e os de fora, 
nos os j untaremos aos de Odisseu; e aos teus filhos nao 
deixaremos que vivam no palacio nem que as filhas 
e a devotada esposa andem pela cidade de Itaca”. 

Isso dito, Atena enraiveceu-se mais no cora9ao 
225 e ralhou contra Odisseu com raivosas palavras: 

“Odisseu, teu impeto nao e mais tao firme, nem tao bravo es 
como quando, por Helena alvos-bra90s, de nobre pai, 
por nove anos troianos combateste sempre, sem cessar, 
e muitos varoes mataste na refrega terrivel 
230 e, com teu piano, tomou-se a urbe amplas-ruas de Priam o. 
Como agora, quando alcan9aste tua casa e teus bens, 
gemes em face dos pretendentes para ser bravo? 

Pois vem ca, querido, poe-te do meu lado e me observa, 
para que saibas quern e, para ti, entre varoes inimigos, 

235 Mentor, filho de Bravo, na retribui9ao pelo benfazer”. 

Isso disse, mas de modo algum deu a vitoria decisiva, 
pois ainda, claro, testava a for9a e a bravura 


de Odisseu e de seu filho majestoso. 

Ela propria, para cima da viga mestra do salao enegrecido, 
240 lan90u-se e sentou, de frente similar a uma andorinha. 

Aos pretendentes instigavam Agelau, filho de Domador, 
Eurinomo, Anfimedon, Demoptolemo, 

Pisandro, filho de Polictor, e o atilado Polibo: 
eram, dos pretendentes, de longe os melhores em valor 
245 entre os que ainda viviam e lutavam por suas almas; 

aos outros j a haviam subjugado o arco e as setas em massa. 
Entre eles falou Agelau, anunciando palavra a todos: 
“Amigos, o varao ai logo contera os bra?os intocaveis; 
tambem Mentor j a foi, apos falar bazofias vas, 

250 e eles foram deixados sozinhos nas portas da frente. 

Assim agora nao lanceis todos juntos as lan^as longas, 
mas vamos atirai primeiro vos seis, esperando que Zeus 
conceda Odisseu ser atingido e a gloria, granjeada. 

Os outros nao preocupam no caso de ele cair”. 

255 Assim falou, e eles todos atiraram, como pediu, 
ansiosos; e todos os projeteis Atena tornou estereis. 

Um deles o batente do bem-construido salao 
atingiu; outro, a porta compacta, justa. 

De outro, o chu90 pesado de bronze caiu na parede. 

260 Mas apos evitarem as lan9as dos pretendentes, 

entre eles tomou a palavra o muita-tenencia, divino Odisseu: 
“Amigos, agora eu diria que nos tambem 
atirassemos no grupo de pretendentes, que aspiram 
matar-nos, acrescentando males aos anteriores”. 

265 Assim falou, e eles todos atiraram lan9as agudas 
mirando em frente; a Demoptolemo, Odisseu; 
a Euriades, Telemaco; a Elato, o porcari9o; 
e a Pisandro matou o varao vaqueiro de bois. 

Assim todos juntos morderam o chao incomensuravel; 

270 os pretendentes dirigiram-se ao fundo do salao, 
saltaram a frente e puxaram as lan9as dos corpos. 


E de novo os pretendentes atiraram lan<;as agudas, 
ansiosos; e a maioria dos projeteis Atena tornou estereis. 

Um deles o batente do bem-construido salao 
275 atingiu; outro, a porta compacta, j usta. 

De outro, o chu?o pesado de bronze caiu na parede. 
Anfimedon atingiu Telemaco no carpo da mao 
de raspao, e o bronze feriu a pele mais externa. 

Ctesipo a Eumeu, por cima do escudo, seu ombro riscou 
280 com grande lanfa, que voou e caiu no chao. 

Eles, de novo, em volta do atilado Odisseu variegada-astucia, 
atiraram lan9as agudas no grupo de pretendentes. 

Entao a Euridamas atingiu Odisseu arrasa-urbe; 
a Anfimedon, Telemaco; e a Polibo, o porcari?o; 

285 a Ctesipo, na sequencia, o varao vaqueiro de bois 
atingiu no peito e, proclamando, lhe disse: 

“Filho de Politerses, ama-provocafao, nunca jamais, 
cedendo a insensatez, fales grande: entrega o discurso 
aos deuses, pois sao muito superiores. 

290 Isso ai e teu presente em troca do pe de boi que deste 
ao excelso Odisseu quando pela casa mendigava”. 

Assim falou o vaqueiro de lunados bois. Odisseu 

com longa lanfa feriu o filho de Domador no corpo a corpo. 

Telemaco feriu Leocrito, filho de Fortificante, 

295 com lan? a no meio do estomago, e o bronze o transpassou; 
caiu de frente e golpeou o chao com toda a fronte. 

E entao Atena destroi-mortal ergueu a egide 
do alto, do telhado; e o juizo deles se apavorou. 

Fugiram de medo no salao como rebanho de vacas: 

300 a elas um moscardo dardejante ataca e agita 
na esta?ao primaveril, quando os dias sao longos. 

E aqueles, como abutres com garra adunca e bico curvo 
que descem das montanhas e arremetem contra aves: 
essas na planicie disparam, esquivando-se nas nuvens, 

305 e eles, com um impulso, matam-nas, e defesa alguma 


ha, nem fuga; e os varoes se comprazem com a captura - 
assim eles, num rompante contra os pretendentes, 
golpeavam pela casa. Gemido aviltante deles partia, 
cabefas golpeadas, e todo o chao fumegava com sangue. 
310 E Leodes, num rompante, tocou os joelhos de Odisseu 
e, suplicando, dirigiu-lhe palavras plumadas: 

“Toco teus joelhos, Odisseu; tenha-me respeito e piedade. 
Afirmo que nunca a uma das mulheres no palacio 
falei ou algo iniquo fiz, mas aos outros 
315 pretendentes tentei conter, a todo que isso fizesse. 

Mas nao os convenci a tirar as maos das vilezas; 
assim um destino ultrajante topa com a iniquidade. 

Mas eu, entre eles, o augure, nada tendo feito, 
cairei: pelas boas a9oes, nao ha gratidao no futuro”. 

320 Olhando de baixo, disse-lhe Odisseu muita-astucia: 

“Ve, se proc lamas entre eles ter sido o augure, 
deves ter amiude rezado no palacio 
para que remoto fosse meu doce retorno, 
minha esposa te seguisse e gerasse crian^as: 

325 por isso nao deverias escapar da morte tenebrosa”. 

Isso dito, com a mao encorpada pegou a espada 
deitada, que Agelau deixara tom bar no chao, 
abatido. Com ela seu pesco?o varou pelo meio. 
Balbuciando, a cabefa uniu-se a poeira. 

330 O cantor, filho de Terpio, fugia da negra morte, 

Femio, que cantava aos pretendentes, obrigado. 

Postou-se perto da porta traseira, 
nas maos, a lira aguda; dividido, cogitou, no juizo, 
ou esgueirar-se do salao ate o altar do grande Zeus 
335 do patio, bem-construido, e sentar-se onde, amiude, 
Laerte e Odisseu queimaram coxas de bois, 
ou suplicar pelos joelhos, apos correr ate Odisseu. 
Pareceu-lhe, ao refletir, ser mais vantajoso assim, 
tocar os joelhos de Odisseu, filho de Laerte. 


340 E ele depos a concava lira no chao 

entre a anfora e a poltrona pinos- de-prata. 

Correu entao ate Odisseu, tocou nos seus joelhos 
e, suplicando, dirigiu-lhe palavras plumadas: 

“Toco teus joelhos, Odisseu; tenha-me respeito e piedade. 
345 Para ti, no futuro, tormento havera se urn cantor 
matares, eu que canto para deuses e homens. 

O que sei vem de mim, e deus, em meujuizo, enredos 
de todo o tipo plantou; e convem junto a ti cantar 
como a urn deus. Assirn nao almejes degolar-me. 

350 Tambem Telemaco isto poderia dizer, teu caro filho, 
que eu nem de bom grado nem com aspira?oes tua casa 
frequentava para cantar aos pretendentes apos os banquetes; 
muito mais numerosos e fortes, guiavam-me, obrigado”. 
Assim falou, e escutou-lhe a sacra for?a de Telemaco 
355 e logo disse a seu pai, que estava proximo: 

“Contem-te, nao fira esse ai, inocente, com bronze. 

Tambem salvemos o arauto Medon, que sempre de mim 
se ocupou em nossa casa quando eu era crianfa, 
se j a nao o matou Filoitio ou o porqueiro, 

360 ou ele em tua mira entrou ao te agitares pela casa”. 

Isso disse, e ouviu-o Medon, versado no inteligente; 
agachado, jazia sob uma poltrona, envolto no couro 
de boi recem-esfolado para fugir da negra morte. 

Logo veio de sob a poltrona, despiu a pele de boi 
365 e entao correu ate Telemaco, tocou nos seus joelhos 
e, suplicando, dirigiu-lhe palavras plumadas: 

“Amigo, eu estou aqui, te acalma e diga ao pai 
que, com for9a total, nao me fira com o bronze afiado, 
com raiva dos varoes pretendentes que devastaram-lhe 
370 os bens no palacio e a ti, tolos, nao honraram”. 

Sorrindo, disse-lhe Odisseu muita-astucia: 

“Coragem, pois esse ai ja te acolheu e salvou, 
para que saibas no animo e fales tambem a outro 


que muito melhor que a maldade e o benfazer. 

375 Mas apos sairem pela porta do palacio, sentai 

longe da matanfa no patio, tue o cantor muita-fala, 
enquanto eu, pela casa, trabalhar no que for preciso”. 
Assim falou, e os dois sairam do salao; 
sentaram-se junto ao altar do grande Zeus, 

380 esquadrinhando todo o lugar, sempre esperando a morte. 
Odisseu esquadrinhou toda sua casa, caso ainda um varao, 
vivo, estivesse oculto, em fuga da negra morte. 

Viu-os, absolutamente todos, em sangue e poeira 
caidos, muitos, como peixes aos quais Pescadores, 

385 rumo a cava praia para fora do mar cinzento, 
retiram com rede esburacada, e eles todos, 
saudosos das ondas do mar, empilham-se sobre a areia: 
deles o resplandescente sol tira a vida - 
assim os pretendentes, um sobre o outro, empilhados. 

390 Entao a Telemaco falou Odisseu muita-astucia: 
“Telemaco, vamos, chama a ama Euricleia, 
vou falar uma fala que me inquieta". 

Isso disse, e Telemaco obedeceu ao caro pai 
e, apos sacudir a porta, falou a ama Euricleia: 

395 “Mexa-te para ca, vetusta ancia, tu que as mulheres 
escravas, as nossas, no palacio espionas, 
vem; chama-te meu pai, quer falar-te algo”. 

Assim ele falou, e para ela o discurso foi plumado. 

Abriu as portas do palacio bom para morar 
400 e veio; e Telemaco liderava na frente. 

Achou depois Odisseu entre os corpos defuntos, 
salpicado de sangue e sujeira como um leao 
que marcha apos comer um boi campestre: 
todo o seu peito e as faces, nos dois lados, 

405 tem sangue, terrivel de se encarar de frente - 

assim estava Odisseu salpicado nas pernas e bravos. 

Ela, quando viu os corpos e o sangue infindavel, 


pos-se a ulular, ja que vira grande feito; 

mas Odisseu segurou-a e conteve-a em sua ansia. 

410 Falando, dirigiu-lhe palavras plumadas: 

“No animo, ancia, compraze-te, contem-te e nao ulules 
nao e pio, sobre varoes defuntos, se jactar. 

O quinhao dos deuses subjugou-os, e feitos terriveis: 
nao estimavam nenhum dos homens mortals, 

415 nem vil nem mesmo nobre, todo que a eles chegasse; 
assim um destino ultrajante topa com a iniquidade. 

Mas vamos, enumera-me tu as mulheres do palacio, 
as que me desonram e as que sao inocentes”. 

E a ele replicou a cara ama Euricleia: 

420 “Portanto eu a ti, filho, contarei a verdade. 

Cinquenta mulheres tens no palacio, 

escravas, a quem ensinamos a executar os servi^os, 

desenredar a la e longe ficar do amasio escravo. 

Doze delas, no total, embarcaram no aviltamento, 

425 nao prezando a mim nem a propria Penelope. 
Telemaco so agora cresceu, e a ele a mae nao 
permitia dar ordens acerca das escravas mulheres. 

Pois bem, eu subirei aos aposentos lustrosos 
e falarei a tua esposa, sobre quem o deus sono enviou”. 
430 Respondendo, disse-lhe Odisseu muita-astucia: 

“Ainda nao a despertes; dizas mulheres que aqui 
venham, essas que antes engenharam ultrajes”. 

Assim falou, e a ancia saiu pelo palacio, 
anunciando as mulheres e instigando-as a ir. 

435 Mas ele a Telemaco, ao vaqueiro e ao porcarifo, 
apos chama-los ate si, dirigiu palavras plumadas: 
“Come?ai a levar os corpos e ordenai as mulheres: 
que depois as poltronas bem be las e as mesas, 
com agua e esponjas esburacadas, limpem. 

440 Mas quando tiverdes arrumado toda a casa, 

conduzi as escravas para fora do bem-erigido salao 


e, no espafo entre a rotunda e o impecavel muro do patio, 
acertai-as com espadas agu?adas ate de todas 
terdes tirado as almas, e elas, esquecido Afrodite, 

445 que, sob os pretendentes, possuiam, e uniam-se as ocultas”. 
Assim falou, e as mulheres vieram juntas, todas, 
lamentando-se de forma atroz, vertendo copiosas lagrimas. 
Primeiro levaram os corpos dos defuntos 
e os depuseram sob a colunata do p&tio bem-murado, 

450 empilhando-os um sobre o outro; Odisseu dava ordens, 
ele proprio impelindo-as. Elas os levavam, obrigadas. 

E depois as poltronas bem be las e as mesas, 
com agua e esponjas esburacadas, limparam. 

Telemaco, o vaqueiro e o porcar^o, com pas, 

455 o chao da casa, solida constru 9 ao, raspavam; 

e as servas levavam os corpos para fora e depunham. 

Mas quando j a haviam arrumado o salao inteiro, 
as escravas foram levadas para fora do bem-erigido salao, 
no espa 90 entre a rotunda e o impecavel muro do patio, 

460 e agrupadas no aperto de onde nao se podia escapar. 

E entre eles o inteligente Telemaco congou a falar: 

“Vede, com morte limpa eu nao tiraria a vida 
delas, que insultos entornaram sobre minha cabe 9 a 
e nossa mae, e ao lado dos pretendentes dormiam”. 

465 Assim falou e o cabo de nau proa-negra, 

apos prender no grande pilar, j ogou em volta da rotunda 
e para cima bem esticou, para pe algum atingir o chao. 

Como quando melros asa-comprida ou pombas 
chocam-se com uma rede disposta num arbusto, 

470 arremetendo para o abrigo, e hediondo leito lhes cabe - 

assim elas, em fila, tinham as cabe 9 as, e ao redor de cada uma, 
nos pesco 90 s, havia nos para provocar deploravel fim. 
Convulsionaram os pes pouco tempo, de fato nao muito. 

E para fora arrastaram Preto pelo portico e patio; 

475 dele as narinas e orelhas com bronze impiedoso 


cortaram e os genitais arrancaram, crua refeifao aos caes, 
e deceparam-lhe as maos e os pes com animo rancoroso. 
Depois de lavar as maos e os pes, 
foram para a casa ate Odisseu, e o feito estava pronto. 

480 E ele dirigiu-se a cara ama Euricleia: 

“Traze enxofre, ancia, remedio de males, e traze-me fogo 
para que eu fumigue o salao; e tu a Penelope 
ordena que venha aqui com servas mulheres; 
e apressa todas as escravas pela casa para virem”. 

485 E a ele dirigiu-se a cara ama Euricleia: 

“Sim, meu filho, isso falaste com adequa?ao. 

Mas vamos, trarei para ti capa e manto, vestes; 
que nao assim, coberto com trapos nos largos ombros, 
fiques no palacio: isso poderia causar indignaipao”. 

490 Respondendo, disse-lhe Odisseu muita-astucia: 

“Agora, antes de mais nada, que fogo eu tenha no palacio”. 
Assim falou, e nao desobedeceu a cara ama Euricleia, 
e, sim, trouxe fogo e enxofre. E Odisseu 
fumigou direito o salao, a casa e o patio. 

495 E a ancia saiu pela bela casa de Odisseu, 
anunciando as mulheres e impelindo-as a ir; 
e elas sairam do salao com tocha nas maos. 

Elas, claro, abra 9 avam e saudavam Odisseu, 
e beijavam, com afeto, cabepa, ombros 

500 e maos, pegando-as; e atingiu-o um doce desej o 
por pranto e gemido, e no juizo a todas reconheceu. 



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E a ancia subiu aos aposentos, exultante, 
para dizer a senhora que o caro esposo dentro estava; 
os joelhos se aceleraram, os pes em ligeira sucessao. 
Parou na cabeceira e lhe dirigiu o discurso: 

“Acorda, Penelope, cara filha, e vejas 
com teus olhos o que desej as todos os dias. 

Odisseu chegou, alcan?ou a casa, ainda que tarde. 

Matou os pretendentes arrogantes, que sua casa 
lesavam, os bens comiam e o filho constrangiam”. 

E a ela replicou Penelope bem-ajuizada: 

“Cara maezinha, louca te tornaram os deuses, capazes 
de fazer insensato mesmo quem e muito refletido, 
e por na trilha da prudencia quem tern julzo frouxo; 
eles ate a ti lesaram, antes com animo moderado. 

Por que debochas de mim, que tenho animo aflito, 
falando coisas sem nexo, e ate me despertas do sono 
doce, que cobriu minhas palpebras e me prendeu? 

Nunca dormi desse jeito desde que Odisseu 
partiu para vivenciar a inominavel Ruinosa-Ilion. 

Pois bem, agora desce e vai de volta ao salao. 

Se ate mim outra das mulheres que me pertencem 
tivesse vindo e isso anunciado, despertando-me do sono, 
entao rapido, de forma medonha a teria mandado embora 
de volta para o salao; nisso a velhice conta a teu favor”. 

E a ela replicou a cara am a Euricleia: 

“Nao debocho de ti, filha cara, mas ve, a vera 
Odisseu chegou e alcan<;ou a casa como afirmo: 
o hospede que todos desonraram no palacio. 

Telemaco, claro, ha tempo sabia que dentro estava, 
mas, com prudencia, as ideias do pai ocultou 
ate se vingarem da violencia dos varoes arrogantes”. 
Assim falou, e aquela se comprouve e, pulando da cama, 
enroscou-se na ancia, lan£ou lagrimas das palpebras 
e, falando, dirigiu-lhe palavras plumadas: 


35 “Pois bem, cara maezinha, narra-me sem evasivas: 
se deveras ja alcansou a casa, como afirmas, 
como, nos aviltantes pretendentes, desceu os bravos, 
um unico sendo; eles, dentro, ficavam sempre juntos”. 
E a ela replicou a cara ama Euricleia: 

40 “Nao vi, nao fui inform ada, so o gemido ouvi 

ao serem mortos; nos, no fundo do bem-erigido quarto, 
estavamos, terrorizadas, contidas por portas bem-justas, 
ate que por fim teu filho me chamou do salao, 
Telemaco, pois o pai o enviara para que me chamasse. 
45 Encontrei Odisseu de pe entre os cadaveres defuntos; 
eles, cercando-o, ocupavam o chao duro, 
jazendo um sobre o outro: vendo, teu animo jubilaria, 
ele salpicado de sangue e sujeira como um leao. 

Agora todos ja estao juntos nos portoes do patio, 

50 e ele a casa bem bela fumiga, 

tendo aceso grande fogo; enviou-me para te chamar. 
Mas vem, que vos dois embarqueis no gaudio, 
ambos, no caro cora?ao, pois muitos males sofrestes. 
Agora, por fim, este longo desejo foi realizado: 

55 ele chegou, vivo, a seu lar, e achou a ti 

e ao menino no palacio; com ele aqueles agiram mal, 
os pretendentes, e deles todos vingou-se em sua casa”. 

E a ela replicou Penelope bem-ajuizada: 

“Cara maezinha, ainda nao proc lames alto, exultante. 

60 Sabes que felicidade daria sua presen9a no palacio 
a todos, sobretudo amimeao filho que geramos; 
mas essa narra9ao nao e verdadeira como falas, 
pois um deus matou os pretendentes ilustres, 
irritado com a violencia aflitiva e os feitos vis. 

65 Nao estimavam nenhum dos homens mortais, 

nem vil nem mesmo nobre, todo que os alcan9asse; 
assim, pela iniquidade, sofreram um mal. Mas Odisseu 
perdeu o retorno longe da Acaia e pereceu”. 


E a ela replicou a cara ama Euricleia: 

70 “Filha, que palavra te escapou da cerca de dentes! 

O marido na casa, junto a lareira, e disseste que nunca 
em casa chegaria; teu animo e sempre incredulo. 

Pois bem, para ti sinal inequivoco, outro, direi: 
a cicatrizque lhe infligiu o javali com branca presa. 

75 Essa, ao banha-lo, observei e quis dizer-te; 
mas a mim, pondo-me na boca as maos, 
ele nao permitiu falar, gra9as a mente muita-argucia. 

Mas vem; eu porei a mim mesma em jogo: 
se te engano, mata-me em morte miseravel”. 

80 E a ela respondeu Penelope bem-ajuizada: 

“Maezinha, para ti e dificil, dos deuses sempiternos, 
descobrir os pianos, mesmo sendo multiperspicaz; 
ainda assim vamos atras de meu filho, para eu ver 
os varoes pretendentes mortos e quern os matou”. 

85 Assim falou e desceu dos aposentos; seu cora9ao muito 
revolvia: ou de longe ao am ado marido iria inquirir, 
ou, de pe, a seu lado, beijaria-lhe a face e a mao tomaria. 
E ela para dentro foi, cruzou o umbral de pedra 
e sentou-se entao diante de Odisseu, a luzdo fogo, 

90 no lado oposto; eis que ele, contra enorme pilar 
sentado, para banco olhava, a ver se algo lhe diria 
a altiva conj uge depois de o ver com os olhos. 

Quieta, ficou tempo imovel, estupor em seu cora9ao; 
com o olhar, ora em seu rosto o reconhecia, 

95 ora o desconhecia, com roupas vis sobre a pele. 

E Telemaco reprovou-a, dirigiu-se-lhe e nomeou-a: 
“Minha mae, desmae, que animo intratavel! 

Por que meu pai assim desdenhas, e nao junto dele, 
sentada, com palavras o interrogas ou investigas? 

100 Por certo outra esposa nao assim, com animo resistente, 
se afastaria do marido que, apos aguentar muitos males, 
chegasse no vigesimo ano a terra patria; 


teu cora 9 ao, sempre, e mais duro que pedra”. 

E a ele replicou Penelope bera-ajuizada: 

105 “Filho meu, no peito o estupor domina meu animo, 
nao sou capazde dizer palavra, nem de indagar, 
nem de encarar de frente. Se, de verdade, 
e Odisseu e alcangou a casa, por certo nos dois 
nos reconheceremos um ao outro ainda melhor: temos 
110 sinais, ocultos de outrem, que so nos dois conhecemos” 
Assim falou, e sorriu o muita-tenencia, divino Odisseu. 
De pronto a Telemaco dirigiu palavras plumadas: 
“Telemaco, quanto a tua mae, deixa que, no palacio, 
me teste; rapido ponderara, e com mais vigor ainda. 

1 15 Agora estou sujo e visto ordinarias vestes sobre a pele, 
por isso me desonra e ainda nao pensa que sou ele. 

Nos cogitaremos qual sera, de longe, a melhor solu^ao. 
De fato, se alguem mata um so heroi na cidade, 
atras do qual nao ha muitos que o ajudem, 

120 foge, abandonando parentes e a terra patria; 
quanto a nos, o esteio matamos, os melhores 
mo 90 s em Itaca; pe 90 que tu isso ponderes”. 

A ele, entao, o intehgente Telemaco retrucou: 

“Disso cuida tu, caro pai; que tua e a melhor 
125 astucia entre os homens, isso se diz, e contigo nenhum 
outro varao, entre os homens mortais, disputaria. 

Nos, com sofreguidao, j unto seguiremos, e nao penso 
que se carecera de bravura, tanta quanto a for 9 a deixar 
Respondendo, disse-lhe Odisseu muita-astucia: 

130 “Portanto eu falarei como me parece ser o melhor. 
Primeiro vos lavai e vesti com tunicas, 
e ordenai as escravas no palacio que vestes escolham; 
e que o divino cantor, levando a lira aguda, 
para nos conduza uma dan 9 a amiga de folguedos; 

135 assim diria haver bodas na casa alguem ao ouvir 
ou quern subir pela rua ou habitar em torno. 


Antes nao se espraie na cidade o relato da matan?a 
dos varoes pretendentes, antes de sairmos 
ate nosso sitio muita-arvore. La entao 
140 ponderaremos que vantagem o Olimpio concederd”. 
Assim falou, e eles o ouviram direito e obedeceram. 
Primeiro se lavaram e vestiram tunicas, 
e aprontaram-se as mulheres; e o divino cantor pegou 
a concava lira, e neles instigou o desejo 
145 por doce musica e dan? a impec&vel. 

A grande casa reverberava com os pes 

dos varoes que dan?avam e das mulheres bela-cinta. 

E assim falava quern fora da casa ouvisse: 

“Por certo um ja desposou a rainha muito-pretendente, 
150 a terrivel, que nao suportou, de seu marido legitimo, 
guardar a grande casa para sempre ate ele chegar”. 
Assim diziam, mas nao sabiam o que fora arranjado. 

E ao energico Odisseu, em sua casa, 
a governanta Eurinome lavou e com oleo ungiu, 

155 e em torno dele belo manto lan?ou e uma tunica. 

Por sobre sua cabe?a muita beleza verteu Atena, 
maior e mais encorpado a quem o visse; da fronte 
fez tom bar madeixas cacheadas, semelhantes a jacintos. 
Como quando reveste a prata com ouro o varao 
160 habilidoso, a quem ensinaram Hefesto e Palas Atena 
tecnica de todo o tipo, e completa obras graciosas - 
assim verteu gra?a sobre ele, na cabe?a e nos ombros. 

E saiu da banheira, no porte semelhante a imortais. 

Logo sentou-se de novo na poltrona de onde se erguera, 
165 em face de sua esposa, e a ela disse o discurso: 

“Insana, mais que o das bem femininas mulheres, 
tornaram duro teu cora?ao os que tern morada olimpia; 
outra mulher nao assim, com animo resistente, 
se afastaria do marido, que, apos aguentar muitos males, 
170 chegasse no vigesimo ano a terra patria. 


Pois bem, maezinha, apronta a cama para, mesmo so, 
eu deitar; sim, o cora^ao no seu peito e de ferro”. 

E a ele replicou Penelope bem-ajuizada: 

“Insano, em nada sou altiva nem indiferente, 

175 nem estou admirada demais; sei muito bem como eras 
quando de Itaca salste sobre nau longo-remo. 

Pois bem, apronta-lhe o leito solido, Euricleia, 

fora do bem-erigido quarto, aquele que ele mesmo fez; 

al posiciona o leito solido e joga os lenfois, 

180 velos, capas e mantas lustrosas”. 

Assim falou, testando o marido; e Odisseu, 
perturbado, disse a sempre devotada esposa: 

“6 mulher, deveras aflitiva essa fala que falaste. 

Quern pos a cama alhures? Seria dificil, 

185 ate para um bem destro, exceto se o deus, ele mesmo, 
querendo, facil a pusesse em outro lugar. 

Dos varoes, nenhum vivente mortal, nem muito jovem, 
facil a removeria, pois grande sinal foi feito 
na cama fabricada; eu mesmo a laborei, e nenhum outro. 
190 Arbusto folha-longa, oliveira, crescia dentro da cerca, 
florescente em seu auge; era maci?o como um pilar. 
Envolvendo-o, construi um talamo; terminei 
com pedras uma ao lado da outra, cobri-o com um telhado 
e portas coloquei bem unidas em compacto ajuste. 

195 Depois podei a folhagem da oliveira folha-longa, 
e, cortando fora o toro da raiz, poli-o com bronze, 
bem e com destreza, e com o prumo o endireitei, 
fabricando uma coluna, e as pranchas furei com verruma. 
Tendo por ela iniciado, moldei a cama ate terminal', 

200 artificiando com ouro, prata e marfim; 

nela estiquei luzente tira de couro de boi, vermelha. 

Assim esse sinal te anuncio; e de nada sei: 

ou ainda esta imovel, mulher, a cama, ou ja algum 

varao a pos alhures, cortando, embaixo, a base da oliveira”. 


205 Assim falou, e os joelhos e o cora9ao dela fraquejaram, 
reconhecendo os sinais seguros que lhe enunciou Odisseu; 
aos prantos, foi logo ate ele, as maos em volta 
do pesco90 de Odisseu lan90u, beijou sua fronte e disse: 
“Nao te ressintas comigo, Odisseu, pois, de resto, mais 
210 que todos, eras inteligente; os deuses nos deram agonia, 
os que nao nos permitiram ficar um com o outro, 
gozar a juventude e chegar ao umbral da velhice. 

Mas agora nao me odeies por isto nem te indignes, 
por que nao te saudei com afeto tao logo te vi. 

215 Pois sempre meu animo no caro peito 

tremia que um mortal me ludibriasse com palavras 
ao chegar, pois muitos planejam estratagemas vis. 
Tambem nao a argiva Helena, gerada de Zeus, 
a varao estrangeiro teria se unido em enlace amoroso 
220 se soubesse que de volta os filhos marciais dos aqueus 
iriam conduzi-la para casa, a cara patria. 

O deus instigou-a a executar a a9ao ultrajante; 
antes ela nao pos, em seu proprio cora9&o, a cegueira 
funesta, que tambem para nos seria a origem do luto. 

225 Agora, pois j a contaste os sinais inequivocos 
de nossa cama, a qual outro mortal nunca viu, 
mas so tu, eu e minha serva, uma unica, 

Actoris, que me deu meu pai quando vim para ca, 
a que nos guardou as portas do solido quarto - 
230 ja convences meu animo, embora seja bem intratavel”. 
Assim falou, e nele mais ainda instigou o desejo por choro; 
solu9ava segurando a esposa perfeita, sempre devotada. 
Como quando a terra da felicidade aos que nadam, 
aqueles cuja nau engenhosa Poseidon, em alto-mar, 

235 golpeou, impulsionada por vento e vaga potente; 

poucos escapam da cinzenta agua salgada, ate a terra 
nadando, e muita salsugem gruda na pele: 
felizes pisam na terra, apos fugir da desgra9a - 


assim deu-lhe felicidade o marido quando ela o viu, 

240 e nao havia como soltar os alvos brafos de seu pesco 90 . 
Enquanto choravam, teria surgido Aurora dedos-roseos, 
se nao tivesse tido outra ideia a deusa, Atena olhos-de-coruja 
a noite, em seu final, estendeu, e a Aurora, a seu turno, 
a trono- dour ado, conteve no Oceano e nao deixou os cavalos 
245 pe-veloz j ungir, os que trazem luz aos homens, 

Luzidio e Brilho, os potros que conduzem Aurora. 

Entao falou a sua esposa Odisseu muita-astucia: 

“Mulher, ainda nao ao fim de todas as provas 
chegamos, pois depois ainda havera labor desmesurado, 

250 muito e duro, e carece que eu o cumpra por inteiro. 

Pois assim adivinhou-me a alma de Tiresias 
no dia em que desci a morada de Hades 
em busca do retorno dos companheiros e do meu. 

Pois bem, vamos para a cama, mulher, que agora 
255 nos deleitemos com o doce sono”. 

E a ele replicou Penelope bem-ajuizada: 

“O leito, ve, tu o teras sempre que no animo 
teu quiseres, ja que os deuses te permitiram voltar 
a casa bem-construida e a tua terra patria. 

260 Mas como ponderaste e o deus lan 90 u em teu animo, 
vamos, fala-me da prova, pois tambem depois, penso, 
serei informada, e saber logo, de fato, pior nao e”. 
Respondendo, disse-lhe Odisseu muita-astucia: 

“Insana, por que de novo, insistindo muito, pedes 
265 que eu fale? Mas eu te direi e nada esconderei. 

Por certo teu animo nao jubilara; nem eu mesmo 
jubilo, pois a muitas cidades de mortais mandou-me 
partir, tendo nas maos um remo maneavel, 
ate alcazar vardes que o mar nao conhecem 
270 nem comem comida misturada a graos de sal; 
eles, claro, nao conhecem naus face-purpura, 
nem remos maneaveis, que sao as asas das naus. 


Este sinal me disse, inequivoco, e nao o ocultarei de ti: 
quando comigo deparar-se outro passante 
275 e disser que tenho destroi-joio sobre o ilustre ombro, 
entao pediu-me para na terra cravar o remo, 
fazer belos sacrifices ao senhor Poseidon, 
carneiro, touro e javali domestico reprodutor, 
retornar para casa e ofertar sacras hecatombes 
280 aos deuses imortais, que do largo paramo dispoem, 
a todos pela ordem. Do mar me vir&, 
bem suave, a morte, ela que me abatera 
debilitado por idade lustrosa; e em volta as gentes 
serao afortunadas. Isso tudo, me disse, se completara”. 
285 E a ele replicou Penelope bem-ajuizada: 

“Se, de fato, ao menos a velhice completarem os deuses, 
ha a expectativa, entao, de que escaparas de males”. 
Assim eles disso falavam entre si; 
nisso Eurinome e a am a aprontaram o leito 
290 com roupa macia sob tochas iluminadoras. 

Mas apos fazer a cam a solida, afobadas, 
a ancia retornou a casa para descansar, 
e Eurinome, a camareira, a eles conduziu 
no percurso a cama com uma tocha nas maos; 

295 e apos guia-los ao quarto, voltou. Eles entao, 
felizes, atingiram a cama antiga. 

E Telemaco, o vaqueiro e o porcarifo 
pararam os pes na dan^a e pararam as mulheres, 
e eles mesmos deitaram-se pelos umbrosos saloes. 

300 Apos os dois se deleitarem com o amor prazeroso, 
deleitaram-se com historias que um narrava ao outro: 
ela, o que suportou no palacio, divina mulher, 
a observar a infernal reuniao de varoes pretendentes 
que, por causa dela, muitos bois e robustas ovelhas 
305 abatiam, e dos cantaros muito vinho foi tirado; 
e o divina 1 Odisseu, quantas agruras infligiu 


aos homens e quanto ele mesmo, agoniado, aguentou, 
tudo ele contou. Ela deleitou-se, escutando, e o sono nao 
tombou em suas palpebras antes de ele tudo contar. 

310 Comefou como primeiro subjugou os clcones e depois 
chegou a gorda lavoura dos varoes lotofagos; 
e quanto o ciclope realizou, e como fezpagar sua pena 
pelos altivos companheiros que comeu sem piedade; 
e como alcan<;ou Eolo, que, sollcito, o recebeu 
315 e lhe deu conduijao, e ainda nao devia a cara patria 
atingir, mas agarraram-no rajadas de vento 
e, com gemidos profundos, pelo mar piscoso foi levado; 
e como alcan^ou a lestrigonia Telepilos 
e esses que destrulram naus e companheiros belas-grevas 
320 [todos: Odisseu, o unico, escapou em negra nau]. 

E contou o truque e a muita ardileza de Circe, 
e como foi a casa bolorenta de Hades 
para consultar a alma do tebano Tiresias 
com nau muito-cal^o, e viu todos os companheiros 
325 e a mae que o gerou e criou quando pequeno; 
e como ouviu o som das Sirenas incessantes, 
como alcan90u as pedras Planctas e a fera Caribdis 
e Cila, da qual varoes nunca escaparam incolumes; 
e como os companheiros abateram vacas de Sol; 

330 e como com raio fumoso Zeus trovej a-no-alto 

atingiu a nau veloz, e pereceram os nobres companheiros, 
todos por igual, mas ele escapou da nefasta perdi^ao; 
e como alcan<;ou a ilha Ogigia e a ninfa Calipso, 
que o reteve, almejando que fosse seu esposo, 

335 e na cava caverna o alimentava e dizia 

que o faria imortal e sem velhice por todos os dias; 
mas a ele, nunca persuadiu seu animo no peito; 
e como alcan<;ou, apos muito penar, os feacios, 
eles que, de cora9ao, como a um deus o honraram 
340 e, numa nau, conduziram a cara terra patria. 


tendo lhe dado bronze, ouro a granel e vestes. 

Isso, claro, falou por ultimo, quando o doce sono 
solta-membros o assaltou, soltando as tribula 9 oes do animo. 
Entao teve outra ideia a deusa, Atena olhos-de-coruja: 

345 quando supos que Odisseu em seu animo 

tivesse gozado o leito e o sono com sua esposa, 
de pronto, do Oceano, a trono- dour ado nasce-cedo 
incitou para trazer luzaos homens. E Odisseu pulou 
da cama macia e deu uma ordem a esposa: 

350 “Mulher, j a estamos saciados de muitas provas, 
os dois, tu aqui, meu retorno muita-agrura 
pranteando; mas Zeus e outros deuses a mim, aflito, 
ansiando, longe me seguravam da terra patria. 

Agora, apos alcan^armos, os dois, o leito desejado, 

355 dos bens que tenho cuida no palacio, 

e ovelhas, as que soberbos pretendentes devastaram, 
muitas eu mesmo apresarei, e outras os aqueus 
nos darao ate terem enchido todos os currais. 

Quanto a mim, porem, irei ao sitio muita-arvore 
360 para ver o nobre pai, que sofre copiosa angustia; 
para ti, mulher, isto pe^o, embora sejas sensata: 
logo havera uma noticia, ao nascer do sol, 
sobre os varoes pretendentes que matei no palacio: 
apos subir aos aposentos com as servas mulheres, 

365 senta, nao olhes para ninguem nem fagas perguntas”. 
Assim falou e, sobre os ombros, pos as belas armas, 
incitou Telemaco, o vaqueiro e o porcar^o 
e a todos pediu pegarem aprestos de guerra com as maos. 
Eles nao lhe desobedeceram, armaram-se com bronze, 

370 abriram as portas e se foram; e chefiava Odisseu. 

Luzjd havia sobre a terra, e entao a eles Atena, 
apos com a noite oculta-los, ligeiro retirou-os da cidade. 



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E Hermes, o cilenio, convocou as almas 
dos varoes pretendentes. Tinha nas maos a vara 
bela, dourada, com que enfeitiga os olhos dos varoes 
que bem entender, e outros, adormecidos, desperta. 

Com ela agita e conduz, e elas seguem, guinchando. 

Como morcegos no recesso de prodigioso antro, 
guinchando, voam, quando, da colonia, algum 
tomba da pedra (seguram-se mutuamente no alto), 
assim elas, guinchando, seguiam juntas; chefiava-as 
o benefico Hermes pelos caminhos brumosos. 

Margearam as correntes de Oceano e a pedra Leucas 
e ate os portoes de Sol e a terra dos Sonhos 
foram; e rapido desceram o prado de asfodelos, 
onde habitam as almas, espectros dos esgotados. 

E encontraram a alma de Aquiles, filho de Peleu, 
e a de Patroclo e a do impecavel Antiloco, 
e a de Aj ax, que foi o melhor em beleza e porte 
de todos os aqueus depois do impecavel filho de Peleu. 
Assim eles em torno dele juntaram-se; e para perto 
achegou-se a alma de Agamemnon, filho de Atreu, 
aflita; em torno, outras reunidas, as que com ele 
morreram na casa de Egisto e alcangaram o fado. 

A ele, por primeiro, falou a alma do filho de Peleu: 

“Filho de Atreu, diziamos tu a Zeus prazer-no-raio 
seres por demais caro, todos os dias, dentre varoes herois, 
porque regias sobre muitos e altivos 
na terra troiana, onde, aqueus, agonias sofremos. 

Sim, e cedo tarn bem te atingiria 
o quinhao funesto que ninguem que nasceu evita. 

Como devias, gozando da prerrogativa de tua regencia, 
ter morrido e encontrado o destino na regiao troiana! 

Entao todos os aqueus teriam erigido um tumulo a ti, 
e tambem a teu filho grande fama granjeado para o futuro; 
agora foi-te destinado ser pego por morte deploravel”. 


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Aele, por sua vez, falou a alma do filho de Atreu: 

“Prospero filho de Peleu, Aquiles semelhante aos imortais, 
tu que morreste em Troia longe de Argos; a tua volta outros 
foram mortos, os melhores filhos de troianos e aqueus, 
combatendo por ti: tu, no turbilhao de poeira, 
jazias, grande na grandeza, sem memoria da equitasao. 

E nos combatemos o dia inteiro; de forma alguma 
teriamos findo a luta se Zeus, com tempestade, nao a tivesse. 
Mas depois que as naus te levamos, longe da luta, 
depositamos sobre o leito e limpamos a be la pele 
com agua quente e oleo; em torno de ti muita 
lagrima cabda vertiam os aqueus e tosavam madeixas. 

E a mae veio do mar com imortais maritimas 
apos ouvir o anuncio; e um grito pelo mar espraiou-se, 
prodigioso, e um tremor balan?ou todos os aqueus. 

Entao teriam se arremessado rumo as cavas naus 
se o varao com muito saber antigo nao os tivesse contido, 
Nestor, cujo piano, tambem no passado, era o melhor. 
Refletindo bem, entre eles tomou a palavra e disse: 
‘Detei-vos, argivos, nao fujais, juventude dos aqueus. 

Essa ai e a mae; do mar, com imortais maritimas, 
vem para encontrar o filho falecido’. 

Isso dito, eles pararam a fuga, os animosos aqueus. 

Em volta de ti, postaram-se as filhas do anciao do mar, 
infelizes, gemendo, e vestiram-te com vestes imortais. 
Musas, nove no total, alternando-se com bela voz, 
cantavam o treno; la nao verias, sem l&grima, nenhum 
argivo: de tal forma ressoou a musica aguda. 

Pois a ti dezessete noites e dias sem parar 
choramos, deuses imortais e homens mortais. 

No decimo oitavo te demos ao fogo; em tua volta muitas 
ovelhas e cabras matamos, bem gordas, e lunadas vacas. 
Queimavas em vestes de deuses, com muito oleo 
e doce mel; e muitos herois aqueus 


moviam-se em armas em volta da pira onde queimavas, 

70 infantaria e combatentes com carro. Grande alarido se fez. 
Mas apos a chama de Hefesto terminar contigo, 
pela manha coligimos teus ossos fulgidos, Aquiles, 
e pusemos em vinho puro e oleo. Tua mae ofertou 
dourada anfora dupla-alfa; oferenda de Dioniso 
75 disse ser, trabalho do bem famoso Hefesto. 

Nela jazem teus ossos fulgidos, ilustre Aquiles, 
misturados com os do morto Patroclo, filho de Menoitio, 
separados dos de Antiloco, que mais honravas entre todos 
os outros companlieiros apos a morte de Patroclo. 

80 Em torno deles, grande e impec&vel tumulo 
ergueu o sacro exercito dos lanceiros argivos 
no cabo saliente sobre o largo Helesponto, 
para ser longe-visivel, a partir do mar, aos varoes, 
esses que vivem agora e os que havera no futuro. 

85 E a mae pediu dos deuses bem belos premios 

e fixou-os no meio da pista para os melhores aqueus. 

Ja participei do funeral de muitos vardes 

herois, quando, uma vezfalecido o rei, 

os j ovens se cintam e se aprontam para as provas; 

90 mas, tendo-os visto, terias muito admirado no animo, 
tais os bem belos premios que, para ti, a deusa fixou, 

Tetis pes-de-prata: eras muito caro aos deuses. 

Assim tu, nem apos morrer, perdeste o nome, mas sempre 
entre todos os homens tua fama sera distinta, Aquiles. 

95 E eu? Que prazer foi este apos arrematar a guerra? 

No retorno, Zeus me armou funesta destrui?ao 
pelas maos de Egisto e da maldita esposa”. 

Assim eles disso falavam entre si. 

E achegou-se deles o condutor Argifonte, 

100 guiando as almas dos pretendentes que Odisseu dominou. 
Os dois, pasmos, foram dire to quando as viram. 

A alma de Agamemnon, filho de Atreu, reconheceu 


o caro filho de Melaneu, o esplendido Anfimedon: 
ele fora seu aliado, quando em Itaca morava. 

105 A ele, por primeiro, falou a alma do filho de Atreu: 

“Anfimedon, o que sofrestes para baixar a terra liigubre, 
todos seletos coetaneos?Ninguem, de outra forma, 
distinguiria e escolheria, na cidade, melhores varoes. 
Estaveis numa nau, e subjugou-vos Poseidon, 

110 apos instigar ventos dificeis e grandes ondas? 

Varoes hostis causaram-vos dano em terra firme, 
ao quererdes bois roubar ou belos rebanhos de ovelhas? 
Ou entao lutaveis por uma cidade e mulheres? 

Diza mim, que inquiro; proclamo ser teu aliado. 

1 15 Ou nao te lembras quando fui ate la, a vossa casa, 
com o excelso Menelau, para instigar Odisseu 
a junto seguir ate I lion sobre naus bom-conves? 

Por uma lua inteira, ao todo, cruzamos o amplo mar, 
com esfor90 tendo convencido Odisseu arrasa-urbe”. 

120 E a ele, por sua vez, falou a alma de Anfimedon: 

“Majestoso filho de Atreu, rei de varoes, Agamemnon, 
lembro-me, 6 criado-por-Zeus, de tudo isso que falaste; 
e a ti eu tudo, bem direito e com precisao, contarei: 
nossa nociva morte certeira, tal como se efetuou. 

125 Cortej avamos a esposa de Odisseu ha tempo ausente; 
ela nem recusava as hediondas bodas nem as completava, 
planejando para nos a negra perdi?ao da morte. 

Pois cogitou este outro ardil no juizo: 
apos grande urdidura armar no palacio, tramava - 
130 fina e bem longa. De imediato nos disse: 

‘M090S, meus pretendentes, morto o divino Odisseu, 
esperai, mesmo avidos por desposar-me, ate o manto 
eu completar - que meus fios, em vao, nao se percam -, 
mortalha para o heroi Laerte, para quando a ele 
135 o quinhao funesto agarrar, o da morte dolorosa; 
que, contra mim, no povo, aqueia alguma se indigne 


se ele sem pano jazer depois que muito granjeou’. 

Assim falou, e foi persuadido nosso animo orgulhoso. 

E entao de dia tramava a enorme urdidura 
140 e nas noites desenredava-a com tochas postadas ao lado. 
Tres anos o truque nao se notou, e persuadiu os aqueus; 
mas ao chegar o quarto ano e a primavera se achegar, 
as luas finando, e muitos dias passaram, 
uma das mulheres falou, a que sabia ao claro, 

145 e a apanhamos desenredando a trama radiante. 

E assim ela a completou, a contragosto, obrigada. 

Justo quando mostrou a capa, apos tramar a urdidura, 
lavada, semelhante ao sol ou a lua, 
nisso divindade vil trouxe Odisseu de um lugar 
150 ate o limite das lavouras, onde habitava o porqueiro. 

Ate la foi o caro filho do divino Odisseu, 
vindo da arenosa Pilos com negra nau. 

Os dois, para os pretendentes, elaboraram morte vil 
e rumaram a cidade bem famosa, Odisseu 
155 depois, mas Telemaco liderava na frente. 

Trouxe-o o porcarifo com vestes vis sobre a pele, 
assemelhado a um debil e velho mendigo 
apoiado no bastao; ordinarias vestes no corpo vestia. 

Nenhum de nos foi capazde reconhecer que ele era Odisseu 
160 ao mostrar-se de chofre, nem os mais velhos, 
mas dele debochamos e lhe atiramos coisas. 

E por um tempo resistiu, sendo atingido e reprovado 

em seu palacio, com animo resistente; 

mas quando o incitou o espirito de Zeus porta-egide, 

165 com Telemaco pegou as bem belas armas, 
depositou-as no quarto e passou os ferrolhos; 
e ele, com sua muita-argucia, pediu a esposa 
que apresentasse aos pretendentes o arco e o ferro cinza, 
para nos, desventurados, apetrechos e o inicio da matanfa. 
170 E nenhum de nos conseguiu retesar a corda 


do arco poderoso, por sermos carentes de for9a, e muito. 
Mas quando as maos de Odisseu tocaram o grande arco, 
todos nos reclamamos com palavras 
que o arco nao se lhe desse, nem se muito pedisse, 

175 e somente Telemaco nos fezconcordar. 

Ele recebeu-o com a mao, o muita-tenencia, divino Odisseu, 
e facil vergou o arco e lan^ou atraves do ferro. 

Eis que se postou na soleira e despejou as rapidas setas, 
esquadrinhando, terrivel, e atingiu o rei Antinoo. 

180 Depois contra os demais disparou tristes proj eteis, 
mirando em frente; e eles caiam uns sobre os outros. 

E evidente que um deus era deles ajudante. 

Logo por toda a casa, seguindo seu impeto, 
matavam ao redor. Gemido ultrajante deles partia, 

185 cabe^as golpeadas, e todo o chao fumegava com sangue. 
Assim nos, Agamemnon, morremos, de quern, agora, ainda 
os corpos, sem os ritos, jazem no palacio de Odisseu; 
os parentes ainda nao sabem em suas casas, 
eles que, apos limpar o negro sangue dos ferimentos 
190 e nos expor, lamentariam: essa, a honraria dos mortos”. 

A ele, por sua vez, falou a alma do filho de Atreu: 
“Afortunado filho de Laerte, Odisseu muito-truque, 
deveras, com grande excelencia, conquistaste esposa: 
quao valoroso juizo teve a impecavel Penelope, 

195 filha de Icario, quao bem se lembrou de Odisseu, 
seu varao legitimo. Por isso sua fama nunca findara, 
a de sua excelencia, e aos humanos farao um canto 
agradavel os imortais pela prudente Penelope. 

Nao armou vis a9oes como a filha de Tindareu, 

200 que ao marido legitimo matou, e hediondo canto 
havera entre os homens e dura reputa9ao atribuira 
as bem femininas mulheres, mesmo as honestas”. 

Assim eles disso falavam entre si 

de pe na morada de Hades sob os confins da terra. 


205 E os outros desceram da cidade e logo chegaram ao sitio 
belamente arranjado de Laerte, que um dia o proprio 
Laerte adquiriu, depois que muito labutou. 

A1 era sua propriedade; abrigo corria por todo o entorno, 
no qual costumavam comer, sentar-se e dormir 
210 os escravos, obrigados, que faziam o que ele quisesse. 

A1 mandava mulher siciliana, ancia, que do anciao 
cuidava, gentil, no campo, longe da cidade. 

La Odisseu aos escravos e ao filho falou o discurso: 

“Vos, ide agora para dentro da casa bem-construida, 

215 e, como refeifao, presto sacrificai um porco, o melhor; 
quanto a mim, testarei nosso pai, 
se me reconhece e observa com os olhos 
ou desconhece, pois longe estive muito tempo”. 

Apos falar, aos escravos entregou as armas guerreiras. 
220 Eles, depois, rapido alcan9aram a casa, e Odisseu 
foi averiguar mais perto do pomar muito-fruto. 

Quando desceu pelo grande pomar, nao achou Finorio, 
um escravo ou os filhos; mas eis que eles, 
para recolher espinheiros, uteis como cerca do pomar, 
225 haviam saido, e deles, na estrada, o anciao era o lider. 

Ao pai, sozinho, achou no pomar bem -arranjado, 
cavando em volta de uma arvore. Vestia suja tunica, 
remendada, ultrajante; em volta da panturrilha, de couro, 
polainas costuradas amarrara, evitando arranhoes, 

230 e luvas nas maos por causa de amoreiras. Na cabe$a, 
trazia um gorro de cabra, avultando a angustia. 

Quando entao o viu o muita-tenencia, divino Odisseu, 
torturado pela velhice e com enorme angustia no juizo, 
postou-se sob elevada pereira e lagrimas verteu. 

235 Entao cogitou no juizo e no animo: 

beijar e abra?ar seu pai e com minucias 

contar como voltou e alcangou a terra patria, 

ou primeiro o interrogaria e com minucias o testaria. 


Pareceu-lhe, ao refletir, ser mais vantajoso assim, 

240 priraeiro testa-lo com palavras provocadoras. 

Nisso refletindo, foi direto la mesmo o divino Odisseu. 
Aquele, cabe?a abaixada, desenterrava uma arvore; 
parado ao la do, disse-lhe o filho ilustre: 

“Anciao, imperlcia nao te domina no trato 
245 do pomar, mas teu cuidado domina bem. Nao ha, de todo, 
nem planta, nem figueira, nem videira, nenhuma oliveira, 
nem pereira, nem canteiro sem teu cuidado no jardim. 
Outra coisa te direi, e nao ponhas raiva no animo: 
a ti mesmo o valoroso cuidado nao domina, mas velhice 
250 funesta te domina, secura vil e vestes ultraj antes. 

Por certo nao devido a inapao um senhor descuida de ti, 
e nada de um escravo assoma em ti ao mirar-se 
aparencia e altura, pois pareces um varao que e rei. 
Pareces alguem que, apos se banhar e comer, 

255 suavemente repousa, pois e tradipao dos anciaos. 

Pois bem, fala-me disto e conta com precisao: 
de que varao es escravo? De quern o pomar que cuidas? 
Amim dizisto, a verdade, para eu bem saber: 
se esta aonde cheguei e deveras Itaca, como me disse 
260 aquele varao que ha pouco topei ao vir para ca, 
nao muito prestativo, pois tudo nao aguentou 
falar e ouvir minha palavra, quando perguntei 
acerca de meu aliado, se acaso vive e existe, 
ou ja esta morto na morada de Hades. 

265 Pois eu te falarei, e tu compreende e me escuta: 
certa vezhospedei um varao, na cara terra patria, 
que chegou ate nos, e nunca outro mortal 
mais caro, hospede de longe, alcan?ou minha casa. 
Proclamou ser de Itaca quanto a familia, e disse 
270 que Laerte, filho de Arquesio, era seu pai. 

Aele eu levei para casa e bem hospedei, 
acolhendo-o, gentil, com o muito que havia na casa, 


e dei-lhe os presentes, dons de hospede, que convem. 
Dei-lhe sete pesos de ouro bem-trabalhado, 

275 dei-lhe uma anfora toda de prata com desenho floral, 
doze tunicas simples, numero igual de cobertas, 
tantos belos mantos, e, somado a isso, tantas tunicas; 
a parte, mulheres versadas em trabalhos impecaveis, 
quatro formosas, as que ele mesmo quisesse escolher”. 
280 E a ele respondeu o pai, vertendo copiosas la grim as: 
“Estranho, a esta terra chegas da qual perguntas, 
e varoes desmedidos e iniquos a dominam. 

Premiaste-o com presentes, miriades ofertando, estereis; 
se o tivesses alcan?ado, vivo, na cidade de Itaca, 

285 entao ele te enviaria de volta, retribuindo com belos dons 
e nobre hospedagem: essa e a norma para quern inicia. 
Pois bem, dize-me isto e conta com precisao 
qual ja € o ano desde que o hospedaste, 
teu hospede infeliz, meu filho, se um dia existiu, 

290 desventurado, que, longe dos caros e do solo patrio, 
ou no mar comeram-no os peixes ou em terra firme 
tornou-se presa de feras e aves de rapina. A ele mae nao 
amortalhou e chorou, nem o pai, esses que o geramos; 
nem a esposa muita-dadiva, a prudente Penelope, 

295 ululou pelo marido junto ao leito, como convem, 
apos cerrar os olhos: essa e a honraria dos mortos. 

Amim dizisto, a verdade, para eu bem saber: 
quern es? De que cidade vens? Quais teus ancestrais? 

E onde esta a nau veloz, que aqui trouxe a ti 
300 e excelsos companheiros? Ou como passageiro chegaste 
em nau alheia, e eles se foram apos desembarcar-te?”. 
Respondendo, disse-lhe Odisseu muita-astucia: 

“Portanto a ti tudo direi com muita precisao. 

Eu sou de Alibas, onde habito morada gloriosa, 

305 filho do senhor Afidas, filho de Polipemon; 
e meu nome e Seleto. Mas a mim divindade 


fezvagar para longe da Sicilia ate, sem querer, ca chegar; 
minha nau esta aqui no campo, longe da cidade. 

Mas para Odisseu este ja e o quinto ano 
310 desde que de la partiu e saiu de minha patria, 
desventurado. Otimas lhe foram as aves ao se ir, 
destras, com que eu me alegrei, enviando-o de volta, 
e ele se alegrou ao partir; no animo ambos esperavamos 
ainda nos encontrar, aliados, e dar dons radiantes”. 

315 Isso disse, e ao outro encobriu escura nuvem de angustia; 
com ambas as maos tendo apanhado fuliginoso po, 
verteu-o sobre a grisalha cabe 9 a, gemendo sem cessar. 

O animo do outro se agitou, e, subindo as narinas, ja 
o impeto lancinante eclodia ao mirar o caro pai. 

320 E beijou-o e abra^ou, apos saltar ate ele, e disse: 

“Sim, aquele por quem indagas, pai, sou eu mesmo aqui, 
e cheguei no vigesimo ano a terra patria. 

Mas contem o pranto e o lamento lacrimoso. 

Pois eu te falarei, e e imperiosa a pressa, apesar de tudo: 
325 matei os pretendentes em nossa casa, 
punindo o oprobrio aflitivo e as vis a 9 oes”. 

A ele, por sua vez, Laerte respondeu e disse: 

“Se deveras como Odisseu, meu filho, chegaste, 
sinal inequivoco dize-me agora para eu me convencer”. 
330 Respondendo, disse-lhe Odisseu muita-astucia: 

“Acicatrizprimeiro, esta aqui, observa com os olhos, 
a que no Parnasso me deixou javali com branco dente 
quando la fui; tu me enviaste, e a senhora mae, 
ate Autolico, o caro pai da mae, para eu receber 
335 presentes que, apos vir aqui, me prometeu e indicou. 

Pois bem, que a ti das arvores pelo pomar bem-arranjado 
eu fale, as que um dia me deste, e eu te pedi cada uma, 
ainda crian 9 a, seguindo-te pelojardim; por elas 
caminhavamos, e tu falaste o nome de cada uma. 

340 Pereiras, treze me deste, e dezmacieiras, 


figueiras, quarenta; assim filas de videiras nomeaste 
para me dar, cinquenta, uma por vezfrutificando o ano 
inteiro: ali no alto ha uvas de todos os tipos 
sempre que as estafoes de Zeus sobre elas pesam de cima”. 
345 Assim falou, e os joelhos e o cora?ao dele fraquejaram, 
reconhecendo os sinais seguros que lhe enunciou Odisseu. 
Em torno do caro filho lan^ou os bra90s; a ele, ao desmaiar, 
amparou-o o muita-tenencia, divino Odisseu. 

Quando voltou a si e no peito o animo se recompos, 

350 retomou a palavra e respondeu-lhe: 

“Zeus pai, por certo ainda sois deuses no alto Olimpo 
se, de fato, os pretendentes pagaram pela iniqua desmedida. 
Agora tenho terrivel temor no juizo que logo todos 
venham para ca, os itacenses, e mensagens 
355 enviem por todo lugar ate as cidades dos cefalenios”. 
Respondendo, disse-lhe Odisseu muita-astucia: 

“Coragem, que isso nao ocupe teu juizo. 

Mas vamos a casa que fica perto do pomar; 
ate la Telemaco, o vaqueiro e o porcari90 
360 enviei, para que bem rapido preparassem refei9ao”. 

Apos assim falarem, dirigiram-se a be la casa. 

Eles, quando atingiram a casa boa para morar, 
acharam Telemaco, o vaqueiro e o porcar^o 
cortando muita came e misturando fulgente vinho. 

365 Nisso ao energico Laerte, em sua propriedade, 
a serva siciliana lavou e com oleo ungiu, 
e em torno dele bela capa lan90u; e Atena, 
achegando-se, inchou os membros do pastor de homens, 
e maior e mais encorpado fe-lo para quern olhasse. 

370 E saiu da banheira; o caro filho espantou-se com ele 
quando o viu, semelhante a deuses imortais de frente, 
e, falando, dirigiu-lhe palavras plumadas: 

“Pai, deveras a ti um dos deuses sempiternos 
em aparencia e altura fezmelhor para quern te olhar”. 


375 Aele, entao, o inteligente Laerte retrucou: 

“Tomara, 6 Zeus pai, Atena e Apolo, 
tal como quando Nerico tomei, bem-construida cidade 
num cabo do continente, regendo os cefalenios, 
que eu assim, ontem estando em nossa morada 
380 com armas nos ombros, tivesse postado-me e afastado 
os varoes pretendentes; assim teria soltado seus joelhos, 
de muitos no palacio, e terias alegrado-te no intimo”. 

Assim eles disso falavam entre si. 

Apos concluirem a tarefa e aprontado o banquete, 

385 em ordem sentaram-se nas cadeiras e poltronas. 

Ali teriam posto a mao no aim 050; e para perto 
veio o anciao Finorio e, junto, os filhos desse anciao, 
extenuados pela lida, apos sair e chama-los 
a mae, a ancia siciliana, que os criou e de Laerte 
390 cuidava, gentil, pois a velhice o capturara. 

Eles, ao verem Odisseu e avaliarem no animo, 
ficaram parados no salao, estuporados; Odisseu, 
com palavras amaveis abordando-os, disse: 

“Anciao, senta para o aim 090, olvidai o assombro; 

395 ha tempo aspirando por a mao na comida 
esperamos no salao, sempre vos aguardando”. 

Assim falou, e Finorio foi direto, abrindo os bra90s, 
os dois, pegou as maos de Odisseu pelo punho, beijou-as 
e, falando, dirigiu-lhe palavras plumadas: 

400 “Amigo, j a que retornaste a nos, desejosos demais 
e nao mais crendo, e os proprios deuses te guiaram, 
salve e se muito feliz, e deuses te deem fortuna. 

Amim dizisto, a verdade, para eu bem saber: 
ou ja sabe ao claro a bem-ajuizada Penelope 
405 que tu retornaste aqui, ou expe9amos um mensageiro”. 
Respondendo, disse-lhe Odisseu muita-astucia: 

“Anciao, ela ja sabe; por que carece que disso te ocupes?’. 
Isso disse, e ele de novo sentou-se na cadeira bem-polida. 


Tambem os filhos de Finorio, em volta, ao glorioso Odisseu 
410 saudaram com palavras, apertaram-lhe as maos 
e em ordem sentaram-se ao lado de Finorio, seu pai. 
Assim, em volta do banquete, se ocupavam no salao. 

E Rumor, o mensageiro, rapido percorreu toda a cidade, 
relatando a perdi?ao da hedionda morte dos pretendentes. 
415 Eles assim que ouviram, cada um acorreu de outro lado, 
com queixume e gemido, a frente da morada de Odisseu. 
Os corpos, cada familia retirou da casa e enterrou; 
os de outras cidades, a familia encarregava Pescadores 
que os levassem para casa, pondo-os sobre naus velozes. 
420 E eles a agora foram em grupo, angustiados no cora9ao. 
Entao, apos estarem reunidos, todos juntos, 
entre eles Persuasivo levantou-se e falou, 
pois, por seu filho, brutal afli^ao jazia no peito, 

Antinoo, a quern por primeiro matou o divino Odisseu. 

425 Por ele vertendo lagrimas, tomou a palavra e disse: 

“Amigos, feito inaudito esse varao armou contra aqueus: 
aqueles com naus conduziu, muitos e nobres, 
e destruiu as concavas naus e destruiu toda a tropa; 
estes, de longe os melhores cefalenios, matou apos chegar. 
430 Pois mexei-vos antes que ele, rapido, alcance Pilos 
ou a divina Elida, onde dominam os epeus: 
vamos, ou depois seremos sempre ridicularizados. 

Isto e oprobrio a se noticiar tambem aos vindouros, 
se nao castigarmos aos assassinos dos filhos 
435 e irmaos; para mim, no juizo nao seria doce 

viver, mas rapido morreria e aos defuntos me uniria. 

Mas vamos, que aqueles nao atravessem antes”. 

Assim falou, chorando, e piedade atingiu todos os aqueus. 

E deles achegaram-se Medon e o divino cantor, 

440 vindos do palacio de Odisseu, apos o sono os deixar, 
e postaram-se no meio; assombro tomou cada varao. 

Entre eles falou Medon, versado no inteligente: 


“Ouvi-me agora, itacenses, pois Odisseu nao sem 
a ajuda dos deuses imortais armou esses feitos; 

445 eu proprio vi o deus nao mortal que de Odisseu 
achegou-se e a Mentor em tudo se assemelhava. 

E o deus imortal ora aparecia diante de Odisseu, 
encorajando-o, ora, agitando os pretendentes, 
tremulava-os pela casa; e eles caiam uns sobre os outros”. 
450 Assim falou, e medo amarelo atingiu-os todos. 

Entre eles tambem falou o anciao, o heroi Haliterses, 
filho de Buscador, o unico que via o passado e o futuro. 
Refletindo bem, entre eles tomou a palavra e disse: 

“Ouvi agora de mim, itacenses, o que vou falar: 

455 por causa de vossa vileza esses feitos ocorreram; 
nao vos persuadi, nem Mentor, pastor de homens, 
a fazer vossos filhos interromper a loucura, 
eles que feito inaudito fizeram com iniquidade vil, 
devastando as posses e desonrando a esposa 
460 de nobre varao; afirmavam que nunca retornaria. 

Agora assim ocorra, que eu vos persuada do que digo: 
nao vamos, que a ninguem acometa um mal autoinfligido”. 
Assim falou, e um grupo se ergueu com grande alarido, 
mais da metade; os outros, j untos, la mesmo ficaram. 

465 A uns nao agradou o discurso no j uizo, mas Persuasivo 
persuadiu outros que logo se apressaram rumo as armas. 
Mas apos vestirem o bronze lampejante sobre a pele, 
em conjunto reuniram-se diante da espa?osa cidade. 

A eles Persuasivo passou a liderar em sua tolice. 

470 Pensou que puniria o assassinate do filho; mas nao iria 
de novo retornar, e la mesmo alcan?aria seu destino. 

E Atena a Zeus, filho de Crono, dirigiu-se: 

“6 nosso pai, filho de Crono, supremo entre poderosos, 
diga a mim, que inquiro: o que tua ideia dentro contem? 

475 Guerra danosa ulterior e combate terrivel 

arranjaras, ou imporas amizade entre os dois lados?’. 


Respondendo, disse-lhe Zeus junta-nuvens: 

“Minha filha, por que isso me perguntas e apuras? 

Ve bem, essa ideia nao ponderaste tu mesma, 

480 que deles Odisseu se vingasse ao chegar? 

Fazcomo quiseres, mas digo-te o que convem. 

Ja que aos pretendentes castigou o divino Odisseu, 
que ele, apos firmarem pacto confiavel, reine sempre, 
e nos, quanto a matan9a de filhos e irmaos, 

485 imponhamos o olvido; que sejam eles amigaveis entre si 
como antes, e que haja riqueza e pazem abundancia”. 

Isso disse e instigou Atena, que ja o ansiava antes; 
e ela partiu, tendo-se lan^ado dos cumes do Olimpo. 

Apos estes apaziguarem o desejo por comida ado?a-juizo, 
490 entre eles tomou a palavra o muita-tenencia, divino Odisseu 
“Alguem deveria sair e ver; temo que estejam perto”. 

Assim falou; e o filho de Finorio saiu, como pediu, 
postou-se na soleira e viu perto todos aqueles. 

De pronto a Odisseu dirigiu palavras plumadas: 

495 “Eles j a estao ai perto; armemo-nos bem ligeiro”. 

Assim falou, e eles apressaram-se e vestiram as armas, 
quatro em volta de Odisseu e os seis filhos de Finorio. 

Entre eles Laerte e Finorio vestiram as armas, 
embora fossem grisalhos, guerreiros pelas circunstancias. 
500 Mas apos sobre a pele vestir o bronze lampejante, 
abriram as portas, se foram, e chefiava Odisseu. 

E achegou-se deles a filha de Zeus, Atena, 
semelhante a Mentor no corpo e na vozhumana. 

Vendo-a, alegrou-se o muita-tenencia, divino Odisseu 
505 e de pronto falou a Telemaco, seu caro filho: 

“Telemaco, agora isto entenderas tu mesmo, chegando 
onde os melhores entre os varoes combatentes se medem: 
nao aviltar a linhagem dos ancestrais que, tambem antes, 
na bravura e virilidade excelemos sobre toda a terra”. 

510 A ele, entao, o inteligente Telemaco retrucou: 


“Veras, se quiseres, caro pai, a mim com esse animo 
nao aviltando tua linhagem, como dizes”. 

Assim falou, e Laerte alegrou-se e enunciou o discurso: 
“Que dia tenho hoje, caros deuses! Deveras alegro-me; 

515 meu filho e seu filho rivalizam em excelencia”. 

E, parada ao lado, disse-lhe Atena olhos-de-coruja: 

“Filho de Arquesio, mais caro de todos os com panheir os, 
tendo rezado a filha olhos-de-coruja e a Zeus pai, 
brande e de pronto arremessa a lanfa sombra-longa”. 

520 Isso dito, grande potencia insuflou Palas Atena. 

Tendo entao rezado a grande filha de Zeus, 

brandiu e de pronto arremessou a langa sombra-longa; 

e atingiu Persuasivo atraves do elmo face-bronzea. 

Esse a lan?a nao afastou, e o bronze o varou; 

525 com estrondo caiu, e retiniu sua armadura. 

Cairam, sobre os da vanguarda, Odisseu e o filho ilustre, 
e golpearam com espadas e lan?as duas-curvas. 

E agora a todos teriam matado e deixado sem retorno 
se Atena, a filha de Zeus porta-egide, 

530 nao tivesse com a voz gritado e contido todo o povo: 
“Abstende-vos da guerra aflitiva, itacenses, 
para, sem sangue, vos separardes bem rapido”. 

Assim falou Atena, e o amarelo medo dominou-os. 

Eles se assustaram, das maos voaram as armas, 

535 e todas no chao cairam quando a voz da deusa soou; 

e voltaram-se para a cidade, almejando permanecer vivos. 
E aterrorizante berro deu o muita-tenencia, divino Odisseu, 
e arremeteu, apos se agachar, feito aguia voa-alto. 

Entao o filho de Crono lan^ou raio fumoso, 

540 e caiu diante da olhos-de-coruja, a pai-ponderoso. 

Entao a Odisseu falou Atena olhos-de-coruja: 

“Divinal filho de Laerte, Odisseu muito-truque, 

contem-te, para com a justa da guerra niveladora; 

que nao te tenha raiva o filho de Crono, Zeus ampla-visao”. 


545 Assim falou Atena, e ele obedeceu e alegrou-se no animo. 
Um pacto para o futuro impos entre ambas as partes 
Palas Atena, a filha de Zeus porta-egide, 
semelhante a Mentor no corpo e na vozhumana. 


POSFACIO LUIZ ALFREDO GARCIA-ROZA 


A Odisseia e a narrativa de um retorno: o retorno de Odisseu (Ulisses) a Itaca, 
sua terra natal, apos ter participado do cerco & cidade de Ilion (Troia). A lliada, 
por sua vez, e a narrativa das ultimas semanas da Guerra de Troia: ambas 
atribuidas ao poeta / aedo Homero, que teria vivido no seculo VIII aC. 

Mais do que a narrativa de um retorno, a Odisseia e a narrativa-retorno ou a 
narrativa-acontecimento do retorno de Odisseu. E aqui o acontecimento nao e 
uma experiencia vivida por alguem, algo percebido ou mesmo sofrido, mas algo 
narrado por alguem, algo que se passa no ambito da fala e nao da experiencia 
subjetiva. O objeto dessa narrativa-acontecimento pode ser real, imaginario, 
ficticio. Ele e, para os ouvintes de Homero, tao verdadeiro como as sereias que 
atraem para a morte Odisseu e seus companheiros, ou como Aquiles, Heitor e o 
ciclope Polifemo, bem como Apolo e Atena, deuses protetores dos herois- 
guerreiros durante os combates. Nao estd em questao se eles existem ou nao, se 
sao “verdadeiros” ou “ficticios”: sua realidade consiste em serem narrados pelo 
poeta-aedo. 

Assim, a Odisseia nao e o relato da longa e atribulada viagem de Odisseu em 
sua volta ao lar, tal como a lliada nao e o relato da Guerra de Troia. Ou seja: os 
dois poemas, com seus mais de 27 mil versos, nao tern valor documental. Mesmo 
porque Homero teria vivido no seculo VIII aC, enquanto a Guerra de Troia teria 
se dado no seculo XIII aC. Homero nao poderia ter sido testemunha dos 
combates na planicie de Troia ou do retorno de Odisseu, nem poderia ter se 
valido do testemunho dos proprios combatentes. Os herois da Guerra de Troia - 
Aquiles, Heitor, Nestor, Menelau, Agamemnon e o proprio Odisseu - teriam 
vivido por volta de 1200 aC. Quatro ou cinco seculos separam Homero dos 
gregos e troianos protagonistas da lliada e da Odisseia. Acrescente-se a isso o 
fato de a escrita passar a ser usada no mundo grego somente no final do seculo 
VIII aC, e constata-se que Homero e seus herois-guerreiros eram, pois, 
analfabetos. A escrita chamada Linear B desaparecera juntamente com a 
destrui^ao e a extin 9 ao da civiliza?ao micenica no seculo XI aC. Nao havia, 
portanto, possibilidade de registro escrito ser utilizado por Homero, quatro seculos 
mais tarde, ao compor a Odisseia. Isso significa que a Odisseia nao foi escrita por 


Homero. Essa narrativa era “cantada” pelo poeta em suas apresenta9oes aos 
aristoi, a aristocracia guerreira da Grecia arcaica. 

Homero era um aedo, um portador da palavra poetica que, com seus cantos, 
remetia os ouvintes aos acontecimentos originais, aos gestos dos deuses e dos 
herois, ao tempo mitico dos come90s. O proprio passado ao qual ele se referia 
nao era propriamente um passado, mas outra dimensao do cosmos, outra 
dimensao do tempo e do espa90, a qual somente o aedo, com auxllio das Musas, 
tinha acesso. 

Se a Odisseia nao foi escrita por Homero, mas composta oralmente por ele 
seculos depois dos supostos eventos, por conseguinte Odisseu e sua mulher, 
Penelope, assim como seu filho, Telemaco, e os demais protagonistas da 
Odisseia, nao sao propriamente existentes, eles “existem” enquanto narrados / 
cantados por Homero ou - se preferirmos, “existem” tanto quanto existiram o 
aedo cego Demodoco, a feiticeira Circe, a be la princesa Nausicaa, o monstro 
Cila ou o cao Argos de Odisseu. O mesmo raciocinio pode ser aplicado a lliada. 
Nao ha nenhum registro concreto referente a uma guerra que tivesse durado 
uma decada, ocorrida no seculo XIII aC e cujo termino teria se dado com o 
cerco e a tomada de Troia pelos gregos. Portanto, a longa e minuciosa narrativa 
de Homero consiste em ser uma narrativa epica e nada mais. Ela nao remete a 
uma guerra que teria ocorrido na regiao de Troia - o que nao exclui a 
possibilidade de ter ocorrido um pequeno conflito entre gregos e troianos por 
volta do seculo XIII aC. Achamada Guerra de Troia, com seus herois Aquiles, 
Heitor, Agamemnon, e a lliada, assim como o retorno de Odisseu para itaca e a 
Odisseia, am bos poemas epicos compostos por Homero. 

Levado ao extremo, esse raciocinio pode colocar em duvida a propria 
existencia de Homero. Na Grecia arcaica, “Homero” poderia designar tanto um 
poeta / aedo unico como um grupo deles. Em uma cultura exclusivamente oral, 
os poetas / aedos eram a memoria viva. Cabia a eles cantar em seus poemas o 
tempo passado, o tempo presente e o tempo futuro, visto serem os aedos 
sacralizados pelos deuses e inspirados pelas Musas. O aedo nao era poeta porque 
fazia poesia, mas fazia poesia porque era poeta, vidente, profeta, sabio. Desse 
modo, poderiamos imaginar tanto um grupo de poetas / aedos que desde o seculo 
XIII aC cantava e transmitia, de gera9ao a gera9ao, as narrativas lendarias de 
uma Troia arcaica destruida pelos gregos e do retorno de Odisseu a Itaca, como 


poderiamos imaginar um individuo singular, um aedo solitario chamado Homero, 
compondo e narrando / cantando pelas cidades da Grecia esses dois poemas. Nao 
ha historic am ente nenhuma prova concreta a favor de uma ou de outra hipotese. 
Dispomos apenas de tra90s mnemicos conservados durante seculos pela tradi^ao 
e que posteriormente foram transcritos da forma oral para a escrita em lascas de 
madeira, papiro, pele animal, ate chegar ao papel; e que, 23 seculos depois, em 
1488, foram impressos em Floren9a. Foi no entanto a Flomero, poeta do seculo 
VIII aC, que a tradi9§o atribuiu a autoria da Iliada e da Odisseia. 

O mais surpreendente, no entanto, e que a argumenta9ao sobre a natureza do 
objeto da narrativa pode ser aplicada tambem ao narrador. O proprio Homero 
talvezseja uma cria9ao da Odisseia e da Iliada. Podemos concordar que a tese e 
improv&vel, mas nao impossivel. No canto 9 da Odisseia , Odisseu, heroi de 
Homero, assume a primeira pessoa, e a narrativa epica passa a se dar no interior 
de uma outra em que o heroi da segunda narrativa e o objeto da primeira, e 
Odisseu se torna simultaneamente heroi e narrador; da mesma forma, 
Demodoco, o aedo cego do canto 8 da Odisseia , poderia ser o proprio Homero. 
[6] Esse desdobramento, porem, so pode ser feito com a condi9&o de 
descredenciarmos ou desqualificarmos o estatuto de aedo atribuido ao poeta 
mestre da verdade da Grecia arcaica, o que implicaria a desqualifica9ao da 
figura do aedo enquanto tal. 

Nao estamos discutindo aqui a autoria dos poemas, questao inexistente na Grecia 
arcaica, mas defendendo a autenticidade da Odisseia e da Iliada como poemas 
em versos hexametros compostos no seculo VIII aC e atribuidos nominalmente a 
um poeta chamado Homero, cuja existencia ainda e um enigma a ser decifrado, 
mas cujos poemas epicos sao eternos. Mesmo quando questionada a autoria da 
Iliada e da Odisseia, nao resta duvida quanto a autenticidade de ambos os 
poemas, isto porque, como assinala Bernard Knox, [7] a lingua de Homero nunca 
foi falada por ninguem, e uma lingua artificial, uma cria9ao dos proprios versos 
epicos que passou a ser empregada pelos aedos e mantida por seculos no canto 
dos poetas pela sua qualidade literaria. 

Quanto a existencia de Homero e ao fato de ser ele o autor da Odisseia e da 
Iliada, temos que, no final do seculo VIII aC, seculo de Homero, a escrita 


renasce na Grecia. Nao aquela micenica extinta havia seculos, mas uma nova 
que absorveu palavras e signos de diferentes dialetos da lingua falada na Grecia e 
do alfabeto fenicio. Com o renascimento da escrita, e provavel que os escribas 
eruditos do final do seculo VIII e comedo do VII aC tenham transcrito os poemas 
cantados / narrados por Homero para o papiro e posteriormente para o papel. 

Aprimeira pergunta que nos ocorre e: quern ditou os poemas para o(s) 
escriba(s)?0 proprio Homero? Alguem alem dele saberia de cor os 27 109 
versos que compdem a Odisseia e a Ilia dal Se nao foi ele, quern teria sido? A 
quern Homero confiaria o que hoje em dia chamariamos de seu projeto 
editoriaP. 

Asegunda pergunta e mais delicada. Se nem mesmo Homero sabia cada 
verso da Iliada e da Odisseia, ja que o poeta / aedo nao decora va fiel e 
integralmente o poema - ele fazia uso de um estoque de versos, formulas, estas 
sim decoradas, a partir dos quais recompunha o poema; ele improvisava em 
cima de uma estrutura decorada, de modo que a cada apresentapao do poeta / 
aedo uma nova Iliada e uma nova Odisseia eram cantadas / narradas -, entao 
qual Odisseia foi ditada para o(s) escriba(s)? Amais proxima da original? Mas 
qual original? Se tanto a Odisseia como a Iliada eram textos orais, compostos 
para serem ouvidos e nao para serem lidos, como apontar o texto oral original? 

Nao ha nem nunca houve Odisseia original, a primeira Odisseia. A Odisseia 
“legitima” e aquela cantada pelo aedo, inspirado pelas Musas, para a escuta dos 
aristoi. 

Nao resta duvida quanto ao fato de a Odisseia ser posterior a Iliada. Ha passagens 
na Odisseia que remetem a acontecimentos da Iliada, ao passo que o contrario 
nao ocorre. E o caso do episodio do cavalo de Troia, que nao e mencionado na 
propria Iliada e recebe uma referenda breve e incompleta no canto 4 da 
Odisseia, apesar de ser o ardil inventado por Odisseu para ultrapassar as 
muralhas de Troia. 

Aduvida algumas vezes levantada e se os dois poemas foram criapoes do 
mesmo poeta. A Iliada canta as fapanhas do heroi-guerreiro, principalmente a 
furia desmedida de Aquiles contra Heitor e o seu ressentimento desmedido 
contra Agamemnon; a Odisseia, por sua vez, e o poema das aventuras e 


desventuras de Odisseu em seu retorno a Itaca e aos bra?os de Penelope. No 
entanto, a disparidade de tema e de enfase nao sugere diferentes poetas / aedos; a 
qualidade literaria, a harmonia dos versos hexametros esta presente em ambos. 
Ate mesmo o canto 22, apontado por alguns crlticos como a parte da Odisseia 
que, pelo conteudo, destoaria do conjunto do poema, como se tivesse sido 
composto por outro aedo, pode ser tornado como o “Homero da Odisseia" 
buscando no “Homero da lliada" a furia insana de Aquiles para compor a 
sequencia de cenas finais do retorno de Odisseu. Final digno do maior poema 
epico do Ocidente. 

Resta ainda a lenda segundo a qual Homero era cego. Analfabeto e cego. Soam 
excessivas duas caracteristicas tao restritivas atribuidas ao homem que criou os 
dois poemas seminais da literatura, que ate hoje alimentam nao somente a ela 
mas tambem as artes cenicas e o imaginario do homem ocidental. 

Como isso seria possivel? Aresposta pode ser que esse homem nao era 
deficiente, mas privilegiado. O poeta / aedo da Grecia arcaica nao era uma 
pessoa comum, tampouco um aristoi: ele se apresentava como portador de um 
dom divino, o de ser inspirado pelas Musas. Aprimeira frase da Odisseia e: “Do 
varao me narra, Musa, do muitas-vias, que muito vagou apos devastar a sacra 
cidade de Troia”. Quem e esse “me” da frase senao o aedo que cantava o 
poema e pedia a inspirafao da Musa, isto e, o proprio Homero? 

Seja quem for que tenha sido Homero, resta pouca duvida quanto ao fato de 
os dois poemas serem obra de um mesmo poeta. E praticamente im possivel que 
duas pessoas, ainda que dois aedos, tenham composto ao mesmo tempo os versos 
hexametros / dactilicos de que sao feitos os dois poemas. Tambem e pouco 
admissivel que o segundo poema ( Odisseia ) tenha sido “criado” em data 
posterior sobre o modelo do primeiro (lliada), escrito por um poeta laico, isto e, 
nao aedo. O dom do aedo nao podia ser mantido nem transmitido no ou pelo texto 
escrito. 

O canto do aedo e a palavra sacralizada pelas divindades Apolo e 
Mnemosyne. Cada Odisseia “legitima” e uma repetigao diferencial. Um 
acontecimento unico. Nao ha um modelo e suas copias, cada “copia” e um novo 
canto cantado pelo poeta inspirado. Pela mesma razao, o poema nao pode ser 
ouvido por uma pessoa comum e repetido por ela para outros ouvintes. Apalavra 


do poeta nao era uma moeda que pudesse ser passada adiante por quem a 
recebesse, a nao ser que esse alguem fosse outro aedo. O proprio ato da escuta se 
tornava sacralizado quando se tratava da escuta do canto do aedo. 

Sem duvida essa magia que unia a narrativa e a escuta num mesmo 
acontecimento sacralizado pelas Musas foi perdida ao ser transcrito o poema. 
Aquilo que era a narrativa do poeta / aedo deixou de ser um acontecimento para 
se transformar em documento escrito, ainda que “ditado” pelo poeta; o que era 
poesia sagrada tornou-se poesia laica, podendo ser copiada e multiplicada ao 
infinito. Apesar da perda da sacralidade, a Odisseia permanece, passados quase 3 
mil anos, o maior poema epico da literatura ocidental. 


6 Cf. Frederico Lourenpo, “Prefacio”, in Homero, Odisseia, trad. Frederico 
Louren90. Sao Paulo: Penguin Classics Companhia das Letras, 201 1, p. 101. 

7 Cf. Bernard Knox, “Introdu9ao”, ibid., p. 19. 


O SILENCIO DAS SEREIAS FRANZ KAFKA 


Comprova^ao de que mesmo meios insuficientes, e ate infantis, podem servir a 
salvafao. 

Afim de se proteger das sereias, Odisseu entupiu de cera os ouvidos e mandou 
que o acorrentassem com firmeza ao mastro. E claro que, desde sempre, todos 
os viaj antes teriam podido fazer algo assim (a nao ser aqueles aos quais as 
sereias atraiam ja desde muito longe), mas o mundo inteiro sabia que de nada 
adiantava. O canto das sereias impregnava tudo - que dira um punhado de cera 
e a paixao dos seduzidos teria arrebentado muito mais que correntes e mastro. 
Nisso, porem, Odisseu nem pensava, embora talvezja tivesse ouvido falar a 
respeito; confiava plenamente no punhado de cera e no fence de correntes, e, 
munido de inocente alegria com os meiozinhos de que dispunha, partiu ao 
encontro das sereias. 

As sereias, contudo, possuem uma arma ainda mais terrivel que seu canto: seu 
silencio. E certo que nunca aconteceu, mas seria talvezconcebivel que alguem 
tivesse se salvado de seu canto; de sua mudez, jamais. O sentimento de te-las 
vencido com as proprias formas, a avassaladora arrogancia dai resultante, nada 
neste mundo e capazde conter. 

E, de fato, as poderosas cantoras nao cantaram quando Odisseu chegou, fosse 
porque acreditassem que so o silencio podia com aquele oponente ou porque a 
visao da bem-aventuransa no rosto dele - que nao pensava senao em cera e 
correntes - as tivesse feito esquecer todo o canto. 

Odisseu, porem, nao ouviu seu silencio, por assim dizer; acreditou que 
cantassem e que so ele estivesse a salvo de ouvi-las; com um olhar fugaz, 
observou primeiro o movimento de seus pescofos, o respirar fundo, os olhos 
cheios de la grim as, a boca semiaberta, e acreditou que fizessem parte das arias 
soando inaudiveis a seu redor. Mas logo tudo isso resvalou por seus olhos voltados 
para o longe; as sereias verdadeiramente desapareceram, e, justo quando estava 
mais proximo delas, ele ja nem mais sabia de sua existencia. 

Elas, por sua vez, mais belas que nunca, esticavam-se e giravam o corpo, 
deixando os cabelos horripilantes soprar livres ao vento e alongando as garras na 
rocha; nao queriam mais seduzir, mas somente apanhar ainda, pelo maximo de 
tempo possivel, o brilho que refletia dos grandes olhos de Odisseu. 


Se as sereias tivessem consciencia, teriam sido aniquiladas entao; mas 
permaneceram. Apenas, Odisseu escapou-lhes. 

Dessa historia, alias, relata-se ainda um complemento. Diz-se que Odisseu era 
tao astuto, uma tal raposa, que nem mesmo a deusa do destino logrou penetrar 
em seu ultimo; embora isto ja nao seja compreensivel a razao humana, talvezele 
tenha de fato percebido que as sereias estavam mudas, tendo entao, de certo 
modo, contraposto a elas e aos deuses toda a simulagao acima tao somente como 
um escudo. 


[1917] TRADUCAO Sergio Tellaroli 


ITACA KONSTANTINOS KAVAFIS 


Se partires um dia rumo a Itaca, 
faz votos de que o caminho seja longo, 
repleto de aventuras, repleto de saber. 

Nem Lestrigoes nem os Cic lopes 
nem o colerico Posldon te intimidem; 
eles no teu cam inho jamais encontraras 
se altivo for teu pensamento, se sutil 
emo?ao teu corpo e teu esplrito tocar. 

Nem Lestrigoes nem os Cic lopes 
nem o bravio Posidon has de ver, 
se tu mesmo nao os levares dentro da alma, 
se tua alma nao os puser diante de ti. 

Faz votos de que o caminho seja longo. 
Numerosas serao as manhas de verao 
nas quais, com que prazer, com que alegria, 
tu has de entrar pela primeira vezum porto 
para correr as lojas dos fenicios 
e belas mercancias adquirir: 
madreperolas, corais, ambares, ebanos, 
e perfumes sensuais de toda a especie, 
quanto houver de aromas deleitosos. 
Amuitas cidades do Egito peregrina 
para aprender, para aprender dos doutos. 

Tem todo o tempo Itaca na mente. 

Estas predestinado a ali chegar. 

Mas nao apresses a viagem nunca. 

Melhor muitos anos levares de jornada 
e fundeares na ilha velho enfim, 
rico de quanto ganhaste no caminho, 
sem esperar riquezas que Itaca te desse. 


Uma be la via gem deu-te Itaca. 

Sem ela nao te ponhas a caminho. 

Mais do que isso nao lhe cumpre dar-te. 

Itaca nao te iludiu, se a achas pobre. 

Tu te tornaste sabio, um homem de experiencia, 
e agora sabes o que significam Itacas. 

[1911] TRADU^AO Jose Paulo Paes 


GLOSSARIO DE NOMES PROPRIOS 


Para a tradu9&o dos nomes e a compos^ao deste glossario (cf. Da tradugao, no 
inicio deste volume), foram utilizados diversos livros que constam na bibliografia, 
especialmente Snell etal. (1955-2010), Frame (2009) e Finkelberg (201 1). Na 
primeira parte, as entradas se referem aos nomes utilizados na tradugao, com 
seus equivalentes mais conhecidos; na segunda, a lista e invertida, informando os 
nomes proprios aqui utilizados a partir dos mais conhecidos, em geral o nome 
grego vernaculizado. Nessa segunda parte, em algumas entradas proponho uma 
tradugao para o nome; em outras, uma parafrase. Quando ha divergences entre 
os eruditos acerca do sentido de um nome, optei por informar apenas o(s) mais 
aceito(s). Nao sao todos os nomes proprios da Odisseia que constam a seguir, 
apenas os mais significativos para o poema e / ou os que ilustram a atmosfera do 
genero epico, alem de algumas das personagens centrais com nomes 
cristalizados no imaginario ocidental. 


Primeira parte 

Nomes proprios traduzidos 

ABRASADOR Aiton 
A£ODADO Ormeno 
ADIVINHOSO Mantio 
ALTIVA Iftima 
AMPLOMAR Eurialo 
APRESADOR Equeto 
AURORA Eos 
AUXILIADOR Boetoo 

BARQUEIRO Nauteu 
BORREGOSO Arnaio 
BRANCADEUSA Leucoteia 
BRAVO Alcimo 
BRILHO Lampo 
BRILHOSA Lampetia 
BUSCADOR Master 

CAMINHEIRO Mulio 
CARPINTEIRO Tecton 
CAVALEIRO Hipotes 
CERCOMAR Anfialo 
CHUMBODANAU Naubolo 
CIDADAO Polites 
CODORNA Ortigia 
CORVO Corax 

DEFENSOR Alector 
DOMADOR Damastor 
DOMAPOVO Laodamas 
DOMINATOR Dmetor 
DONODENAU Equeneu 
DOPATIO Messaulio 


EMBARQUENAU Anabesineu 


FINORIO Dolio 
FORTIFICANTE Euenor 

GLORIOSO Climeno 
GRA£A Carite 

GRANDAFLI^AO Megapentes 

ILUSORIO Elpenor 
ILUSTRE Cleito 

JUVENTUDE Hebe 


LATIDORHilax 
LUZIDIA Faetussa 
LUZIDIO Faeton 
LUZIO Faidimo 

MARINHEIRO Ponteu 
MARINHO Halio 
MENTENOMAR Pontonoo 
MUIDIVINA Anfitee 
MUITANAU Polineu 
MUITAPOSSE PoUpemon 
MUITOSDOMA Polidamna 


NAOPOUPA Afidas 
NAUGLORIOSO Clitoneu 
NAUVELOZ Nausitoo 


OLHOVINEO Oinops 


PASSOLARGO Euribates 


PEDINTE Dectes 
PERSUADIDOR Pisenor 
PERSUASIVO Eupeites 
PONDERADO Noemon 
POPEIRO Primneu 
PRETA Melanto 

PRETO Melanteu / Melantio (nomes intercambiaveis) 
PROEIRO Proreu 
PRUDENTE Fronio 

REMADOR Elatreu 
REMEIRO Eretmeu 
RICOSO Ctesio 
ROMPEDOR Rexenor 
RUMOR Ossa 

SALVADOR Feidon 
SEGURO Asfalion 
SELETO Eperito 
SI SO Equefron 
SOL Helio 

TOCAIOSO Ors(t)Uoco 
TOPODANAU Acroneu 
TROPOSO Estratio 

VELOCISTA Toon 
VELOSNOMAR Ocialo 
VERlDICO Eteoneu 
VOZ Ops 


Segunda parte 

Nomes proprios conhecidos 

ACRONEU Topodanau 

AFIDAS Naopoupa 

AGELAU “o que conduzo exercito” 

AITON Abrasador 
ALCIMO Bravo 

ALCfNOO “aquele que leva para casa com sua for 9 a” 

ALCMAION “destem ido” 

ALECTOR Defensor 
ANABESINEU Embarquenau 
ANFIALO Cercomar 
ANFIARAU “mui sacro” 

ANFILOCO “que arma uma tocaia em torno” 

ANFIMEDON “o que protege em torno” 

ANFITEE Muidivina 
ANQUIALO “que esta perto do mar” 

ANT1CLEIA “oposta a fama” ou “com fama correspondente” 

ANTICLO “o que vai contra a gloria (de outrem)” 

ANTIFATES “golpeador” 

ANT1NOO “o que tern uma mente contraria” ou “o que e contra o retorno” 
ARETE “rogada” 

ARETO “rogado” 

ARNAIO Borregoso 
ASFALION Seguro 

AUTOLICO “o proprio lobo” ou “um verdadeiro lobo” 

BOETOO Auxiliador 
CALIPSO “ocultadora” 

CARIBDIS o poeta mesmo faza sua “etimologia” ao escolher um verbo que 
sonoramente remete ao nome e foi traduzido por “deglutir” (12, 104) 
CARITE Gra9a 

CASTOR o animal ou “superador” 


CILA o proprio poeta explica o nome ao mencionar que fazum som como o 
latido de um “filhote de cao”, termo que remete, em grego, a Cila (12, 85) 
CLEITO I lustre 
CLIMENE “gloriosa” 

CLIMENO Glorioso 
CLITONEU Nauglorioso 
CLORIS “livida” 

CORAX Corvo 
CTESIO Ricoso 

DAMASTOR Domador 
DECTES Pedinte 

DEMODOCO “recebido pelo povo” 

DMETOR Dominator 
DOLIO Finorio 

EGIPCIO muito provavelmente o nome esta ligado ao Egito 
EIDOTEA “que tem aparencia divina” 

ELATREU Remador 

ELPENOR Ilusorio; seu nome vem de elpis, expectativa (equivocada) 

EOS Aurora 
EPERITO Seleto 
EQUEFRON Siso 
EQUENEU Donodenau 
EQUETO Apresador 
ERETMEU Remeiro 
E STRATI O Troposo 
ETEONEU Veridico 
EU ANTES “vicejante” 

EUENOR Fortificante 
EUMEU “o que vai atras do bem” 

EUPEITES Persuasivo 
EURIALO Amplomar 
EURIBATES Passolargo 


EURICLEIA “que tern ampla fama” 

EURIDAMAS “amploj ugo” 

EURILOCO “que realiza ampla tocaia” 

EURIMACO “que realiza amplo combate” 
EURIMEDON “que tem amplo domlnio” 
EURIMEDUSSA equivalente feminino de Eurimedon 
EURfNOME “aquela que tem amplo comando” 
EURINOMO equivalente masculino de Eurinome 

FAETON Luzidio 
FAETUSSA Luzidia 
FAlDIMO Luzio 
FEIDON Salvador 

FEMIO “famoso” ou “que torna famoso” 

FRONIO Prudente 
FRONTIS “zelo” 

HALIO Marinho 

HALITERSES talvez “coraj oso no mar” 

HARPIA “redemoinho” 

HEBE Juventude 
HELIO Sol 
HILAX Latidor 
HIPOTES Cavaleiro 

IFTIMA Altiva 

LAMPETIA Brilhosa 
LAMPO Brilho 
LAODAMAS Domapovo 
LEUCOTEIA Brancadeusa 

MAIRA “cintilante” 

MANTIO Adivinhoso 


MASTOR Buscador 
MEGAPENTES Grandaflifao 

MELANTEU /MELANTIO (nomes intercambiaveis) Preto 
MELANTO Preta 
MENTES “possante” 

MENTOR “potente” ou “conselheiro” 

MESSAULIO Dopatio 
MULIO Caminheiro 

NAUBOLO Chumbodanau 
NAUSITOO Nauveloz 
NAUTEU Barque iro 

NELEU talvez“impiedoso”, tendo em vista a historia na qual a personagem 
aparece 

NESTOR seu nome esta ligado a “retorno” e “mente, espirito” 

NOEMON Pondera do 

OCIALO Veloznomar 

ODISSEU a etimologia e desconhecida, mas o poema joga com algumas 
potencialidades, sobretudo “ser objeto de odio” 

OINOPS Olhovineo 
ONETOR “fomentador” 

OPS Voz 

ORMENO A?odado 
ORS(T)ILOCO Tocaioso 
OSSA Rumor 
ORTIGIA Codorna 

PEIRITOO “mui veloz” 

PENELOPE etimologicamente, a deriva^ao mais provavel e de penelops, um 
tipo de ave-d’agua 
PISANDRO “persuade varao” 

PISENOR Persuadidor 
PISISTRATO “persuade exercito” 


POLIDAMNA “o que a muitos domina” 

POLIFEIDES “poupa muitos” 

POLIFEMO ligado a fama 
POLINEU Muitanau 
POLIPEMON Muitaposse 
POLITERSES “mui coraj oso” 

POLITES Cidadao 
PONTEU Marinheiro 
PONTONOO Mentenomar 
PRIMNEU Popeiro 
PROREU Proeiro 

REXENOR Rompedor 

TECTON Carpinteiro 
TEMIS “regra”ou “norma” 

TEOCLIMENO “conhecido dos deuses” ou “que ouve algo dos deuses” 
TERPIO “que produzdeleite” 

TOAS provavel relagao com “veloz” e “correr”, que, mesmo se nao for 
etimologica (pode ser derivado de um adjetivo etnico), e sonora 
TOON Velocista 


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SOBRE OS AUTORES 


HOMERO Poeta ao qual se atribuiram os poemas epicos lliada e Odisseia. E 
pouco provavel que um poeta com esse nome tenha existido, e nao e mais 
possivel reconstruir, com um minimo de precisao, o processo pelo qual, entre os 
seculos VIII e VI aC, o texto dos poemas adquiriu a forma na qual hoje sao lidos. 
Uma das razoes e que quase nada sabemos acerca do uso da escrita na Grecia no 
seculo VIII aC, nem por que nem quando alguem teve a ideia de escrever um 
poema, ja que performances poetico-musicais faziam parte do cotidiano grego, 
ou sej a, ainda no seculo V aC, esse era o modo principal de recep?ao de uma 
compos^ao poetica. Por muito tempo, a poesia oral epica era composta no 
momento mesmo de sua apresentafao. Muitos estudiosos modernos creem que 
um poeta muito bom tenha desenvolvido, com o uso da escrita, um poema 
monumental - a lliada -, e que, quando se apresentava diante do publico, deixava 
de improvisar episodios individuais da tradifao heroica grega e declamava 
trechos do poema, que passou a ser conhecido em toda a Grecia. 

Se isso for verdade - e disso nunca teremos certeza -, entao tambem e 
provavel que um outro poeta teria composto um segundo poema monumental, a 
Odisseia , tentando sobrepujar o autor da lliada. Fato e que, ainda no seculo VI 
aC, “Homero”, na Grecia, era o nome associado a um genero poetico, o epico, e 
a ele tambem eram atribuidos outros poemas. Somente no seculo V aC a lliada e 
a Odisseia adquiriram, em Atenas, um estatuto canonico tal que todo poema 
epico posterior passou a ser medido em rela9ao a eles ou a emula-los. Nao a toa 
varias cidades gregas disputaram, desde cedo, a honra de ter sido a terra natal do 
bardo. Outra historia que se conta sobre ele e que era cego, assim como seu 
confrade Demodoco, personagem da Odisseia. Para tornar vivo o passado 
heroico, o poeta, se aben9oado pelas Musas, nao precisaria ter visto nada do que 
conta. Dizer que Homero era cego e apontar para caracteristicas da propria 
tradi9ao epica. 


CHRISTIAN WERNER Nascido em Santa Cruz do Sul (RS) em 1970, e professor 
livre-docente de lingua e literatura grega na Universidade de Sao Paulo. Publicou 


tradufoes de Euripides ( Duas tragedias gregas: Hecuba e Troianas, Martins 
Fontes, 2005) e Hesiodo ( Teogonia e Trabalhos e dias, Hedra, 2013). Autor de 
inumeros artigos e capitulos de livro sobre literatura grega, sobretudo a poesia 
epica e tragica, e um dos lideres do grupo de pesquisa Generos Poeticos na 
Grecia Antiga: Tradi^ao e Contexto. Tambem tern se dedicado a investigar a 
recep?ao de Homero na prosa de Joao Guimaraes Rosa. 


AGRADECIMENTOS 


Atradugao da Odisseia teve urn a longa gesta?ao, o que espero lhe ter sido 
bene flea. Parte substancial do trabalho foi realizada com um “auxilio a pesquisa” 
da Fapesp entre 2007 e 2008; agrade 90 nao apenas a institui?ao, mas tambem ao 
parecerista anonimo que comentou a tradu?ao. Amigos e colegas contribuiram 
de modos diversos e preciosos: Adriane Duarte, Robert de Brose, Filomena 
Hirata, Maria Beatriz Florenzano, Teodoro R. Assunfao, Jaa Torrano, Andre 
Malta Campos, Pedro Paulo Funari, Lucia Sano, Jacyntho L. Brandao, Zelia de 
Almeida Cardoso, Mary Lafer, Caroline Evangelista Lopes, Alisson A. de 
Araujo, Leonardo Vieira e Julio de Figueiredo Lopes Rego. Um agradecimento 
especial a Tania Bueno de Paula e a dire?ao e equipe da Biblioteca Florestan 
Fernandes, o cora?ao da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciencias Humanas da 
Universidade de Sao Paulo, cujo trabalho permite que o meu aconte^a. Por fim, 
e um privilegio ter esta tradufao publicada pela Cosac Naify: agrade 90 a 
Augusta Massi, o primeiro a se interessar por ela, e a sua acolhida posterior por 
Cassiano Elek Machado, Milton Ohata e Florencia Ferrari. Atradugao nao teria 
alcan?ado a forma presente sem o zelo e a inteligencia de Mariana Delfini e, 
sobretudo, Maria Emilia Bender, para quern vao as palavras do rei Alcinoo: “Tua 
e a formosura das palavras, em ti tens juizo distinto, e contaste a historia, habil, 
como um cantor”. Dedico a tradu 9 ao a Eril<a Werner pelo amor, paciencia e 
companheirismo. 


CREDITOS 


Aapresenta?ao de Richard P. Martin foi originalmente publicada em The 
Odyssey (tradu^ao para o ingles de Edward McCrorie) e aqui traduzida com a 
permissao de Johns Hopkins University Press. © 2004 Johns Hopkins University 
Press. 

“O silencio das sereias” foi escrito em 23 de outubro de 1917, publicado em Beim 
Bau der chinesischen Mauer und andere Schriften aus dem Nachlafi (in der 
Fassung der Handschrift) . Frankfurt am Main: Fischer, 1994. 

“Itaca” foi escrito em 191 1 e integra o livro Poemas. Selegao, estudo critico, 
notas e traduqao de Jose Paulo Paes. Rio de Janeiro: Jose Olympio, 2006. 

Aeditora agradece a Sergio Telarolli por ceder gentilmente a tradu9ao de “O 
silencio das sereias”, de Franz Kafka, e a Dora Paes e a Editora Jose Olympio 
pela tradu9ao de “Itaca” de Konstantinos Kavafis. 


© Cosac Naify, 2014, e-book, 2014 

Cola gens ODIRES MLASZHO 

Coordena9ao editorial MARIA EMILIA BENDER 

Assistente editorial ELOAH PINA 

Prepara?ao MARI AN A DELFINI 

Revisao THIAGO LINS, CLAUDIA CANTARIN 

Projeto grafico original ELAINE RAMOS, GABRIELA CASTRO 

Adapta?ao e coordena^ao digital ANTONIO HERMIDA 

Produfao de ePub JOANADE CONTI 

1° edi9ao eletronica, 2014 

Nesta edi9&o, respeitou-se o novo Acordo Ortografico da Lingua Portuguesa. 


Dados Internacionais de Cataloga9ao na Publica^ao (CIP) 
(Camara Brasileira do Livro, SP, Brasil) 


Odisseia: Homero 

Tradmpao e introdu9ao: Christian Werner 
Sao Paulo: Cosac Naify, 2014 

ISBN 978-85-405-0859-0 

1. Literatura grega 

2. Poesia epica classica 

I. Werner, Christian. II. Martin, Richard P. III. Garcia-Roza, Luiz Alfredo IV. 
Kafka, Franz V. Kavafis, Konstantinos. 


Indices para catalogo sistematico: 

1. Literatura grega: Poesia epica: 883 


COSAC NAIFY 

rua General Jardim, 770, 2° andar 
01223-010 Sao Paulo SP 
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atendimento ao professor [11] 3823 6560 
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I j 


Este e-bookfoi projetado e desenvolvido em setembro de 2014, 
com base na l a edi^ao impressa, de 2014. 


FONTES Minion e National 

SOFTWARE LibreOffice e Writer2ePub de Luca Calcinai 


SUMARIO 


Capa 

Apresenta9ao | Richard P. Martin 

Introdugao | Christian Werner 

Da tradufao 

Personagens principais 

Odisseia 
Canto 1 
Canto 2 
Canto 3 
Canto 4 
Canto 5 
Canto 6 
Canto 7 
Canto 8 
Canto 9 
Canto 10 
Canto 1 1 
Canto 12 
Canto 13 
Canto 14 
Canto 15 
Canto 16 
Canto 17 
Canto 18 
Canto 19 
Canto 20 
Canto 2 1 
Canto 22 
Canto 23 
Canto 24 

Posfacio| Luiz Alfredo Garcia-roza 
O silencio das sereias | Franz Kafka 


Itaca | Konstantinos Kavafis 

Glossario de nomes proprios 

Bibliografia 

Autores 

Creditos 

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Colofao